Um Mundo à Parte
Emma
A única razão de eu ter deixado Rich Matson entrar em m inha casa é porque ainda não estou totalm ente segura de que ele não quer castigar Jacob por aparecer naquela cena de crim e no fim de sem ana passado, e vou fazer o que for preciso para que todo esse pesadelo acabe de um a vez.
— Jacob — digo —, o detetive Matson precisa falar com você sobre outra coisa. Quer se sentar um m inuto?
Estam os correndo contra o relógio; não que Matson vá entender.
— Um m inuto. Porque são quase quatro e m eia — Jacob m e diz.
Não sei com o alguém pode olhar para Jacob e im aginar que ele seria um a testem unha viável. É verdade que ele tem um a m ente afiada. Mas, na m etade do tem po, não há com o entrar nela.
O detetive se senta à m esa da cozinha. Eu baixo o fogo das panelas e m e sento tam bém . Jacob está se esforçando para olhar na direção de Matson, m as suas pálpebras ficam oscilando com o se ele estivesse olhando para o sol e, por fim , ele desiste e deixa o olhar se desviar.
— Você tem um a am iga cham ada Jess, certo? — o detetive pergunta.
— Sim .
— O que você e a Jess fazem j untos?
— Praticam os habilidades sociais. Conversas. Despedidas. Coisas assim . — Ele hesita. — Ela é m inha m elhor am iga.
Isso não m e surpreende. A definição de am igo de Jacob não é legítim a. Para ele, um am igo pode ser um garoto que tem o arm ário ao lado do dele na escola e que, por isso, tem um a interação pelo m enos um a vez por dia para dizer: Você poderia me dar licença? Um am igo é alguém que ele não conhece diretam ente, m as que não o provoca ativam ente na escola. Jess pode ser paga por m im para se encontrar com Jacob, m as isso não anula o fato de que ela se interessa sinceram ente por ele e consegue se conectar.
O detetive olha para Jacob que, claro, não está olhando para ele. Vej o todo o tem po as pessoas hesitarem ao dem onstrar essa cortesia norm al de com unicação. Depois de alguns instantes, a pessoa fica com a sensação de que está encarando e desvia o olhar, im itando o com portam ento de Jacob. E, dito e feito, Matson não dem ora a baixar os olhos para a m esa, com o se houvesse algo fascinante na textura da m adeira.
— Jacob, acontece que, neste m om ento, a Jess está desaparecida. E é m eu trabalho encontrá-la.
Eu levo um susto.
— Isso é o que o senhor cham a de sensibilidade?
Mas Jacob não parece surpreso, o que m e faz im aginar se ele viu o noticiário, ou leu sobre o desaparecim ento nos j ornais online.
— A Jess se foi — ele diz.
O detetive se inclina para frente.
— Você deveria encontrar com ela na terça-feira passada?
— Sim — responde Jacob. — Às duas e trinta e cinco.
— E encontrou?
— Não.
De repente, a crise de Jacob faz perfeito sentido. Ir até a nova residência desconhecida de Jess — o que j á devia estar disparando seus alarm es — e ela não aparecer... Eis a crise perfeita para um garoto com Asperger.
— Ah, Jacob. Foi por isso que você teve um surto?
— Surto? — Matson repete.
Dou um a olhada rápida para ele.
— Quando a rotina de Jacob é perturbada, ele fica m uito agitado. Esse foi um golpe duplo e, quando ele chegou em casa... — Eu m e interrom po, lem brando de repente de outra coisa. — Você veio andando da casa da Jess até aqui? Sozinho?
Não é que ele não pudesse saber o cam inho. Jacob é um verdadeiro GPS hum ano: basta um a olhada em um m apa para m em orizá-lo. Mas saber a geografia e saber seguir direções são duas coisas m uito diferentes. Ir do ponto A ao ponto B ao ponto C com certeza o confunde.
— Vim — Jacob diz. — Não foi tão ruim .
Foram quase treze quilôm etros. Em um frio congelante. Im agino que devo considerar que tivem os sorte: para com pletar a situação, Jacob ainda poderia ter tido um a pneum onia.
— Quanto tem po você esperou por ela?
Jacob olha para o relógio e com eça a esfregar as pontas dos dedos nos polegares, para frente e para trás.
— Tenho que ir agora.
Noto o detetive olhando com curiosidade para Jacob enquanto este se agita na cadeira e sei m uito bem o que ele está pensando.
— Im agino que, quando você vê alguém que não faz contato visual e que não consegue ficar quieto, im ediatam ente entende isso com o um sinal de culpa — digo. — Quanto a m im , vej o com o um sinal de que ele está no espectro.
— São quatro e m eia. — A voz de Jacob é m ais alta, m ais urgente.
— Pode ir ver CrimeBusters — eu lhe digo, e ele corre para a sala.
O detetive olha para m im , estupefato.
— Desculpe, m as eu estava no m eio de um interrogatório.
— Eu achei que isso não era um interrogatório.
— A vida de um a j ovem pode estar em perigo e a senhora acha m ais im portante que seu filho vej a um program a de televisão?
— Acho — respondo rispidam ente.
— Não lhe parece estranho que seu filho não estej a perturbado pelo desaparecim ento da orientadora dele?
— Meu filho não ficou perturbado nem quando m eu pai m orreu — respondo. — Foi um a aventura forense para ele. Ele vai sentir o desaparecim ento da Jess apenas pelo m odo com o isso o afetar, que é com o ele m ede tudo. Quando ele se der conta de que a sessão de dom ingo com a Jess não vai acontecer, aí ele vai ficar perturbado.
O detetive olha para m im por um longo m om ento. Penso que vai m e fazer um a preleção sobre obstrução da j ustiça, m as, em vez disso, ele inclina a cabeça para o lado, pensativo.
— Isso deve ser difícil para a senhora.
Não lem bro quando foi a últim a vez que alguém m e disse essas palavras. Eu não trocaria Jacob por nada neste m undo — sua ternura, seu cérebro incrível, sua devoção por seguir regras —, m as isso não significa que tenha sido fácil. Um a m ãe com um não se preocupa se o fato de as pessoas evitarem seu filho em um concerto da escola dói nele tanto quanto dói em m im . Um a m ãe com um não telefona para a com panhia elétrica quando a luz acaba para dizer que um dos m oradores da casa tem um problem a de saúde que requer intervenção im ediata — porque perder CrimeBusters de fato se enquadra nessa situação no que se refere a Jacob. Um a m ãe com um não fica acordada à noite im aginando se Theo um dia vai aceitar o irm ão a ponto de cuidar dele quando ela tiver partido.
— É a m inha vida — digo, dando de om bros.
— A senhora trabalha fora?
— Está m e interrogando tam bém ?
— Só estou puxando conversa até o intervalo na televisão — ele diz, sorrindo.
Eu o ignoro, m e levanto e m exo os m irtilos que estou cozinhando para o recheio da torta que vou servir no j antar.
— Seu filho nos pegou de surpresa naquela noite — Matson continua. — Não estam os acostum ados a ver m enores aparecendo no m eio de nossas cenas de crim e.
— Tecnicam ente, ele não é m enor. Tem dezoito anos.
— Bom , ele tem m ais conhecim ento científico forense do que alguns caras que eu conheço e que são quatro vezes m ais velhos.
— Me conte algo que eu não saiba.
— Você tem olhos lindos — o detetive diz.
Atrapalhada, derrubo a colher dentro da panela.
— O que você falou?
— Você ouviu — Matson responde, e vai para a sala esperar que os créditos de abertura de CrimeBusters term inem .