Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 104 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

 

Ontem , eu estava sentado sozinho no fundo do tribunal, esprem ido entre um a m ulher que tricotava um gorrinho de recém -nascido e um hom em de terno de tweed que ficou o tem po todo enviando m ensagens de texto no celular durante o depoim ento. Ninguém sabia quem eu era, e eu gostava que fosse assim . Depois do prim eiro intervalo de descanso sensorial de Jacob, quando fui até a pequena sala fechada por cortinas e o oficial de j ustiça m e deixou entrar, m inha identidade secreta j á não era m ais tanto um segredo. A m ulher que tricotava, eu notei, se m udou para um lugar do outro lado da sala, com o se eu tivesse um a doença contagiosa terrível em vez de apenas um sobrenom e com partilhado com o réu. O hom em de terno de tweed, no entanto, parou de m andar m ensagens de texto e ficou m e fazendo perguntas: O Jacob já tinha sido violento antes? Ele estava interessado em Jess Ogilvy? Ela o rejeitou? Não dem orou m uito tem po para eu adivinhar que ele era um a espécie de repórter e, depois disso, fui ficar de pé nos fundos, perto de um dos oficiais de j ustiça.

Hoj e, estou sentado ao lado do m eu pai, um cara que eu nem conheço.

Quando Oliver com eça a falar, m eu pai se inclina para m im .

— O que você sabe desse suj eito?

— Ele gosta de dar longas cam inhadas na praia e é de escorpião — digo.

O que eu sei é isto: Oliver estava tocando o braço da m inha m ãe hoj e. Não do j eito ah-você-ia-cair-está-tudo-bem ?, m as no m odo você-é-m inha. Que porra é essa agora? Ele deveria estar salvando o pescoço do m eu irm ão, e não dando em cim a da m inha m ãe.

Eu sei que deveria estar aliviado com a presença do m eu pai, m as não estou. Fico sentado aqui m e perguntando por que estam os assistindo a um j ulgam ento de hom icídio em vez de estarm os na prim eira fila do estádio Fenway vendo um j ogo do Sox. Estou pensando em com o aprendi a dar um nó de gravata, com o fiz para Jacob hoj e, considerando que não foi m eu pai que m e ensinou. Estou pensando por que com partilhar o m esm o DNA com um a pessoa não o faz sentir autom aticam ente que vocês têm algum a coisa em com um .

Assim que Oliver term ina sua apresentação, eu m e viro para o m eu pai.

— Eu não sei pescar — digo. — Não sei pôr um a m inhoca no anzol, ou usar um a vara, nada disso.

Ele só olha para m im , franzindo um pouco a testa.

— Teria sido legal se a gente tivesse pescado — falo. — Naquela lagoa atrás da escola.

Isso, claro, é pura estupidez. Eu tinha seis m eses de idade quando m eu pai nos deixou. Mal podia sustentar m eu próprio corpo, quanto m ais um a vara de pescar.

Ele baixa a cabeça.

— Eu fico enj oado — diz. — Só de ficar de pé no cais. Sem pre fui assim .

Depois disso, não conversam os m ais.

 

Fui à dra. Moon um a vez. Minha m ãe achou que seria um a boa ideia que eu conversasse com um a psiquiatra sobre os sentim entos que pudesse ter, j á que m eu irm ão sugava todo o tem po e a energia da nossa casa, com o um aspirador cárm ico gigante. Mas não posso dizer que lem bro m uito dela, só que ela tinha cheiro de incenso e que m e falou que eu podia tirar os sapatos, porque ela m esm a pensava m elhor sem sapatos e talvez fosse assim para m im tam bém .

Por outro lado, ainda m e lem bro do que conversam os. Ela disse que, às vezes, ia ser difícil para m im ser o irm ão m ais novo, porque eu teria que fazer tudo o que o irm ão m ais velho geralm ente faz. Disse que isso poderia frustrar Jacob e deixá-lo furioso, o que o faria agir de m odo ainda m ais im aturo. Nisso, ela foi o equivalente psicológico de um a previsão do tem po: podia m e dizer com precisão o que ia acontecer, m as estava totalm ente desequipada para m e aj udar a m e preparar para a tem pestade.

No banco das testem unhas, ela parece diferente do que no consultório. Por exem plo, está usando um conj unto executivo de saia e blazer, e seus cabelos longos e revoltos estão dom ados em um coque. Ah, e ela está de sapatos.

— A princípio, o Jacob foi diagnosticado com um transtorno geral dentro do espectro do autism o. Depois aj ustam os esse diagnóstico para transtorno global do desenvolvim ento. Foi só no sexto ano da escola que corrigim os seu diagnóstico para síndrom e de Asperger, com base em sua incapacidade de interpretar pistas sociais e de interagir com os colegas, apesar do alto QI e da capacidade verbal. Para crianças da idade do Jacob, essa progressão de diagnósticos é m uito com um . Não significa que antes ele não tinha Asperger. Ele sem pre teve. Nós apenas não tínham os a term inologia correta para definir o quadro.

— Pode dar um a definição da síndrom e de Asperger para as pessoas que não estej am fam iliarizadas, doutora? — pede Oliver.

— Trata-se de um transtorno do desenvolvim ento que afeta o m odo com o as inform ações são processadas no cérebro e se enquadra na extrem idade superior do espectro do autism o. Pessoas com Asperger com frequência são m uito inteligentes e m uito com petentes. Nisso, elas diferem de crianças com autism o profundo, que de fato não conseguem se com unicar. Mas têm dificuldades incapacitantes na área da interação social.

— Então alguém com Asperger pode ser inteligente?

— Alguém com Asperger pode até ter um QI de gênio. No entanto, quando se trata de conversas sociais, ele é totalm ente inepto. É preciso lhe ensinar interação social com o se fosse um a língua estrangeira, do m esm o m odo com o eu ou os senhores precisaríam os que nos ensinassem pársi.

— Advogados às vezes têm dificuldade para fazer am igos — diz Oliver, provocando algum as risadas entre os j urados. — Isso significa que todos nós tem os Asperger?

— Não — responde a dra. Moon. — Alguém com Asperger quer desesperadam ente se encaixar, m as não com preende com portam entos sociais que são intuitivos para o resto de nós. Não é capaz de ler gestos ou expressões faciais para avaliar o estado de hum or da pessoa com quem está falando. Não consegue interpretar pistas não verbais, com o um bocej o significando tédio, quando ele estiver m onopolizando um a conversa. Não consegue com preender o que outra pessoa pensa ou sente; esse tipo de em patia não é natural para ele. Ele é o centro de seu próprio universo, e vai reagir com base nesse princípio. Por exem plo, tive um paciente que pegou sua irm ã furtando em um a loj a e a denunciou, não porque achasse ser sua responsabilidade m oral avisar sobre o crim e da irm ã, m as porque não queria ser conhecido com o o m enino cuj a irm ã tinha um histórico crim inal. O que quer que um a criança com Asperger faça, ela o faz porque está pensando em com o aquilo afetará a ela, e não aos outros.

— Há outras características desse transtorno?

— Sim . Alguém com Asperger pode ter dificuldade para organizar e estabelecer prioridades entre regras e tarefas. Tende a focar detalhes em vez do quadro m aior, e com frequência fica obcecado durante m eses ou anos por um assunto específico, podendo falar sobre esse tem a, m esm o que sej a um assunto com plexo, por horas a fio. Por essa razão, o transtorno é às vezes cham ado de síndrom e do “pequeno professor”. Crianças com Asperger falam de um m odo tão adulto que às vezes se dão m elhor com os am igos dos pais do que com os próprios colegas da sua idade.

— O Jacob tem esse tipo de foco obsessivo em um único assunto?

— Ah, sim . Ele teve vários ao longo dos anos: cachorros, dinossauros e, m ais recentem ente, ciência forense.

— O que m ais poderíam os notar em um a pessoa com síndrom e de Asperger?

— Alguém com Asperger se prende com o um escravo a rotinas e regras. É extrem am ente sincero. Não gosta de fazer contato visual. Pode ter hipersensibilidade a luz, barulhos, toque ou sabores. Por exem plo, neste exato m om ento, Jacob provavelm ente está fazendo m uito esforço para bloquear o zum bido das lâm padas fluorescentes nesta sala, que nós m al escutam os. Em um m om ento, um a criança com Asperger pode se m ostrar extrem am ente esperta, ainda que desaj eitada, e, no m om ento seguinte, se sua rotina é interrom pida, pode ter um a crise que dura de dez m inutos a várias horas.

— É com o um ataque de birra de um a criança pequena?

— Exatam ente. Só que é m uito m ais debilitante quando a criança tem dezoito anos e pesa oitenta quilos — responde a dra. Moon.

Sinto m eu pai olhando para m im e m e viro para ele.

— Isso acontece m uito? — ele sussurra. — As crises?

— A gente se acostum a — digo, em bora não estej a m uito certo disso. Na verdade, não se pode m udar o furacão. Só se aprende com o ficar fora de seu cam inho.

Oliver está cam inhando em direção ao j úri agora.

— O Jacob poderá ser curado do Asperger?

— No m om ento — diz a psiquiatra — não há cura para o autism o. Não é algo que se deixe para trás. É um a condição que se tem para sem pre.

— Dra. Murano, quais dos sintom as que a senhora relatou aqui hoj e o Jacob m anifestou ao longo dos anos?

— Todos eles — diz ela.

— Mesm o agora, aos dezoito anos?

— O Jacob m elhorou m uito em segurar a barra se um a rotina é alterada. Em bora ainda o perturbe, agora ele tem m ecanism os para lidar com a situação. Em vez de com eçar a gritar, com o fazia aos quatro anos, ele encontra um a m úsica ou um film e e fica repetindo a letra ou as falas.

— Doutora, este tribunal perm itiu que o Jacob fizesse intervalos de descanso sensorial quando necessário. A senhora pode explicar o que é isso?

— É um a m aneira de o Jacob se afastar de estím ulos excessivos que o estej am perturbando. Quando ele acha que está entrando em um a espiral e vai perder o controle, ele pode sair para um lugar que sej a quieto e m enos caótico. Na escola, há um a sala onde ele pode ficar até estar no controle de si novam ente e, aqui no tribunal, ele tem esse m esm o tipo de lugar. Lá dentro há vários obj etos que o Jacob pode usar para se acalm ar: de cobertores com pesos a um balanço de corda ou lâm padas de fibra óptica.

— A senhora disse que pessoas com Asperger têm afinidade com regras. Isso tam bém se aplica ao Jacob?

— Sim . Por exem plo, o Jacob sabe que as aulas na escola com eçam às 8h12 e, por causa dessa regra, ele nunca se atrasa. No entanto, um a sem ana sua m ãe lhe disse que ele chegaria m ais tarde na escola porque tinha um a consulta no dentista. Ele teve um a crise, deu um soco na parede do quarto e não houve com o acalm á-lo o suficiente para levá-lo ao dentista. Na cabeça de Jacob, sua m ãe estava lhe pedindo para quebrar um a regra.

— Ele deu um soco na parede? Pessoas com Asperger têm propensão à violência? — pergunta Oliver.

— Isso é um m ito. Na verdade, um a criança com Asperger tem m aior probabilidade de não se com portar m al se com parada a crianças neurotípicas, sim plesm ente porque ela sabe que isso é um a regra. No entanto, um a criança com Asperger tam bém tem um lim iar de reação de “luta ou fuga” m uito baixo. Se ela se sentir encurralada, verbalm ente, fisicam ente ou em ocionalm ente, pode fugir ou atacar às cegas.

— A senhora j á viu o Jacob fazer isso?

— Sim — diz a dra. Moon. — Na escola, no ano passado, ele ficou de castigo por ter xingado um professor. Aparentem ente, um a garota o havia enganado para que ele se com portasse de m odo inadequado, dizendo que seria sua am iga se ele fizesse isso. Ele se vingou depois, a em purrando, e foi suspenso.

— O que desencadeou a reação violenta de Jacob?

— Ser hum ilhado, im agino.

— A senhora conversou com ele sobre esse episódio? — pergunta Oliver.

— Conversei.

— Explicou por que sua reação violenta não foi apropriada?

— Sim .

— Acha que ele com preendeu que o que ele fez foi errado?

Ela hesita.

— A noção de certo e errado de Jacob não é baseada em um código m oral internalizado. É baseada no que lhe foi dito para fazer ou não fazer. Se você lhe perguntasse se é certo bater em alguém , ele diria que não. No entanto, tam bém diria que é errado se divertir à custa de alguém e, na cabeça dele, a m enina quebrou essa regra prim eiro. Quando o Jacob a agrediu, ele não estava pensando que poderia m achucá-la, ou m esm o em com o suas ações estariam indo contra um a regra de com portam ento. Ele estava pensando em com o ela o havia m achucado e sim plesm ente... reagiu.

Oliver se aproxim a do banco das testem unhas.

— Dra. Murano, se eu lhe contasse que Jacob havia brigado com Jess Ogilvy dois dias antes de ela m orrer e que ela lhe disse para dar um tem po, com o acha que isso poderia ter afetado o com portam ento dele?

Ela sacode a cabeça.

— A Jess era m uito im portante para o Jacob e, se eles brigaram , ele deve ter ficado extrem am ente perturbado. Ao ir à casa dela naquele dia, ele estava claram ente m anifestando que não sabia com o se com portar. Manteve sua rotina, em vez de esperar qual seria o resultado da briga. É m uito provável que a m ente de Jacob tenha processado a briga da seguinte m aneira: A Jess me disse para dar um tempo. Já passou um tempo. Portanto, não preciso mais me importar com o que ela disse e posso continuar como se ela não tivesse dito nada. O Jacob não teria entendido, pela linguagem da Jess, que talvez ela realm ente não quisesse vê-lo ainda. É essa incapacidade de se colocar no lugar da Jess que separa o Jacob das outras pessoas. Enquanto outro garoto pode sim plesm ente ser desaj eitado socialm ente, o Jacob é inteiram ente desprovido de em patia, e suas ações e percepções giram em torno de suas próprias necessidades. Ele nunca parou para im aginar o que a Jess estaria sentindo; tudo o que sabia era quanto ela o estava m achucando por ter brigado com ele.

— O Jacob sabe que é contra a lei com eter hom icídio?

— Sem dúvida. Com sua fixação em crim inologia forense, ele provavelm ente poderia recitar as leis tão bem quanto o senhor, sr. Bond. Mas, para o Jacob, a autopreservação é a regra m ais inviolável, a que supera todas as outras. Assim , do m esm o m odo com o ele perdeu o controle com a m enina da escola que o havia hum ilhado, e não entendeu de fato por que isso seria problem ático, j á que ela o agredira prim eiro, bem ... só posso im aginar que isso tenha acontecido com a Jess tam bém .

De repente, Jacob se levanta.

— Eu não perdi o controle! — ele grita, enquanto m inha m ãe puxa seu braço para fazê-lo sentar de novo.

Claro que o fato de ele estar perdendo o controle neste exato m om ento m eio que nega o que ele diz.

— Acalm e seu cliente, sr. Bond — o j uiz adverte.

Quando Oliver se vira, ele parece aqueles soldados nos film es que chegam ao alto de um a colina e veem um exército de forças inim igas à sua frente... e percebem que, façam o que fizerem , não têm a m enor chance.

— Jacob — ele suspira. — Sente-se.

— Preciso de um intervalo — Jacob grita.

Oliver olha para o j uiz.

— Excelência?

E então, de repente, os j urados estão sendo conduzidos para fora e Jacob está praticam ente correndo para a sala de descanso sensorial.

Meu pai parece com pletam ente perdido.

— O que acontece agora?

— Esperam os quinze m inutos.

— Será que eu... Você vai lá com eles?

Até agora, eu fui todas as vezes. Fiquei em um canto, brincando com um as bolas de borracha, enquanto Jacob botava a cabeça no lugar. Mas agora olho para o m eu pai.

— Faça com o quiser — digo. — Eu vou ficar aqui.

 

Em m inha prim eira lem brança, estou m uito doente e não consigo parar de chorar. Jacob tem uns seis ou sete anos e não para de pedir à m inha m ãe, que passou a noite inteira acordada com igo, para preparar o café da m anhã. É cedo; o sol ainda nem apareceu.

— Estou com fom e — Jacob diz.

— Eu sei, m as preciso cuidar do Theo agora.

— O que ele tem ?

— A garganta dele está doendo m uito.

Há um m om ento em que Jacob absorve essa inform ação.

— Aposto que, se ele tom asse sorvete, a garganta dele ia m elhorar.

— Jacob — m inha m ãe diz, encantada —, você está pensando em com o o Theo se sente?

— Não quero que a garganta dele doa — Jacob responde.

— Sorvete! Sorvete! — eu grito. Nem é sorvete de verdade que estou pedindo. É à base de soj a, com o tudo o m ais na geladeira e no freezer. Mas, ainda assim , é algo que parece um a guloseim a, e não um café da m anhã.

Minha m ãe cede.

— Está bem . Sorvete — ela diz, e m e prende na m inha cadeirinha, diante de um a tigela de sorvete. Ela dá um a tigela a Jacob tam bém e acaricia a cabeça dele. — Vou ter que contar à dra. Moon que você se preocupou com seu irm ão — com enta.

Jacob tom a seu sorvete.

— Finalm ente — ele diz. — Paz e sossego.

Minha m ãe ainda usa isso com o um exem plo de Jacob transcendendo seu Asperger para dem onstrar em patia por seu pobre irm ãozinho doente.

Isto é o que eu vej o, agora que sou m ais velho:

Jacob ganhou um a tigela de sorvete de café da m anhã e nem teve que pedir.

Jacob conseguiu que eu parasse de fazer barulho.

Meu irm ão não estava tentando m e aj udar naquele dia. Ele estava tentando aj udar a si m esm o.