Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 87 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

O prim eiro em prego de que fui dem itido era em um pet shop. Não vou falar o nom e da loj a, porque não tenho certeza se isso pode ser divulgado e, neste m om ento, j á tenho problem as suficientes com a j ustiça para durar um a vida inteira. Mas vou dizer, obj etivam ente, que fui o m elhor funcionário que eles j á tiveram e, apesar disso, eles m e m andaram em bora.

Mesm o que, quando alguém com prava um filhote de corgi, eu oferecesse fatos j unto com a ração. (Ele é parente do dachshund! O nom e é galês e significa cachorro anão!)

Mesm o que eu não tenha roubado da caixa registradora, com o um dos m eus colegas.

Mesm o que eu não tenha denunciado esse colega.

Mesm o que eu não fosse indelicado com os clientes e nunca resm ungasse quando era m inha vez de lim par os banheiros.

O que m eu chefe (Alan, que tinha dezenove anos e era um candidato extrem am ente viável para um tratam ento de pele) m e disse foi que os clientes haviam reclam ado da m inha aparência.

Não, eu não tinha m eleca escorrendo pelo nariz. Eu não babava. Eu não usava a calça abaixada quase até os j oelhos, com o o colega de que falei acim a. Tudo o que eu fazia, senhoras e senhores do j úri, era m e recusar a usar o uniform e da loj a. Era um a cam isa azul de botões. Eu a vestia nas sextas-feiras, m as, sinceram ente, j á era suficientem ente ruim ter que lidar com aqueles botões. Será que eu ainda tinha que aguentar usar cores nos dias errados tam bém ?

A propósito, ninguém tinha reclam ado. E era fácil m e identificar com o funcionário, porque, m esm o quando eu não estava de uniform e, usava um crachá tão grande quanto a cabeça de um recém -nascido, que dizia: OI, MEU NOME É JACOB. POSSO AJUDAR?

O verdadeiro m otivo de eu ter sido dem itido foi que, depois de várias sem anas arrum ando desculpas para j ustificar a Alan por que eu não usava uniform e, a não ser que eu fosse escalado para trabalhar às sextas-feiras, finalm ente contei a ele que eu era autista e tinha um problem a com cores de roupas, sem falar dos botões. Então, apesar do fato de que os filhotes realm ente m e am avam e de que eu vendia m ais do que qualquer outro funcionário dali; apesar do fato de que, no m esm o m om ento em que eu era dem itido, um a funcionária estava m andando um torpedo para o nam orado em vez de atender um cliente e outra estava flertando com Steve na seção de anfíbios — apesar de todas essas coisas, eu fui o bode expiatório por causa da m inha deficiência.

É, estou usando a carta do Asperger.

Tudo o que sei é que, antes de eu contar para Alan que tinha Asperger, ele estava disposto a engolir m inhas desculpas e, depois que contei, só queria m e ver longe.

Essa é a história da m inha vida.

 

Estam os indo para o tribunal no carro de Oliver. Minha m ãe está no banco da frente e Theo e eu no banco de trás. Passo a m aior parte do traj eto olhando coisas em que nem prestava atenção, paisagens que eu não via enquanto estava enfiado em prisão dom iciliar: a lanchonete Colony, com seu letreiro lum inoso estourado dizendo COMA NO COLO. A grande vitrine do pet shop onde trabalhei, com um em aranhado de filhotes em exposição. O cinem a onde perdi m eu prim eiro dente e a cruz ao lado da rua onde um adolescente um a vez m orreu a cam inho da escola durante um a tem pestade de neve. O outdoor do Grupo de Estudos da Bíblia da Igrej a Restwood, que diz: CAFÉ GRÁTIS! VIDA ETERNA! A PARTICIPAÇÃO TEM SEUS PRIVILÉGIOS!

— Muito bem — diz Oliver, depois de estacionar e desligar o m otor. — Aqui vam os nós.

Abro a porta e saio do carro. De repente, há m il sons m e atingindo com o flechas e tanta luz que tudo fica branco. Não consigo tam par os olhos e os ouvidos ao m esm o tem po e, de algum lugar em m eio aos gritos, ouço m eu nom e e as vozes de m inha m ãe e de Oliver. Eles se m ultiplicam diante dos m eus olhos, os m icrofones são com o células cancerosas e estão chegando cada vez m ais perto.

Oliver: Merda, eu devia ter previsto isso...

Mãe: Jacob, feche os olhos, querido. Está me ouvindo? Theo? Você está segurando ele?

E, então, sinto um a m ão em m eu braço, m as não sei se pertence ao m eu irm ão ou a um dos estranhos, esses que querem cortar m inhas veias de cim a a baixo e m e sangrar até eu ficar seco, esses com olhos de faróis e bocas de cavernas que querem um pedaço de m im para enfiar no bolso e levar em bora, até que não sobre nada.

Faço o que qualquer pessoa com um faria quando confrontada por um a horda de anim ais selvagens m ostrando os dentes e brandindo m icrofones: eu corro.

A sensação é fantástica.

Lem bre-se de que eu estive em um a prisão de seis por doze m etros e dois andares de altura. Posso não ser tão rápido quanto gostaria, porque estou usando sapatos sociais e tam bém sou desaj eitado por natureza, m as consigo chegar suficientem ente longe para não ouvir m ais as vozes. Não ouço nada, na verdade, a não ser o vento assobiando em m eus ouvidos e m inha respiração.

E, de repente, sou derrubado no chão.

— Que m erda — Oliver arquej a. — Estou velho dem ais para isso.

Mal posso falar, porque ele está deitado em m inhas costas.

— Você tem ... vinte e oito... — grunho.

Ele rola para o lado e, por um m om ento, estam os am bos esparram ados na calçada, debaixo da placa de um posto de gasolina. SEM CHUMBO $2,69.

— Desculpe — Oliver diz depois de alguns instantes. — Eu devia ter im aginado que ia ser assim .

Eu m e apoio nos cotovelos para olhar para ele.

— Muita gente quer ver o que vai acontecer com o seu caso — ele explica. — Eu devia ter preparado você para isso.

— Não quero voltar lá — digo.

— Jake, o j uiz vai te j ogar de volta na cadeia se você não for.

Rem em oro a lista de regras em m inha cabeça, aquelas que Oliver determ inou para o com portam ento no tribunal. Eu m e pergunto por que ele não passou as m esm as regras para os repórteres, porque, claram ente, enfiar um m icrofone no m eu nariz não se qualifica com o boa etiqueta.

— Quero um descanso sensorial — anuncio, o que é um a das respostas apropriadas para Oliver quando estiverm os no j ulgam ento.

Ele se senta e puxa os j oelhos de encontro ao peito. Um carro para j unto a um a bom ba de gasolina alguns m etros adiante e o rapaz que sai dele olha para nós com um a expressão estranha antes de passar o cartão de crédito.

— Vam os pedir um ao j uiz assim que estiverm os lá dentro. — Ele inclina a cabeça. — O que m e diz, Jake? Está pronto para lutar j unto com igo?

Mexo os dedos dentro da ponta dos sapatos sociais. Faço isso três vezes, porque dá sorte.

— Adoro o cheiro de napalm pela manhã — respondo.

Oliver desvia o olhar.

— Estou nervoso — ele adm ite.

Isso não parece um a coisa m uito agradável de ouvir de seu advogado antes de entrar em um j ulgam ento, m as gosto de ele não estar m entindo para m im .

— É bom você dizer a verdade — falo.

É um elogio, m as Oliver interpreta com o um a instrução. Ele hesita.

— Vou dizer a eles por que você não é culpado. — Ele se levanta e bate a poeira da calça. — Então, o que m e diz?

Essa frase sem pre m e pareceu capciosa. Na m aioria das vezes, ela é pronunciada por um a pessoa quando você ainda não disse absolutam ente nada, m as, claro, no m inuto em que você com enta que não disse nada, você disse.

— Tenho que passar por todas aquelas pessoas outra vez? — pergunto.

— Sim — responde Oliver —, m as tenho um a ideia.

Ele m e leva até a entrada do estacionam ento, onde Theo e m inha m ãe estão esperando ansiosam ente. Quero dizer algo a Oliver, m as até m e esqueço diante do problem a m ais im ediato.

— Feche os olhos — ele instrui, e eu obedeço. Depois, eu o sinto segurar m eu braço direito, e m inha m ãe segura o esquerdo. Meus olhos ainda estão fechados, m as com eço a ouvir o zunzum das vozes e, sem nem perceber, faço o m esm o som no fundo da m inha garganta.

— Agora... cante!

— I shot the sheriff... but I didn’t shoot no deputy... — Eu paro. — Ainda estou ouvindo as vozes.

Então, Theo com eça a cantar. E Oliver, e m inha m ãe. Todos nós, um quarteto vocal sem a harm onia das vozes, subindo os degraus do tribunal.

E dá certo. Provavelm ente por ficarem tão surpresos com o núm ero m usical, o m ar Verm elho de repórteres se abre e passam os bem no m eio.

Fico tão adm irado que levo alguns m om entos para lem brar o que estava preso em m inha garganta com o um a espinha de peixe antes de subirm os os degraus do tribunal.

 

1. Eu disse a Oliver a equação verbal que cham arem os de p: “É bom você dizer a verdade”.

2. Ele respondeu com q: “Vou dizer a eles por que você não é culpado”. 3. Na equação lógica dessa conversa, eu havia feito a pressuposição de que p e q eram equivalentes. 4. Agora, percebo que isso não é necessariam ente verdadeiro.

Antes de Jess e eu com eçarm os a trabalhar j untos, eu tinha que ir à aula de habilidades sociais na m inha escola. Ela era povoada em grande m edida por crianças que, diferentem ente de m im , não estavam particularm ente interessadas em fazer parte da cena social. Robbie era profundam ente autista e passava a m aior parte das sessões alinhando lápis de cera pelo chão da sala. Jordan e Nia tinham problem as de desenvolvim ento e passavam o tem po todo em educação especial em vez de ser integrados. Serafim a talvez fosse a m ais parecida com igo, em bora tivesse síndrom e de Down. Ela queria tanto ser parte da ação que subia no colo de um estranho e segurava o rosto dele entre as m ãos, o que era m uito m eigo aos seis anos, m as não tanto aos dezesseis.

Lois, a professora, inventava todo tipo de j ogos interativos e tínham os que participar. Fazíam os encenação de papéis e precisávam os nos cum prim entar com o se não estivéssem os sentados na m esm a sala j untos há m eia hora. Havia disputas para ver quanto tem po conseguíam os m anter contato visual. Um a vez, ela usou um cronôm etro para nos m ostrar quando devíam os parar de falar sobre um tem a para que outra pessoa pudesse ter sua vez na conversa, m as isso não durou m uito, porque Robbie ficou histérico na prim eira vez em que o apito tocou.

Todo dia tínham os que term inar a sessão em um círculo, em que cada um fazia um elogio à pessoa sentada ao lado. Robbie sem pre dizia a m esm a coisa, não im porta quem fosse seu vizinho: Eu gosto de tartarugas de água doce.

(E ele gostava m esm o. Sabia m ais sobre elas do que qualquer pessoa que eu conhecia e que provavelm ente vou conhecer e, se não fosse ele, eu ainda estaria confundindo tartarugas de água doce com tartarugas de j ardim .)

Jordan e Nia sem pre faziam elogios baseados na aparência. Eu gosto do jeito como você penteia o cabelo. Eu gosto da sua saia vermelha.

Um dia, Serafim a m e disse que gostava de m e ouvir falar sobre DNA m itocondrial. Eu virei para ela e disse que não gostava que ela m entisse, j á que, naquele m esm o dia, ela havia usado o sinal de m ão que havíam os com binado em um a aula — um sinal de paz com os dedos levantados no ar — para avisar a Lois que estava cansada do tem a, em bora eu ainda não tivesse chegado na parte sobre com o todos nós estam os relacionados neste m undo.

Foi então que Lois cham ou m inha m ãe, e m inha m ãe encontrou Jess.

Eu tam bém trabalhava elogios com Jess, m as era diferente. Para com eçar, eu realm ente queria fazer os elogios a ela. Eu gostava mesmo do j eito com o seu cabelo se parecia com aqueles fios finos que a gente tira da espiga de m ilho antes de colocá-la na água fervente, e do j eito que ela desenhava rostos sorridentes nas pontas brancas de borracha de seus tênis. E, quando eu com eçava a falar sem parar sobre ciência forense, ela não fazia um sinal de paz com os dedos no ar; em vez disso, fazia m ais perguntas.

Era quase com o se esse fosse seu m odo de m e conhecer: pelo j eito com o a m inha m ente funcionava. Ela era com o um labirinto; tinha-se que seguir todas as voltas e curvas para encontrar onde eu havia com eçado, e eu ficava surpreso por Jess estar disposta a dedicar esse tem po. Acho que eu não pensava realm ente que m inha m ãe devia estar pagando para ela fazer isso, pelo m enos até o com entário daquele idiota do Mark Maguire na cantina. Mesm o assim , não era com o se ela estivesse sentada ali fazendo contagem regressiva dos m inutos que ainda tinha que aguentar com igo. Qualquer um teria percebido isso se a visse.

Minha sessão favorita com Jess foi quando treinam os com o convidar um a garota para o baile. Estávam os sentados em um a lanchonete porque chovia — tínham os sido surpreendidos por um aguaceiro repentino. Enquanto esperávam os passar, Jess decidiu que podíam os com er algum a coisa, em bora não houvesse m uito fast-food sem glúten e caseína. Eu pedi duas batatas assadas e um a salada sem m olho e Jess pediu um cheeseburger.

— Você não pode com er nem a batata frita?

— Não — respondi. — Tem a ver com a cam ada de fora e o óleo em que elas são fritas. A única batata frita de fast-food que não tem glúten é a do Hooters.

Jess riu.

— Haha, lá eu não vou levar você. — E deu um a olhada na m inha batata sem recheio e na salada sem m olho. — Não pode nem pôr um pouco de m anteiga?

— Não, só se for de soj a. — Dei de om bros. — A gente se acostum a.

— Quer dizer que isto — disse ela, girando o cheeseburger na m ão — é o beij o da m orte para você?

Senti m eu rosto ficar verm elho com o fogo. Não sabia do que ela estava falando, m as ouvi-la dizer a palavra beijo foi suficiente para eu sentir que havia com ido um a borboleta em vez de um pepino.

— Não é com o um a alergia — respondi.

— O que aconteceria se você com esse?

— Não sei. Acho que eu ficaria perturbado m ais facilm ente. A dieta sim plesm ente funciona, por algum a razão.

Ela olhou para o pão e pegou um grão de gergelim da casca.

— Talvez eu devesse entrar nessa dieta tam bém .

— Não tem nada que perturbe você — eu disse.

— Você é que pensa — Jess respondeu, depois sacudiu a cabeça e voltou para o tem a do dia. — Vá em frente. Convide.

— Hã... — m urm urei, olhando para m inha batata —, você quer ir ao baile com igo?

— Não — Jess disse, decidida. — Você tem que ser convincente, Jacob.

— Eu, hã... vou ao baile e achei que, com o você talvez estej a lá tam bém ...

— Blá-blá-blá — interrom peu ela.

Eu m e forcei a olhar diretam ente para Jess.

— Acho que você é a única pessoa que m e entende. — Engoli com força. — Quando estou com você, o m undo não parece um problem a que eu não consigo desvendar. Por favor, vá ao baile com igo — eu disse —, porque você é a m inha m úsica.

Jess ficou boquiaberta.

— Uau, Jacob! — ela exclam ou e, de repente, estava de pé, m e puxando para cim a e m e abraçando, e eu senti o cheiro da chuva em seu rabo de cavalo e não m e im portei nem um pouco por ela estar invadindo m eu espaço e próxim a dem ais. Eu gostei. Gostei tanto que aquilo aconteceu, e eu tive que afastá-la antes que ela notasse ou (pior) sentisse a pressão.

Um casal idoso que estava sentado à nossa frente sorriu. Não tenho ideia do que eles pensaram de nós, m as as chances eram de que Garoto Autista com Orientadora de Habilidades Sociais não estivesse no topo da lista. A m ulher piscou para Jess.

— Parece que este é um cheeseburger de que você não vai esquecer tão fácil.

Há m uito sobre Jess de que eu não vou m e esquecer. Com o suas unhas estavam pintadas com esm alte roxo brilhante naquele dia. E com o ela odiava m olho barbecue. Com o, quando ela ria, não era algo delicado e contido, m as um som que vinha de dentro dela.

A gente passa tanto tem po convivendo com pessoas de m odo superficial. A gente lem bra com o se divertiu, m as nada m uito específico.

Nunca vou m e esquecer de um único detalhe sobre ela.