Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 86 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

Não é a prim eira vez que tenho que lutar com m eu irm ão para ele vestir paletó e gravata.

— Caram ba, Jacob, pare com isso antes que acerte m eu olho — m urm uro, segurando as m ãos dele sobre a cabeça e m ontado sobre seu corpo, que se debate com o um peixe que de repente se vê fora da água.

Minha m ãe está fazendo o possível para dar o nó na gravata, m as Jacob se contorce tanto que fica parecendo m ais um nó de correr.

— Você precisa m esm o abotoar? — grito, m as duvido que ela possa m e escutar. Jacob vence em decibéis. Aposto que os vizinhos estão ouvindo e im agino o que devem estar pensando. Provavelm ente que estam os enfiando alfinetes em seus olhos.

Minha m ãe consegue prender um dos pequenos botões do colarinho da cam isa antes de Jacob m order sua m ão. Ela solta um gritinho e afasta a m ão do pescoço dele, deixando um dos botões ainda aberto.

— Já está bom assim — diz ela, bem no m om ento em que Oliver chega para nos pegar para o prim eiro dia do j ulgam ento.

— Eu bati — diz ele, m as é óbvio que não poderíam os ter escutado.

— Você está adiantado — m inha m ãe responde. Ela ainda está de roupão de banho.

— Bem , vam os ver o produto acabado — diz Oliver, e m inha m ãe e eu nos afastam os de Jacob.

Oliver o observa por um longo m om ento.

— Mas que droga é essa? — ele pergunta.

Certo, eu adm ito que Jacob não vai ganhar nenhum concurso de m oda, m as está de paletó e gravata, que foram os critérios exigidos. Ele usa um terno de poliéster cor de gem a de ovo que m inha m ãe encontrou em um brechó. E um a cam isa am arelo-clara, com um a gravata dourada de m alha.

— Ele parece um cafetão — Oliver define.

Minha m ãe pressiona os lábios.

— Hoj e é Quarta-Feira Am arela.

— Não m e im porta se é Dom ingo de Bolinhas! E nem ninguém m ais naquele j úri se im porta. Esse é o tipo de terno que o Elton John usa em shows, Em m a, não o que um réu usa em um j ulgam ento.

— Foi um acordo — m inha m ãe insiste.

Oliver passa a m ão pelo rosto.

— Não falam os em um blazer azul?

— Sextas-feiras são azuis — Jacob diz. — Vou usar o azul na sexta-feira.

— E, coincidentem ente, vai usar hoj e tam bém — Oliver responde, e olha para m im . — Quero que você m e aj ude enquanto sua m ãe vai se vestir.

— Mas...

— Em m a, não tenho tem po para brigar com você agora — Oliver declara.

Minha m ãe com binou usar um a saia cinza-escura m uito sim ples com um blusão azul. Eu estava aqui quando Oliver exam inou todo o guarda-roupa dela, dando vazão ao seu estilista interior, e escolheu algo que, segundo ele, era “escuro e conservador”.

Zangada, m inha m ãe sai do quarto de Jacob de m au hum or. Eu cruzo os braços.

— Acabei de enfiar essas roupas nele. De j eito nenhum que vou tirar agora.

Oliver dá de om bros.

— Jacob, tire essa roupa.

— Com prazer — Jacob explode, e arranca as roupas do corpo em segundos.

Oliver o segura.

— Pegue aquela cam isa listrada, o blazer e a gravata verm elha — ele ordena, espiando para dentro do arm ário aberto de Jacob. Assim que faço isso, Jacob dá um a olhada nas roupas, que são de um estilo que ele odeia, além de serem da cor errada, e solta um grito de arrepiar. — Puta m erda — Oliver m urm ura.

Seguro as m ãos de Jacob e as prendo sobre a cabeça dele outra vez.

— Você ainda não viu nada — digo.

 

A últim a vez que tive de vestir m eu irm ão de terno e gravata foi para o funeral de m eu avô. Minha m ãe não estava bem naquele dia e talvez tenha sido por isso que Jacob não brigou tanto por causa das roupas quanto hoj e. Nenhum de nós tinha terno e gravata, então m inha m ãe os havia tom ado em prestados do m arido de um a vizinha. Éram os m ais novos na época e o terno de um adulto não servia em nós. Ficam os sentados na sala onde estava o caixão, com as roupas nadando à nossa volta, com o se tivéssem os sido m aiores antes de serm os abalados pelo luto.

Na verdade, eu não conhecia m eu avô m uito bem . Ele estava em um a casa de repouso desde que m inha avó tinha m orrido, e m inha m ãe nos arrastava para visitá-lo duas vezes por ano. O lugar tinha cheiro de xixi e eu ficava m uito im pressionado com os velhos em cadeiras de rodas, com a pele que parecia esticada dem ais e m uito brilhante e apertada sobre os nós dos dedos e os j oelhos ossudos. A única boa lem brança que tinha de m eu avô era sentar em seu colo quando eu era bem pequeno e vê-lo tirar um a m oeda da m inha orelha. O hálito dele cheirava a uísque, e os cabelos brancos, quando eu os tocava, eram duros com o palha de aço.

Ainda assim , ele estava m orto, e eu achava que deveria sentir algum a coisa... porque, se não sentisse, isso significaria que eu não era m elhor do que Jacob.

Minha m ãe tinha nos deixado sozinhos enquanto recebia as condolências de pessoas cuj os nom es ela nem sabia. Fiquei sentado ao lado de Jacob, que olhava fixo para o caixão à frente. Era preto e estava apoiado em cavaletes adornados, cobertos por m antos de veludo verm elho.

— Jacob — sussurrei. — O que você acha que acontece depois?

— Depois do quê?

— Depois... que a gente m orre. Você acha que a gente ainda vai para o céu m esm o sem nunca ter ido à igrej a? — Fiquei pensando nisso por um m om ento. — Você acha que a gente reconhece as pessoas no céu, ou é com o se m udar para um a escola nova e com eçar tudo do zero?

Jacob olhou para m im .

— Depois de m orrer, a gente se decom põe. Califorídeos chegam a um corpo m inutos depois da m orte. Essas m oscas-varej eiras põem ovos em feridas abertas ou em orifícios naturais m esm o antes da m orte e suas larvas eclodem em vinte e quatro horas. Então, em bora as larvas não possam viver sob o solo, as pupas podem ser enterradas vivas com o corpo e fazem seu trabalho dentro do caixão.

Eu ouvi boquiaberto.

— Por quê? — Jacob m e desafiou. — Você achava m esm o que esse em balsam am ento para o enterro durava para sem pre?

Depois disso, não lhe fiz m ais nenhum a pergunta.

 

Depois de Jacob ser enfiado em seus novos traj es form ais, deixo Oliver lidando com os resíduos da explosão e vou para o quarto de m inha m ãe. Ela não responde quando bato, então abro a porta um pouquinho e dou um a espiada lá dentro.

— Estou aqui — ela avisa do quarto de vestir.

— Mãe — digo, e sento na cam a dela.

— Jacob está pronto? — Ela põe a cabeça na porta.

— Quase. — Fico m exendo em um fio de sua colcha.

Em todos esses anos que m oram os aqui, m inha m ãe sem pre dorm iu do lado esquerdo da cam a. A gente im aginaria que, nessa altura, ela j á teria se espalhado e tom ado posse de tudo, m as não. É com o se ainda estivesse esperando que alguém entrasse do outro lado.

— Mãe — repito. — Tenho que falar com você.

— Claro, querido, m ande ver — diz ela. — Onde eu enfiei aqueles sapatos pretos de salto?

— É m eio im portante. É sobre Jacob.

Ela vem e se senta ao m eu lado na cam a.

— Ah, Theo — ela suspira. — Tam bém estou com m edo.

— Não é bem que...

— Vam os fazer isso do m esm o j eito que sem pre fizem os tudo com Jacob — ela prom ete. — Juntos.

Então m e dá um abraço apertado, que só faz com que eu m e sinta ainda pior, porque sei que não vou lhe dizer o que quero, o que preciso dizer.

— Com o estou? — ela pergunta, afastando-se de m im .

Só então reparo no que ela está vestindo. Não a saia conservadora, o blusão azul e o colar de pérolas que Oliver tinha escolhido para ela, m as um vestido de verão totalm ente fora de estação, am arelo vibrante. Ela sorri para m im .

— É Quarta-Feira Am arela — diz.