Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 77 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

Só quero dizer que acho m uita loucura um garoto de quinze anos, com o eu, poder voar pelo país sozinho, sem o pai ou a m ãe. A parte m ais difícil era conseguir a passagem , o que acabou não sendo m uito difícil, no fim . Não era nenhum segredo que m inha m ãe tem um cartão de crédito de em ergência escondido em seu m óvel de arquivo e, honestam ente, isso não era um a em ergência? Tudo que precisei fazer foi procurá-lo, copiar o núm ero da frente e o código de segurança atrás e reservar m inha passagem no Orbitz.com .

Eu tam bém j á tinha um passaporte (fom os de carro até o Canadá um a vez em um a viagem de férias que durou aproxim adam ente seis horas, quando Jacob se recusou a dorm ir no quarto do hotel porque havia um tapete cor de laranj a), que estava guardado na pasta ao lado da que continha o cartão de crédito de em ergência. E chegar ao aeroporto foi a coisa m ais fácil do m undo; precisei de duas caronas, e só.

Gostaria de poder dizer que tinha um plano, m as não tinha. Tudo que eu sabia era que, direta ou indiretam ente, aquilo era m inha culpa. Não m atei Jess Ogilvy, m as eu a vi no dia em que ela m orreu e não contei para a polícia, ou para m inha m ãe, ou para quem quer que sej a — e agora Jacob ia ser j ulgado por hom icídio. Na m inha cabeça, era com o um a reação em cadeia. Se eu não estivesse nessa de invadir casas na época, se não tivesse entrado na casa de Jess, se m eu olhar nunca tivesse cruzado com o dela... talvez a falta desse elo tivesse rom pido a sequência de eventos que aconteceu depois. Não era segredo que m inha m ãe estava arrancando os cabelos, sem saber onde arrum ar dinheiro para o j ulgam ento de Jacob. Achei que, se eu quisesse tentar saldar m inha dívida cárm ica, poderia m uito bem com eçar encontrando um a solução para esse problem a.

Daí a visita ao m eu pai.

No avião, eu m e sento entre um executivo que tenta dorm ir e um a m ulher que parece um a vovó: tem cabelos brancos curtos e um blusão roxo-claro com a estam pa de um gato. O executivo está agitado em seu assento, porque o m enino atrás dele não para de chutar.

— Mas será o Benedito — ele m urm ura.

Já m e perguntei por que as pessoas dizem isso. O que o Benedito tem a ver com a história?

— Em paquei nessa últim a — diz a vovó.

Tiro o fone do iPod do ouvido.

— Com o?

— Não, essa não cabe. — Ela está dobrada sobre as palavras cruzadas na contracapa da revista de bordo. Já estava preenchida pela m etade. Odeio isso; será que o im becil que se sentou aqui no voo anterior não pensou que m ais alguém poderia querer tentar fazer as palavras cruzadas sozinho? — A pista é Desculpa. E tem oito letras.

Theo Hunt, penso.

De repente, o executivo sai do assento e vira para trás.

— Minha senhora — diz ele para a m ãe da criança —, se esse m oleque não parar agora, garanto que não preciso de m ais nenhum pretexto para reclam ar com a aerom oça.

— É isso! — a vovó exclam a. — Pretexto!

Então a vej o escrever a lápis: “pretesto”.

— Eu, hã... acho que é com x — sugiro.

— Ah, perfeito — diz ela, apagando para fazer a correção. — Adm ito que sou um horror em ortografia. — Ela sorri para m im . — O que leva você à ensolarada Califórnia?

— Vou visitar um a pessoa.

— Eu tam bém . Alguém que ainda não conheço. Meu prim eiro neto.

— Uau — digo. — Deve ser irado.

— Supondo que isso indique um a coisa boa, sim , é m esm o. Meu nom e é Edith.

— O m eu é Paul.

Não sei de onde veio a m entira. Mas não deveria m e surpreender. Afinal, j á venho escondendo m eu envolvim ento com todo esse pesadelo há m ais de um m ês e estava ficando realm ente bom em fingir que eu não era a m esm a pessoa daquela tarde. Mas, assim que inventei o nom e, o resto foi vindo. Eu estava em recesso escolar. Era filho único. Meus pais eram divorciados (Ha! Isso não é m entira!) e eu ia ver m eu pai. Estávam os planej ando fazer um a visita a Stanford para conhecer a universidade.

Em casa, não falam os sobre m eu pai. Na aula de estudos m undiais, aprendem os sobre culturas indígenas que não falam m ais os nom es dos que m orreram . Bom , nós não falam os m ais o nom e da pessoa que foi em bora quando as coisas ficaram difíceis. Eu não sei detalhes da separação dos m eus pais, exceto que eu ainda era bebê quando aconteceu e, assim , claro, há um a parte de m im que acha que devo ter sido a últim a gota que fez transbordar o copo. Mas sei que ele tenta com pensar sua culpa enviando o cheque da pensão alim entícia para m inha m ãe todos os m eses. E sei tam bém que ele substituiu m eu irm ão e eu por duas m eninas que parecem bonecas de porcelana, que provavelm ente nunca invadiram nenhum a casa nem tiveram crises de m ovim entos repetitivos em nenhum dia de sua curta vida. Sei disso porque ele nos envia um cartão de Natal todos os anos, que eu j ogo fora se pego a correspondência antes da m inha m ãe.

— Você tem irm ãos? — Edith pergunta.

Tom o um gole do refrigerante que com prei por três dólares.

— Não — digo. — Sou filho único.

— Pare com isso — o executivo diz, e, por um terrível m om ento, acho que ele vai contar a essa m ulher quem eu sou de fato. Mas ele se vira para trás no assento. — Pelo am or de Deus — diz para a m ãe da criança.

— O que você quer estudar em Stanford, Paul? — pergunta Edith.

Tenho quinze anos. Não tenho a m enor ideia do que vou fazer da vida. Exceto consertar a bagunça que fiz com ela.

Em vez de responder, aponto para as palavras cruzadas.

— Quito — digo. — É a resposta do quarenta e dois horizontal.

Ela fica toda anim ada e lê alto a próxim a pista. Penso em com o ela vai ficar feliz se conseguirm os com pletar todas as palavras. Vai sair do avião e contar a seu genro, ou quem quer que vá pegá-la no aeroporto, sobre o j ovem sim pático que conheceu. Sobre com o eu fui prestativo. Que orgulho m eus pais devem ter de m im .