Um Mundo à Parte
Rich
Todos os professores do Colégio Townsend conhecem Jacob Hunt, m esm o os que não deram aula para ele. Isso se deve em parte a sua infâm ia atual, m as tenho a im pressão de que, m esm o antes de ser preso por hom icídio, ele era o tipo de garoto que todos identificavam nos corredores, porque ele se destacava com o um farol. Depois de interrogar os funcionários por várias horas e saber que Jacob costum ava ficar sentado sozinho no alm oço e que se deslocava de um a classe para outra usando enorm es fones de ouvido para bloquear o barulho (e os com entários rudes dos colegas), parte de m im está se perguntando com o Jacob conseguiu esperar dezoito anos para com eter um assassinato.
O que descobri é que Jacob dava um j eito de inserir no seu trabalho de escola a sua paixão por investigadores policiais. Na aula de inglês, quando teve que ler um a biografia e apresentá-la oralm ente para a classe, ele escolheu o cientista forense Edm ond Locard. Em m atem ática, seu proj eto independente de pesquisa envolvia o ângulo de im pacto do ponto de origem de respingos de sangue.
Sua orientadora educacional, Frances Grenville, é um a m ulher m agra e pálida, com um a constituição que parece um a roupa que, de tão lavada, perdeu a cor original.
— O Jacob faria qualquer coisa para se integrar — diz ela, enquanto folheio o arquivo de Hunt, sentado em sua sala. — Isso com m uita frequência o tornava alvo de piadas. De certa m aneira, ele estaria condenado se tentasse se encaixar e condenado se não tentasse. — Ela se agita na cadeira, um pouco incom odada. — Eu às vezes tinha m edo que ele trouxesse um a arm a para a escola qualquer dia, para se vingar. Com o aquele garoto em Sterling, New Ham pshire, alguns anos atrás.
— O Jacob fez isso algum a vez? Se vingar, quero dizer.
— Ah, não. Sinceram ente, ele é um m enino m uito doce. Às vezes vinha aqui em seus períodos livres e fazia a lição de casa na sala ao lado. Um a vez ele consertou m eu com putador quando deu um problem a e até recuperou o arquivo em que eu estava trabalhando. A m aioria dos professores gosta m uito dele.
— E os outros?
— Bem , alguns são m elhores com alunos com necessidades especiais do que outros, m as não diga que lhe falei isso. Um aluno com o o Jacob pode ser um desafio, para dizer o m ínim o. Há algum as pessoas paradas no tem po nesta escola, se entende o que quero dizer, e, quando se pega um garoto com o o Jacob, que questiona um plano de aulas que você foi preguiçoso dem ais para adaptar nos últim os vinte anos, e quando a verdade é que ele está certo... bom , isso nem sem pre é m uito palatável. — Ela dá de om bros. — Mas pode perguntar à equipe docente. De m odo geral, o Jacob interagia m uito m ais naturalm ente com os professores do que com seus colegas. Ele não estava interessado nos dram as adolescentes com uns do ensino m édio. Em vez disso, queria falar de política, ou de descobertas científicas, ou se Eugene Onegin foi de fato a obra m áxim a de Pushkin. Em vários aspectos, ter o Jacob por perto era com o conversar com outro professor. — Ela hesita. — Não, na verdade era com o conversar com o tipo de acadêm ico ilustrado que os professores gostariam de ter sido, antes que as contas, as prestações do carro e as consultas ao dentista entrassem no cam inho.
— Se o Jacob queria tanto se integrar com os outros alunos, por que ficava na sala dos professores? — pergunto.
Ela sacode a cabeça.
— Im agino que haj a um lim ite para quanto você aguenta ser rej eitado antes de procurar algum a aprovação — a sra. Grenville diz.
— O que a senhora sabe sobre a ligação dele com Jessica Ogilvy ?
— Ele gostava m uito de estar com ela. Referia-se a ela com o um a am iga.
Levanto os olhos.
— E com o nam orada?
— Não que eu saiba.
— O Jacob j á teve algum a nam orada na escola?
— Acho que não. Ele levou um a m enina ao baile no ano passado, m as m e falou m ais sobre a Jess, que foi quem o incentivou a fazer isso, do que sobre a garota.
— Com quem m ais o Jacob andava? — indago.
A sra. Grenville franze a testa.
— Aí é que está — diz ela. — Se você pedisse ao Jacob um a lista de seus am igos, ele provavelm ente lhe daria essa lista. Mas, se pedisse a essas m esm as pessoas que fizessem sua lista de am igos, o Jacob não estaria nelas. O Asperger o leva a confundir proxim idade com ligação em ocional. Então, por exem plo, o Jacob diria que é am igo da m enina que faz dupla com ele no laboratório de física, m esm o que esse não sej a um sentim ento recíproco.
— E ele não tinha problem as disciplinares?
A sra. Grenville aperta os lábios.
— Não.
Coloco o arquivo escolar aberto sobre a m esa dela e aponto para um a anotação dentro dele.
— Então por que Jacob Hunt foi suspenso por agressão no ano passado?
Mim i Scheck é o tipo de garota por quem eu babava no colégio, ainda que ela nem sequer reparasse que eu frequentava o m esm o prédio durante quatro anos. Tem cabelos pretos com pridos e um corpo feito para ser cultuado, exposto com arte em roupas que revelam apenas um centím etro ou dois de pele sobre a linha da cintura do j eans quando ela levanta os braços ou se inclina. Tam bém parece tão nervosa que sairia correndo se a sra. Grenville não tivesse acabado de fechar a porta de sua sala.
— Oi, Mim i — digo, sorrindo. — Com o vai?
Ela olha de m im para a orientadora com os lábios apertados. Depois desaba no sofá, angustiada.
— Eu j uro que não sabia nada sobre a vodca até chegar na casa da Esm e.
— Hum m , m uito interessante... m as não foi por isso que pedi para falar com você.
— Não? — Mim i sussurra. — Ah, droga.
— Queria lhe perguntar sobre Jacob Hunt.
O rosto dela fica verm elho com o fogo.
— Eu não o conheço m uito bem .
— Você esteve envolvida em um incidente no ano passado que levou à suspensão dele, certo?
— Ah, foi só um a brincadeira — diz ela, revirando os olhos. — Com o eu ia saber que ele não podia nem aceitar um a brincadeira?
— O que aconteceu?
Ela se afunda m ais no sofá da sra. Grenville.
— Ele estava sem pre m e rodeando. Era sinistro, sabe? Quer dizer, eu estava conversando com as m inhas am igas e ele ali parado, com o se estivesse escutando o que a gente falava. Aí um dia eu tirei um quatro em um teste de m atem ática, porque o sr. LaBlanc é o m aior im becil de todos os tem pos, e fiquei m uito irritada e pedi licença para ir ao banheiro. Mas não fui para o banheiro. Só virei no fim do corredor e com ecei a chorar, porque, se eu repetisse em m atem ática outra vez, m eus pais iam m e tirar o celular e m e fazer apagar a conta no Facebook. Aí o Jacob veio andando até m im . Acho que ele devia ter saído da classe para um daqueles seus intervalos esquisitos ou algo assim e estava voltando. Ele não disse nada, só ficou m e olhando, e eu falei para ele sum ir da m inha frente. Então ele disse que ia ficar com igo, porque é isso que am igos fazem , e eu falei que, se ele realm ente queria ser m eu am igo, tinha que ir até a classe de m atem ática e dizer para o sr. LaBlanc se foder. — Mim i hesitou. — E ele foi.
Eu dei um a olhada para a orientadora.
— E foi por isso que ele foi suspenso?
— Não. Ele levou um a advertência por isso.
— E depois? — pergunto.
Mim i desvia o olhar.
— No dia seguinte, a gente estava em um grupo conversando no pátio quando o Jacob apareceu. Eu acho que m eio que o ignorei. Quer dizer, não é que eu estivesse exatam ente sendo má com ele ou algo assim . E ele enlouqueceu e veio para cim a de m im .
— Ele bateu em você?
Ela sacode a cabeça.
— Não, ele m e segurou e m e em purrou contra os arm ários. Podia ter m e m atado, viu, se um professor não o tivesse im pedido.
— Pode m e m ostrar com o ele segurou você?
Mim i olha para a sra. Grenville, que faz um gesto de incentivo com a cabeça. Nós dois ficam os de pé e Mim i dá um passo à frente até m e fechar de costas para a parede. Ela precisa levantar os braços, porque sou m ais alto que ela, e, hesitante, coloca a m ão direita sobre m inha garganta.
— Assim — diz. — Fiquei com m arcas no pescoço por um a sem ana.
As m esm as m arcas, constato, que Jess Ogilvy apresentava em sua autópsia.