Um Mundo à Parte
Rich
Às vezes, chego atrasado dem ais.
No ano passado, um dia depois do Natal, um a m enina de treze anos cham ada Gracie Cheever não chegou a descer de seu quarto. Foi encontrada pendurada em um a corda, am arrada em um varão do arm ário. Quando cheguei com os investigadores que fotografaram a cena, a prim eira coisa que notei foi a bagunça que era o quarto de Gracie — tigelas de cereal m atinal acum uladas em um a pilha alta, papéis e roupa suj a j ogados pelo chão. Ninguém j am ais dizia a essa criança para arrum ar o quarto. Dei um a olhada em seu diário e descobri que Gracie se cortava; ela odiava sua vida e a si m esm a; ela odiava seu rosto e se achava gorda, anotava cada coisinha que com ia e todas as vezes em que quebrava a dieta. E então, em um a página: “Sinto falta da m inha m ãe”. Perguntei a um dos policiais se a m ãe dela tinha m orrido, e ele sacudiu a cabeça.
— Ela está na cozinha — disse.
Gracie era a m ais velha de duas filhas. Tinha um a irm ã m ais nova com síndrom e de Down e, sem brincadeira, sua m ãe vivia para essa criança. Ela a educava em casa; fazia a fisioterapia da m enina em tapetes na sala de estar. E, enquanto a m ãe estava ocupada sendo um a santa, o pai de Gracie a m olestava.
Levei o diário de Gracie para a delegacia e fiz duas fotocópias dele. Estava cheio de sangue, porque, enquanto escrevia, ela estava se cortando. Um a das cópias, eu entreguei ao legista. A segunda, levei para o chefe.
— Alguém dessa fam ília precisa saber o que estava acontecendo — eu lhe disse.
Depois do enterro de Gracie, liguei para sua m ãe e pedi para m e encontrar com ela. Nós nos sentam os na sala de estar, diante de um a lareira acesa. Nesse encontro, eu lhe entreguei um a cópia do diário e disse que havia m arcado as páginas que ela realm ente deveria ler. Ela m e fitou com olhos frios e contou que a fam ília estava recom eçando a vida. Agradeceu-m e e, diante de m eus olhos, j ogou o diário no fogo.
Estou pensando em Gracie Cheever agora, enquanto contorno cautelosam ente a galeria onde o corpo de Jess Ogilvy foi localizado. Ela está envolta em um cobertor e totalm ente vestida. Há um fino brilho de geada sobre suas roupas e sua pele. Way ne Nussbaum retira as luvas de látex que usou para exam inar o corpo e instrui seus assistentes a esperar que os investigadores term inem de fotografar a cena antes de transportar a vítim a para o hospital para a autópsia.
— Prim eira im pressão? — pergunto.
— Ela está m orta há algum tem po. Dias, im agino, em bora sej a difícil dizer. O frio produz um belo necrotério im provisado. — Ele enfia as m ãos nuas sob as axilas. — Duvido que tenha sido m orta aqui. Os arranhões nas costas dela sugerem que o corpo foi arrastado depois da m orte. — Com o um pensam ento que lhe ocorreu naquele m om ento, ele pergunta: — Algum de seus hom ens encontrou um dente?
— Por quê?
— Porque está faltando um nela.
Tom o nota m ental de pedir a m eus investigadores que o procurem .
— Você acha que foi arrancado com um soco? Ou tirado com o um troféu depois da m orte?
Ele sacode a cabeça.
— Rich, não vou ficar fazendo j ogo de suposições com você às quatro da m anhã. Depois telefono com o laudo.
Enquanto ele se afasta, o flash da m áquina fotográfica de um investigador ilum ina a noite.
Naquele instante, parecem os todos fantasm as.
Mark Maguire engole em seco quando vê a m ochila que voltou do laboratório.
— Foi essa que a tia deu para ela — m urm ura.
Ele está em estado de choque. Não só soube que sua nam orada estava m orta com o tam bém , segundos depois, foi preso por seu assassinato. Eram sete horas da m anhã quando os policiais apareceram em seu apartam ento para trazê-lo. Agora, durante o interrogatório, ele ainda veste as roupas com que foi dorm ir na noite passada: calça de m oletom e um a cam iseta desbotada da UVM. De tem pos em tem pos, ele trem e na fria sala de conferências, m as isso só m e faz pensar na pele azulada de Jess Ogilvy.
Minha cronologia está tom ando form a. Do m odo com o a im agino, Maguire estava brigando com Jess e deu um soco nela, arrancando um dente e m atando-a sem querer. Em pânico, lim pou as provas e, depois, tentou fazer com que parecesse um sequestro: a tela cortada, a torre de CDs e os bancos da cozinha derrubados, o bilhete na caixa de correio, a m ochila cheia de roupas de Jess.
Tiro as roupas da m ochila: a m aioria é grande dem ais para a constituição m iúda de Jess.
— Um crim inoso m ais esperto que estivesse deixando um a pista falsa teria pegado roupas que servissem nela — pondero. — Mas enfim , Mark, você não é m uito esperto, é?
— Eu j á lhe disse, não tive nada a ver com ...
— Você arrancou um dente dela quando estavam brigando? — pergunto. — É assim que um cara com o você se excita? Batendo na nam orada?
— Eu não bati nela...
— Mark, você não tem com o escapar. Acham os o corpo dela e há hem atom as nítidos nos braços e no pescoço. Quanto tem po você acha que vai dem orar até fazerm os a ligação dessas m arcas com você?
Ele estrem ece.
— Eu j á disse. Estávam os brigando, eu a segurei m esm o pelos braços e a apertei contra a parede. Eu queria... queria lhe dar um a lição.
— E a lição foi um pouco longe dem ais, não foi?
— Eu não m atei a Jess. Juro por Deus.
— Por que você levou o corpo dela para o bosque?
Ele olha direto para m im .
— Por favor, você tem que acreditar em m im .
Eu m e levanto e m e inclino sobre ele.
— Eu não tenho que acreditar em nada que você diz, seu im becil. Você j á m entiu para m im sobre ter brigado com ela no fim de sem ana, e agora descobrim os que brigou com ela na terça-feira tam bém . Tenho a m arca de suas botas do lado de fora da j anela com a tela cortada, suas im pressões digitais na garganta dela e um a garota m orta que foi lim pa e rem ovida do local. Pode perguntar a qualquer j úri deste país com o isso tem um a trem enda cara de um suj eito que m atou a nam orada e depois tentou esconder o crim e.
— Eu não cortei aquela tela. Não sei quem fez isso. E não bati nela. Fiquei com raiva e a em purrei... e fui em bora.
— Certo. E depois voltou e a m atou.
Os olhos de Maguire se encheram de lágrim as. Eu m e pergunto se ele está realm ente sofrendo pela m orte de Jess Ogilvy ou apenas por ter sido pego.
— Não — ele diz, com a voz rouca. — Não, eu am ava a Jess.
— Você chorou assim enquanto estava lim pando o sangue dela no banheiro? E quando teve que lim par todo o sangue do rosto dela?
— Quero vê-la — Maguire pede. — Me deixe ver a Jess.
— Você devia ter pensado nisso antes de m atá-la — digo.
Quando m e afasto um pouco, com a intenção de deixá-lo rem oer a própria culpa por alguns m inutos antes de voltar para forçar a confissão, Maguire apoia o rosto nas m ãos. É quando percebo que elas estão com pletam ente íntegras: nenhum a contusão, nenhum corte, que seriam de esperar quando se soca alguém com força suficiente para arrancar um dente.