Um Mundo à Parte
Theo
A m atem ática da situação é clara: sou eu que vou acabar tendo que cuidar do m eu irm ão.
Não m e entenda m al. Eu não sou um im becil tão com pleto a ponto de pensar em ignorar Jacob quando form os adultos e quando (não posso nem im aginar isso) m inha m ãe não estiver m ais aqui. Mas o que m e irrita é a certeza silenciosa de que, quando m inha m ãe não puder m ais resolver as confusões de Jacob, três chances para adivinhar quem vai ter que assum ir.
Um a vez li um a história na internet sobre um a m ulher na Inglaterra que tinha um filho retardado — retardado m esm o, não deficiente do m esm o j eito que Jacob, m as incapaz de escovar os próprios dentes ou de se lem brar de ir ao banheiro quando tinha necessidade. (Só um a observação: se um dia Jacob acordar precisando de um a fralda para adultos, garanto que, nem que eu sej a a últim a pessoa na terra, não vou ser eu quem vai trocá-lo.) Enfim , essa m ulher tinha enfisem a e estava m orrendo lentam ente. Chegou a um ponto em que m al conseguia ficar sentada em um a cadeira de rodas o dia todo, quanto m ais aj udar o filho. Então havia um a foto dela com o filho. Eu estava esperando um garoto da m inha idade, m as Ronnie tinha facilm ente uns cinquenta anos. Havia pelos grossos de barba por fazer em seu queixo e um a barriga volum osa aparecendo por baixo de sua cam iseta do Power Rangers, e ele olhava para a m ãe com um sorriso grande e m eloso enquanto a abraçava na cadeira de rodas, onde ela estava sentada com tubos entrando pelo nariz.
Eu não conseguia tirar os olhos de Ronnie. Foi quando, de repente, m e dei conta de que um dia, quando eu estivesse casado, com um a casa cheia de pirralhos e trabalhando em um a em presa, Jacob talvez ainda estivesse assistindo a seus episódios idiotas de CrimeBusters e com endo com idas am arelas nas quartas-feiras. Minha m ãe e a dra. Moon, a psiquiatra de Jacob, sem pre falaram sobre isso abstratam ente, com o prova de por que elas achavam que as vacinas tinham algo a ver com o autism o e por que o autism o era um fenôm eno relativam ente novo. (“Se sem pre existiu, então onde estão todas as crianças autistas que cresceram e se tornaram adultos? Porque, acredite, m esm o que elas tivessem sido diagnosticadas com algum a outra coisa, nós saberíam os quem elas são.”) Mas, até aquele exato segundo, eu não tinha feito a conexão de que, um dia, Jacob seria um desses adultos com autism o. Claro que ele podia ter a sorte de obter e m anter um em prego, com o todos aqueles Aspergers no Vale do Silício, m as, quando ele tivesse um a crise e com eçasse a destruir sua sala nesse em prego, todos nós sabem os quem seria a prim eira pessoa que eles iriam cham ar.
Ronnie claram ente nunca havia crescido e nunca iria crescer, e foi por isso que sua m ãe apareceu nesse j ornal, o Guardian: ela pôs um anúncio pedindo um a fam ília que cuidasse de Ronnie e o tratasse com o um dos seus quando ela m orresse. Ele era um garoto m uito doce, dizia ela, em bora ainda m olhasse a cam a.
Boa sorte aí, pensei. Quem assum e o problem a de outra pessoa de boa vontade? Im aginei que tipo de pessoa responderia à m ãe de Ronnie. Tipo m adre Teresa, talvez. Ou aquelas fam ílias que a gente sem pre vê nas últim as páginas da revista People, que adotam vinte crianças deficientes e, de algum a form a, conseguem transform ar isso em um a fam ília. Ou, pior, talvez algum velho pervertido solitário que im aginasse que um suj eito com o Ronnie nem perceberia se ele desse um as apalpadas de vez em quando. A m ãe de Ronnie disse que um lar com unitário não era um a opção, porque ele nunca estivera em um desses antes e não conseguiria se adaptar nessa altura da vida. Tudo que queria era alguém que pudesse am á-lo com o ela o am ava.
Sej a com o for, o artigo m e fez pensar em Jacob. Ele talvez pudesse se adaptar a um lar com unitário, se ainda o deixassem tom ar banho prim eiro de m anhã. Mas, se eu o j ogasse em um desses lugares (e nem m e pergunte com o se faz para conseguir um ), o que isso diria sobre m im ? Que eu era egoísta dem ais para ser o guardião de m eu irm ão, que eu não o am ava.
Bom, ainda assim, um a vozinha disse em m inha cabeça, eu nunca pedi por isso.
Então eu percebi: nem m inha m ãe, m as isso não fazia com que seu am or por Jacob fosse m enor.
Portanto, o fato é este: eu sei que, lá para frente, Jacob será responsabilidade m inha. Quando eu conhecer um a m enina com quem queira casar, vou ter que fazer o pedido com um a condição: de que som os Jacob e eu; é preciso aceitar o pacote. Quando eu m enos esperar, posso ter que m e desculpar por ele, ou aj udá-lo a sair de um a de suas sessões de histeria, com o m inha m ãe faz.
(Não digo isso em voz alta, m as há um a parte de m im pensando que, se Jacob for condenado por hom icídio, se ficar preso pelo resto da vida, bem ... a m inha talvez sej a um pouco m ais fácil.)
Eu m e odeio até por pensar isso, m as não vou m entir.
E acho que não im porta se for culpa que m e levar a cuidar de Jacob no futuro, ou am or, porque farei isso de qualquer m aneira.
Só que seria bom se alguém m e perguntasse, sabe?