Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 115 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

Há sangue por todo o chão e ela está ali deitada. Ela não responde m esm o quando eu cham o seu nom e. Sei que preciso tirá-la dali, então a levanto e a levo para o corredor e, quando faço isso, sai m ais sangue ainda de seu nariz e de sua boca. Tento não pensar que estou tocando seu corpo e que ela está nua; não é com o nos film es, em que a m oça é linda e o rapaz aparece na penum bra; é só pele contra pele, e estou constrangido por ela, porque ela nem sabe que está sem roupa. Não quero suj ar as toalhas de sangue, então lim po o rosto dela com papel higiênico e dou descarga no vaso sanitário.

Tem um a calcinha no chão, e um sutiã, e um a calça de m oletom e um a blusa. Ponho o sutiã prim eiro — sei com o fazer isso porque assisto à HBO e j á vi tirarem ; só preciso fazer o contrário. A calcinha eu não entendo, porque há escritos em um dos lados e eu não sei se essa é a parte da frente ou de trás, então eu a visto nela de qualquer lado. Depois a blusa, a calça e, por fim , m eias e botas Ugg, que são a parte m ais difícil, porque ela não pode aj udar com os pés.

Eu a levanto sobre o om bro — ela é m ais pesada do que im aginei — e tento levá-la para o andar de baixo. Há um a curva em um patam ar da escada e eu tropeço em m eus próprios pés e nós dois caím os. Aterrisso em cim a dela e, quando a viro, um dente dela se solta. Sei que não doeu nela, m as ainda assim m e revira o estôm ago. Os hem atom as e o nariz quebrado, por algum a razão, não eram nem de perto tão ruins quanto vê-la sem o dente da frente.

Eu a sento em um a poltrona.

— Espere aqui — digo, e então rio alto, porque ela não pode m e ouvir. Lá em cim a, lim po o sangue com m ais papel higiênico, o rolo inteiro. Mas ainda está suj o e m olhado. No arm ário de produtos de lim peza, encontro água sanitária e despej o no chão, depois uso outro rolo de papel higiênico para enxugar tudo.

Passa pela m inha cabeça que eu posso ser pego, e é então que decido não só lim par, m as fazer um a cena de crim e que leve em um a direção diferente. Ponho algum as peças de roupa em um a m ochila e pego sua escova de dentes. Digito um bilhete e o prendo na caixa de correio. Calço um par de botas grandes dem ais para serem dela e cam inho pelo lado de fora, corto a tela, ponho a faca de cozinha na lavadora de louças e ligo no ciclo rápido. Quero que fique óbvio, porque o Mark não é m uito inteligente.

Tom o o cuidado de rem over as pegadas da varanda e do cam inho até a rua.

Do lado de dentro, ponho a m ochila nos om bros e m e asseguro de não estar esquecendo nada. Sei que deveria ter deixado os banquinhos caídos e os CDs espalhados pelo chão da sala, m as não consigo. Então levanto os bancos, recolho a correspondência e organizo os CDs do j eito que acho que ela gostaria.

Tento carregá-la para o bosque, m as ela fica m ais pesada a cada passo e, depois de um tem po, tenho que arrastá-la. Quero que ela estej a em algum lugar onde não fique exposta ao vento, à chuva ou à neve. Gosto da galeria pluvial porque posso chegar ali direto da estrada, em vez de passar pela casa dela.

Penso nela m esm o quando não estou ali; m esm o quando sei que a polícia inteira está à sua procura e eu poderia m e distrair tão facilm ente acom panhando o avanço ou a falta de progresso das investigações. É por isso que, quando volto para visitá-la, eu levo a m inha colcha. É algo de que eu sem pre gostei e acho que, se ela pudesse falar, teria se orgulhado m uito de m im por tê-la usado para cobri-la. Muito bem, Jacob, ela teria dito. É bom ver você pensando em outra pessoa para variar.

Mal sabia ela que era só nisso que eu estava pensando.

 

Quando term ino, o tribunal está tão silencioso que posso ouvir os estalos do aquecedor e das vigas do prédio. Olho para Oliver e para m inha m ãe. Espero que eles estej am m uito satisfeitos, porque tudo deve fazer sentido agora. Mas não consigo interpretar a expressão deles ou a dos j urados. Um a m ulher está chorando, e eu não sei se ela está triste porque eu estava falando de Jess ou se está feliz por finalm ente saber o que de fato aconteceu.

Não estou nervoso agora. Se quer saber, tenho tanta adrenalina no m eu sangue que acho que poderia correr até Bennington e voltar. Afinal, puxa vida, acabei de descrever com o m ontei um a cena de crim e com um corpo depois de enganar a polícia com sucesso, levando-a a pensar que tinha sido um a tentativa de sequestro. Liguei todos os pontos que o Estado apresentou com o provas neste j ulgam ento. É com o o m elhor episódio de CrimeBusters de todos os tem pos, e eu sou o protagonista.

— Sr. Bond? — o j uiz diz.

Oliver pigarreia. Ele apoia um a das m ãos na grade do banco das testem unhas e não olha para m im .

— Certo, Jacob. Você nos contou o que fez depois da m orte da Jess. Mas não contou com o ela m orreu.

— Não há m uito para contar — digo.

De repente, percebo onde j á vi aquela expressão que está no rosto de todos no tribunal. É a expressão do rosto de Mim i Scheck, e de Mark Maguire, e de todo m undo que acha que não tem absolutam ente nada em com um com igo.

Com eço a ter aquela sensação de queim ação no estôm ago, aquela que vem quando percebo tarde dem ais que talvez tenha feito algo que não foi de fato um a ótim a ideia.

E então Oliver m e lança um a corda de salvação.

— Jacob, você está arrependido por ter m atado a Jess?

Sorrio largam ente.

— Não — digo. — É isso que venho tentando dizer para vocês o tem po todo.