Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 14 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

Eu ensinei a m eu irm ão com o se defender.

Aconteceu quando éram os m enores: eu tinha onze anos, e ele, catorze. Eu brincava no trepa-trepa do play ground, e ele estava sentado na gram a, lendo um a biografia que a bibliotecária tinha com prado só para ele sobre Edm ond Locard, o pai da análise de im pressões digitais. Nossa m ãe estava lá dentro, em m ais um a de um zilhão de reuniões de educação especial para garantir que a escola de Jacob fosse um lugar tão seguro para ele quanto sua casa.

Aparentem ente, isso não incluía o play ground.

Dois m eninos com skates incrivelm ente irados estavam fazendo m anobras nas escadas quando avistaram Jacob. Foram até ele e um deles puxou seu livro.

— É m eu — Jacob disse.

— Então vem pegar — o garoto respondeu, j ogando o livro para seu colega, que o j ogou de volta. Eles ficaram brincando de bobinho com Jacob, que, no m eio, se esforçava para alcançá-lo. Mas com o ele não tem exatam ente vocação para atleta, não estava se saindo bem .

— É um livro da biblioteca, seus cretinos — Jacob disse, com o se isso pudesse fazer algum a diferença. — Assim vai estragar!

— Ah, isso é m au. — E o m enino j ogou o livro em um a enorm e poça de lam a.

— É m elhor você salvar o livro — seu am igo acrescentou, e Jacob correu para pegá-lo.

Eu o cham ei, m as era tarde dem ais. Um dos garotos pôs a perna na frente do pé dele e o fez aterrissar de cara na poça. Ele se sentou, encharcado, cuspindo lam a.

— Boa leitura, retardado — o prim eiro garoto disse, e os dois riram e foram em bora em seus skates.

Jacob não se m oveu. Ficou sentado na poça, segurando o livro de encontro ao peito.

— Levante — eu disse, dando-lhe a m ão para aj udá-lo.

Com um gem ido, Jacob ficou em pé. Ele tentou virar as páginas do livro, m as elas estavam grudadas com o barro.

— Vai secar — falei. — Quer que eu vá cham ar a m am ãe?

Ele sacudiu a cabeça.

— Ela vai ficar brava com igo.

— Não vai, não — respondi, em bora ele provavelm ente estivesse certo. Suas roupas estavam totalm ente destruídas. — Jacob, você tem que aprender a se defender. Faça o que eles fizerem , m as dez vezes pior.

— Em purrá-los em um a poça?

— Bem , não. Você pode... sei lá. Cham á-los de nom es feios.

— O nom e deles é Sean e Am ahl — Jacob disse.

— Não esses nom es. Tente Seu imbecil. Ou Pare com isso, seu merda.

— Isso é palavrão...

— É, m as assim eles vão pensar duas vezes antes de zoar você outra vez.

Jacob com eçou a balançar o corpo.

— Durante a Guerra do Vietnã, a BBC ficou sem saber com o pronunciar o nom e de um a aldeia bom bardeada, Phuoc Me, sem ofender os ouvintes. Eles decidiram usar o nom e de um a aldeia vizinha no lugar dessa. Infelizm ente, ela se

cham ava Ban Me Tuat.*

— Bom , talvez na próxim a vez que um valentão segurar sua cabeça dentro de um a poça de lam a, você possa gritar os nom es de aldeias vietnam itas.

— Eu vou pegar você, gracinha, e seu cachorrinho também! — Jacob citou.

— É m elhor algum a coisa m ais dura — sugeri.

Ele pensou por um m om ento.

— Yippee ki yay, desgraçado!

— Ótim o. Então, da próxim a vez que um m enino com o aquele pegar seu livro, o que você vai dizer?

— Seu cuzão filho de um a égua, m e devolva isso agora m esm o!

Eu caí na gargalhada e disse:

— Jacob, você tem talento pra isso.

 

Sinceram ente, não tenho nenhum a intenção de entrar em outra casa. Mas, na terça-feira, m eu dia na escola é absolutam ente podre. Prim eiro, tiro 7,9 em um teste de m atem ática, e eu nunca tiro C; segundo, sou o único aluno cuj o fungo não cresce na experiência de laboratório que estam os fazendo em biologia; e terceiro, acho que estou ficando gripado. Saio antes da últim a aula, porque quero m e enfiar na cam a com um a xícara de chá. Na verdade, é o desej o de chá que m e faz pensar na casa daquele professor em que estive na sem ana passada e, por acaso, estou a apenas três quarteirões de lá quando a ideia m e vem à cabeça.

Ainda não há ninguém na casa e nem tenho que arrom bar a porta dos fundos; ela está destrancada. A bengala ainda está encostada no hall de entrada e aquele m esm o casaco de capuz continua pendurado, m as agora há um casaco de lã tam bém e um par de botas de trabalho. Alguém term inou a garrafa de vinho tinto. Há um aparelho de som estéreo no balcão que não estava lá na sem ana passada e um iPod Nano rosa-choque está carregando no suporte.

Aperto o botão para ligar o iPod e vej o que Ne-Yo é o próxim o da lista de reprodução.

Ou esses são os professores m ais m oderninhos que j á existiram ou seus netos precisam parar de deixar suas coisas espalhadas por aí.

A chaleira está no fogão, então eu a encho de água e ligo o fogo, depois procuro um saquinho de chá nos arm ários. Eles estão escondidos em um a prateleira atrás de um rolo de papel-alum ínio. Escolho um chá de m anga e, enquanto a água esquenta, dou um a olhada no iPod. Estou im pressionado. Minha m ãe m al consegue entender com o usar o iTunes e aqui está um casal de velhos professores craques em tecnologia.

Acho que eles não podem ser tão velhos. Eu os tinha im aginado assim , m as talvez a bengala sej a por causa de um a cirurgia artroscópica, porque o professor j oga hóquei nos fins de sem ana e detonou o j oelho com o goleiro. Vai ver que eles têm a idade da m inha m ãe, e o casaco de capuz é da filha deles, que tem a m inha idade. Talvez ela sej a da m inha escola, e até se sente do m eu lado na aula de biologia.

Enfio o iPod no bolso, despej o na xícara a água da chaleira chiante, e então ouço um chuveiro ligado no andar de cim a.

Esqueço o chá, entro silenciosam ente na sala de estar, passo pelo sistem a m ultim ídia gigante e subo as escadas.

O som de água vem do banheiro da suíte principal.

A cam a está desarrum ada. Há um a colcha toda de rosas bordadas e um a pilha de roupas sobre um a cadeira. Pego um sutiã rendado e corro os dedos pelas alças.

É quando percebo que a porta do banheiro está totalm ente aberta e que posso ver m ais ou m enos o chuveiro refletido no espelho.

Meu dia m elhorou consideravelm ente nos últim os trinta segundos.

Há vapor, então só consigo distinguir as curvas quando ela se vira, e que seu cabelo vai até os om bros. Ela está cantarolando e é terrivelm ente desafinada. Vire, peço em silêncio. De frente.

— Ah, droga — a m ulher diz e, de repente, abre a porta do chuveiro. Vej o seu braço aparecer enquanto ela procura cegam ente pela toalha, que está pendurada em um cabide, ao lado da porta do boxe. Ela enxuga os olhos e prendo a respiração, olhando para os om bros dela e depois para seus seios.

Ainda piscando, ela larga a toalha e vira.

Nesse segundo, nossos olhares se encontram .

Nota

* A pronúncia dos nom es das cidades soa com o expressões chulas em inglês. (N.

da T.)