Um Mundo à Parte
Emma
Tudo com eça com um cam undongo.
Depois de nossa excursão de com pras sem anal de sábado (felizm ente, a Moça das Am ostras Grátis foi substituída tem porariam ente por um a adolescente toda séria, que distribui salsichas tipo aperitivo vegetarianas na porta do superm ercado), deixo Jacob sentado à m esa da cozinha com endo o resto de seu alm oço enquanto faço um a lim peza rápida em seu quarto. Ele se esquece de trazer copos e tigelas de cereal para a cozinha e, se eu não atuar com o interm ediária nisso, acabam os cultivando colônias de fungos que se fixam à m inha louça com o concreto. Pego um punhado de canecas em sua m esa e avisto a carinha m iúda de um cam undongo lutando para sobreviver ao inverno em um a residência im provisada atrás do com putador de Jacob.
Adm ito, constrangida, que tenho um a reação tipicam ente fem inina e perco todo o controle. Infelizm ente, estou segurando um copo cheio até a m etade de leite de soj a com chocolate, e boa parte do conteúdo cai no edredom de Jacob.
Bem , é preciso lavá-lo, em bora sej a fim de sem ana, o que torna a situação com plicada. Jacob não gosta de ver sua cam a desfeita; exceto quando ele a está usando, a cam a tem que estar sem pre arrum ada. Costum o lavar seus lençóis enquanto ele está na escola. Com um suspiro, tiro lençóis lim pos do arm ário e puxo o edredom de inverno para fora da cam a. Ele pode se arranj ar por um a noite com o cobertor de verão, um a velha colcha de retalhos nas cores do arco-íris — VLAVAIV — em ordem correta, que m inha m ãe costurou para ele antes de m orrer.
A colcha de verão fica guardada em um saco de lixo preto na prateleira superior do arm ário. Eu o puxo para baixo e sacudo para tirar a colcha de dentro.
Um a m ochila que estava enrolada nela cai no chão.
Ela claram ente não pertence aos m eninos. Bege com listras verm elhas e pretas, parece tentar ser um a im itação barata da Burberry, m as as listras são largas dem ais e as cores m uito vivas. Ainda há um a etiqueta da loj a na alça, com o preço arrancado.
Dentro dela há um a escova de dentes, um blusão acetinado, um short e um a cam iseta am arela. O blusão e o short são de tam anho grande. A cam iseta é m uito m enor e diz OLIMPÍADAS ESPECIAIS na frente e APOIO atrás.
Bem no fundo da m ochila, encontro um cartão ainda dentro do envelope, que está rasgado. Há um a foto de um a paisagem nevada e, dentro, o texto em um a caligrafia m iúda: “Feliz Natal, Jess. Com am or, tia Ruth”.
— Meu Deus — m urm uro. — O que você fez? — Fecho os olhos por um instante e, em seguida, grito o nom e de Jacob. Ele vem correndo para o quarto e para abruptam ente quando m e vê segurando a m ochila nos braços.
— Opa — diz.
O j eito dele é com o se eu o houvesse pegado em um a m entirinha boba:
Jacob, você lavou as mãos antes do jantar?
Lavei, mãe.
Então como o sabonete está seco?
Opa.
Mas isso não é um a m entirinha boba. Trata-se de um a m oça que está desaparecida. Um a m oça que pode até estar m orta. Um a m oça cuj a m ochila e cuj as roupas estão inexplicavelm ente com m eu filho.
Jacob se vira para descer as escadas, m as eu o agarro pelo braço para detê-lo.
— De onde veio isso?
— De um a caixa na casa da Jess — ele diz m ecanicam ente, fechando os olhos com força até eu soltá-lo.
— Quer m e dizer por que está com isso aqui? Porque tem um m onte de gente procurando pela Jess e isso não parece nada bom .
Sua m ão com eça a se contrair ao lado do corpo.
— Eu lhe disse que fui à casa dela terça-feira, com o estava m arcado. E as coisas não estavam certas.
— Com o assim ?
— Tinha bancos derrubados na cozinha e papéis espalhados pelo chão, e todos os CDs estavam j ogados no tapete. Não estava certo, não estava certo...
— Jacob — digo. — Foco. Com o você pegou essa m ochila? A Jess sabe que você está com ela?
Há lágrim as em seus olhos.
— Não. Ela j á tinha ido. — Ele com eça a andar em um pequeno círculo, com as m ãos ainda balançando. — Eu entrei, e toda aquela bagunça... fiquei apavorado. Não sabia o que tinha acontecido. Eu a cham ei e ela não respondia e vi a m ochila e as outras coisas e as peguei. — A voz dele é com o um a m ontanha-russa saindo dos trilhos. — Houston, temos um problema.
— Tudo bem — digo, abraçando-o com um a pressão profunda, com o um a ceram ista que m olda a argila no torno.
Mas não está tudo bem . Não vai estar, até que Jacob conte tudo isso para o detetive Matson.