Um Mundo à Parte
Theo
No j antar, sou eu quem vê m eu irm ão roubando a faca.
Não digo nada a princípio. Mas é perfeitam ente claro para m im o j eito com o ele faz um a pausa no m eio de seu arroz am arelo e de seus ovos m exidos para soltar os grãos de um a espiga de m ilho e, então, em purra a faca com os polegares para a borda da m esa, para que ela caia em seu colo.
Minha m ãe continua falando sobre o j ulgam ento. Sobre a m áquina de café no tribunal que só serve café frio; sobre o que Jacob vai vestir am anhã; sobre a defesa, que fará sua apresentação de m anhã. Não acho que nenhum de nós estej a ouvindo, porque Jacob está tentando não m exer os om bros enquanto enrola a faca em um guardanapo e eu estou tentando estudar cada m ovim ento dele.
Quando ele com eça a se levantar da m esa e m inha m ãe o detém com um a tosse seca e forçada, tenho certeza de que vai cobrar o talher roubado. Mas, em vez disso, ela diz:
— Não está esquecendo de nada?
— Vocês m e dão licença? — Jacob m urm ura e, um m inuto depois, j á j ogou no lixo o resto de com ida de seu prato e está subindo para o quarto.
— O que será que ele tem ? — m inha m ãe com enta. — Mal com eu.
Enfio o resto da com ida na boca e m urm uro um pedido de licença. Corro para cim a, m as Jacob não está no quarto dele. A porta do banheiro tam bém está totalm ente aberta. É com o se ele tivesse desaparecido.
Entro no m eu quarto e, de repente, sou agarrado e em purrado contra a parede e há um a faca na m inha garganta.
Bem , só vou dizer que é um tanto deprim ente adm itir que esta não é a prim eira vez em que m e encontro nesse cenário com m eu irm ão. Faço o que sei que funciona: m ordo o punho dele.
Seria de im aginar que ele previsse isso, m as não é o que acontece; a faca retine no chão e eu em purro a barriga m ole dele com m eu cotovelo. Ele dobra o corpo e gem e.
— Que m erda você está fazendo? — grito.
— Treinando.
Pego a faca e a coloco na gaveta da m inha escrivaninha, a que m antenho trancada, onde aprendi a guardar as coisas que não quero que Jacob pegue.
— Treinando assassinato? — pergunto. — Seu m aluco. É por isso que você vai ser condenado.
— Eu não ia machucar você. — Jacob senta pesadam ente em m inha cam a. — Tinha um a pessoa olhando para m im com um a cara estranha hoj e.
— Acho que m uitas pessoas naquele tribunal estavam olhando para você com um a cara estranha.
— Mas esse cara específico m e seguiu até o banheiro. Preciso arrum ar um j eito de m e defender.
— Certo. E o que você acha que vai acontecer am anhã de m anhã quando você entrar no tribunal e os detectores de m etal com eçarem a apitar? E todos aqueles repórteres idiotas virem você tirando um a faca de carne de dentro da m eia?
Ele franze a testa. Esse é m ais um de seus planos Asperger sem pé nem cabeça, em que ele nunca pensa direito. Com o quando ligou para a polícia para denunciar m inha m ãe dois m eses atrás. Para Jacob, tenho certeza de que parecia perfeitam ente lógico. Para o resto do m undo, nem tanto.
— E se não houver nada errado com igo? — diz Jacob. — E se a razão de eu agir assim e pensar assim for só porque sem pre sou deixado de fora? Se eu tivesse am igos, sabe, talvez eu não fizesse coisas que parecem estranhas para os outros. É com o bactérias que só crescem no vácuo. Talvez nem exista essa coisa de Asperger. Vai ver que tudo isso é o que acontece quando a gente não se encaixa.
— Não vá dizer isso ao seu advogado. Nesse m om ento, ele precisa que o Asperger exista em todo seu esplendor. — Olho para as m ãos de Jacob. As cutículas dele estão m ordidas até a pele; é com um ele m order até sangrar. Minha m ãe costum ava enrolar esparadrapo em volta de todos os dedos dele antes de m andá-lo para a escola. Um a vez, no corredor, ouvi duas m eninas o cham ando de Múm ia. — Jacob — digo baixinho —, vou contar um a coisa para você que ninguém m ais sabe.
Sua m ão balança de encontro à coxa.
— Um segredo?
— É. Mas você não pode contar para a m am ãe.
Eu quero contar para ele. Já faz m uito tem po que quero contar para alguém . Mas talvez Jacob estej a certo: sem ter espaço no m undo, o que é deixado para trás vai ficando cada vez m aior e m ais irreconhecível. Aquilo bloqueia m inha garganta, rouba todo o ar do quarto. E de repente estou chorando com o um bebê; estou enxugando os olhos na m anga da blusa e tentando fingir que m eu irm ão não está sendo j ulgado no tribunal; que m eu irm ão não vai para a cadeia; que isso não é um preço cárm ico que estam os pagando por todas as coisas ruins que fiz e por todos os pensam entos ruins que tive.
— Eu estive lá. — As palavras saem com o um a explosão da m inha boca. — Eu estive lá no dia em que a Jess m orreu.
Jacob não olha para m im , e talvez assim sej a m ais fácil. Ele agita a m ão um pouco m ais rápido e então a leva até o pescoço.
— Eu sei — diz ele.
Meus olhos se arregalam .
— Você sabe?
— Claro que sei. Vi suas pegadas. — Ele olha por cim a do m eu om bro. — Foi por isso que tive que fazer aquilo.
Ah, m eu Deus. Ela contou a Jacob que eu a estava espiando nua e que ela ia à polícia, e ele a fez se calar. Agora estou aos soluços. Mal consigo respirar.
— Sinto m uito.
Ele não m e toca, nem m e abraça, nem m e conforta com o m inha m ãe faria. Com o qualquer outro hum ano faria. Jacob só fica abanando os dedos e então diz: Sinto muito, sinto muito, com o eu disse, um eco desprovido de m úsica, com o chuva sobre m etal.
É repetição de sons. Faz parte do Asperger. Quando Jacob era pequeno, ele repetia perguntas que eu fazia e as j ogava de volta para m im com o um arrem esso de beisebol em vez de responder. Minha m ãe m e disse que era com o suas citações de film es, um m ovim ento repetitivo oral. Era o m odo de Jacob de sentir as palavras em sua boca quando não tinha nada para dizer de volta.
Mesm o assim , eu m e deixo fingir que é sua m aneira robótica e m onocórdica de pedir desculpas para mim tam bém .