Um Mundo à Parte
Oliver
Estou m e sentindo m uito bem , porque, nesta sexta-feira, ganhei m inha ação j udicial contra o porco.
Bem , tecnicam ente, não foi o porco que iniciou a ação. Essa honra pertence a Buff (abreviação de Buffalo, e j uro que não estou inventando isso) Wings, um m otociclista de cento e quarenta quilos que estava dirigindo sua Harley vintage por um a estrada em Shelburne quando um gigantesco porco solitário saiu do acostam ento e entrou direto em seu cam inho. Com o resultado do acidente, o sr. Wings perdeu um olho — o que ele m ostrou ao j úri à certa altura, levantando o tam pão de cetim preto, ao que, é claro, eu obj etei.
Enfim , quando Wings saiu do hospital, ele processou o proprietário das terras de onde o porco tinha vindo. Mas as coisas acabaram se revelando m ais com plicadas do que isso. Elm er Hodgekiss, o dono do porco, só estava alugando a propriedade de um a senhora de oitenta anos cham ada Selm a Frack, que m orava em Brattleboro. No contrato de Elm er havia um a cláusula específica proibindo bichos de estim ação ou qualquer anim al. Mas Elm er defendeu sua criação de porcos proibida (e sua igualm ente subversiva criação de galinhas, aliás) com base no argum ento de que Selm a estava em um a casa de repouso e nunca visitava a propriedade, e o que os olhos não veem o coração não sente.
Eu estava representando Selm a Frack. Sua cuidadora no Lar de Idosos Green Willow m e contou que Selm a m e escolheu na lista telefônica por causa do m eu anúncio nas Páginas Am arelas:
“Oliver O. Bond”, dizia, com um padrão gráfico que lem brava o logotipo com a arm a do 007, exceto por ser OOB, m inhas iniciais. “Quando precisar de um advogado que ninguém abala nem cala.”
— Obrigado — eu disse. — A ideia foi toda m inha.
A cuidadora só olhou para m im sem entender m uito bem .
— Ela gostou de poder ler a fonte. A m aioria dos advogados usa letras m uito pequenas.
Buff Wings queria que o seguro de Selm a cobrisse as despesas m édicas dele, m as eu tinha dois trunfos em m eu favor.
1. O argum ento confuso de Buff Wings de que Selm a deveria ser considerada responsável em bora (a) não soubesse sobre o porco, (b) tivesse proibido expressam ente o porco e (c) tivesse despej ado Elm er Hodgekiss assim que soube que ele havia soltado seu porco assassino sobre a população.
2. Buff Wings havia decidido ser seu próprio defensor.
Citei especialistas para refutar as alegações de Wings sobre danos, tanto em ocionais com o físicos. Por exem plo, sabia que um hom em em Ohio é especialista em dirigir com um só olho? E que, em quase todos os estados, é possível continuar dirigindo, m esm o m otocicletas, desde que o outro olho tenha visão perfeita? E que, em algum as circunstâncias, o term o ponto cego pode ser politicam ente incorreto?
Depois que o j uiz decidiu em nosso favor, acom panhei Selm a e sua cuidadora até o elevador do tribunal.
— Bom — disse a cuidadora. — Tudo está bem quando acaba bem .
Dei um a olhada para Selm a, que ficara dorm indo a m aior parte do tem po.
— Olho por olho e o m undo acabará cego — respondi. — Por favor, transm ita m eus cum prim entos à sra. Frack por sua vitória no tribunal.
Então, desci correndo as escadas para o estacionam ento e dei um soco no ar.
Tenho cem por cento de sucesso em m eus processos.
E daí que só tive um caso?
Ao contrário do que as pessoas pensam , a tinta ainda não está secando em m eu diplom a de advogado.
É m olho de pizza.
Mas foi um acidente inocente. Com o m eu escritório fica em cim a da cantina local e Mam a Spatakopoulous rotineiram ente bloqueia m inha subida pela escada para enfiar um prato de espaguete ou um a torta de cebola e cogum elos em m inhas m ãos, seria rude de m inha parte recusar. Associe-se a isso o fato de que não tenho m esm o dinheiro para com er, e m e opor a com ida grátis seria um a idiotice. É verdade que foi burrice m inha im provisar um guardanapo com um dos papéis em pilhados em m inha m esa, m as a probabilidade de que fosse m eu diplom a (e não m eu pedido de com ida chinesa para viagem ) era m uito pequena.
Se algum novo cliente pedir para ver m eu diplom a, é só eu dizer que ele está sendo em oldurado.
Com o de hábito, quando estou entrando de volta em casa, Mam a S. m e encontra com um calzone.
— Você devia usar um chapéu, Oliver.
Meu cabelo ainda está pingando do banho no vestiário do colégio. O gelo com eçou a se form ar nele.
— Você vai cuidar de m im quando eu tiver pneum onia, não vai? — brinco.
Ela ri e em purra a caixa para m im . Enquanto corro escada acim a, Thor com eça a latir com o um louco. Abro a porta só um pouquinho, para ele não sair aos pulos.
— Calm a — digo. — Só fiquei fora quinze m inutos.
Ele lança todos os seus cinco quilos sobre m im .
Thor é um poodle toy. Ele não gosta que o cham em de poodle e logo com eça a rosnar, m as quem pode culpá-lo? Que cachorro m acho quer ser um poodle? Esse nom e devia ser só para fêm eas, na m inha opinião.
Faço o m elhor que posso por ele. Dei-lhe o nom e de um guerreiro poderoso. Deixo seu pelo crescer, m as, em vez de torná-lo m enos afem inado, só faz parecer que ele tem um esfregão na cabeça.
Eu o pego e o coloco sob o braço com o se fosse um a bola de futebol e, então, reparo que há penas espalhadas por todo o escritório.
— Ah, não — digo. — O que você fez, Thor?
Eu o ponho no chão e exam ino o estrago.
— Que beleza. Muito obrigado, poderoso cão de guarda, por m e proteger de m eu próprio travesseiro.
Puxo o aspirador para fora do arm ário e com eço a aspirar os resíduos. É m inha culpa, eu sei, por não guardar a roupa de cam a antes de sair para cuidar de m eus afazeres. No m om ento, m eu escritório está sendo m inha casa tam bém . Isso não é para sem pre, é claro, m as tem ideia de com o é caro pagar o aluguel de um escritório de advocacia e de um apartam ento? Além disso, estando no centro, posso andar até o colégio todos os dias, e o zelador de lá tem sido m uito legal m e deixando usar o vestiário com o m eu chuveiro pessoal. Eu lhe dei alguns conselhos gratuitos sobre seu divórcio, e essa é sua m aneira de m e agradecer.
Costum o dobrar o cobertor e enfiá-lo com o travesseiro no arm ário. Escondo m inha pequena TV de treze polegadas dentro de um m óvel de arquivo cavernosam ente vazio. Assim , se um cliente chegar para contratar m eus serviços, não vai sentir o clim a de que eu sou terrivelm ente m alsucedido.
Sou novo na cidade, só isso. Essa é a razão de eu passar m ais tem po organizando clipes de papel em m inha m esa do que fazendo algum trabalho j urídico.
Eu m e form ei com louvor na Universidade de Verm ont sete anos atrás, com graduação em inglês. E aqui vai um a pequena pérola de sabedoria para você, caso estej a interessado: não dá para exercer essa profissão no m undo real de um país da língua inglesa. Que habilidades eu tinha, honestam ente? Podia ler m ais depressa que qualquer pessoa em um a disputa de quem é m ais rápido no gatilho? Podia escrever um ensaio analítico totalm ente chocante sobre as sugestões hom oeróticas de sonetos de Shakespeare?
Sim , isso e m ais um dólar e m eio e dá para com prar um a xícara de café.
Então, decidi que precisava parar de viver no teórico e com eçar a experim entar o prático. Respondi a um anúncio que encontrei na seção de classificados do Burlington Free Press para ser aprendiz de ferrador. Andei pelos cam pos e aprendi a identificar o que era um a andadura norm al para um cavalo e o que não era. Estudei com o aparar os cascos de um burro e com o m odelar um a ferradura em um a bigorna, fixá-la com os cravos, lim á-la e ver o anim al sair andando outra vez.
Eu gostava de ser ferrador. Gostava da sensação de setecentos quilos de cavalo pressionados contra m eu om bro quando eu dobrava a perna para exam inar o casco. Mas, depois de quatro anos, fiquei im paciente. Decidi estudar direito, pela m esm a razão pela qual todos vão para a faculdade de direito: porque não tinha ideia do que m ais poderia fazer.
Vou ser um bom advogado. Talvez até um ótim o advogado. Mas aqui estou eu, aos vinte e oito anos, e m eu m edo secreto é ser apenas m ais um suj eito que passa a vida inteira ganhando dinheiro fazendo algo que nunca gostou realm ente de fazer.
Acabo de guardar o aspirador de volta no arm ário quando ouço um a batida hesitante à porta. Encontro um hom em parado ali de m acacão, deslizando as m ãos pela costura de um gorro preto de lã. Ele cheira a fum aça.
— Pois não? — pergunto.
— Queria falar com o advogado.
— Sou eu. — No sofá, Thor com eça a rosnar, e eu lhe lanço um olhar hostil. Se ele com eçar a afugentar m eus clientes potenciais, vai acabar sem teto.
— É m esm o? — diz o hom em , apertando os olhos para m e exam inar. — Você não parece ter idade suficiente para ser advogado.
— Tenho vinte e oito anos — respondo. — Quer ver m inha carteira de m otorista?
— Não, não — o hom em diz. — Eu, hã... estou com um problem a.
Eu o convido a entrar no escritório e fecho a porta.
— Sente-se, por favor, sr...
— Esch — diz ele, acom odando-se. — Hom er Esch. Hoj e eu estava no m eu quintal queim ando m ato e o fogo saiu do controle. — Ele olha para m im enquanto m e sento atrás da m esa. — E m eio que queim ou a casa do m eu vizinho.
— Meio? Ou queim ou?
— Queim ou. — Ele levanta o queixo. — Mas eu tinha licença para queim ada.
— Ótim o. — Registro em um bloco de notas: “LICENÇA PARA QUEIMAR”. — Houve algum a vítim a?
— Não. Eles não m oram m ais ali. Construíram outra casa do outro lado do terreno. Essa não passava m uito de um galpão. Meu vizinho j ura que vai m e processar por cada centavo que ele gastou naquele lugar. Por isso vim procurá-lo. Você é o prim eiro advogado que encontrei que está aberto aos dom ingos.
— Certo. Bom , posso ter que fazer algum a pesquisa antes de aceitar seu caso — digo, m as j á estou pensando: Ele queimou a casa do cara. Não tem como ganhar essa.
Esch tira um a fotografia do bolso interno do m acacão e a em purra para m im sobre a m esa.
— O lugar é este aqui no fundo, atrás da m inha esposa. Meu vizinho diz que são vinte e cinco m il dólares que eu vou ter que pagar.
Dou um a olhada na foto. Cham ar esse lugar de galpão é generosidade. Eu teria dito um barraco.
— Sr. Esch — digo —, acho que podem os definitivam ente baixar isso para quinze.