Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 95 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

A piada do m om ento entre nós, que fom os sequestrados para o j ulgam ento, envolve a sala de descanso sensorial. Se o réu pode ter acom odações especiais, por que não as testem unhas? Eu quero um a sala especial com com ida chinesa. Digo isso a Helen Sharp quando ela vem m e avisar que serei o próxim o a depor.

— É cientificam ente com provado que rolinhos prim avera m elhoram o foco das testem unhas — digo. — E frango xadrez entope as artérias só o suficiente para aum entar o fluxo sanguíneo para o cérebro...

— E esse tem po todo eu achando que sua deficiência fosse só um pequeno...

— Ei!

— ... nível de atenção — com pleta Helen, antes de sorrir para m im . — Cinco m inutos.

É só em parte brincadeira. Quer dizer, se o tribunal se dispôs a ceder à síndrom e de Asperger de Jacob Hunt, quanto tem po vai dem orar antes que isso sej a usado com o precedente por algum crim inoso de carreira que insista que ir para a cadeia vai exacerbar sua claustrofobia? Sou a favor da igualdade de oportunidades, m as não a ponto de desgastar o sistem a.

Decido fazer um xixi antes que a sessão recom ece e acabo de virar em direção ao corredor onde estão os banheiros quando dou de cara com um a m ulher andando na direção oposta.

— Opa — digo, equilibrando-a. — Desculpe.

Em m a Hunt olha para m im com aqueles seus olhos im pressionantes.

— Sei... — diz ela.

Em um a outra vida, se eu tivesse outro trabalho e ela tivesse um filho diferente, talvez estivéssem os conversando diante de um a garrafa de vinho, talvez ela estivesse sorrindo para m im , em vez de m e olhar com o se tivesse acabado de se encontrar com seu pior pesadelo.

— Com o está?

— Você não tem o direito de m e perguntar isso.

Ela tenta passar por m im , m as eu a bloqueio com o braço estendido.

— Eu só estava fazendo o m eu trabalho, Em m a.

— Tenho que voltar para perto do Jacob.

— Ouça, sinto m uito por isso ter acontecido com você, porque você j á teve que enfrentar tantas dificuldades. Mas, no dia em que a Jess m orreu, um a m ãe perdeu um a filha.

— E agora — diz ela — você vai m e fazer perder o m eu filho.

Ela em purra m eu braço. Dessa vez, eu a deixo ir.

 

Helen passa dez m inutos m e fazendo apresentar m inhas credenciais: m inha posição de capitão, m eu treinam ento com o detetive em Townsend, o fato de eu estar fazendo isso desde antes de Jesus nascer, blá-blá-blá, tudo o que um j úri quer ouvir para saber que está em boas m ãos.

— Com o o senhor se envolveu na investigação da m orte de Jess Ogilvy ? — com eça Helen.

— O nam orado dela, Mark Maguire, foi à delegacia e inform ou seu desaparecim ento em 13 de j aneiro. Ele não a via desde a m anhã do dia 12 e não conseguia fazer contato. Ela não tinha nenhum a viagem planej ada e seus am igos e pais tam bém não sabiam onde ela estava. A bolsa e o casaco de Jess continuavam na casa, m as alguns obj etos pessoais tinham sum ido.

— Por exem plo?

— A escova de dentes, o celular. — Dou um a olhada para Jacob, que levanta as sobrancelhas, em expectativa. — E algum as roupas em um a m ochila — concluo, e ele sorri e abaixa a cabeça, aprovando.

— O que o senhor fez?

— Fui com o sr. Maguire até a casa e fiz um a lista dos obj etos que tinham desaparecido. Tam bém peguei um bilhete digitado que estava na caixa de correio, pedindo que a correspondência fosse guardada, e enviei ao laboratório para pesquisa de digitais. Depois disse ao sr. Maguire que teríam os que esperar para ver se a srta. Ogilvy aparecia.

— Por que enviou o bilhete ao laboratório? — pergunta Helen.

— Porque pareceu estranho digitar um bilhete para o carteiro.

— E recebeu os resultados do laboratório?

— Sim . Foram inconclusivos; nenhum a im pressão digital foi encontrada no papel. Isso m e levou a acreditar que talvez fosse um bilhete digitado por alguém suficientem ente esperto para usar luvas ao m anuseá-lo. Um a pista falsa, para nos fazer pensar que Jess tinha ido em bora de livre e espontânea vontade.

— O que aconteceu depois?

— Recebi um a ligação do sr. Maguire no dia seguinte, dizendo que os CDs de um a estante tinham sido reposicionados em ordem alfabética. Não m e pareceu um sinal claro de que houvesse algo errado. A própria Jess poderia ter feito isso. E, na m inha experiência, crim inosos não tendem a ser m aníacos por organização. Mas abrim os um a investigação form al sobre o desaparecim ento da srta. Ogilvy. Um a equipe de investigadores foi enviada à sua residência para coletar provas. Peguei a agenda eletrônica dela na bolsa, que estava na cozinha, e com ecei a contatar as pessoas que ela havia encontrado antes do desaparecim ento e as que estavam agendadas para aquele dia.

— Tentou contatar Jess Ogilvy durante essa investigação?

— Inúm eras vezes. Ligam os para o celular dela, m as caía direto na caixa postal, até que esta tam bém ficou cheia. Com a aj uda do FBI, tentam os rastrear o telefone.

— Com o assim ?

— O FBI tem um software que usa o GPS do celular para encontrar coordenadas com um a proxim idade de um m etro da localização física efetiva em qualquer lugar do m undo, m as nesse caso os resultados foram inconclusivos. O telefone precisa estar ligado para que o software funcione e, aparentem ente, o de Jess Ogilvy não estava. Tam bém analisam os as m ensagens deixadas no telefone da residência dela. Um a era do sr. Maguire. Outra era de um vendedor, outra da m ãe do réu e três eram cham adas perdidas originadas do núm ero do celular da própria Jess Ogilvy. Com base nos horários da secretária eletrônica, isso sugeria que a srta. Ogilvy ainda estava viva em algum lugar no m om ento em que fez as ligações. Ou que estivéssem os sendo levados a acreditar nisso pela pessoa que estava com o celular.

— Detetive, quando o senhor se encontrou pela prim eira vez com o réu?

— No dia 15 de j aneiro.

— Já o tinha visto anteriorm ente?

— Sim . Em um a cena de crim e, um a sem ana antes. Ele entrou no m eio de um a investigação.

— Onde se encontrou com o sr. Hunt no dia 15 de j aneiro?

— Na casa dele.

— Quem m ais estava presente?

— A m ãe dele.

— O senhor levou o réu em custódia nessa ocasião?

— Não, ele não era suspeito. Eu fiz perguntas sobre a sessão de orientação com Jess. Ele disse que tinha ido à casa dela para a sessão das 14h35, m as não a encontrou. Falou que voltou a pé para casa. E tam bém revelou que Mark Maguire não estava presente quando ele chegou à casa da srta. Ogilvy. Quando lhe perguntei se ele j á tinha visto Jess brigar com o nam orado, ele disse: Hasta la vista, baby.

— O senhor reconheceu essa frase?

— Creio que é atribuída ao ex-governador da Califórnia — digo. — Antes de ele entrar para a política.

— O senhor perguntou m ais algum a coisa ao réu naquele encontro?

— Não, eu fui... m andado em bora. Eram quatro e m eia da tarde, e a essa hora ele assiste a um program a na televisão.

— O senhor se encontrou com o réu novam ente?

— Sim . Recebi um telefonem a de Em m a Hunt, m ãe dele, avisando que Jacob tinha algo para m e contar.

— O que Jacob disse nessa segunda conversa?

— Ele m e m ostrou a m ochila desaparecida de Jess Ogilvy e algum as roupas dela. Adm itiu que tinha ido à casa dela e encontrado sinais de luta, que ele lim pou.

— Lim pou?

— Sim . Arrum ou os bancos caídos, recolheu a correspondência que estava espalhada no chão e guardou os CDs em ordem alfabética. Pegou a m ochila porque achou que ela talvez pudesse precisar. E então m e m ostrou a m ochila e todos os obj etos que estavam dentro.

— O senhor levou Jacob em custódia dessa vez?

— Não.

— Levou a m ochila e as roupas?

— Sim . Nós as exam inam os no laboratório e os testes foram negativos. Não havia im pressões digitais, nem sangue, nem DNA.

— O que aconteceu depois? — pergunta Helen.

— Fui m e reunir com a equipe de investigadores na casa de Jess Ogilvy. Eles haviam encontrado traços de sangue no banheiro, um a tela cortada em um a j anela da cozinha e um a vidraça quebrada. Encontraram tam bém um a m arca de bota do lado de fora da casa que parecia corresponder às botas usadas por Mark Maguire.

— O que houve depois disso?

Olho para os j urados.

— Na segunda-feira, dia 18 de j aneiro, pouco depois das três da m anhã, o Departam ento de Polícia de Townsend recebeu um a ligação para a em ergência. Todas as ligações para o serviço de em ergência são rastreadas por tecnologia de GPS, para que sej a possível chegarm os a quem quer que estej a fazendo a cham ada. Essa ligação foi originada em um a galeria pluvial a cerca de trezentos m etros da casa onde Jess Ogilvy m orava. Eu atendi a ocorrência. O corpo da vítim a, e seu telefone, foram encontrados lá, e ela estava enrolada em um a colcha. Um a equipe de televisão fez um a film agem ali, que foi exibida no noticiário do m eio-dia da WCAX... — Hesito, enquanto espero Helen pegar a fita de vídeo com a film agem , registrá-la com o prova e puxar o m onitor para m ais perto do j úri para que eles possam ver a reportagem .

Há um profundo silêncio quando o rosto da repórter preenche a tela, seus olhos lacrim ej ando por causa do frio, enquanto os investigadores da cena do crim e se m ovim entam atrás dela. A repórter m uda um pouco de lugar e Helen congela a im agem .

— O senhor reconhece este cobertor, detetive? — pergunta ela.

É um a colcha m ulticolorida, nitidam ente feita à m ão.

— Sim , é o cobertor que estava enrolado no corpo de Jess Ogilvy.

— Então é o m esm o cobertor?

Ela segura a colcha, com as m arcas de sangue arruinando o padrão de cores aqui e ali.

— Sim , é — digo.

— O que aconteceu depois disso?

— Com a descoberta do corpo, m andei alguns policiais prenderem Mark Maguire pelo assassinato de Jess Ogilvy. Eu o estava interrogando quando recebi outro telefonem a.

— A pessoa se identificou?

— Sim . Era a m ãe de Jacob Hunt, Em m a.

— Com o ela estava? — pergunta Helen.

— Estava m uito agitada. Extrem am ente nervosa.

— O que ela lhe disse?

O outro advogado, aquele que parece ainda não ter saído do colégio, protesta.

— Isso é testem unho indireto, Excelência — diz ele.

— Senhores advogados, aproxim em -se — o j uiz pede.

Helen fala baixinho.

— Excelência, o que desej o argum entar é que a m ãe telefonou porque tinha acabado de ver a reportagem com aquela colcha na tela e ligou o fato com seu filho. Por isso, Excelência, é um a exceção.

— O protesto está indeferido — diz o j uiz, e Helen se aproxim a de m im outra vez.

— O que a m ãe do réu lhe disse? — repete ela.

Não quero olhar para Em m a. Já posso sentir o calor de seus olhos, as acusações.

— Ela m e disse que a colcha pertencia a seu filho.

— Com base nos resultados dessa conversa, o que o senhor fez?

— Pedi que a sra. Hunt levasse Jacob à delegacia, para que pudéssem os conversar m elhor.

— O senhor determ inou a prisão de Jacob Hunt pelo assassinato de Jess Ogilvy ?

— Sim .

— O que aconteceu, então?

— Retirei todas as acusações contra o sr. Maguire. Tam bém executei um m andado de busca na casa do réu.

— O que encontrou lá?

— Encontram os o rádio scanner de polícia de Jacob Hunt, um a câm ara de vaporização im provisada para im pressões digitais e m ais de um a centena de cadernos escritos.

— O que havia nesses cadernos?

— Jacob os usava para registrar inform ações sobre os episódios de CrimeBusters a que assistia. Ele anotava a data em que o episódio tinha sido transm itido, as provas coletadas e se ele tinha ou não conseguido solucionar o crim e antes dos detetives da televisão. Eu o vi escrevendo na prim eira vez em que fui falar com ele em sua casa.

— Quantos cadernos o senhor encontrou?

— Cento e dezesseis.

A prom otora registra um deles com o prova.

— O senhor reconhece isto, detetive Matson?

— É um desses cadernos. O que tem os escritos m ais recentes.

— Poderia virar até a página catorze desse caderno e nos dizer o que se encontra ali?

Leio em voz alta o texto.

 

“Na casa dela. 12/1/10.

Situação: Nam orado notifica a polícia sobre m oça desaparecida.

Provas:

Roupas em pilhadas sobre a cam a

Escova de dentes faltando, batom faltando

Bolsa e casaco da vítim a continuam no local

Telefone celular faltando

Lum inol no banheiro — sangue detectado

Mochila desaparecida com roupas e bilhete na caixa de correio — pistas falsas de sequestro

Tela cortada — m arcas de bota do lado de fora que correspondem à do nam orado

Celular rastreado por ligação para a em ergência até localização do corpo em galeria pluvial”

 

— Há algum a coisa estranha nesse item em particular?

— Não sei se é algum episódio de CrimeBusters, m as é a cena de crim e exata encontrada na residência de Jess Ogilvy. É exatam ente com o encontram os o corpo dela. E todos esses detalhes são inform ações que ninguém deveria ter — digo. — Exceto a polícia... e o assassino.