Um Mundo à Parte
Emma
Fiquei furiosa quando Oliver apareceu com essa j ogada. Não foi ele m esm o que tinha dito que colocar Jacob no banco das testem unhas só prej udicaria o j ulgam ento? Ainda que fosse apenas um j uiz aqui, e não um corpo de doze j urados, Jacob ia sofrer na certa. Jogá-lo em um a situação que, com certeza, o faria ter um a crise apenas para poder dizer ao j uiz: Está vendo, eu lhe disse, parecia cruel e inútil, o equivalente a pular de um prédio para atrair um a atenção que você estaria m orto dem ais para aproveitar depois. Mas Jacob tirou de letra a situação — apesar dos m ovim entos repetitivos e dos tiques, é verdade. Ele não se apavorou, nem m esm o quando aquela bruxa da prom otora com eçou a pressioná-lo. Nunca tive tanto orgulho dele.
— Ouvi todos os argum entos — diz o j uiz Cuttings. — Observei o réu e não acredito que ele tenha renunciado voluntariam ente a seus direitos de Miranda. Tam bém considero que o detetive Matson estava ciente de que o réu tinha um distúrbio de desenvolvim ento e, m esm o assim , não fez nada para lidar com essa deficiência. Vou deferir o pedido de exclusão das declarações do réu na delegacia.
Assim que o j uiz sai da sala, Oliver vira para trás e bate a m ão aberta na m inha, enquanto Helen Sharp com eça a guardar os papéis em sua pasta.
— Eu sei que você vai m anter contato — Helen diz a Oliver.
— E agora, o que isso significa? — pergunto a ele.
— Ela vai ter que construir seus argum entos sem a confissão do Jacob. O que significa que o trabalho da prom otoria ficou m uito m ais difícil.
— Quer dizer que é bom .
— É muito bom — diz Oliver. — Jacob, você foi perfeito lá na frente.
— Podem os ir? — pergunta ele. — Estou m orrendo de fom e.
— Claro — respondo. Jacob levanta e com eça a seguir pelo corredor central. — Obrigada — digo a Oliver, antes de alcançar m eu filho. Já estou na m etade do corredor quando m e viro para trás. Oliver está assobiando para si m esm o enquanto veste o casaco. — Se quiser vir alm oçar conosco am anhã... A sexta-feira é do azul — eu lhe digo.
Ele m e olha.
— Azul? Essa é difícil. Tirando m irtilos, e iogurte e gelatina azuis, o que sobra?
— Tortilla azul. Batata-roxa. Sorvete azul. Frango cordon bleu.
— Hum m ... acho que esse não é tecnicam ente azul — Oliver observa.
— Verdade — respondo —, m as vale assim m esm o.
— Gatorade azul sem pre foi o m eu preferido — diz ele.
No cam inho para casa, Jacob lê o j ornal em voz alta, de seu lugar no banco traseiro.
— Estão construindo um novo banco na cidade, m as isso vai elim inar quarenta vagas de estacionam ento — ele m e conta. — Um cara foi levado para o hospital depois de bater com a m otocicleta em um a cerca. — Ele vira a página. — Que dia da sem ana é hoj e?
— Quinta-feira.
Sua voz se acelera de agitação.
— Am anhã, às três da tarde, o dr. Henry Lee vai dar um a palestra na Universidade de New Ham pshire, e é aberta ao público!
— Por que esse nom e m e parece conhecido?
— Mãe, ele é sim plesm ente o m ais fam oso cientista forense de todos os tem pos! Trabalhou em m ilhares de casos, com o o suicídio de Vince Foster e o assassinato de JonBenét Ram sey, além do j ulgam ento de O. J. Sim pson. Há um núm ero de telefone aqui para inform ações. — Ele com eça a rem exer m inha bolsa à procura do celular.
— O que você vai fazer?
— Ligar para reservar ingressos.
Olho para ele pelo espelho retrovisor.
— Jacob, não podem os ir ver o dr. Lee. Você não tem perm issão para sair de casa, quanto m ais do estado.
— Eu saí de casa hoj e.
— É diferente. Fom os para o tribunal.
— Você não entende. É Henry Lee. Essa é um a oportunidade única na vida. Não estou pedindo para ir ao cinem a. Tem que ter algum a coisa que o Oliver possa fazer para conseguir um a licença ou algo assim , só para esse dia.
— Acho que não, querido.
— Você não vai nem tentar? Vai sim plesm ente supor que a resposta é não?
— Exatam ente — digo a ele —, um a vez que ou você fica em prisão dom iciliar ou é j ogado de novo na cadeia. E tam bém tenho cem por cento de certeza de que o j uiz não lhe daria um dia de licença para ver a palestra de Henry Lee.
— Pois eu aposto que ele daria, se você lhe dissesse quem é Henry Lee.
— Sem discussão, Jacob — digo.
— Você saiu de casa ontem ...
— Isso é com pletam ente diferente.
— Por quê? O j uiz disse que você tinha que m e vigiar o tem po todo.
— Eu ou outro adulto.
— Está vendo? Ele j á fez exceções para você.
— Porque não fui eu que... — Percebendo o que eu estava prestes a dizer, fecho im ediatam ente a boca.
— Que o quê? — A voz de Jacob é tensa. — Que matou alguém ?
Viro o carro na entrada de nossa casa.
— Eu não disse isso, Jacob.
Ele olha para a j anela.
— E nem precisava.
Antes que eu possa detê-lo, ele sai do carro enquanto ainda estou estacionando. Passa correndo por Theo, que está parado à porta da frente com os braços cruzados. Um carro estranho está estacionado j unto à calçada, com um hom em atrás do volante.
— Eu tentei fazer com que ele fosse em bora — diz Theo —, m as ele falou que ia esperar você.
Tendo dado a inform ação, ele entra e m e deixa frente a frente com um hom em baixo e careca com um cavanhaque em form a de W.
— Sra. Hunt? — pergunta ele. — Sou Farley McDuff, fundador do Nação Neurodiversidade. Talvez a senhora j á tenha ouvido falar de nós?
— Acho que não...
— É um blog para quem acredita que o desenvolvim ento neurológico atípico é um a sim ples questão de diferença entre as pessoas e, com o tal, deve ser celebrado em vez de curado.
— Olhe, este não é um m om ento m uito bom ...
— Todos os m om entos são bons para a com unidade do autism o reivindicar o respeito que m erece, sra. Hunt. Em vez de ver os neurotípicos tentando destruir a diversidade, acreditam os em um novo m undo em que a pluralidade neurológica sej a aceita.
— Neurotípicos — repito.
— Outra palavra para o que é coloquialm ente cham ado de “norm al”. Com o a senhora. — Ele sorri para m im , m as não consegue sustentar m eu olhar por m ais que um instante. Então m e estende um folheto.
MAIORITISMO — Um distúrbio não reconhecido. Maioritismo é um distúrbio de desenvolvimento incapacitante que afeta noventa e nove por cento da população em áreas de função mental que incluem autoconsciência, atenção, capacidade emocional e desenvolvimento sensorial. Os efeitos começam no nascimento e não podem ser curados. Felizmente, o número de afetados pelo maioritismo está diminuindo, conforme vem surgindo um entendimento melhor do autismo.
— Você deve estar brincando — digo, e passo por trás dele com a intenção de entrar em casa.
— Por que é tão enganoso pensar que um a pessoa que sente a aflição ou a dor de outra pessoa não se prej udica com esse excesso de em oção? Ou que im itar os outros a fim de se m isturar à m ultidão é m ais aceitável que fazer o que lhe interessa em cada m om ento? Por que não é indelicado olhar um estranho nos olhos ao encontrá-lo pela prim eira vez, ou invadir seu espaço pessoal apertando sua m ão? Não poderia ser considerado um a falha m udar de assunto em um a conversa com base em um com entário feito por alguém em vez de continuar no assunto original? Ou não perceber quando algo no am biente m uda, com o um a roupa transferida de um a gaveta para um arm ário?
Isso m e faz pensar em Jacob.
— Eu preciso m esm o ir...
— Sra. Hunt, nós acham os que podem os aj udar seu filho.
Eu hesito.
— É m esm o?
— A senhora sabe quem é Darius McCollum ?
— Não.
— É um hom em do Queens, em Nova York, que tem paixão por tudo que se relacione a trânsito. Não era m uito m ais velho que o Jacob na prim eira vez em que tom ou o controle do trem que ia do World Trade Center para a Herald Square. Ele roubou ônibus m unicipais só para ver com o era dirigi-los. Acionou os freios de em ergência de um vagão de m etrô e fingiu ser um funcionário uniform izado para consertar ele m esm o o problem a. Tentou passar por consultor de segurança ferroviária. Foi condenado m ais de dezenove vezes. Ele tam bém tem Asperger.
Um arrepio percorre m inha espinha e não tem nada a ver com o frio.
— Por que está m e dizendo isso?
— A senhora conhece John Odgren? Aos dezesseis anos, ele esfaqueou um estudante até a m orte em um colégio de subúrbio em Sudbury, Massachusetts. Já havia tido facas e um revólver falso confiscados pela escola anteriorm ente, m as não tinha um histórico de com portam ento violento. Ele tem Asperger, e um interesse especial por arm as. Mas, com o resultado do esfaqueam ento, foi levantada a ligação entre Asperger e violência, quando, na verdade, especialistas m édicos dizem que não existe nenhum vínculo conhecido entre Asperger e violência e que crianças diagnosticadas com o transtorno são m uito m ais frequentem ente vítim as de bully ing do que agressores. — Ele dá um passo à frente. — Podem os aj udá-la. Podem os convocar a com unidade de autistas para espalhar o caso. Im agine todas as m ães que vão ficar do seu lado assim que perceberem que seus próprios filhos autistas poderiam ser novam ente alvo dos neurotípicos, não apenas para ser “consertados” dessa vez, m as talvez para ser acusados de assassinato pelo que talvez sej a um m al-entendido.
Quero dizer que Jacob é inocente, m as — Deus m e perdoe — não consigo fazer as palavras saírem da m inha boca. Não quero que m eu filho sej a sím bolo de nada. Só quero que m inha vida volte a ser com o era antes.
— Sr. McDuff, por favor, saia de m inha propriedade ou vou cham ar a polícia.
— Que bom que eles j á conhecem a rota m ais rápida para cá — diz ele, voltando para o carro. Ele hesita antes de entrar no veículo, com um pequeno e triste sorriso levantando o canto da boca. — Este é um m undo neurotípico, sra. Hunt. Nós só estam os ocupando espaço nele.
Encontro Jacob no com putador.
— Os ingressos custam trinta e cinco dólares — diz ele, sem olhar para m im .
— Você j á ouviu falar de um grupo cham ado Nação Neurodiversidade?
— Não. Por quê?
Sacudo a cabeça e m e sento na cam a dele.
— Por nada.
— De acordo com o MapQuest, são três horas e dezoito m inutos para chegar lá.
— Lá onde? — pergunto.
— Universidade de New Ham pshire, lem bra? Dr. Henry Lee? — Ele gira na cadeira.
— Você não pode ir, Jacob. Ponto-final. Sinto m uito, m as tenho certeza de que o dr. Lee fará outras palestras no futuro.
Será que você vai estar na prisão?
O pensam ento pula para m inha cabeça com o um grilo em um a toalha de piquenique e é igualm ente indesej ável. Cam inho até a m esa dele e o olho com firm eza.
— Preciso lhe perguntar algo — digo baixinho. — Preciso perguntar, porque ainda não fiz isso e preciso ouvir sua voz dizendo a resposta. A Jess está m orta, Jacob. Você a m atou?
Ele faz um a cara zangada.
— Não.
A respiração que eu estava segurando sem perceber sai em um a golfada. Envolvo Jacob nos braços e ele se enrij ece no súbito abraço.
— Obrigada — sussurro. — Obrigada por isso.
Jacob não m ente para m im . Ele não consegue. Ele tenta, m as é tão visivelm ente óbvio que só preciso de um instante de silêncio para que ele desista e adm ita a verdade.
— Você percebe que m e m anter trancado nesta casa por sem anas ou m eses pode ser considerado com portam ento crim inoso, não é? Que bons pais tratam seus filhos com o anim ais engaiolados?
— E você percebe que, m esm o se pedíssem os ao Oliver que procurasse o j uiz e solicitasse um a exceção, a palestra do dr. Lee j á teria term inado antes que o j uiz agendasse a audiência? Com certeza será gravada, Jacob. Podem os ouvir o podcast.
— Não é a m esm a coisa! — Jacob grita.
As veias em seu pescoço se destacam em relevo; ele está perigosam ente perto de perder o controle outra vez. Modero a voz para que ela se espalhe com o um bálsam o.
— Respire fundo. Seu Asperger está aparecendo.
— Eu odeio você — diz Jacob. — Isso não tem nada a ver com m eu Asperger. Tem a ver com ser tratado com o um escravo em m inha própria casa. — Ele m e em purra para o lado e vai na direção do corredor.
Uso toda a m inha força para segurá-lo. Sei que é m elhor não discutir, m as, às vezes, quando Jacob está sendo particularm ente prepotente, ele não m e deixa outra escolha.
— Se você sair por aquela porta, vai voltar para a cadeia hoj e m esm o. E, dessa vez, j uro que não vou tentar tirar você de lá. Posso ser quinze centím etros m ais baixa que você e vinte e cinco quilos m ais leve, m as continuo sendo sua m ãe, e quando digo não é não.
Ele luta por alguns segundos para se livrar dos m eus braços e, então, toda a resistência se vai. Quase facilm ente dem ais, ele deita na cam a e puxa um travesseiro sobre a cabeça.
Sem dizer m ais nada, saio do quarto de Jacob e fecho a porta atrás de m im . Encosto na parede por um m om ento, com o corpo m ole sob o peso do alívio que a resposta dele m e trouxe. Vinha dizendo a m im m esm a que a razão de ainda não ter perguntado diretam ente a Jacob se ele havia m atado Jess era o m edo de que ele ficasse decepcionado com igo pelo fato de eu sequer cogitar essa possibilidade. Mas a verdadeira razão de eu ter esperado tanto é que eu tinha m edo de ouvir a resposta. Quantas vezes, afinal, eu j á havia feito um a pergunta a Jacob apenas na esperança de um a m entirinha bem -intencionada?
Eu tenho muitas rugas?
Acabei de cozinhar isso, é uma receita nova. O que você acha?
Sei que está bravo, mas você não queria de verdade que seu irmão nunca tivesse nascido, não é?
Hoj e m esm o, no banco das testem unhas, o especialista que Oliver encontrou disse que crianças com Asperger não m entem .
No entanto...
Jacob m e disse que Jess não falou com ele naquela terça-feira em que deveriam ter se encontrado, m as não contou que ela estava m orta.
Jacob m e disse que havia estado na casa de Jess, m as deixou de m encionar que havia encontrado o lugar todo bagunçado.
E nunca citou o fato de ter levado sua colcha colorida para lugar nenhum .
Tecnicam ente, ele falou a verdade. E, ao m esm o tem po, m entiu por om issão.
— Mãe! — Theo grita. — Acho que pus fogo na torradeira...
Corro para baixo. Enquanto tento arrancar o pão calcinado de dentro da torradeira com duas facas, j á convenci a m im m esm a de que tudo o que Jacob não m e contou foi por descuido, um típico efeito colateral do Asperger pelo fato de ele ter tanta inform ação que algum a sem pre acaba sendo perdida ou esquecida.
Já convenci a m im m esm a de que não pode ter sido proposital.