Um Mundo à Parte
Rich
Na quinta-feira de m anhã, m eu telefone toca.
— Matson — atendo.
— Os CDs estão em ordem alfabética.
Franzo a testa ao ouvir a voz desconhecida. Parece um a espécie de senha. Os CDs estão em ordem alfabética. E o pássaro azul usa meias arrastão. E isso libera a entrada no santuário sagrado.
— O quê? — pergunto.
— A pessoa que levou a Jess ficou tem po suficiente para pôr os CDs em ordem alfabética.
Agora reconheço a voz. Mark Maguire.
— Im agino que a sua nam orada ainda não tenha aparecido — digo.
— Eu estaria ligando se ela tivesse voltado?
Pigarreio.
— Me conte o que você encontrou.
— Deixei cair um as m oedas no tapete hoj e de m anhã e, quando abaixei para pegar, vi que o m óvel tipo torre onde ficam os CDs tinha sido m ovido de lugar. Tinha um a m arca m ais funda no tapete, entende?
— Certo.
— Esses professores aqui têm centenas de CDs. E eles ficam nessa torre de quatro lados que gira. Então eu vi que todos os Ws estavam organizados j untos. Richard Wagner, Dionne Warwick, Dinah Washington, The Who, John William s, Mary Lou William s. E depois Lester Young, Johann Zum steeg...
— Eles ouvem The Who?
— Olhei os quatro lados. E absolutam ente todos os CDs estão em ordem .
— É possível que eles j á estivessem assim e você não tenha notado? — pergunto.
— Não, porque no últim o fim de sem ana, quando eu e a Jess estávam os procurando um a m úsica decente para ouvir, com certeza não estavam desse j eito.
— Sr. Maguire — digo —, ligo de volta daqui a pouco.
— Ei, espere aí, agora j á faz dois dias...
Desligo e m assageio o dorso do nariz. Em seguida ligo para o laboratório estadual e falo com Iris, um a perita crim inal com j eito de vovó e um a quedinha por m im que eu aproveito quando preciso que algum a prova sej a processada depressa.
— Iris — digo —, com o vai a garota m ais bonita do laboratório?
— Eu sou a única garota do laboratório — ela ri. — Está ligando por causa do bilhete na caixa de correio?
— Sim .
— Totalm ente lim po. Nenhum a digital.
Agradeço a ela e desligo. Im agino que um crim inoso que coloque CDs em ordem alfabética sej a inteligente o bastante para usar luvas ao deixar um bilhete. Provavelm ente tam bém não conseguirem os digitais no teclado do com putador.
Por outro lado, os tem peros talvez estej am organizados por região de origem .
Se Mark Maguire estiver envolvido no desaparecim ento da nam orada e quiser nos encam inhar para um perfil do crim inoso m uito diferente, ele poderia colocar os CDs em ordem alfabética: a coisa m enos provável que eu esperaria de Mark Maguire.
O que tam bém poderia explicar por que ele levou m ais vinte e quatro horas para fazer isso.
Sej a com o for, vou dar um a olhada nesses CDs pessoalm ente. E no conteúdo da bolsa de Jess Ogilvy. E em qualquer outra coisa que possa indicar onde ela está e por quê.
Levanto, pego m eu casaco e estou passando pelo controle para avisar para onde vou quando um dos policiais de plantão puxa m inha m anga.
— Este é o detetive Matson — diz ele.
— Ótim o — o outro hom em trovej a. — Agora sei quem devo m andar o chefe pôr na rua.
Atrás dele, um a m ulher chorosa torce as alças de couro da bolsa.
— Desculpe — digo, sorrindo educadam ente. — Acho que não ouvi seu nom e.
— Claude Ogilvy — ele responde. — Senador Claude Ogilvy.
— Senador, estam os fazendo todo o possível para encontrar sua filha.
— Acho difícil acreditar nisso — diz ele — se o senhor nem sequer designou alguém do departam ento para investigar o caso.
— Na verdade, senador, eu estava j ustam ente de saída para a casa da sua filha.
— E im agino, claro, que estej a indo se encontrar com o resto da força policial lá. Porque certam ente não quero descobrir que dois dias inteiros se passaram sem que esse departam ento de polícia tenha levado o desaparecim ento da m inha filha a sério...
Eu o interrom po no m eio da frase, segurando-o pelo braço e conduzindo-o para m inha sala.
— Com o devido respeito, senador, prefiro que o senhor não m e diga com o fazer m eu próprio trabalho...
— Pois eu vou dizer o que quiser, na hora que quiser, até que a m inha filha sej a trazida de volta em segurança!
Eu o ignoro e ofereço um a cadeira para sua esposa.
— Sra. Ogilvy — digo —, a Jess tentou fazer algum contato?
Ela sacode a cabeça negativam ente.
— E eu não consigo ligar para ela. A caixa postal está cheia.
O senador balança a cabeça.
— Isso é porque aquele idiota do Maguire não para de deixar m ensagens...
— Ela j á fugiu de casa antes? — pergunto.
— Não, ela nunca faria isso.
— Ela tem estado ansiosa ultim am ente? Preocupada com algum a coisa?
A sra. Ogilvy sacode a cabeça.
— Ela estava tão entusiasm ada com a m udança para aquela casa... Dizia que era tão m elhor que o aloj am ento...
— E o relacionam ento dela com o nam orado?
O senador fica em perfeito e pétreo silêncio. Sua esposa lhe lança um olhar rápido.
— O am or não tem explicação — diz ela.
— Se ele a m achucou — Ogilvy m urm ura —, se ele encostou um dedo nela...
— Se for o caso, vam os descobrir e cuidar disso — interrom po calm am ente. — A prioridade agora é localizar a Jess.
A sra. Ogilvy se inclina para a frente. Seus olhos estão verm elhos.
— O senhor tem filha, detetive? — ela pergunta.
Um a vez, em um parque de diversões, Sasha e eu estávam os cam inhando j untos quando um grupo de adolescentes turbulentos se enfiou entre nós e separou nossas m ãos. Tentei m antê-la à vista, m as ela era m uito pequena e, quando o grupo se foi, Sasha tinha ido tam bém . E lá estava eu no m eio do parque, virando em círculos e gritando o nom e dela, enquanto, em toda a m inha volta, brinquedos giravam rapidam ente, fiapos de algodão-doce voavam de seus discos de m etal form ando cilindros e o barulho de m otosserras cortando m adeira anunciava o início da com petição de lenhadores. Quando finalm ente a encontrei, acariciando o focinho de um bezerro em um cercadinho de um program a educativo, fiquei tão aliviado que m inhas pernas am oleceram e eu, literalm ente, caí de j oelhos.
Não cheguei nem a responder, m as a sra. Ogilvy põe a m ão no braço do m arido e m urm ura:
— Viu, eu lhe disse, Claude. Ele entende.