Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 84 de 121

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Um Mundo à Parte

Oliver

 

 

Três sem anas antes de irm os a j ulgam ento, com eçam os a seleção do j úri. Seria de im aginar que, com o autism o sendo diagnosticado com a frequência com que tem sido atualm ente, encontrar um j úri de pares de Jacob, ou pelo m enos pais que tenham filhos no espectro, não seria tão difícil assim . No entanto, os dois únicos j urados com filhos autistas que estão em nosso grupo inicial são aqueles contra os quais Helen usa seu direito de recusa perem ptória.

Entre m eus com parecim entos ao tribunal, recebo os laudos da dra. Newcom b e do dr. Cohn, os dois psiquiatras que exam inaram Jacob. Sem surpresa, o dr. Cohn considerou Jacob totalm ente capaz — o psiquiatra do Estado teria considerado um a torradeira capaz —, e a dra. Newcom b disse que Jacob era j uridicam ente incapaz no m om ento em que o crim e foi com etido.

Mesm o assim , o laudo da dra. Newcom b não vai ser tão útil assim . Nele, Jacob está parecendo um autôm ato. E a verdade é que os j urados podem desej ar ser j ustos, m as seus instintos em relação ao réu têm m uito a ver com o veredicto apresentado. O que significa que é m elhor eu dar um j eito de Jacob passar a im pressão m ais sim pática possível, um a vez que não tenho intenção de deixá-lo depor. Com sua falta de entonação, seu olhar evasivo, seus tiques nervosos... isso seria um desastre.

Um a sem ana antes do início do j ulgam ento, m inha atenção se volta para preparar Jacob para o tribunal. Quando chego à casa dos Hunt, Thor sai correndo do carro para a varanda, com o rabinho balançando. Ele se apegou m uito a Theo, ao ponto de eu às vezes m e perguntar se j á não deveria sim plesm ente deixá-lo passar a noite enrolado na cam a do garoto, j á que ele parece ter fixado residência lá m esm o. E Deus sabe quanto Theo precisa de com panhia — depois de sua viagem pelo país, ele foi posto de castigo até os trinta anos —, em bora eu sem pre lhe diga que provavelm ente vou conseguir encontrar um argum ento para recorrer dessa decisão.

Bato, m as ninguém atende. Já estou acostum ado a abrir a porta e entrar, então faço isso e vej o Thor subir a escada direto.

— Oi! — cham o, e Em m a aparece com um sorriso.

— Chegou bem na hora — diz ela.

— De quê?

— O Jacob tirou nota m áxim a em um a prova de m atem ática e, com o prêm io, deixei que ele m ontasse um a cena de crim e.

— Isso é m acabro.

— Apenas m ais um dia em m inha vida — responde ela.

— Pronto! — Jacob cham a lá de cim a.

Sigo Em m a, m as, em vez de entrarm os no quarto de Jacob, seguim os para o banheiro. Quando ela abre a porta, eu levo a m ão à boca, sem fôlego.

— O que... o que é isso? — consigo dizer.

Há sangue por toda parte. É com o se tivéssem os entrado no covil de um serial killer. Um a longa linha de sangue se curva horizontalm ente na parede branca do chuveiro. À frente, no espelho, há um a série de gotas em vários form atos alongados.

Mais estranho ainda é que Em m a não parece nem um pouco perturbada ao ver as paredes do chuveiro, o espelho e a pia cobertos de sangue. Ela olha para o m eu rosto e com eça a rir.

— Relaxa, Oliver — diz ela. — É só xarope de m ilho.

Ela vai até o espelho, passa o dedo na suj eira e o leva aos m eus lábios.

Não posso resistir ao desej o de provar o gosto dela. E, sim , é xarope de m ilho, im agino que m isturado com corante verm elho.

— Parabéns por contam inar um a cena de crim e, m ãe — Jacob m urm ura. — Então, lem bre que a parte m ais fina da m ancha de sangue geralm ente aponta na direção em que o sangue estava escorrendo...

De repente, im agino Jess Ogilvy de pé no chuveiro e Jacob na frente dela, parado bem onde Em m a está.

— Vou dar um a dica — Jacob diz a Em m a. — A vítim a estava bem aqui. — Ele aponta para o tapete entre o chuveiro e o espelho sobre a pia.

Posso facilm ente im aginar Jacob com um a solução de água sanitária lim pando o espelho e o boxe do chuveiro na casa de Jess Ogilvy.

— Por que no banheiro? — pergunto. — O que fez você escolher m ontar a cena do crim e aqui, Jacob?

Essas palavras são suficientes para Em m a com preender por que estou tão abalado.

— Ah, m eu Deus — diz ela, virando-se. — Eu não pensei... não im aginei...

— Respingos de sangue fazem m uita suj eira — responde Jacob, confuso. — Achei que m inha m ãe provavelm ente não gritaria com igo se eu fizesse isso no banheiro.

Um a linha do laudo da dra. Newcom b vem à m inha cabeça: Eu estava seguindo as regras.

— Lim pe isso — digo, e saio dali.

 

— Novas regras — digo, quando nós três estam os sentados à m esa da cozinha. — Em prim eiro lugar: não são m ais perm itidas m ontagens de cenas de crim e.

— Por quê? — Jacob pergunta.

— Me diga você, Jake. Você vai ser j ulgado por hom icídio. Acha que é inteligente criar um assassinato sim ulado um a sem ana antes do j ulgam ento? E se houver vizinhos espiando através das cortinas?

— A, nossos vizinhos estão m uito longe para enxergar pelas j anelas e B, a cena de crim e lá em cim a não tinha nada a ver com o que aconteceu na casa da Jess. Essa aqui m ostra o sangram ento arterial no chuveiro e tam bém o padrão do sangue lançado pela facada que m atou a vítim a, atrás dela, no espelho. Na casa da Jess...

— Eu não quero ouvir isso — interrom po, tam pando os ouvidos.

Toda vez que acho que tenho um a chance de salvar a pele de Jacob, ele faz algo desse tipo. Infelizm ente, hesito entre pensar se um com portam ento com o o que acabei de presenciar prova m inha alegação (com o ele poderia não ser considerado insano?) ou se é m acabram ente repugnante para um j úri. Afinal, Jacob não está conversando com coelhos gigantes im aginários; ele está fingindo que m atou alguém . Isso parece m uito deliberado para m im . É com o se fosse um treinam ento para que tudo possa sair perfeito na realidade.

— Regra núm ero dois: você precisa fazer exatam ente o que eu lhe disser para fazer no tribunal.

— Já estive um as dez vezes no tribunal — diz Jacob. — Acho que j á sei com o é.

Em m a sacode a cabeça.

— Ouça o que ele diz — ela intervém , com a voz baixa. — Agora, o Oliver é o chefe.

— Vou lhe dar um a pilha de post-its cada vez que entrarm os naquela sala — aviso. — Se você precisar de um intervalo, passe um a nota para m im .

— Que tipo de nota? — Jacob pergunta.

— Qualquer nota. Mas só faça isso se precisar de um intervalo. Tam bém vou lhe dar um bloco de anotações e um a caneta e quero que você vá tom ando notas. Com o faria se estivesse vendo CrimeBusters.

— Mas não tem nada interessante acontecendo naquele tribunal...

— Jacob — eu lhe digo, com seriedade —, sua vida vai estar sendo decidida ali. Regra núm ero três: você não pode falar com ninguém . Nem com sua m ãe. Quanto a você, Em m a — m e viro para ela —, não pode dizer ao Jacob com o ele deve se sentir, com o deve reagir ou com o deve parecer. Todos os bilhetes que passarem entre vocês serão lidos pela acusação e pelo j uiz. Não quero que conversem nem sobre o clim a, porque eles vão tentar dar interpretações a isso e, se acharem que qualquer coisa pareça suspeita, você vai ser retirada da m esa da defesa. Se quiser escrever Respire, sem problem a. Ou Está tudo bem, não se preocupe. Mas isso é o m ais específico a que pode chegar.

Em m a toca o braço de Jacob.

— Entendeu?

— Entendi — diz ele. — Posso ir agora? Você tem ideia de com o é difícil tirar o xarope de m ilho da parede depois que seca?

Eu o ignoro totalm ente.

— Regra núm ero quatro: você vai usar cam isa social e gravata, e não quero ouvir que você não tem dinheiro, Em m a, porque isso não é negociável.

— Nada de botões — Jacob anuncia, em um tom que não adm ite discussão.

— Por quê?

— Porque a sensação deles no m eu peito é estranha.

— Está bem — digo. — Que tal um a blusa de gola alta?

— Não posso usar m inha cam iseta verde da sorte? — Jacob pergunta. — Eu estava com ela quando fiz m eus exam es avançados e tirei oitocentos na seção de m atem ática.

— Por que não vam os até seu guarda-roupa ver se tem os algo adequado? — Em m a sugere, e todos subim os as escadas outra vez, agora para o quarto de Jacob. Evito deliberadam ente olhar para o banheiro.

Em bora a câm ara de vaporização ainda estej a com a polícia com o prova, Jacob arrum ou um a nova, feita com um vaso largo virado para baixo. Ele não é transparente com o o aquário, m as deve estar funcionando, porque sinto cheiro de cola. Em m a abre a porta do arm ário.

Se eu não tivesse visto com m eus próprios olhos, não teria acreditado. Crom aticam ente organizadas, as roupas de Jacob estão penduradas lado a lado, praticam ente sem se tocar. Há j eans e calças de algodão na área azul e um arco-íris de cam isetas de m angas longas e curtas. E, sim , na sequência correta, a cam iseta verde da sorte. Parece um santuário do Orgulho Gay.

Há um a linha fina entre parecer m entalm ente incapaz no tribunal e parecer desrespeitoso. Respiro fundo, refletindo sobre com o explicar isso a um cliente que não consegue pensar além da sensação de um a fileira de botões na pele.

— Jacob — digo —, você precisa usar um a cam isa com colarinho. E gravata tam bém . Sinto m uito, m as nenhum a dessas vai dar certo.

— O que a m inha aparência tem a ver com você dizer a verdade ao j úri?

— Eles vão ver você — respondo. — Então você precisa causar um a prim eira im pressão boa.

Jacob vira para outro lado.

— Eles não vão gostar de m im de nenhum j eito. Ninguém nunca gosta.

Ele não diz isso com o se sentisse pena de si m esm o. É m ais com o se estivesse sim plesm ente m e contando um fato, relatando com o o m undo funciona.

Depois que Jacob sai para lim par a suj eira que fez, lem bro que Em m a está no quarto com igo.

— O banheiro, eu... não sei o que dizer. — Ela senta na cam a de Jacob. — Ele faz isso o tem po todo, m ontando cenas para eu solucionar. É o que o deixa feliz.

— Bom , há um a grande diferença entre usar um a garrafa de xarope de m ilho para se divertir e usar um ser hum ano. Não preciso do j úri im aginando qual é a distância para pular de um ao outro.

— Você está nervoso? — ela pergunta, virando-se para m e encarar.

Concordo com a cabeça. Provavelm ente não deveria estar adm itindo isso para ela, m as não consigo evitar.

— Posso lhe fazer um a pergunta?

— Claro — respondo —, o que quiser.

— Você acha que ele m atou a Jess?

— Já lhe disse que isso não im porta para o j ulgam ento. Vam os usar a defesa com a m aior probabilidade de...

— Não estou perguntando a você com o advogado do Jacob — Em m a interrom pe. — Estou perguntando a você com o am igo.

Respiro fundo.

— Não sei. Se ele fez isso, não acredito que tenha sido intencional.

Ela cruza os braços.

— Eu só fico pensando que, se pudéssem os fazer a polícia reabrir o caso, investigar m elhor o nam orado da Jess...

— A polícia acha que j á encontrou o assassino, com base nas provas. Se não achasse, não estaríam os indo para o tribunal quarta-feira. A prom otora acha que tem provas suficientes para fazer o j úri ver a situação do j eito dela. Mas, Em m a, vou fazer todo o possível para evitar que isso aconteça.

— Tenho um a confissão a fazer — diz Em m a. — Quando fom os ver a dra. Newcom b, eu deveria ficar com ela m eia hora. Eu disse ao Jacob que voltaria em trinta m inutos, m as, totalm ente de propósito, continuei falando por m ais quinze. Queria que o Jacob ficasse perturbado por eu estar atrasada. Queria que ele j á estivesse um pouco fora de controle quando a encontrasse, para que ela pudesse escrever sobre todo esse com portam ento em seu laudo para o tribunal. — Os olhos de Em m a são escuros e profundos. — Que tipo de m ãe eu sou?

Olho para ela.

— O tipo que está tentando salvar o filho da prisão.

Em m a estrem ece. Ela vai até a j anela, esfregando os braços, em bora estej a calor dentro do quarto.

— Vou arrum ar um a cam isa social para ele — ela prom ete. — Mas fica a seu cargo convencer o Jacob a usar.