Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 41 de 121

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Um Mundo à Parte

Oliver

 

Hoj e de m anhã, consegui ensinar Thor a equilibrar um clipe de papel na ponta do focinho.

— Muito bem — digo —, vam os tentar de novo. — Pelos m eus planos, se eu conseguir ensiná-lo a equilibrar e fazer outra coisa ao m esm o tem po, com o rolar, ou latir ao som de “Dixie”, podem os chegar ao program a do Letterm an.

Acabo de colocar o clipe de papel sobre seu focinho outra vez quando um a m ulher entra com o louca.

— Preciso de um advogado — ela anuncia, sem fôlego.

Deve ter por volta de quarenta anos, a j ulgar por algum as linhas em torno da boca e uns poucos fios brancos nos cabelos escuros, m as seus olhos a fazem parecer m ais j ovem . São com o caram elo, ou caram elo com m anteiga, m as a troco de que estou olhando para um a cliente potencial e fazendo associações com coberturas de sorvete?

— Pode entrar! — Eu m e levanto e lhe ofereço um a cadeira. — Sente-se e conte qual é o problem a.

— Não tem os tem po para isso. Você precisa vir com igo agora m esm o.

— Mas eu...

— Meu filho está sendo interrogado na delegacia e você precisa ir lá fazê-los parar. Eu estou contratando você em nom e dele.

— Fantástico — digo, e Thor derruba o clipe de papel. Eu o recolho para que ele não o engula em m inha ausência e pego o casaco.

Sei que isso é totalm ente m ercenário de m inha parte, m as estou esperando que ela m e conduza ao BMW estacionado na frente da cantina. Em vez disso, ela vira à direita e para diante do Volvo detonado que provavelm ente j á rodou uns quinhentos m il quilôm etros. Eis o m otivo por que cobro m eus honorários em dinheiro. Entro no assento do passageiro e estendo a m ão.

— Sou Oliver Bond.

Ela não retribui o cum prim ento. Em vez disso, coloca a chave na ignição e sai com tanta im prudência que m e deixa de boca aberta.

— Em m a Hunt — diz.

Ela faz um a curva e os pneus de trás derrapam .

— Hã... você poderia m e contar um pouco m ais sobre o que está acontecendo... — Perco o ar quando ela corta um sinal verm elho.

— O senhor assiste aos noticiários, sr. Bond?

— Oliver, por favor. — Aperto o cinto de segurança. A delegacia fica a apenas dois ou três quilôm etros, m as gostaria de estar vivo quando chegar lá.

— Acom panhou a história sobre a estudante da UVM que estava desaparecida?

— Aquela cuj o corpo acabou de ser encontrado?

O carro para com um rangido dos pneus diante da delegacia.

— Acho que talvez o m eu filho sej a o responsável — diz ela.

 

Perguntaram certa vez a Alan Dershowitz, o fam oso advogado j udeu, se ele aceitaria defender Adolf Hitler.

— Sim — disse ele. — E eu ganharia.

Quando adorm eci durante a aula de responsabilidade civil, o professor, que falava em um tom m onótono e tornava o direito um pouco m enos atraente do que ficar vendo tinta secar, despej ou um a garrafa de água em m inha cabeça. “Sr. Bond”, ele salm odiou, “m acacos m e m ordam se o senhor não for o tipo de aluno com quem um a vaga no curso não deveria ter sido desperdiçada.”

Endireitei o corpo, encharcado e cuspindo água. “Com o devido respeito, senhor, eles vão ter que m order com m ais força”, respondi, para aclam ação geral de m eus colegas.

Conto esses casos para o j úri proverbial com o exem plos do fato de que nunca vivi m inha vida fugindo de desafios e não vou com eçar agora.

 

— Vam os. — Em m a Hunt desliga o m otor.

Ponho a m ão no braço dela.

— Talvez você pudesse com eçar m e dizendo o nom e do seu filho.

— Jacob.

— Quantos anos ele tem ?

— Dezoito — responde ela. — Ele tem síndrom e de Asperger.

Já ouvi esse term o, m as não vou fingir que sou um especialista.

— Quer dizer que ele é autista?

— Tecnicam ente sim , m as não com o em Rain Man. Ele tem alto nível funcional. — Ela olha ansiosa para a delegacia. — Podem os discutir isso depois?

— Não se você quiser que eu represente o Jacob. Com o ele veio parar aqui?

— Eu o trouxe. — Ela solta um a respiração longa e trêm ula. — Quando estava assistindo ao noticiário hoj e e eles falavam direto do local do crim e, vi um a colcha ali que pertence ao Jacob.

— É possível que outras pessoas tenham um a igual? Que alguém por acaso tenha com prado um a num a liquidação de um grande m agazine na últim a estação?

— Não. Ela é feita à m ão. Estava no arm ário do quarto dele, ou eu achei que estivesse. E então ouvi a repórter dizer que haviam prendido o nam orado da Jess pelo assassinato.

— O Jacob era nam orado dela?

— Não. Era um rapaz cham ado Mark. Eu não o conheço, m as não pude suportar a ideia de vê-lo indo para a prisão por algo que não fez. Liguei para o detetive encarregado do caso e ele m e disse que, se eu trouxesse o Jacob aqui, teria um a conversa com ele e cuidaria de tudo. — Ela esconde o rosto nas m ãos. — Eu não percebi que era um a arm adilha para o Jacob. Ou que ele fosse m e dizer que eu não podia acom panhar o interrogatório.

— Se ele tem dezoito anos, é assim m esm o — confirm o. — O Jacob concordou em conversar com ele?

— Ele praticam ente correu para a delegacia quando lhe disseram que poderia aj udar a analisar um a cena de crim e.

— Por quê?

— Seria com o se você pegasse um caso de assassinato de um a grande celebridade depois de passar anos atuando apenas em direitos de propriedade.

Ah. Bom , isso eu podia entender.

— A polícia lhe disse que o Jacob estava detido?

— Não.

— Então você o trouxe aqui voluntariam ente?

Ela desm orona na m inha frente.

— Achei que só iam conversar com ele. Não sabia que ele seria considerado suspeito logo de cara. — Em m a Hunt está chorando agora e eu sei m enos o que fazer com um a m ulher chorando do que com um leitãozinho escorregadio correndo por um a estação de m etrô em Nova York. — Só tentei fazer a coisa certa — ela soluça.

Quando eu era ferrador, trabalhei com um a égua que teve um a fratura no osso da pata. Sem anas de descanso não a haviam aj udado; os donos estavam falando em sacrificá-la. Eu os convenci a m e deixar fixar a quente um a ferradura de barra reta no casco, e a prendi com fitas adesivas em vez de pregos. A princípio, a égua não queria andar, e quem poderia culpá-la? Foi preciso um a sem ana de convencim ento para fazê-la dar um passo para fora do estábulo e, então, trabalhei com ela durante trinta m inutos por dia até que, um ano depois, eu a levei para um cam po e a vi voar pelo espaço aberto, rápida com o o vento.

Às vezes, é preciso que outra pessoa nos aj ude a dar o prim eiro passo.

Ponho a m ão sobre o om bro dela; ela pula ao contato e m e olha com aqueles seus loucos olhos ardentes.

— Vam os ver o que podem os fazer — digo, e torço fervorosam ente para ela não notar que m eus j oelhos estão trêm ulos.

Na recepção, pigarreio antes de falar.

— Estou à procura de um policial...

— Qual deles? — pergunta o entediado oficial de plantão.

Meu rosto fica quente.

— O que está interrogando Jacob Hunt — digo. Por que não pensei em perguntar a ela o nom e do suj eito?

— Ah, o detetive Matson?

— Sim . Gostaria que você interrom pesse o interrogatório que ele está fazendo.

O oficial de plantão dá de om bros.

— Não vou interrom per nada. Pode esperar aqui. Eu aviso quando ele tiver term inado.

Em m a não está ouvindo. Ela se afastou de m im , em direção a um a porta que leva ao corredor do departam ento de polícia e que é fechada por um m ecanism o de trava controlado pela m esa da recepção.

— Ele está lá dentro — ela m urm ura.

— Bom , acho que, neste m om ento, a m elhor estratégia é j ogar conform e as regras até que...

De repente, a porta faz um zum bido e se abre. Um secretário entra na sala de espera carregando um a caixa da FedEx para ser recolhida.

— Agora — diz Em m a. Ela agarra m eu pulso, m e puxa pela oportunidade inesperada daquela passagem aberta e, lado a lado, com eçam os a correr.