Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 4 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

 

Levei vinte e quatro pontos no rosto, graças ao m eu irm ão. Dez deles deixaram um a cicatriz que atravessa a sobrancelha esquerda, depois que Jacob derrubou m eu cadeirão quando eu tinha oito m eses. Os outros catorze pontos foram no queixo, no Natal de 2003, quando fiquei tão entusiasm ado com um presente idiota qualquer que rasguei o papel e Jacob veio com o um raio para cim a de m im quando ouviu o barulho. Mas a razão de eu contar isso não tem nada a ver com m eu irm ão. É porque m inha m ãe vai dizer que Jacob não é violento, m as eu sou a prova viva de que ela está tentando se enganar.

Tenho que abrir exceções para Jacob; é um a de nossas regras não escritas. Então, quando precisam os desviar de um a placa de desvio (olha a ironia disso!) porque ela é laranj a e faz Jacob surtar, isso é m ais im portante do que eu m e atrasar dez m inutos para a escola. E ele sem pre tom a banho prim eiro, porque cem bilhões de anos atrás, quando eu ainda era bebê, Jacob tom ava banho prim eiro e ele não sabe lidar com m udanças na rotina. E, quando eu fiz quinze anos e m arquei um teste para tirar m inha carteira de m otorista provisória — que acabou sendo cancelado quando Jacob teve um chilique porque queria com prar um tênis novo —, tive que entender que essas coisas acontecem . O problem a é que algo aconteceu nas três vezes seguintes em que tentei fazer m inha m ãe m e levar para tirar a carteira, até que cansei de continuar pedindo. Do j eito que as coisas vão, ainda vou estar andando de skate aos trinta anos.

Um a vez, quando Jacob e eu éram os pequenos, estávam os brincando em um lago perto de casa com um barco inflável. Era m inha tarefa tom ar conta dele, m esm o ele sendo três anos m ais velho e tendo feito tantas aulas de natação quanto eu. Nós viram os o barco e nadam os para baixo dele, onde o ar era pesado e úm ido. Jacob com eçou a falar de dinossauros, que era a m ania dele na época, e não parava m ais de falar. De repente, com ecei a entrar em pânico. Ele estava consum indo todo o oxigênio daquele espaço m inúsculo. Em purrei o barco, tentando tirá-lo de cim a de nós, m as o plástico tinha produzido um a espécie de sucção sobre a superfície da água — o que m e deixou ainda m ais em pânico. Claro que, pensando agora, eu sei que poderia ter nadado para fora do barco, m as naquele m om ento isso nem m e ocorreu. Tudo o que eu sabia, naquela hora, era que não conseguia respirar. Quando as pessoas m e perguntam com o é crescer com um irm ão que tem Asperger, é nisso que eu sem pre penso, em bora a resposta que eu dê em voz alta sej a que nunca conheci nada diferente.

Eu não sou santo. Tem horas que faço coisas para irritar Jacob, porque isso é m uito fácil. Com o quando fui até o arm ário dele e m isturei todas as roupas. Ou quando escondi a tam pa do tubo de pasta de dente para ele não poder colocá-la de volta no m om ento em que term inasse de escovar os dentes. Mas sem pre acabo m e sentindo m al pela m inha m ãe, que geralm ente é quem paga o pato pelas crises de Jacob. Às vezes a ouço chorando, quando ela acha que eu e Jacob estam os dorm indo. E então lem bro que ela tam bém não escolheu esse tipo de vida.

Por isso eu colaboro. Sou eu que tiro Jacob fisicam ente de um a conversa quando ele com eça a ser intenso dem ais e assustar as pessoas. Sou eu que digo a ele para parar de bater os braços quando ele fica nervoso no ônibus, porque isso o faz parecer um m aluco total. Sou eu que passo nas aulas dele antes de ir às m inhas para avisar aos professores que Jacob teve um a m anhã difícil porque o leite de soj a acabou sem perceberm os. Em outras palavras, eu aj o com o o irm ão m ais velho, m esm o não sendo. E, nas horas em que acho que isso não é j usto, quando m eu sangue parece ferver com o lava, eu saio de perto. Se m eu quarto não for longe o suficiente para m im , pego m eu skate e m e m ando para algum lugar — qualquer um que não sej a o que eu tenho que cham ar de lar.

É o que estou fazendo esta tarde, depois que m eu irm ão resolveu m e escalar com o o assassino em sua sim ulação de cena de crim e. Vou ser sincero: não foi por ele ter pegado m eu tênis sem pedir nem por ter roubado cabelo da m inha escova (o que, francam ente, é sinistro no nível de O silêncio dos inocentes). Foi porque, quando vi Jacob na cozinha com aquele sangue de xarope de m ilho e todas as evidências apontando para m im , por um m ilésim o de segundo pensei: Quem dera.

Mas eu não tenho perm issão para dizer que m inha vida seria m ais fácil sem Jacob. Não posso nem sequer pensar isso. É outra daquelas regras não escritas. Então pego m eu casaco e vou na direção sul, m esm o com seis graus negativos aqui fora e o vento parecendo facadas no m eu rosto. Paro um pouco no parque dos skates, o único lugar nesta cidade ridícula em que os policiais ainda deixam a gente andar de skate, em bora isso sej a totalm ente inútil no inverno, que dura nove m eses por ano em Townsend, Verm ont.

Nevou ontem à noite, uns cinco centím etros, m as tem um cara com um skate de neve tentando fazer um ollie nas escadas quando eu chego lá. Seu am igo está segurando um celular e film ando a m anobra. Eu os reconheço da escola, m as eles não estão na m inha classe. Tenho m eio que um a personalidade “antiskatista”. Faço aulas avançadas de todas as m atérias e m inha m édia é 3,98, de um total de 4,0. Claro que isso m e torna um esquisito no m eio da com unidade do skate, da m esm a form a que o j eito com o m e visto e o fato de eu gostar de skate m e tornam um esquisito na com unidade dos m elhores alunos.

O garoto que está no skate cai de bunda no chão.

— Vou pôr isso no YouTube, cara — diz o am igo dele.

Contorno o parque dos skates e sigo pela cidade, para essa rua que se enrola em curvas com o um caracol. Bem no centro há um a casa toda diferente; parece que o estilo dela é cham ado de vitoriano. É pintada de roxo e tem um a torre em um dos lados. Acho que foi isso que m e fez parar da prim eira vez: quem é que tem um a casa com torre além da Rapunzel? Mas a pessoa que m ora nessa torre é um a m enina de uns dez ou onze anos, com um irm ão que deve ter m etade disso. A m ãe deles tem um a van Toy ota verde e o pai é algum tipo de m édico, porque j á o vi chegar do trabalho duas vezes com roupa de cirurgia.

Tenho ido m uito lá ultim am ente. Geralm ente agacho na frente da j anela saliente que dá para a sala de estar. Dá para ver quase tudo de lá: a m esa da sala de j antar, onde as crianças fazem a lição de casa. A cozinha, onde a m ãe prepara o j antar. Às vezes, ela abre um pouquinho a j anela e eu quase posso sentir o gosto do que eles estão com endo.

Nessa tarde, porém , não tem ninguém em casa. Isso m e deixa m ais atrevido. Em bora sej a dia claro, e em bora haj a carros subindo e descendo a rua, vou até os fundos da casa e sento no balanço. Giro as correntes e deixo que elas se desenrolem , m esm o j á estando m uito velho para esse tipo de coisa. Depois vou até a varanda dos fundos e experim ento a porta.

Ela abre.

Isso é errado, eu sei. Mas entro m esm o assim .

Tiro os sapatos, porque é a coisa m ais educada a fazer, e os deixo sobre um capacho na entrada. Então vou para a cozinha. Há tigelas de cereal na pia. Abro a geladeira e dou um a olhada na pilha de potes de plástico. Tem um a sobra de lasanha.

Pego um frasco de pasta de am endoim e cheiro. É só m inha im aginação ou ele cheira m elhor do que aquele que tem os na nossa casa?

Enfio o dedo e provo. Então, com o coração acelerado, levo o frasco até o balcão, com outro de geleia. Pego duas fatias de pão do pacote e procuro talheres nas gavetas. Preparo um sanduíche de pasta de am endoim e geleia com o se fosse algo que faço nessa cozinha o tem po todo.

Na sala de j antar, sento na cadeira em que a m enina sem pre senta nas refeições. Com o o sanduíche e im agino m inha m ãe vindo da cozinha com um grande peru assado em um a bandej a.

— Ei, pai — digo em voz alta para a cadeira vazia à m inha esquerda, fingindo que tenho um pai de verdade em vez de um doador de esperm a com sentim ento de culpa que envia um cheque todos os m eses.

Como vai a escola?, ele perguntaria.

— Gabaritei a prova de biologia.

Que maravilha! Não me surpreenderia se você acabasse na faculdade de medicina, como eu.

Sacudo a cabeça para rem over os pensam entos. Ou eu m e im aginei em um a série de TV ou tenho um a espécie de com plexo de Cachinhos Dourados.

Jacob costum ava ler para m im à noite. Bom , não exatam ente. Ele lia para si m esm o, e não era tanto ler com o recitar o que havia m em orizado, e sim plesm ente acontecia de eu estar na m esm a localização geográfica que ele e, portanto, tinha que ouvir. Mas eu gostava. Quando Jacob fala, sua voz sobe e desce, com o se cada frase fosse um a m elodia, o que soa estranho em um a conversa norm al, m as funciona bem em um conto de fadas. Lem bro de ouvir a história de “Cachinhos Dourados e os três ursos” e pensar que ela era um a otária. Se tivesse j ogado direito, talvez pudesse ter ficado lá.

No ano passado, quando entrei no prim eiro ano do ensino m édio, tive a chance de recom eçar. Havia pessoas de outras cidades que não sabiam nada de m im . Com ecei a andar com dois caras, Chad e Andrew. Eles estavam na m inha classe de m etodologia científica e pareciam bem legais, além disso m oravam em Swanzey, e não em Townsend, e nunca tinham encontrado m eu irm ão. Nós ríam os da bainha curta dem ais da calça do professor de ciências e nos sentávam os j untos na cantina na hora do alm oço. Até fizem os planos para ir ao cinem a se tivesse algum film e bom no fim de sem ana. Mas então Jacob apareceu na cantina um dia, porque tinha term inado a lição de física em um tem po alucinadam ente curto e o professor o havia dispensado da aula, e, é claro, ele veio direto até m im . Eu o apresentei e disse que ele estava uns anos à frente na escola. Pronto, esse foi m eu prim eiro erro. Chad e Andrew ficaram tão anim ados por ter a chance de fazer am izade com alguém de um a classe m ais avançada que com eçaram a fazer perguntas a Jacob, com o em que ano ele estava e se fazia parte de algum a equipe esportiva.

— Penúltim o ano — Jacob respondeu, e acrescentou que não gostava m uito de esportes. — Gosto de ciência forense. Vocês j á ouviram falar do dr. Henry Lee?

E desandou a falar por dez m inutos sem parar sobre o patologista de Connecticut que tinha trabalhado em casos im portantes, com o os de O. J. Sim pson, Scott Peterson e Elizabeth Sm art. Acho que ele perdeu Chad e Andrew em algum m om ento do tutorial sobre padrões de respingos de sangue. Desnecessário dizer que, no dia seguinte, na hora de escolher os parceiros de laboratório em m etodologia científica, eles se livraram rapidinho de m im .

Term inei m eu sanduíche, então levanto da m esa da sala de j antar e subo as escadas. O prim eiro quarto do andar de cim a é o do m enino e há figuras de dinossauros pregadas em todas as paredes. A roupa de cam a é coberta de pterodáctilos fosforescentes e há um controle rem oto em form a de T. rex caído de lado no chão. Por um m om ento, fico congelado. Houve um tem po em que Jacob era tão louco por dinossauros com o hoj e por ciência forense. Será que esse m enino sabe falar sobre o therizinossauro encontrado em Utah, com garras de quarenta centím etros que parecem algo saído de um film e de terror adolescente? Ou que o prim eiro esqueleto de dinossauro quase com pleto — um hadrossauro — foi encontrado em 1858 em New Jersey ?

Não, ele é só um a criança — não um a criança com Asperger. Eu sei, só de olhar pela j anela à noite e observar a fam ília. Eu sei porque aquela cozinha, com suas aconchegantes paredes am arelas, é um lugar em que quero estar, não um lugar de onde quero fugir.

De repente, lem bro de algo. Naquele dia em que Jacob e eu estávam os brincando no lago em baixo do barco inflável, quando eu m e apavorei porque não conseguia respirar e o barco estava preso em cim a da gente. Ele, de algum m odo, quebrou o efeito de sucção do barco na superfície da água, abraçou m eu peito e m e segurou no alto para que eu pudesse dar grandes aspiradas de ar. Depois m e arrastou até a m argem e ficou sentado ao m eu lado, trem endo, até eu encontrar voz para falar de novo. É a últim a vez em que m e lem bro de Jacob cuidando de m im , e não o contrário.

No quarto onde estou, há toda um a parede de prateleiras repletas de j ogos eletrônicos. Wii e Xbox, em sua m aioria, com alguns Nintendo DS no m eio. Nós não tem os nenhum console de j ogo; não tem os dinheiro para isso. As porcarias que Jacob precisa tom ar no café da m anhã, toda um a refeição extra de com prim idos, inj eções e suplem entos, custam um a fortuna, e sei que m inha m ãe às vezes passa noites fazendo trabalhos freelance de revisão para poder pagar Jess, a instrutora de habilidades sociais dele.

Ouço o ruído de um carro na rua silenciosa e, quando espio pela j anela, eu a vej o: a van verde virando para entrar na casa. Desço as escadas voando, atravesso a cozinha e saio pela porta dos fundos. Mergulho entre os arbustos, onde seguro a respiração e vej o o m enino sair da van prim eiro, com roupa de hóquei. Depois sua irm ã sai e, por fim , os pais. O pai tira um a sacola de equipam entos do porta-m alas e todos eles desaparecem dentro da casa.

Vou para a rua e m e afasto da casa vitoriana em m eu skate. Debaixo do casaco está o j ogo de Wii que peguei no últim o m inuto — algum desafio do Super Mario. Sinto o coração batendo forte de encontro a ele.

Não posso j ogá-lo. Na verdade, nem quero. Só o peguei porque sei que nem vão dar pela sua falta. Com o poderiam, se têm tantos?