Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 36 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

Da coluna da Tia Em:

Quando foi que pararam de pôr brinquedos nas caixas de cereal m atinal?

Quando eu era pequena, lem bro de andar pelo corredor dos cereais (que, certam ente, é um a instituição tão am ericana quanto os fogos de artifício no 4 de Julho) e escolher m eu café da m anhã com base no brinde que vinha dentro. Um frisbee com o rosto do coelho do cereal Trix. Adesivos holográficos com o duende do cereal Lucky Charm s. Um disco de decodificação de m ensagens secretas. Podia passar um m ês m e sacrificando para engolir farelo de trigo com passas se isso significasse ganhar um anel m ágico no fim .

Isso não é algo que eu possa adm itir em voz alta. Em prim eiro lugar, espera-se que sej am os superm ães hoj e em dia, em vez de reconhecer que tem os falhas. É tentador acreditar que todas as m ães acordam se sentindo renovadas a cada m anhã, nunca levantam a voz, só cozinham alim entos orgânicos e tiram de letra o trabalho e a educação dos filhos.

Vou contar um segredo: essas m ães não existem . A m aioria de nós, m esm o que nunca confessem os, sofre com o farelo de trigo na esperança de avistar aquele anel m ágico.

Pareço m uito boa no papel. Tenho um a fam ília e escrevo um a coluna no j ornal. Na vida real, tenho que lim par supercola do tapete, raram ente lem bro de tirar os congelados do freezer antes da hora do j antar e pretendo entalhar PORQUE EU ESTOU MANDANDO em m eu túm ulo.

Mães de verdade se perguntam com o os especialistas que escrevem para as revistas de orientação para pais e donas de casa — e, por que não?, para o Burlington Free Press — parecem ter sem pre tudo sob controle enquanto elas m esm as m al conseguem m anter a cabeça fora da água nos m ares turbulentos da m aternidade.

Mães de verdade não ficam ouvindo com hum ilde constrangim ento a senhora m ais velha que oferece conselhos não solicitados na fila do caixa do superm ercado quando seu filho está tendo um acesso de birra. Nós pegam os a criança, pom os dentro do carrinho de com pras da m ulher e dizem os: “Ótim o, então quem sabe a senhora consiga fazer m elhor”.

Mães de verdade sabem que tudo bem com er pizza fria no café da m anhã.

Mães de verdade adm item que é m ais fácil falhar nesse trabalho do que ter sucesso.

Se a m aternidade for um a caixa de cereal, então as m ães de verdade sabem que a proporção entre os flocos e a diversão é terrivelm ente desequilibrada. Para cada m om ento em que seu filho lhe faz confidências, ou diz que a am a, ou faz algo não solicitado para proteger o irm ão, e você por acaso presencia, há m uito m ais m om entos de caos, erro e dúvida em relação a si m esm a.

Mães de verdade podem não expressar em voz alta essa heresia, m as elas às vezes, secretam ente, gostariam de ter escolhido para o café da m anhã outra coisa que não aquele cereal que não acaba nunca.

Mães de verdade tem em que outras m ães encontrem aquele anel m ágico, enquanto elas vão continuar procurando e procurando durante séculos.

Fiquem tranquilas, m ães de verdade. O sim ples fato de vocês se preocuparem em ser boas m ães significa que já são. Durante um m om ento de bloqueio criativo, preparo um sanduíche de atum e escuto o noticiário da tarde. O canal local é tão ruim que gosto de vê-lo só para m e divertir. Se eu ainda estivesse na faculdade, faria um j ogo de tom ar um gole de cervej a cada vez que os âncoras pronunciassem errado um a palavra ou derrubassem seus papéis. Meu erro favorito m ais recente foi quando o âncora anunciou a proposta de um senador de Verm ont de fazer um a reestruturação no program a de saúde pública. Em vez de cortar para o discurso do parlam entar, m ostraram o vídeo de um grupo de octogenários locais m ergulhando na água no m eio do gelo.

A m atéria principal de hoj e, porém , não tem graça nenhum a.

— No início da manhã desta segunda-feira — o âncora lê — o corpo de Jessica Ogilvy foi encontrado no bosque atrás de sua residência. A pós-graduanda da UVM, de vinte e três anos, estava desaparecida desde a última terça-feira.

O prato em m eu colo cai no chão quando m e levanto, com lágrim as nos olhos. Em bora eu soubesse que havia essa possibilidade — um a probabilidade, de fato, com os dias passando sem que ela aparecesse —, isso não torna sua m orte m ais fácil de aceitar.

Muitas vezes eu m e perguntei com o seria o m undo se houvesse m ais pessoas com o Jess, m oças e rapazes que pudessem ver alguém com o Jacob e não rir de suas esquisitices e falhas e, em vez disso, celebrar as coisas que o faziam interessante e digno de adm iração. Im aginava os m eninos que estariam um dia em um a classe em que Jess fosse professora e que não teriam que lutar com os problem as de autoestim a e bully ing que Jacob precisou enfrentar na escola fundam ental. E, agora, nada disso ia acontecer.

A im agem na televisão m uda para um a repórter, perto do local onde o corpo de Jess foi encontrado.

— Neste triste desfecho do caso — diz ela, com expressão sóbria —, os investigadores atenderam uma ligação para a emergência feita do celular de Ogilvy e rastrearam o telefonema até este local, uma galeria pluvial atrás de sua residência.

A film agem foi feita quase ao am anhecer; há faixas rosadas no céu. Ao fundo estão os investigadores, posicionando m arcadores e tirando m edidas e fotos.

— Pouco depois — a repórter continua — as autoridades prenderam o namorado de Ogilvy, Mark Maguire, de vinte e quatro anos. O laudo da autópsia ainda não está pronto...

Se eu tivesse piscado, provavelm ente nunca teria visto. Se a repórter não tivesse m udado a posição dos pés, eu nunca teria visto. A im agem foi muito rápida, um instante absolutam ente fugaz na lateral da tela antes de desaparecer.

Um a colcha de retalhos com as cores do arco-íris, VLAVAIV repetido em toda a extensão.

Congelo a im agem — um recurso m oderno do sistem a de satélite que usam os —, faço voltar para trás e reproduzo novam ente. Dessa vez, talvez perceba que foi só um a ilusão de óptica, um reflexo do lenço no pescoço da repórter que eu confundi com outra coisa.

Ainda está lá, então volto a im agem para trás de novo.

Um a vez vi definirem loucura com o fazer a m esm a coisa repetidam ente e esperar resultados diferentes. Meu coração está batendo com tanta força agora que posso senti-lo na base de m inha garganta. Subo correndo até o arm ário de Jacob, onde havia encontrado a m ochila de Jess alguns dias antes, enrolada na colcha com as cores do arco-íris.

Que não está lá.

Desabo sobre a cam a e aliso com a m ão o travesseiro dele. Neste instante, 12h45, Jacob está na aula de física. Ele m e contou esta m anhã que estão fazendo um experim ento no laboratório sobre o princípio de Arquim edes, tentando determ inar a densidade de dois m ateriais desconhecidos. Que m assa, quando inserida em um determ inado m eio, faz com que este se desloque? O que flutua e o que afunda?

Irei até a escola pegar os m eninos, inventando um a desculpa qualquer — um a consulta no dentista, um horário no cabeleireiro. Mas, em vez de vir para casa, seguirem os pela estrada até atravessar a fronteira com o Canadá. Vou arrum ar as m alas deles e nunca m ais voltarem os.

Enquanto penso nisso, sei que nunca daria certo. Jacob não entenderia o conceito de nunca m ais voltar para casa. E, em algum lugar, em um a delegacia, o nam orado de Jess está levando a culpa quando talvez sej a inocente.

No andar de baixo, com os dedos am ortecidos, rem exo a pilha de contas que não exam inei ainda. Sei que está aqui em algum lugar... e então o encontro, em baixo da segunda notificação de atraso da com panhia telefônica. O cartão profissional de Rich Matson, com seu núm ero de celular escrito atrás.

Para o caso de alguma necessidade, ele dissera.

Para o caso de você achar que seu filho talvez estej a envolvido em um assassinato. Para o caso de se ver diante de provas flagrantes de que fracassou com o m ãe. Para o caso de ficar dividida entre o que quer e o que deve fazer.

O detetive Matson foi honesto com igo; serei honesta com ele.

A ligação cai direto na caixa postal. Na prim eira vez, eu desligo, porque todas as palavras que pretendia dizer ficaram em pastadas em m inha boca. Na segunda, pigarreio.

— Aqui é Em m a Hunt — digo. — Eu... preciso m uito falar com você.

Ainda segurando o fone com o um am uleto, volto para a sala. O noticiário na TV j á term inou; há um a novela passando agora. Volto a im agem até a parte sobre Jess Ogilvy outra vez. Mantenho os olhos deliberadam ente no outro lado da tela, m as ainda está ali: com o um a bandeira no cam po de visão, um nanossegundo de verdade em todos os tons do espectro de cores.

Por m ais que eu m e esforce, não consigo deixar de ver aquela m aldita colcha.