Um Mundo à Parte
Jacob
A prim eira vez em que vi um a pessoa m orta foi no funeral de m eu avô.
Foi depois da cerim ônia, quando o pastor j á tinha lido em voz alta um trecho da Bíblia, em bora m eu avô não fosse rotineiram ente à igrej a nem se considerasse religioso. Estranhos se levantaram e falaram sobre m eu avô, cham ando-o de Joseph e contando histórias sobre partes de sua vida que eram novidade para m im : seu serviço m ilitar durante a Guerra da Coreia, sua infância em Lower East Side, seu com eço de nam oro com m inha avó em um a barraca de beij os de um a festa do colégio. Todas aquelas palavras desceram sobre m im com o vespas, e eu não conseguiria fazê-las ir em bora até poder ver o avô que eu conhecia e de quem eu m e lem brava, em vez desse im postor de que todos estavam falando.
Minha m ãe nem estava bem chorando, ela estava m ais se dissolvendo; essa é a única m aneira de eu descrever o fato de que lágrim as haviam se tornado tão norm ais para ela que parecia estranho ver seu rosto liso e seco.
Deve ser destacado que eu nem sem pre consigo entender a linguagem corporal. Isso é m uito norm al para alguém com Asperger. Não adianta esperar que eu olhe para um a pessoa e saiba com o ela está se sentindo sim plesm ente porque seu sorriso está m uito tenso e ela está com o corpo arqueado e apertando os braços em torno de si, da m esm a form a com o não adiantaria esperar que um surdo ouvisse um a voz. O que significa que, quando pedi para abrirem o caixão de m eu avô, ninguém pode m e culpar pelo fato de eu não ter percebido que aquilo entristeceria m inha m ãe ainda m ais.
Eu só queria ver se o corpo lá dentro ainda era o m eu avô, ou talvez o hom em que aqueles oradores haviam conhecido, ou algo inteiram ente diferente. Sou cético quanto a luzes, túneis e vida após a m orte, e essa parecia a m aneira m ais lógica de testar m inhas teorias.
O que eu aprendi foi isto: um m orto não tem a ver com anj os ou fantasm as. É um estado físico de falência, um a m udança em todos aqueles átom os de carbono que criam a m orada tem porária de um corpo, para que eles retornem a seu estágio m ais elem ental.
Não entendo realm ente por que isso assusta tanto as pessoas, j á que é o ciclo m ais natural do m undo.
O corpo no caixão ainda parecia o de m eu avô. Quando toquei seu rosto, porém , com suas rugas raiadas, a pele não parecia m ais pele hum ana. Era fria e ligeiram ente firm e, com o pudim que ficou tem po dem ais na geladeira e criou um a espécie de couro, form ando um a crosta na superfície.
Posso não com preender as em oções, m as m e sinto culpado por não com preendê-las. Então, quando finalm ente consegui cercar m inha m ãe, horas depois de ela ter saído correndo aos soluços para não m e ver m ais cutucando o rosto da Coisa-Que-Antes-Era-Meu-Avô, tentei explicar por que ela não deveria chorar.
— Ele não é o vovô — eu lhe disse. — Eu verifiquei.
É notável que isso não a tenha feito se sentir m elhor.
— Isso não faz com que a perda dele sej a m enos triste para m im — m inha m ãe disse.
A pura lógica sugere que, se a entidade que está no caixão não é fundam entalm ente a pessoa que conhecíam os, não podem os sentir falta dela. Porque não é um a perda; é um a m udança.
Minha m ãe sacudiu a cabeça.
— Jacob, o que m e dá essa sensação de perda é que nunca m ais vou ouvir a voz dele. Nunca m ais vou poder falar com ele.
Isso não era realm ente verdade. Tínham os a voz do vovô im ortalizada em velhos vídeos de fam ília, que eu às vezes gostava de ver quando não conseguia dorm ir à noite. E não era não poder falar com ele que m inha m ãe achava difícil de aceitar; era que ele não poderia m ais responder.
Minha m ãe suspirou.
— Você vai entender um dia. Espero.
Gostaria de poder dizer a ela que, sim , agora eu entendo. Quando alguém m orre, parece com o buraco na gengiva quando um dente cai. A gente pode m astigar, com er, há dentes de sobra, m as a língua continua voltando para aquele lugar vazio, onde todos os nervos ainda estão um pouco à m ostra.
Estou indo para m eu encontro com Jess.
Estou atrasado. São três horas da m adrugada, o que de fato é segunda-feira, não dom ingo. Mas não há outra hora para eu ir, com m inha m ãe de olho em m im . E, em bora ela provavelm ente vá dizer que eu quebrei um a regra da casa, tecnicam ente não fiz isso. Não estou saindo escondido para um a cena de crim e. A cena do crim e fica a trezentos m etros do lugar para onde estou indo.
Minha m ochila está cheia de artigos necessários; m inha bicicleta sussurra na calçada enquanto pedalo depressa. É m ais fácil não estar a pé desta vez, não ter que sustentar m ais do que m eu próprio peso.
Bem atrás do quintal da casa para onde Jess se m udou, tem um pequeno bosque abandonado. E, bem atrás dele, está a Route 115. Ela atravessa um a ponte sobre a galeria pluvial que faz o escoam ento dos bosques na prim avera, quando o nível da água está alto. Reparei nisso na últim a terça-feira, quando peguei o ônibus da escola até a nova residência de Jess.
Minha m ente está cheia de m apas — de fluxogram as sociais (A pessoa está franzindo a testa → A pessoa fica tentando interromper → A pessoa dá um passo para trás = A pessoa quer desesperadamente sair da conversa) a esquem as de relatividade, com o um a versão interpessoal do Google Earth. (O garoto me diz: “Você joga beisebol? Em que posição? Meia-boca?” e faz todo o resto da classe cair na risada. O garoto é uma pessoa em 6,792 bilhões de seres humanos neste planeta. Este planeta é apenas um oitavo do sistema solar, cujo sol é um de dois bilhões de estrelas na galáxia Via Láctea. Nessa perspectiva, o comentário perde a importância.)
Mas m inha m ente tam bém funciona geograficam ente e topograficam ente, de m odo que, a qualquer m om ento, posso m e localizar (este chuveiro está no andar superior da casa da Birdsey e Lane, 132, Townsend, Verm ont, Estados Unidos, Am érica do Norte, hem isfério ocidental, planeta Terra). Então, quando cheguei à nova casa de Jess terça-feira passada, entendi perfeitam ente onde ela estava localizada em relação a todos os outros lugares onde eu j á havia estado.
Jess está no m esm o lugar onde a deixei cinco dias atrás, apoiada na úm ida parede de pedra.
Encosto a bicicleta na ponta da galeria pluvial, agacho e j ogo o facho da lanterna no rosto dela.
Jess está m orta.
Quando toco seu rosto com os nós dos dedos, sinto com o se fosse m árm ore. Isso m e faz m e lem brar: abro a m ochila e tiro o cobertor. É um a coisa boba, eu sei, m as tam bém é bobo deixar flores em um túm ulo, e isso parece fazer m ais sentido. Eu o enrolo nos om bros de Jess e o arrum o, para que ele a cubra até os pés.
Então, eu m e sento ao lado dela. Visto um par de luvas de látex e seguro a m ão de Jess por um m om ento antes de pegar m eu caderno. Nele, com eço a anotar os sinais físicos.
Os hem atom as sob os olhos.
O dente faltando.
As contusões na parte superior dos braços, que estão, claro, cobertas por seu m oletom agora.
Os arranhões am arelados e endurecidos na parte inferior de suas costas, que tam bém estão cobertos por esse m oletom .
Para falar a verdade, estou um pouco desapontado. Esperava que a polícia fosse capaz de ler as pistas que deixei. Mas eles não encontraram Jess e, portanto, o próxim o passo tem que ser m eu.
O telefone dela ainda está no m eu bolso. Eu o levo para toda parte com igo, em bora só o tenha ligado cinco vezes. A essa altura, o detetive Matson j á deve ter requisitado os registros das ligações feitas com o celular de Jess; eles vão ver as ligações que fiz para sua casa para ouvir sua voz na secretária eletrônica, m as vão im aginar que tenha sido a própria Jess quem fez os telefonem as.
Ele provavelm ente tam bém tentou localizá-la pelo GPS, que quase todos os telefones têm hoj e e que pode ser acessado pelo FBI usando um program a de com putador que detecta um telefone ativo com um a precisão de poucos m etros. Esse recurso com eçou a ser utilizado em program as de serviços de em ergência, ou sej a, telefonem as para o 911. Assim que a m esa de controle atende do outro lado, eles com eçam a rastrear, para o caso de ser necessário enviar um policial ou um a am bulância.
Decido facilitar as coisas para eles. Eu m e sento ao lado de Jess outra vez, com os nossos om bros se tocando.
— Você foi a m elhor am iga que j á tive — digo a ela. — Queria que isso nunca tivesse acontecido.
Jess, claro, não responde. Não sei se ela deixou de existir ou se isso é apenas seu corpo, e aquilo que faz com que Jess sej a Jess foi para algum outro lugar. O que m e faz pensar em m eu surto: na sala sem j anelas, sem portas, no país onde ninguém fala com ninguém , no piano só de teclas pretas. Talvez sej a por isso que as canções fúnebres sej am sem pre em tom m enor; estar do outro lado da m orte não é assim tão diferente de ter Asperger.
Seria incrível ficar e observar. Não há nada que eu gostaria m ais de fazer do que ver a chegada das forças policiais para salvar Jess. Mas isso seria m uito arriscado; sei que vou sim plesm ente pegar m inha bicicleta e estar bem e aconchegado em m inha cam a antes que o sol ou m inha m ãe se levantem para o novo dia.
Mas, prim eiro, ligo o Motorola cor-de-rosa. Tenho a sensação de que deveria dizer algo, um tributo ou um a oração.
— E.T., telefone, minha casa — digo por fim , então digito 911 e coloco o pequeno aparelho na pedra, ao lado dela.
Pelas saídas de som , ouço a voz do outro lado.
— Qual é a emergência? — diz a voz. — Alô? Tem alguém na linha?
Já estou na m etade do bosque quando vej o as luzes piscando a distância na Route 115 e sigo sorrindo por todo o resto do cam inho até m inha casa.