Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 20 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

É para aqui que eu vou, quando vou:

Um quarto sem j anelas e sem portas, e com paredes finas o bastante para eu poder ver e ouvir tudo, m as m uito grossas para quebrar.

Estou lá, m as não estou lá.

Estou batendo para m e tirarem de lá, m as ninguém m e escuta.

É para aqui que eu vou, quando vou:

Para um país em que o rosto de todo m undo parece diferente do m eu, e a língua é o ato de não falar, e o barulho está por toda parte no ar que respiram os. Estou tentando fazer com o os rom anos fazem em Rom a; estou tentando m e com unicar, m as ninguém se preocupou em m e contar que essas pessoas não podem ouvir.

É para aqui que eu vou, quando vou:

Um lugar com pletam ente, indescritivelm ente laranj a.

É para aqui que eu vou, quando vou:

Para o lugar em que m eu corpo se torna um piano, só de teclas pretas, os sustenidos e os bem óis, quando todo m undo sabe que, para tocar um a m úsica que as outras pessoas queiram ouvir, precisam os de algum as teclas brancas.

É por isso que eu volto:

Para encontrar essas teclas brancas.

 

Não estou exagerando quando digo que m inha m ãe está olhando fixam ente para m im há quinze m inutos.

— Você não tem algum a outra coisa para fazer? — pergunto, por fim .

— É, tem razão — diz ela, m as não vai em bora.

— Mãe — eu gem o. — Tem que existir algo m ais fascinante do que ficar m e vendo com er. — Com o ver a tinta secar, por exem plo. Ou ficar olhando o ciclo da m áquina de lavar roupa.

Sei que dei um baita susto nela hoj e, por causa do que aconteceu esta m anhã. Isso é evidente em (a) sua incapacidade de sair do m eu lado por m ais de três segundos, e (b) sua disposição de fazer batatas fritas no café da m anhã. Ela até obrigou o Theo a pegar o ônibus hoj e, em vez de levá-lo de carro com o sem pre, porque não queria m e deixar em casa sozinho. E tam bém decidiu que eu faltaria na aula por m otivo de saúde.

Francam ente, não entendo por que ela está tão aflita, se fui eu que fiquei desaparecido.

Francam ente, eu m e pergunto quem foi Franca e por que ela tem um advérbio só para si.

— Vou tom ar banho — anuncio. — Você vem j unto?

Isso, finalm ente, dá um a sacudida nela.

— Tem certeza que está se sentindo bem ?

— Tenho.

— Vou voltar para dar um a olhada em você daqui a pouco, então.

Assim que ela sai, coloco o prato de batatas fritas na m esinha de cabeceira. Vou m esm o tom ar banho; só tenho algo a fazer prim eiro.

Tenho m inha própria câm ara de vaporização. Já foi o lar do m eu peixinho, Arlo, antes de ele m orrer. O aquário agora está em cim a da m inha côm oda, virado de boca para baixo. Dentro dele, há um aquecedor de xícaras de café. Eu costum ava usar um a espiriteira, m as m inha m ãe não gostava m uito da ideia do fogo (m esm o queim ando bem baixo) em m eu quarto, então m udei para o aquecedor elétrico. Sobre ele, coloco um barquinho feito de papel-alum ínio e esprem o dentro um a gota de supercola do tam anho de um a m oedinha pequena. Pego a caneca de chocolate quente (sem lactose, claro) que m inha m ãe m e trouxe e a coloco na câm ara tam bém . Ela dará um idade ao ar, m as não vou m ais querer beber depois da vaporização, quando tiver espum a branca flutuando na superfície. Por fim , ponho dentro da câm ara o copo que contém um a am ostra conhecida — m inha im pressão digital de teste — para ter certeza de que tudo está funcionando.

Só falta um a coisa, m as isso faz m eu estôm ago se apertar.

Tenho que m e forçar para procurar nas roupas que estava usando ontem o obj eto que quero vaporizar, o que eu trouxe da casa dela. E isso, claro, m e faz pensar em tudo o m ais, o que significa que os cantos de m inha m ente com eçam a ficar escuros.

Preciso trabalhar para não ser sugado para aquele buraco outra vez.

Mesm o através da luva de látex que estou usando, posso sentir com o é frio o m etal. Com o tudo era frio ontem à noite.

No chuveiro, eu m e esfrego com toda força, até a pele ficar m uito verm elha e os olhos arderem de olhar para o fluxo de água. Lem bro de tudo.

Mesm o não querendo.a

Um a vez, quando eu estava no terceiro ano, um m enino fez piada com o m eu j eito de falar. Eu não entendia por que aquela im itação de m im , com as palavras soando planas com o panquecas, seria engraçada para alguém . Não entendia por que ele ficava toda hora dizendo coisas com o Leve-me até seu líder. Só sabia que ele ficava m e seguindo pelo play ground e, para todo lugar onde eu ia, as pessoas riam de m im .

— Qual é o seu problem a? — perguntei por fim , virando e o encontrando grudado nas m inhas costas.

— Qual é o seu problema? — ele im itou.

— Eu gostaria m uito que você encontrasse outra coisa para fazer — eu disse.

— Eu gostaria muito que você encontrasse outra coisa para fazer.

E, antes que eu tivesse noção do que estava planej ando, m eus dedos se fecharam e eu o soquei bem no m eio da cara.

O sangue se espalhou para todo lado. Não gostei de ter o sangue dele em m inha m ão. Não gostei de tê-lo em m inha blusa, que deveria ser am arela.

O m enino caiu desm aiado, e eu fui levado para a diretoria e suspenso por um a sem ana.

Não gosto de falar sobre esse dia, porque m e faz sentir com o se eu estivesse cheio de vidro quebrado.

Nunca pensei que fosse ver tanto sangue outra vez em m inhas m ãos, m as estava enganado.

 

Só leva dez m inutos para o cianoacrilato — a supercola — funcionar adequadam ente. Os m onôm eros em seus vapores polim erizam na presença de água, am inas, am idas, hidroxila e ácido carboxílico, todos eles presentes na gordura deixada por im pressões digitais. Eles se ligam a essas gorduras, criando um a im agem latente, que pode ficar m ais visível com a aplicação de pó. Então, a im agem pode ser fotografada, redim ensionada e com parada com a am ostra conhecida.

Ouço um a batida à porta.

— Tudo bem aí?

— Não, estou m e enforcando em um varão do arm ário — digo.

Isso não é verdade.

— Não tem graça, Jacob — m inha m ãe responde.

— Tudo bem , estou m e vestindo.

Isso não é verdade tam bém . Estou de cueca e cam iseta neste m om ento.

— Certo — diz ela. — Cham e quando tiver acabado.

Espero até os passos dela sum irem no fim do corredor e, então, rem ovo o copo de dentro do aquário. Com o esperado, há várias im pressões nele. Aplico um pó de duplo obj etivo, que tem contraste tanto para superfícies brancas com o pretas. Em seguida, aplico pó nas im pressões do segundo obj eto tam bém .

Eu as fotografo de perto com a câm era digital que ganhei de Natal dois anos atrás e carrego as im agens em m eu com putador. É sem pre um a boa ideia fotografar as im pressões latentes antes de coletá-las, com o um a precaução para o caso de elas serem destruídas durante o processo. Mais tarde, no Adobe Photoshop, posso inverter as cores das cristas e redim ensionar as im pressões. Posso com eçar um a análise.

Cubro a im pressão cuidadosam ente com fita adesiva para preservá-la, com a intenção de esconder o que trouxe da casa dela em um lugar onde ninguém j am ais vai encontrar.

Minha m ãe, nessa altura, está cansada de esperar e abre a porta.

— Jacob, vista a calça!

Ela põe a m ão na frente dos olhos, m as entra em m eu quarto m esm o assim .

— Ninguém disse para você entrar — falo.

Ela cheira.

— Você usou supercola outra vez, não é? Eu j á lhe disse que não quero que faça vaporização enquanto estiver dentro do quarto. Isso não deve fazer bem . — Ela faz um a pausa. — Por outro lado, se você estava fazendo vaporização, deve estar se sentindo m elhor.

Não digo nada.

— É seu chocolate quente ali dentro?

— É — respondo.

Ela sacode a cabeça.

— Vam os descer — m inha m ãe suspira. — Vou preparar outro para você.

 

Eis alguns fatos sobre ciência forense:

 

1. A ciência forense é definida com o os m étodos e técnicas científicos usados no processo de detecção em um crim e.

2. A palavra forense vem do latim forensis, que significa “diante do fórum ”. Nos tem pos rom anos, um a acusação crim inal era apresentada na frente de um grupo público no fórum . O acusado e a vítim a davam testem unho e aquele com o m elhor argum ento vencia. 3. O prim eiro relato escrito de ciência forense para resolver casos foi durante a dinastia Song na China, em 1248. Depois que um a pessoa foi m orta com um a foice, um investigador m andou que todos trouxessem suas foices a um lugar específico e, quando as m oscas foram atraídas para um a delas por causa do cheiro de sangue, o assassino confessou. 4. A ocorrência m ais antiga de uso de im pressões digitais para determ inar identidade foi no século VII, quando as digitais de um devedor foram anexadas a um a conta com o prova da dívida a ser paga ao em prestador. 5. A ciência forense é m uito m ais facilm ente utilizada quando não se está pessoalm ente envolvido.

 

As pontas dos dedos, as palm as das m ãos e as solas dos pés não são lisas. A pele tem cristas de fricção, séries de linhas com contornos e form as, com o um m apa topográfico. Ao longo dessas linhas há poros e, se eles ficarem contam inados com suor, tinta, sangue ou suj eira, deixarão um a reprodução das linhas no obj eto que tiverem tocado. Ou, em term os m enos com plicados, um a im pressão digital.

Se a im pressão puder ser vista, ela pode ser fotografada. Se puder ser fotografada, pode ser preservada e com parada com um a am ostra conhecida. Essa é um a arte tanto quanto um a ciência: com o eu não tenho um term inal de im pressões digitais AFIS em m inha casa para escanear a im pressão latente e encontrar cinquenta candidatos com sim ilaridades correspondentes, preciso m e basear no olho nu. A m eta é encontrar de dez a doze sim ilaridades entre a am ostra conhecida e a im pressão latente. Isso é o que a m aioria dos exam inadores concluiria ser um a correspondência.

Na tela de m eu com putador, exibo as im agens das duas im pressões digitais. Coloco o cursor no núcleo, a parte m ais central da im pressão. Observo um delta — um a pequena form ação triangular à esquerda do núcleo. Noto as cristas finais e bifurcações e um verticilo circular. Um a bifurcação, depois duas cristas, e outra bifurcação para baixo.

Exatam ente com o eu tinha im aginado. É um a correspondência.

Isso m e faz ter vontade de vom itar, m as engulo e m e forço a fazer o que precisa ser feito.

Como ontem.

Sacudo a cabeça para clarear as ideias, pego um pequeno pote plástico que tirei da cozinha e coloco a evidência dentro. Então procuro em m eu arm ário até encontrar a Pata Jem im a. Ela é um bichinho de pelúcia que dorm ia com igo quando eu era pequeno e, com o é branca, fica guardada no alto, em um a prateleira acim a do resto de m inhas roupas que têm pigm entação de fato. Eu a ponho de cara para baixo no m eu colo e, usando um estilete, faço um a incisão no lugar onde ela poderia ter tido um coração.

O pote plástico tem que ser esprem ido lá dentro, e isso faz Jem im a parecer ter um a caixa torácica esquisita, m as dá certo. Eu a suturo com a m esm a linha que usei na sem ana passada para rem endar um buraco em m inha m eia. Não sou m uito bom nisso, eu m e pico quase a cada ponto, m as consigo fazer o serviço.

Em seguida, pego um caderno e com eço a escrever.

Quando term ino, deito em m inha cam a. Gostaria de estar na escola. É m ais difícil quando não estou trabalhando em algum a coisa.

— I shot the sheriff — m urm uro. — But I swear it was in self-defense.

 

Muitas vezes pensei em com o um a pessoa poderia com eter o crim e perfeito.

Todos sem pre falam da proverbial estaca de gelo — depois de golpear alguém , a arm a do crim e derreterá —, m as é um tiro no escuro supor que (a) você vai conseguir segurar essa estaca de gelo tem po suficiente para produzir um ferim ento, e (b) ela não vai quebrar quando atingir a pele, antes de perfurá-la. Mescalina salpicada na salada da vítim a seria m ais sutil: o pó m arrom ficaria praticam ente indistinguível m isturado com m olho vinagrete, e o sabor am argo ficaria disfarçado, especialm ente se houvesse chicória ou rúcula na m istura. Mas e se você só fizesse sua vítim a ter um a bad trip em vez de m orrer? Além disso, onde conseguiria a droga? Poderia levar alguém para velej ar e em purrá-lo do barco, de preferência depois de em briagá-lo, e dizer que ele caiu acidentalm ente, m as seria preciso ter um barco. Um a m istura de Vicodin e álcool reduziria os batim entos cardíacos excessivam ente, m as a vítim a teria que ser m uito baladeira para um detetive não achar isso suspeito. Ouvi de pessoas que tentam queim ar um a casa depois de com eter assassinato, m as é algo que nunca funciona de fato. Os investigadores de incêndios crim inosos conseguem determ inar onde um incêndio com eçou. Além disso, um corpo precisa estar queim ado sem chance de reconhecim ento, inclusive dentário, para não apontar um dedo para você. Eu tam bém não recom endaria nada que deixe sangue. Faz m uita suj eira; você precisaria de litros de água sanitária para lim pá-lo e sem pre pode ficar algum a gota para trás.

O quebra-cabeça do crim e perfeito é com plicado, porque se safar de um assassinato tem m uito pouco a ver com o m ecanism o da m orte e tudo a ver com o que você faz antes e depois. A única m aneira de realm ente encobrir um crim e é não contar para ninguém . Nem para sua esposa, nem para sua m ãe, nem para um padre. E, claro, você tem que ter m atado o tipo certo de pessoa — alguém que não vá ser procurado. Alguém que ninguém queira ver outra vez.