Um Mundo à Parte
Jacob
Jess está m orta.
Minha m ãe m e conta depois da escola. Ela fica olhando firm e para m im enquanto fala, com o se estivesse tentando encontrar pistas em m inha expressão, da m esm a m aneira com o fico atento à inclinação das sobrancelhas de alguém , à posição de sua boca e ao tam anho de suas pupilas para tentar associá-los a um a em oção. Por um instante, penso: Será que ela tem Asperger também? Mas aí, quando parece que ela está analisando m inha expressão, a dela m uda, e não sei dizer o que está sentindo. Seus olhos parecem tensos nos cantos e a boca está apertada. Ela está brava com igo ou apenas chateada pela m orte de Jess? Quer que eu reaj a à notícia que j á sei? Eu poderia agir com o se estivesse chocado (queixo caído, olhos arregalados), m as isso tam bém significaria que estou m entindo e, então, m inha cara de m entira (olhos fitando o teto, dentes m ordendo o lábio inferior) faria um a invasão hostil em m inha cara de choque. Além disso, m entir está no topo da lista das Regras da Casa. Recapitulando:
1. Lim par a própria bagunça.
2. Falar a verdade.
Quanto à m orte de Jess: eu fiz as duas coisas.
Im agine com o seria se você fosse repentinam ente j ogado do Brasil em Portugal. De repente, comboio seria um trem , e não m ais um agrupam ento de carros se m ovendo j untos. Vender a retalho não seria vender pedaços de pano, m as a varej o. Rato, além do roedor, é tam bém o m ouse do com putador. Talho não é só um corte, m as açougue; frigorífico é um a geladeira e telemóvel é celular.
Se o largassem em Portugal e você fosse, digam os, coreano ou inglês, sua confusão seria esperada. Afinal, você não fala a língua. Se fosse brasileiro, no entanto, a língua tecnicam ente seria a m esm a. Mas você se vê no m eio de conversas em que não encontra sentido e pede para as pessoas repetirem m il vezes na esperança de que as palavras desconhecidas acabem se encaixando.
É essa a sensação do Asperger. Tenho que dedicar m uito esforço a coisas que são naturais para os outros, porque sou com o um turista aqui.
E esta é um a viagem só de vinda.
Estas são as coisas de que vou m e lem brar sobre Jess:
1. No Natal, ela m e deu um pedaço de m alaquita do tam anho e da form a exatos de um ovo de galinha.
2. Ela é a única pessoa que j á conheci que nasceu em Ohio. 3. Seu cabelo era diferente dentro e fora de casa. Quando estava no sol, era m enos am arelo e m ais cor de fogo.
4. Ela m e m ostrou A princesa prometida, que talvez sej a um dos m elhores film es da história do cinem a.
5. Sua caixa postal na UVM era núm ero 5995. 6. Ela desm aiava quando via sangue, m as m esm o assim , no outono passado, foi à m inha apresentação de física sobre padrões de respingos de sangue e ficou de costas durante os slides em PowerPoint. 7. Em bora algum as vezes ela provavelm ente ficasse enj oada de m e ouvir falar, nunca, j am ais m e disse para calar a boca.
Sou a prim eira pessoa a dizer para você que, na verdade, não entendo o am or. Com o se pode am ar seu novo corte de cabelo, seu trabalho e sua nam orada, tudo ao m esm o tem po? É evidente que a palavra não significa a m esm a coisa em diferentes situações e é por isso que nunca consegui com preendê-la usando a lógica.
O lado físico do am or m e aterroriza, para ser sincero. Quando j á se é hipersensível à sensação de qualquer coisa roçando sua pele ou a pessoas paradas perto o bastante para tocá-lo, não há absolutam ente nada em um a relação sexual que faça dela um a experiência que se desej e experim entar.
Menciono isso com o um a ressalva à últim a coisa de que m e lem brarei sobre Jess:
8. Eu poderia tê-la am ado. Talvez j á am asse.
Se eu fosse criar um a série de ficção científica na televisão, seria sobre um sensitivo, um a pessoa que consegue naturalm ente ler a aura das em oções das pessoas e, com um único toque, absorver seus sentim entos tam bém . Seria tão fácil se eu pudesse olhar para alguém que estivesse feliz, tocar seu braço e, de repente, sair tam bém borbulhando de alegria, em vez de m e angustiar sem saber se interpretei errado suas ações e reações.
Qualquer um que chora em film es é um sensitivo enrustido. O que está acontecendo naquela tela vaza pelo celuloide de form a suficientem ente real para evocar a em oção. Por que outro m otivo a gente se veria rindo das palhaçadas de dois atores que, fora das telas, não se suportam ? Ou chorando pela m orte de um ator que, quando a câm era é desligada, sacode a poeira da roupa e pega um ham búrguer para j antar?
Quando eu assisto a film es, é um pouco diferente. Cada cena se torna um catálogo de possíveis situações sociais em m inha m ente. Se você um dia estiver discutindo com uma mulher, experimente beijá-la para deixá-la desconcertada. Se estiver no meio de uma batalha e seu companheiro levar um tiro, amizade significa que você deve voltar sob fogo para resgatá-lo. Se quiser ser o centro da festa, diga: “Toga!”
Se, m ais tarde, eu m e encontrar nessa situação específica, posso procurar em m inhas fichas de interações cinem atográficas, im itar o com portam ento e saber, pelo m enos dessa vez, que estou dando a resposta certa.
A propósito, nunca chorei em um film e.
Um a vez, eu estava contando a Jess tudo o que eu sabia sobre cachorros.
1. Eles evoluíram de um pequeno m am ífero arborícola cham ado miacis, que viveu quarenta m ilhões de anos atrás.
2. Eles com eçaram a ser dom esticados pelos hom ens das cavernas na era Paleolítica.
3. Qualquer que sej a a raça, um cachorro tem trezentos e vinte e um ossos e quarenta e dois dentes perm anentes.
4. Dálm atas nascem inteiram ente brancos.
5. A razão de eles girarem em círculo antes de se deitarem é que, quando eram anim ais selvagens, isso aj udava a achatar a gram a longa para que ela servisse de cam a.
6. Cerca de um m ilhão de cachorros foram colocados com o beneficiários principais no testam ento do dono.
7. Eles suam pelas patas.
8. Cientistas descobriram que cachorros podem identificar pelo cheiro a presença de autism o em crianças.
— Você está inventando isso — ela disse.
— Não. É sério.
— E por que você não tem um cachorro?
Havia tantas respostas para essa pergunta que eu realm ente não sabia por onde com eçar. Minha m ãe, por exem plo, que dizia que alguém que não consegue se lem brar de escovar os dentes duas vezes por dia não tinha a firm eza de espírito para cuidar de outra criatura viva. Meu irm ão, que era alérgico a quase tudo que tivesse pelo. O fato de que cachorros, que haviam sido m inha paixão depois dos dinossauros, m as antes da análise de cenas de crim e, haviam perdido sua relevância.
A verdade é que eu, provavelm ente, nunca ia querer um cachorro. Cachorros são com o os garotos na escola que eu não suporto: aqueles que ficam em volta, m as vão em bora assim que percebem que não vão conseguir o que querem ou precisam com a conversa. Eles andam em grupos. Lam bem a gente e acham os que é porque gostam de nós, m as, na verdade, é só porque nosso dedo ainda está com o cheiro do sanduíche de peru que com em os.
Por outro lado, acho que gatos têm Asperger.
Com o eu, eles são m uito inteligentes.
E, com o eu, às vezes sim plesm ente precisam que os deixem em paz.