Um Mundo à Parte
Emma
Dos arquivos da Tia Em:
Cara Tia Em,
O que se faz quando todos os sinais apontam para o fato de que o mundo como o conhecemos está prestes a desmoronar? Atenciosamente,
HumptyDumptyFoiDerrubado
Caro Humpty,
SOCORRO!
Com amor,
Tia Em
Três dias depois, os j urados ainda estão deliberando.
Estabelecem os um a rotina: de m anhã, Oliver traz Thor para o café da m anhã. Jacob o leva para o quintal para brincar de bola, enquanto Henry e Theo se anim am lentam ente com cafeína. Henry está ensinando a Theo program ação C# para que ele possa criar seu próprio j ogo de com putador, e Theo está fascinado com isso. À tarde, Oliver e eu j ogam os Scrabble, e Jacob de vez em quando sugere algum a palavra estranha e válida do sofá, onde assiste a CrimeBusters: Aca! Quid! Não vem os os noticiários nem lem os o j ornal, porque eles só falam de Jacob.
Não podem os sair de casa por duas razões: tecnicam ente, Jacob ainda está em prisão dom iciliar; além disso, precisam os estar em um lugar de onde possam os chegar ao tribunal em vinte m inutos quando o j úri retornar. Ainda é estranho para m im virar no corredor de m inha própria casa e encontrar Henry. Eu im aginava que, a essa altura, ele j á teria ido em bora, com a desculpa de que um a de suas filhas está com infecção de garganta ou de que sua esposa precisa visitar um a tia m oribunda, m as Henry insiste em ficar até o veredicto. Nossa conversa é cheia de clichês, m as pelo m enos é um a conversa. Estou tentando compensar o tempo perdido, ele diz. Antes tarde do que nunca.
Nós nos tornam os um a fam ília. Bem pouco ortodoxa e unida por força da tragédia de outra pessoa, m as, depois de anos sendo a m ãe solitária dentro desta casa, aceito o que puder ter.
Mais tarde, enquanto os m eninos se aprontam para dorm ir, Oliver e eu levam os Thor para dar um a volta no quarteirão antes de ele voltar para seu apartam ento em cim a da cantina. Conversam os sobre o cavalo que pisou no tornozelo dele e o quebrou, sobre com o eu sonhava em ser escritora antigam ente e sobre o j ulgam ento.
Mas não conversam os sobre nós.
— É bom ou ruim que os j urados não estej am conseguindo chegar a um veredicto?
— Bom , eu acho. Provavelm ente significa que alguém está resistindo a um a condenação.
— E o que vai acontecer depois?
— Se o Jacob for condenado — diz Oliver, enquanto Thor corre para frente e para trás diante de nós, abrindo o cam inho —, ele vai para a prisão. Não sei se vai ser a m esm a onde j á esteve. Se ele não for condenado em razão de insanidade, o j uiz provavelm ente vai solicitar outra avaliação psiquiátrica.
— Mas então ele vai voltar para casa?
— Não sei — ele adm ite. — Vam os pedir que Ava Newcom b e a dra. Murano organizem um plano de tratam ento am bulatorial, m as depende do j uiz Cuttings. Ele pode considerar o fato de Jacob ter com etido hom icídio e decidir que isso não pode ser ignorado e, assim , achar m elhor isolá-lo do resto da com unidade.
Ele j á tinha m e dito isso antes, m as parece que não consigo absorver.
— Em um hospital psiquiátrico estatal — term ino. Quando chegam os à porta de casa novam ente, paro de cam inhar e Oliver para tam bém , com as m ãos nos bolsos do casaco. — Lutei a vida inteira para que o Jacob fosse tratado com o as dem ais crianças na escola, com um a program ação norm al — digo. — E agora sua única chance de se livrar da cadeia é j ogar a cartada do Asperger.
— Sinceram ente, não sei o que vai acontecer — diz Oliver. — Mas é m elhor estar preparada.
— Ainda não falei com o Jacob.
Ele baixa os olhos para o chão.
— Talvez devesse falar.
Com o se o tivéssem os conj urado, a porta se abre e a silhueta de Jacob aparece contra a luz, de pij am a.
— Estou esperando você vir dizer boa-noite — diz ele.
— Já vou entrar.
Jacob olha para Oliver, im paciente.
— E então?
— Então o quê?
— Não vai dar logo um beij o de despedida nela?
Fico boquiaberta de surpresa. Desde m inha briga com Jacob, Oliver e eu tivem os o cuidado de ficar longe um do outro em sua com panhia. Agora, no entanto, Oliver m e abraça.
— Não precisa falar duas vezes — ele diz e pressiona os lábios nos m eus.
Quando Jacob era pequeno, eu costum ava entrar em seu quarto depois da m eia-noite e sentar em um a cadeira de balanço ao lado da cam a para vê-lo dorm ir. Havia um m aravilhoso pincel m ágico que o pintava quando ele estava inconsciente. Em sua cam a, eu não podia dizer que a m ão aninhada sob as cobertas era a m esm a que havia se agitado tão intensam ente naquela tarde quando um a m enina no parque entrou na caixa de areia onde ele estava brincando tão feliz sozinho. Eu não podia dizer que aqueles olhos, fechados, ficaram piscando quando eu lhe pedi para olhar direto para m im . Não podia observá-lo, tranquilo e relaxado em seus sonhos, e pensar que aquele era o m esm o m enino que não conseguia se lem brar da sequência de palavras para dizer à m oça que servia o alm oço que queria suco de m açã em vez de leite.
Quando Jacob dorm ia, o quadro-negro de sua vida era apagado e ele poderia ter sido qualquer criança. Qualquer criança com um .
Em vez disso, durante as horas em que ele ficava acordado, ele era extraordinário. E essa realm ente era a definição para ele: fora do perím etro da norm a. Em algum ponto na evolução da linguagem , essa palavra havia adquirido conotações positivas. Por que não o Asperger?
Seria possível dizer que eu era diferente. Havia trocado de boa vontade m eu próprio futuro pelo de Jacob, abdicando de qualquer fam a ou fortuna que talvez pudesse ter alcançado para assegurar que a vida dele fosse m elhor. Eu havia deixado escapar todos os relacionam entos, exceto o que eu construíra com Jacob. Tinha feito escolhas que outras m ulheres não teriam feito. Pelo lado positivo, isso m e tornou um a m ãe determ inada e lutadora; pelo lado negativo, m e fez obstinada. No entanto, se eu entrava em um a sala cheia de gente, as pessoas não se afastavam m isteriosam ente de m im , com o se houvesse um cam po m agnético invisível, um a reação polarizadora entre o m eu corpo e o delas. As pessoas não se viravam para os am igos e gem iam : Ah, meu Deus, me salve, ela está vindo para cá. As pessoas não faziam expressões de desgosto pelas m inhas costas enquanto eu estava falando. Jacob pode ter agido de m odo estranho, m as nunca foi cruel.
Ele sim plesm ente não tinha autoconsciência suficiente para isso.
Agora, eu m e sento naquela m esm a cadeira em que costum ava sentar anos atrás e observo Jacob dorm ir outra vez. Ele não é m ais criança. Seu rosto tem as form as de um rosto adulto, suas m ãos são fortes e seus om bros têm contornos definidos. Estendo a m ão e afasto seus cabelos da testa. Em seu sono, Jacob se m exe.
Não sei que tipo de vida eu teria tido sem Jacob, m as não quero saber. Se ele não fosse autista, eu não poderia am á-lo m ais do que j á am o. E, m esm o se ele for condenado, eu não poderia am á-lo m enos.
Eu m e inclino, com o costum ava fazer, e o beij o na testa. Essa é a antiga e consagrada m aneira de as m ães verificarem se seu filho tem febre, de darem sua bênção ou dizerem boa-noite.
Então por que tenho a sensação de estar dizendo adeus?