Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 42 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Estou aqui com o prova viva para lhe dizer que sonhos podem se tornar realidade.

 

1. Estou sentado com o detetive Matson, batendo papo. 2. Ele está m e contando detalhes de um a investigação em andam ento. 3. Ele não bocej ou nem um a vez, nem olhou para o relógio, nem indicou que não está gostando de conversar longam ente com igo sobre a investigação da cena do crim e.

4. Ele quer falar com igo sobre a cena do crim e associada ao desaparecim ento de Jess — um a cena de crim e que eu organizei.

 

Sério, não dá para ficar m uito m elhor do que isso.

Pelo m enos é o que eu acho até que ele com eça a disparar perguntas contra m im com o balas de revólver. E sua boca está sorrindo pela m etade, e eu não consigo lem brar se isso significa que ele está feliz ou não. E a conversa m uda do prático — o peso do cérebro hum ano, a natureza dos testes toxicológicos post-mortem — para o pessoal.

O fascínio de preparar um a lâm ina de fígado para exam inar ao m icroscópio perde algo de seu valor de entretenim ento quando o detetive Matson m e força a lem brar que o fígado em questão pertenceu a alguém que eu de fato conhecia, alguém com quem eu ria e que ficava ansioso para ver, o que é m uito diferente de com o m e sinto com a m aioria das interações sociais. Por m ais teórica que eu queira que a m orte sej a, há um a diferença significativa quando é xarope de m ilho e corante alim entício em vez da coisa real. Em bora eu possa entender logicam ente que Jess se foi, o que significa, portanto, que não adianta nada desej ar que ela não tivesse ido, um a vez que ela não pode reverter a situação, isso não explica o fato de que eu sinto com o se houvesse um balão de hélio preso dentro de m im que não para de inflar cada vez m ais e que ele pode realm ente acabar m e rasgando.

E bem quando eu acho que as coisas não podem ficar piores do que estão, o detetive Matson m e acusa de ser a pessoa que m achucou Jess.

— Foi você quem agarrou a Jess pelos braços, não foi?

Não fui eu. E digo isso a ele.

— E quanto a sufocá-la? Você não vai m entir para m im sobre ter feito isso, vai?

Eu sei a resposta, claro, m as ela em paca na sintaxe. É com o quando alguém lhe pergunta no j antar: Você não quer esse último pedaço de carne, não é?, quando é claro que você quer. Se você disser sim, está dizendo que quer o últim o pedaço de carne? Ou que não quer?

— O que fez você sufocá-la? Vocês brigaram ? Ela disse algum a coisa que você não gostou?

Se Jess estivesse aqui, ela m e diria para respirar fundo. Diga para a pessoa que você precisa que ela fale mais devagar, ela diria. Diga-lhe que não está entendendo.

Só que Jess não está aqui.

— Nada m e fez sufocar a Jess — consigo dizer por fim , o que é a absoluta verdade. Mas m eu rosto está verm elho e m inha respiração parece serragem saindo de dentro de m im .

Um a vez, quando éram os pequenos e Theo m e cham ou de nanico m ental, j oguei um a alm ofada nele e, em vez de acertá-lo, ela derrubou um abaj ur que m inha m ãe tinha herdado de sua avó.

— Com o isso aconteceu? — m inha m ãe perguntou, quando conseguiu recuperar o poder da fala.

— Um a alm ofada derrubou o abaj ur da m esa.

Era inequivocam ente a verdade, m as a m ão de m inha m ãe desceu com força sobre m im . Não m e lem bro de ter doído. Lem bro de ter ficado tão constrangido que achei que m inha pele poderia derreter. E, em bora ela tenha pedido desculpas depois, sem pre houve um a desconexão para m im : dizer a verdade deveria ser libertador, não é? Então com o isso m e trouxe problem as quando eu disse a um a m ãe que tinha acabado de dar à luz que seu bebê parecia um m acaco? Ou quando li o trabalho de outro aluno na classe durante um a correção entre colegas e falei que estava um a porcaria? Ou quando disse à m inha m ãe que eu m e sentia com o um alienígena que havia sido enviado para analisar fam ílias, j á que nunca parecia ser realm ente parte da nossa?

Ou agora?

— Você a sufocou até ela parar de respirar? Você deu um soco no rosto dela?

Penso em Lucy e Ethel naquela fábrica de doces. Em um a vez em que entrei no m ar e não conseguia escapar das ondas que se aproxim avam antes que a anterior m e j ogasse de j oelhos. Em CrimeBusters, no final, quando os investigadores interrogam os suspeitos e estes sem pre desabam diante das provas duras e frias.

Nada disso está acontecendo do j eito que eu tinha planej ado.

Ou talvez sim plesm ente m eu plano estej a funcionando um pouco bem dem ais.

Jam ais quis m achucar Jess e é por isso que a pergunta seguinte m e perfura com o um a lança.

— Então com o ela perdeu o dente? — o detetive Matson indaga.

Vej o tudo se desenrolando diante de m im , um replay invisível instantâneo. Arrastar Jess escada abaixo, deixá-la cair no últim o degrau. Desculpe!, eu gritei, em bora isso não fosse necessário; ela não podia m ais m e ouvir.

Qualquer palavra que eu use, porém , não está adiantando, porque o detetive Matson não m e entende. Então decido tom ar um a m edida drástica, para m ostrar a ele o interior de m inha m ente aqui m esm o, neste instante. Respiro fundo e olho diretam ente em seus olhos.

É com o ter tiras de pele arrancadas pelo lado de dentro. Com o agulhadas em cada centro nervoso do cérebro.

Nossa, com o dói.

— Isso foi um acidente — m urm uro. — Mas eu o guardei. Coloquei no bolso dela.

Outra verdade, m as que o faz pular na cadeira. Tenho certeza de que ele pode ouvir m inha pulsação tão alto quanto eu. Esse é um sinal de arritm ia. Espero não m orrer bem aqui, na sala do detetive Matson.

Meus olhos deslizam para a esquerda dele, para a direita, depois para o alto — qualquer lugar, para que eu não tenha que vê-lo diretam ente outra vez. É quando noto o relógio e percebo que são 16h17.

Sem trânsito, são dezesseis m inutos para chegar da delegacia até m inha casa. Isso significa que não vam os chegar lá antes das 16h33, e CrimeBusters com eça às quatro e m eia. Fico em pé, com as duas m ãos flutuando na frente do peito com o beij a-flores, m as nem m e preocupo m ais em tentar pará-las. Parece o m om ento na série de TV em que o culpado finalm ente desiste e cai sobre a m esa de m etal, soluçando de culpa. Quero estar assistindo a esse program a de TV e não o vivendo.

— Já term inam os? — pergunto. — Porque eu preciso ir.

O detetive Matson se levanta e acho que talvez ele vá abrir a porta para m im , m as, em vez disso, ele bloqueia m inha saída e chega m ais perto, até estar perto dem ais para eu respirar. E se eu acabar inalando algum ar que ele tiver exalado?

— Você sabia que fraturou o crânio da Jess? — ele diz. — Isso aconteceu ao m esm o tem po em que arrancou o dente dela?

Fecho os olhos.

— Não sei.

— E a roupa de baixo dela? Você a colocou ao contrário, não é?

Diante disso, m inha cabeça levanta.

— Estava ao contrário? — Com o eu poderia saber? Não havia nenhum a etiqueta, com o as que existem em m inhas cuecas. O desenho da borboleta não devia ser na frente?

— Você tirou a roupa de baixo dela tam bém ?

— Não, você acabou de dizer que estava nela...

— Você tentou fazer sexo com ela, Jacob? — o detetive pergunta.

Fico em silêncio total. Só de pensar nisso m inha língua se enrola com o um nó de m arinheiro.

— Responda, porra! — ele grita.

Procuro palavras, qualquer palavra, porque não quero que ele grite com igo outra vez. Vou dizer a ele que fiz sexo com Jess oitenta vezes naquela noite, se é isso que ele precisa ouvir, se é isso que o fará abrir a porta.

— Você m udou a Jess de lugar depois que ela m orreu, não é?

— Sim ! Claro que eu a m udei de lugar! — Isso não é óbvio?

— Por quê?

— Eu precisava m ontar a cena do crim e, e era lá que ela devia estar. — De todas as pessoas, ele devia entender isso.

O detetive Matson inclina a cabeça.

— Foi por esse m otivo que você fez isso? Queria com eter um crim e e ver se conseguia escapar?

— Não, não foi...

— Então o que foi? — ele interrom pe.

Tento encontrar um a m aneira de colocar em palavras todas as razões para eu ter feito o que fiz. Mas, se existe um assunto que eu não entendo — nem por dentro e m uito m enos por fora — são os vínculos que nos unem uns aos outros.

— Amar é nunca ter que pedir perdão — m urm uro.

— Isso é um a brincadeira para você? Um a grande piada? Porque eu não vej o desse m odo. Um a j ovem está m orta e não tem nada de engraçado nisso.

Ele chega m ais perto, até que seu braço roça o m eu, e m al posso m e concentrar por causa do zum bido em m inha cabeça.

— Diga, Jacob — continua ele. — Diga por que você m atou a Jess.

De repente, a porta se abre violentam ente e o acerta no om bro.

— Não responda — grita um hom em desconhecido. Atrás dele está m inha m ãe e, atrás dela, dois policiais uniform izados que acabaram de chegar correndo.

— Quem é você? — pergunta o detetive Matson.

— Sou o advogado de Jacob.

— Ah, é m esm o? — diz ele. — Jacob, este é o seu advogado?

Olho para o hom em . Ele usa calça e cam isa sociais, m as está sem gravata. Tem cabelos claros que m e lem bram os de Theo e parece j ovem dem ais para ser um advogado de verdade.

— Não — respondo.

O detetive sorri, triunfante.

— Ele tem dezoito anos, doutor. Ele diz que o senhor não é advogado dele, e ele não pediu um advogado.

Não sou burro. Já vi m uitos episódios de CrimeBusters para saber onde isso vai dar.

— Quero um advogado — anuncio.

O detetive Matson lança as m ãos para cim a.

— Estam os indo em bora. — Minha m ãe abre passagem e se aproxim a. Pego m eu casaco, que ainda está sobre o encosto da cadeira.

— Senhor... qual é o seu nom e? — o detetive pergunta.

— Bond — m eu novo advogado responde. — Oliver Bond. — Ele sorri para m im .

— Sr. Bond, o seu cliente está sendo acusado pelo assassinato de Jessica Ogilvy — diz o detetive Matson. — Ele não vai a lugar nenhum .