Um Mundo à Parte
Oliver
Tenho certeza de que o j úri não está absorvendo nada do que a investigadora Marcy Allston diz. Ela é tão absurdam ente sensual que quase posso im aginar os m ortos com que ela se depara se levantando ofegantes.
— Na prim eira vez em que entram os na casa, procuram os im pressões digitais e encontram os algum as no com putador e no banheiro.
— Pode explicar o processo? — pergunta Helen.
— A pele dos nossos dedos, a palm a das m ãos e a sola dos pés não são lisas. Elas têm cristas de fricção, com linhas que com eçam e term inam e têm determ inados contornos ou form as. Ao longo dessas linhas da pele há um a série de poros e, se eles se contam inarem com suor, sangue, suj eira, pó etc., deixam um a reprodução dessas linhas no obj eto que for tocado. Meu trabalho é tornar essa reprodução visível. Às vezes é preciso um a lupa, outras vezes um a fonte de luz. Depois que a im pressão fica visível, ela pode ser fotografada e, tendo essa fotografia, posso preservá-la e com pará-la com um a am ostra conhecida.
— De onde vêm essas am ostras conhecidas?
— Da vítim a, dos suspeitos. E do AFIS, o banco de dados de im pressões digitais de todos os crim inosos dos Estados Unidos que foram fichados.
— Com o é feita a com paração?
— Exam inam os áreas específicas e encontram os padrões, com o deltas, verticilos, arcos e presilhas, e o núcleo, a parte m ais central da im pressão digital. Fazem os um a com paração visual entre a im pressão conhecida e a desconhecida, procurando form as gerais que coincidam , depois exam inam os os detalhes m ais específicos, com o cristas finais, ou bifurcações em que um a linha se divida em duas. Se ocorrerem aproxim adam ente dez a doze sim ilaridades, um a pessoa treinada em identificação de digitais poderá determ inar se as duas im pressões vieram da m esm a pessoa.
A prom otora apresenta com o prova um quadro que m ostra duas im pressões digitais lado a lado. Im ediatam ente, Jacob se aprum a na cadeira.
— Esta im pressão da direita foi encontrada no balcão da cozinha. A da esquerda é um a am ostra conhecida obtida de Jacob Hunt quando ele foi preso.
Enquanto ela m ostra as dez bandeirinhas verm elhas que indicam as sim ilaridades entre as im pressões, eu olho para Jacob. Ele está sorrindo com o louco.
— Com base em sua com paração, a senhora chegou a um a conclusão? — pergunta Helen.
— Sim . Que a im pressão digital na cozinha era de Jacob Hunt.
— Houve m ais algum a coisa digna de nota em seu exam e da casa?
Marcy faz um sinal afirm ativo com a cabeça.
— A tela de um a j anela da cozinha tinha sido cortada pelo lado de fora e a vidraça foi forçada e quebrada. Um a chave de fenda foi encontrada nos arbustos, debaixo da j anela.
— Havia algum a im pressão digital na vidraça ou na chave de fenda?
— Não, m as a tem peratura naquele dia estava extrem am ente baixa, o que com frequência com prom ete as im pressões digitais.
— Encontraram m ais algum a coisa?
— Um a m arca de bota sob a j anela. Fizem os um m olde de cera da pegada e conseguim os associá-la a um a bota no próprio local.
— A senhora sabe a quem essa bota pertencia?
— A Mark Maguire, o nam orado da vítim a — diz Marcy. — Ele m antinha essas botas na casa, j á que frequentem ente passava a noite lá.
— Encontraram algo m ais na casa?
— Sim . Usando um a substância quím ica cham ada Lum inol, encontram os traços significativos de sangue no banheiro.
Jacob escreve um a nota no bloco e a passa para m im :
“Água sanitária + Lum inol = falso positivo para sangue”
— Em algum m om ento, foi recebida um a ligação para a em ergência feita do celular da vítim a? — indaga Helen.
— Sim . Na m anhã do dia 18 de j aneiro, atendem os a um cham ado feito de um a galeria pluvial a m ais ou m enos trezentos m etros da casa onde Jess Ogilvy estava m orando e encontram os o corpo da vítim a.
— Qual era a posição do corpo?
— Costas apoiadas na parede de cim ento e braços cruzados sobre o colo. Ela estava totalm ente vestida.
— Havia m ais algum a coisa im portante no m odo com o o corpo foi encontrado?
— Sim — responde Marcy. — A vítim a estava enrolada em um a colcha de um padrão peculiar, feita à m ão.
— A colcha que foi encontrada com a vítim a naquele dia é esta? — a prom otora pergunta, enquanto m ostra a Marcy um rolo volum oso de tecido em todas as cores do arco-íris, com m anchas m arrom -escuras de sangue seco.
— É essa — diz Marcy e, quando a colcha é registrada com o prova, ouço Em m a inspirar fundo.
Helen agradece à testem unha e eu m e levanto para dar início à m inha inquirição.
— Há quanto tem po a senhora é investigadora crim inal?
— Quatro anos — responde Marcy.
— Não m uito tem po, então.
Ela levanta um a sobrancelha.
— Há quanto tem po o senhor é advogado?
— Já viu m uitos corpos em cenas de crim e?
— Felizm ente, não tantos quanto teria visto se trabalhasse em Nashua ou Boston — diz Marcy. — Mas o suficiente para saber o que estou fazendo.
— A senhora disse que encontrou um a im pressão digital na casa de Jess Ogilvy, na cozinha, que pertence ao Jacob.
— Exatam ente.
— Poderia dizer que a presença dessa im pressão digital o identifica com o assassino?
— Não. Isso só o coloca na cena do crim e.
— É possível que o Jacob tenha deixado a im pressão lá em algum outro m om ento?
— Sim .
— Tam bém foram encontradas m arcas da bota de Mark Maguire sob a vidraça que tinha sido forçada — digo. — A senhora confirm a?
— Sim .
— Foram encontradas m arcas dos sapatos de Jacob em algum lugar do lado de fora da casa?
— Não — diz Marcy.
Respiro fundo. Espero que saiba o que está fazendo, penso, enquanto dou um a olhada rápida para Jacob.
— E o sangue no banheiro... foi possível determ inar se ele pertencia à vítim a?
— Não. Tentam os fazer um teste de DNA, m as os resultados foram inconclusivos. Havia vestígios de água sanitária no m aterial e isso com frequência com prom ete os testes de DNA.
— Não é verdade, sra. Allston, que, ao ser borrifado sobre água sanitária, o Lum inol dá um a leitura positiva?
— Sim , às vezes.
— Quer dizer que os traços de sangue que foram encontrados poderiam ser apenas traços de água sanitária.
— É possível — ela adm ite.
— E o suposto sangue no banheiro poderia ter sido sim plesm ente Jess lim pando os azulej os com Clorox?
— Ou — diz Marcy — seu cliente lim pando o sangue dos azulej os com Clorox, depois de tê-la assassinado.
Aperto os lábios e recuo im ediatam ente.
— Sra. Allston, é possível dizer m uito sobre um corpo a partir do m odo com o a pessoa está posicionada ao m orrer, não é?
— Sim .
— Houve algo que cham ou sua atenção no corpo de Jess Ogilvy quando o encontraram ?
Marcy hesita.
— Ela não foi sim plesm ente descartada. Alguém teve o trabalho de sentá-la recostada na parede e envolvê-la em um a colcha, em vez de apenas j ogá-la ali.
— Alguém que gostava dela?
— Protesto — Helen interrom pe e, com o eu esperava, a obj eção foi deferida pelo j uiz.
— A senhora conhece m eu cliente, sra. Allston?
— Na verdade, sim .
— Com o?
— Ele é um fã de cenas de crim e. Esteve em algum as cenas nas quais trabalhei e costum ava dar palpites que não eram particularm ente desej ados ou necessários.
— A senhora j á deixou que ele aj udasse em algum a dessas cenas?
— É claro que não. Mas é nítido o fascínio dele por tudo aquilo. — Ela sacode a cabeça. — Só dois tipos de pessoas aparecem em cenas de crim e: assassinos seriais, para checar sua obra, e os m alucos que acham que o trabalho da polícia é com o nas séries de TV e querem aj udar a solucionar o crim e.
Que ótim o. Agora ela fez o j úri ficar pensando em qual dessas duas categorias Jacob se encaixa. Decido acabar com o prej uízo antes de im plodir de vez.
— Muito obrigado, sra. Allston — digo, e Helen se levanta para fazer m ais um a pergunta.
— Sra. Allston, Jacob Hunt apareceu na galeria pluvial quando vocês estavam exam inando o corpo?
— Não — diz ela. — Não o vim os lá.
Helen levanta os om bros.
— Im agino que, dessa vez, não havia nada para ele solucionar.