Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 26 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

Na secretária eletrônica na casa dos Robertson há seis m ensagens. Um a é de Mark Maguire, pedindo que Jess ligue para ele quando chegar. Um a é de um a lavanderia avisando que a saia dela está pronta. Um a aparece no identificador de cham adas com o sendo de E. Hunt. A m ensagem diz: “Oi, Jess, aqui é a m ãe do Jacob. Você poderia m e ligar?” As outras três ligações foram interrom pidas sem deixar m ensagem , e todas elas vêm do núm ero do telefone celular registrado em nom e de Jess Ogilvy.

Isso m e diz que ou ela é um a m ulher que sofreu agressão, se escondeu e agora está tentando, sem sucesso, arrum ar coragem para ligar para o nam orado, ou seu nam orado está querendo despistar a polícia depois de m atá-la acidentalm ente.

Passo a sexta-feira riscando os nom es da agenda eletrônica de Jess Ogilvy. Minha prim eira visita é para as duas m oças cuj os nom es aparecem com m ais frequência no histórico dos últim os m eses. Alicia e Cara são alunas de pós-graduação, com o Jess. Alicia usa tranças-raiz nos cabelos que descem até a cintura, e Cara é um a loirinha m iúda com calça cargo cam uflada e botinas pretas. Enquanto tom am os um café no centro estudantil, elas adm item que não veem Jess desde terça-feira.

— Ela faltou em um exam e da Górgona — diz Cara. — Ninguém falta a um exam e da Górgona.

— Górgona?

— Professora Górgona — ela explica. — É um curso-sem inário sobre educação especial.

“GÓRGONA”, escrevo em m inhas anotações.

— Jess j á se ausentou por alguns dias antes?

— É, um a vez — responde Alicia. — Ela foi passar um fim de sem ana prolongado em Cape Cod e não avisou a gente.

— Mas ela foi com o Mark — acrescenta Cara, torcendo o nariz.

— Parece que você não é m uito fã de Mark Maguire.

— Alguém é? — Alicia diz. — Ele não a trata direito.

— Com o assim ?

— Se ele diz “Pula”, ela nem pergunta “A que altura?” Já vai e com pra logo um pula-pula.

— Nós não a vem os m uito desde que eles com eçaram a nam orar — diz Cara. — O Mark gosta de ter a Jess só para ele.

Como a maioria dos parceiros abusivos, penso.

— Detetive Matson, vai ficar tudo bem com ela, não é? — pergunta Alicia.

Um a sem ana atrás, Jess Ogilvy provavelm ente estava onde estou agora, tom ando café com as am igas e nervosa com o exam e da Górgona.

— Espero que sim — respondo.

 

As pessoas não desaparecem sim plesm ente. Há sem pre um m otivo, ou um inim igo ressentido. Há sem pre um fio solto que com eça a se desenrolar.

O problem a é que Jess Ogilvy é, aparentem ente, um a santa.

— Fiquei surpresa por ela faltar no exam e — diz a professora Górgona. Um a m ulher pequena, com um coque de cabelos brancos e um vestígio de sotaque estrangeiro, ela não parece nem um pouco tão am eaçadora quanto Alicia e Cara fizeram crer. — É m inha aluna m ais notável, na verdade. Está fazendo o m estrado e escrevendo um a tese ao m esm o tem po. Ela se graduou com a nota m áxim a na Bates e trabalhou dois anos para a Teach for Am erica antes de decidir que seguiria carreira na área de educação.

— Alguém poderia ter invej a por ela se sair tão bem nos estudos? — pergunto.

— Não que eu tenha reparado — responde a professora.

— Ela conversou com a senhora sobre algum problem a pessoal?

— Eu não sou exatam ente o tipo acolhedor — a professora diz, sobriam ente. — Nossa com unicação era estritam ente de orientadora-orientanda, em um sentido acadêm ico. As únicas atividades extracurriculares de que eu sei que ela participava eram relacionadas à educação: ela organiza a Olim píada Especial aqui na cidade e faz o acom panham ento de um m enino autista. — De repente, a professora franze a testa. — Alguém j á o avisou? Será m uito difícil para ele lidar com o fato de Jess não aparecer em um com prom isso agendado. Mudanças de rotina são m uito traum áticas para garotos com o Jacob.

— Jacob? — repito, e abro a agenda eletrônica de Jess.

Esse é o garoto cuj a m ãe deixou um a m ensagem na secretária eletrônica da casa dos Robertson. O m enino cuj o nom e estava m arcado na agenda de com prom issos de Jess no dia em que ela desapareceu.

— Professora — digo —, por acaso a senhora sabe onde ele m ora?

 

Jacob Hunt e sua fam ília m oram em um a parte de Townsend que é um pouco m ais decadente que o resto da cidade. A parte que se tem de olhar com m ais atenção para encontrar por trás do parque m unicipal de cartão-postal e das m aj estosas casas em estilo clássico da Nova Inglaterra. A residência deles fica logo atrás dos condom ínios que são ocupados pelos recém -separados, perto dos trilhos de um a ferrovia da Am trak, há m uito tem po desativada.

A m ulher que abre a porta tem um a m ancha azul na blusa, cabelos escuros presos em um nó descuidado e os olhos m ais lindos que j á vi. São claros, com o os de um a leoa, quase dourados, m as tam bém parecem j á ter tido sua cota de lágrim as. E todos nós sabem os que um céu com nuvens é m uito m ais interessante do que um céu sem nenhum a nuvem . Eu lhe daria uns quarenta e poucos anos. Está segurando um a colher, cuj o conteúdo pinga no chão.

— Não quero nada — ela diz, com eçando a fechar a porta.

— Não sou vendedor — aviso. — A colher... hã, está pingando.

Ela olha para baixo e enfia a colher na boca.

Então m e lem bro por que estou ali e m ostro m eu distintivo.

— Sou o detetive Rich Matson. A senhora é a m ãe do Jacob?

— Ah, m eu Deus — ela m urm ura. — Achei que ele j á tivesse ligado para pedir desculpas.

— Desculpas?

— Não é culpa dele — ela intervém . — Claro que eu devia saber que ele andava saindo escondido, m as esse hobby é quase um a patologia para ele. Se tiver algum a m aneira de eu convencer o senhor a abafar essa história... Não suborno, claro, m as talvez um acordo de boa vontade... Entenda que, se isso vier a público, m inha carreira pode ser prej udicada, e eu sou um a m ãe sozinha e m al consigo sustentar a casa do j eito que as coisas estão...

Nem sei do que ela está falando com aquele palavrório todo. Mas o fato é que reparei na palavra sozinha.

— Desculpe, sra. Hunt...

— Em m a.

— Está bem , Em m a. Eu... não tenho ideia do que você está falando. Vim aqui porque seu filho faz acom panham ento terapêutico com Jess Ogilvy...

— Ah — ela diz, acalm ando-se. — Ouvi sobre a Jess no j ornal. Seus pobres pais devem estar desesperados. A polícia j á tem algum a pista?

— É por isso que estou aqui para falar com seu filho.

Os olhos dela ensom brecem .

— O senhor não pode estar pensando que o Jacob tem algum a coisa a ver com o desaparecim ento dela, não é?

— Não, m as o últim o com prom isso m arcado na agenda dela no dia em que ela desapareceu era com seu filho.

Ela cruza os braços.

— Detetive Matson, m eu filho tem síndrom e de Asperger.

— Certo. — E eu sou daltônico para verm elho e verde. Continuo na m esm a.

— É um autism o de alto nível funcional. Ele nem sabe ainda que a Jess está desaparecida. Não tem estado m uito bem atualm ente e a notícia poderia ser devastadora para ele.

— Posso tratar do caso com sensibilidade.

Ela m e m ede com o olhar por um m om ento. Depois se vira e entra na casa, esperando que eu a siga.

— Jacob — ela cham a, quando chegam os à cozinha.

Fico parado à porta, esperando que um a criança apareça. Afinal, Jess Ogilvy é educadora e a professora Górgona falou do m enino com quem ela estava trabalhando. Em vez disso, um adolescente grandão, m ais alto que eu e provavelm ente m ais forte, entra na cozinha arrastando os pés. Este é o garoto que Jess Ogilvy orientava? Olho com atenção para ele por um segundo, tentando entender por que tenho a sensação tão clara de j á tê-lo visto em algum outro lugar e, de repente, m e lem bro: o hom em hipotérm ico. Esse garoto identificou a causa da m orte antes do m édico-legista.

— Você? — digo. — Você é Jacob Hunt?

Agora os pedidos de desculpa apressados de sua m ãe fazem sentido. Ela provavelm ente achou que eu ia m ultar o garoto, ou prendê-lo, por interferir em um a cena de crim e.

— Jacob — ela diz secam ente —, acho que você j á conhece o detetive Matson.

— Oi, Jacob. — Estendo a m ão. — É um prazer conhecê-lo oficialm ente.

Ele não a aperta. Nem sequer m e olha nos olhos.

— Eu vi a notícia no j ornal — diz, com um a voz plana e robótica. — Estava enfiada nas páginas de trás. Se quer m inha opinião, alguém que m orre de hipoterm ia m erece pelo m enos a segunda página. — Ele avança um passo. — Os resultados com pletos da autópsia j á chegaram ? Seria interessante saber se o álcool baixou o ponto de congelam ento do corpo ou se não houve alteração significativa.

— Bem , Jake... — com eço.

— Jacob. Meu nom e é Jacob, não Jake.

— Certo, Jacob. Eu gostaria de lhe fazer algum as perguntas. Pode ser?

— Se forem sobre ciência forense — ele responde, anim ando-se —, fico m ais do que feliz em aj udar. Já ouviu falar da pesquisa que acabou de ser feita em Purdue sobre ionização de dessorção por eletrospray ? Eles descobriram que o suor dos poros dos dedos corrói ligeiram ente superfícies de m etal. Pode ser qualquer coisa, de um a bala a um pedaço de bom ba. Se você borrifar as im pressões digitais com água positivam ente carregada, as gotículas dissolvem as substâncias quím icas nas digitais e liberam quantidades m inúsculas que podem ser analisadas por um espectrôm etro de m assas. Já im aginou com o seria útil obter não só im agens das im pressões digitais, m as tam bém identificar as substâncias quím icas presentes nelas? Você poderia não apenas associar um suspeito a um a cena de crim e, m as conseguir um a prova de que ele m anuseou explosivos.

Olho para Em m a Hunt, im plorando aj uda.

— Jacob, o detetive Matson precisa falar com você sobre outra coisa. Quer se sentar um m inuto?

— Um m inuto. Porque são quase quatro e m eia.

E o que, eu m e pergunto, acontece às quatro e meia? A m ãe dele não m ostra nenhum a reação ao com entário. Eu m e sinto um pouco com o Alice no País das Maravilhas, no vídeo da Disney que Sasha gosta de ver nos fins de sem ana com igo, quando todos estão na rotina do Desaniversário, m enos eu. Na últim a vez em que assistim os, percebi que ser pai não era assim tão diferente disso. Vivem os blefando e fingindo que sabem os das coisas, quando, na m aior parte do tem po, estam os apenas rezando para não errar feio dem ais.

— Bom — digo para Jacob. — Então é m elhor com eçarm os logo.