Um Mundo à Parte
Oliver
Quando Jacob, Em m a e eu chegam os à m esa da defesa, a sala do tribunal j á está cheia e Helen Sharp está revisando suas anotações.
— A sala de brinquedos é incrível — diz ela, deslizando o olhar em m inha direção. — Preciso arrum ar um a dessas para m im .
Por sala de brinquedos ela se refere à área de repouso sensorial que foi m ontada nos fundos do tribunal. Há pesadas cortinas à prova de som que a isolam da galeria. Do lado de dentro, há bolas de borracha com protuberâncias, um a alm ofada vibratória, um a lâm pada de bolhas coloridas e algo que m e lem bra as longas tiras de tecido de um lava-rápido de carros. Em m a j ura que todas essas coisas funcionam com o calm antes, m as, se quer saber, poderiam bem ter vindo de um cenário de film e pornô.
— Se pretende fazer um pedido ao gênio da lâm pada, Helen — sugiro —, com ece pedindo um coração.
O oficial de j ustiça pede a atenção de todos e nos levantam os para a entrada do j uiz Cuttings. Ele olha para quatro câm eras de televisão no fundo da sala.
— Gostaria de lem brar aos profissionais da im prensa que estão aqui apenas por concessão m inha e que essa decisão pode ser revista a qualquer m om ento se perturbarem o andam ento dos trabalhos. O m esm o se aplica à galeria. Não serão toleradas m anifestações durante este j ulgam ento. Senhores, aproxim em -se, por favor.
Cam inho em direção à m esa do j uiz com Helen.
— Devido às experiências anteriores que tivem os durante sessões fechadas — diz o j uiz —, achei que seria prudente conferir com o senhor antes de com eçarm os. Sr. Bond, com o está seu cliente esta m anhã?
Bom, ele está sendo julgado por homicídio, penso. Tirando isso, está tudo bem.
Passa rapidam ente por m inha cabeça a cena em que estou sentado no peito de Jacob para abotoar sua cam isa, e depois ele correndo pelo m eio da rua.
— Melhor do que nunca, Excelência — digo.
— Há algum outro problem a de que devam os estar cientes? — indaga o j uiz.
Sacudo a cabeça negativam ente, m ais anim ado pelo fato de que o j uiz parece realm ente se im portar com o bem -estar de Jacob.
— Ótim o. Porque m uitas pessoas estão assistindo a este j ulgam ento e de form a algum a vou ficar aqui fazendo papel de idiota — ele avisa.
Lá se foi m inha crença na caridade hum ana.
— Sra. Sharp? Está preparada?
— Cem por cento, Excelência — responde Helen.
O j uiz balança a cabeça.
— Então vam os com eçar com a declaração inicial da prom otoria.
Em m a m e oferece um sorriso cheio de coragem enquanto m e sento do outro lado de Jacob. Ela se vira para trás para localizar Theo, que está enfiado nos fundos da sala, e olha para frente outra vez quando Helen com eça a falar.
— Quatro m eses atrás, Jess Ogilvy era um a garota linda e inteligente, cheia de esperanças e sonhos. Aluna de pós-graduação na Universidade de Verm ont, estava se preparando para um m estrado em psicologia infantil. Com binava os estudos com trabalhos de m eio período, com o seu recente em prego para tom ar conta da casa de um professor na Serendipity Way, núm ero 67, em Townsend... além de oferecer m onitoria para estudantes e orientação para j ovens com necessidades especiais. Um de seus clientes era um rapaz com síndrom e de Asperger, o m esm o j ovem , Jacob Hunt, que está hoj e sentado diante dos senhores com o réu. Jess aj udava Jacob especificam ente com habilidades sociais, ensinando-lhe com o conversar, fazer am igos, interagir em público, tarefas que eram difíceis para ele. Jess e Jacob se encontravam duas vezes por sem ana, aos dom ingos e às terças-feiras. Mas, na terça-feira, 12 de j aneiro, Jess Ogilvy não teve sua sessão de orientação com Jacob Hunt. Em vez disso, este j ovem , o m esm o que ela havia tratado com gentileza e com paixão, a assassinou de form a brutal e cruel dentro da própria residência dela.
Atrás da m esa da prom otoria, um a m ulher com eça a chorar baixinho. A m ãe; não preciso m e virar para entender isso. Mas Jacob se vira, e seu rosto se contorce ao registrar algo fam iliar nela: talvez o m esm o form ato de queixo da filha, ou a cor do cabelo.
— Dois dias antes de sua m orte, Jess levou Jacob para com er um a pizza na Main Street, em Townsend. Os senhores ouvirão no depoim ento de Calista Spatakopoulous, a proprietária do restaurante, que Jacob e Jess tiveram um a discussão acalorada que term inou com Jess dizendo a Jacob para “dar um tem po”. Ouvirão de Mark Maguire, nam orado de Jess, que, quando ele a viu m ais tarde naquela noite e na segunda-feira, ela estava bem , m as desapareceu na terça-feira à tarde. Ouvirão o detetive Rich Matson, do Departam ento de Polícia de Townsend, lhes contar com o os policiais procuraram pistas de Jess por cinco dias, im aginando que ela tivesse sido sequestrada, e por fim captaram um sinal de GPS em seu telefone celular e encontraram seu corpo m achucado e m altratado j azendo sem vida em um a galeria pluvial a vários m etros da casa dela. Ouvirão o m édico-legista testem unhar que Jess Ogilvy tinha abrasões nas costas, m arcas de estrangulam ento em volta do pescoço, o nariz quebrado e hem atom as no rosto, um dente quebrado... e que sua roupa íntim a estava vestida ao contrário.
Exam ino o rosto dos j urados, cada um dos quais pensando: Que animal faria isso com uma moça? e olhando furtivam ente para Jacob.
— E, senhoras e senhores, verão a colcha em que o corpo de Jess Ogilvy estava enrolado quando foi encontrado. Um a colcha que pertencia a Jacob Hunt.
A m eu lado, Jacob com eça a trem er. Em m a põe a m ão em seu braço, m as ele a afasta. Com um dedo, em purro um pouco m ais para perto o bloquinho de post-it que coloquei na frente dele. Tiro a tam pa da caneta que lhe dei, querendo que ele extravase seu incôm odo por escrito em vez de ter um a explosão.
— As provas que apresentarem os m ostrarão claram ente que Jacob Hunt m atou Jess Ogilvy prem editadam ente. E, no final deste j ulgam ento, quando o j uiz os instruir a decidir quem é o responsável, estam os confiantes de que os senhores chegarão à conclusão de que Jacob Hunt m atou Jess Ogilvy, um a j ovem vibrante que se considerava sua professora, orientadora e am iga, e depois... — Ela cam inha até a m esa da prom otoria e arranca um a folha de papel de seu bloco de notas.
De repente, eu adivinho o que ela está prestes a fazer.
Helen Sharp am assa o papel em um a das m ãos e o deixa cair no chão.
— Ele a j ogou fora com o lixo — diz ela, e, nesse m om ento, Jacob com eça a gritar.