Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 51 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Um a vez Theo m e perguntou se, caso houvesse um antídoto para o Asperger, eu ia querer tom á-lo.

Respondi a ele que não.

Não sei com certeza quanto de m im está preso na parte que é Asperger. E se eu perdesse parte de m inha inteligência, por exem plo, ou m eu sarcasm o? E se ficasse com m edo de fantasm as no Halloween em vez da cor das abóboras? O problem a é que não m e lem bro de quem eu era sem Asperger, então quem sabe o que iria sobrar? Com paro isso a um sanduíche de pasta de am endoim e geleia que a gente abre no m eio. Não é possível se livrar totalm ente da pasta de am endoim sem levar algum a geleia j unto, não é m esm o?

Vej o m inha m ãe. É com o o sol quando se está sob a água e se tem coragem suficiente para abrir os olhos. Ela está desfocada e um pouco fluida e brilhante dem ais para ver claram ente. Eu estou m uito abaixo da superfície.

Minha garganta dói de gritar tão alto; tenho contusões que chegam até o osso. Nas poucas vezes em que dorm i, acordei chorando. Tudo o que eu queria era alguém que entendesse o que fiz, e por quê. Alguém que se im portasse tanto quanto eu.

Quando eles m e deram aquela inj eção na cadeia, sonhei que m eu coração tinha sido arrancado do peito. Os m édicos e os guardas da prisão o passaram de m ão em m ão com o em um j ogo de Batata Quente e, depois, tentaram costurá-lo de volta no lugar, m as isso só m e fez ficar parecendo o m onstro Frankenstein. Olhem , eles todos exclam aram , não dá nem para perceber, e, com o isso era um a m entira, eu não podia acreditar em m ais nada que dissessem .

Eu não queria ficar com a geleia sem a pasta de am endoim , m as às vezes m e pergunto por que não pude ser carne fatiada, que todo m undo prefere.

Antes havia um a teoria de que o cérebro autista não funcionava direito por causa dos intervalos entre os neurônios, da falta de conectividade. Agora há um a nova teoria de que o cérebro autista funciona bem dem ais, que há tanta coisa acontecendo em m inha cabeça ao m esm o tem po que preciso trabalhar horas extras para filtrar tudo e, às vezes, o m undo com um acaba virando o bebê j ogado fora com a água do banho.

Oliver, que diz que é m eu advogado, falou com igo na linguagem da natureza. Isso é tudo que eu sem pre quis: ser tão orgânico quanto o verticilo de sem entes em um girassol ou a espiral de um a concha. Quando é preciso se em penhar com tanto esforço para ser norm al, quer dizer que não se é.

Minha m ãe avança. Ela está chorando, m as há um sorriso em seu rosto. Meu Deus, é algum a surpresa que eu não consiga nunca entender o que as pessoas estão sentindo?

Geralm ente, quando eu vou para onde vou, é um a sala sem portas nem j anelas. Mas na cadeia esse era o m undo, então eu tinha que ir para outro lugar. E era para um a cápsula de m etal, caída no fundo do m ar. Se alguém tentasse vir m e pegar, com um a faca, ou um form ão, ou um a crosta de esperança, o oceano sentiria a m udança e o m etal im plodiria.

O problem a era que as m esm as regras se aplicavam a m im , que tentava sair.

Minha m ãe está a cinco passos de distância. Quatro. Três.

Quando eu era m uito pequeno, assisti em um a m anhã de dom ingo a um program a de televisão cristão feito para crianças. Era sobre um m enino com necessidades especiais que brincava de esconde-esconde com outras crianças em um ferro-velho. As outras crianças se esqueceram dele e, um dia depois, a polícia o encontrou sufocado em um a geladeira velha. Não entendi um a m ensagem religiosa nisso, com o a Regra de Ouro ou a salvação eterna. Entendi: Não se esconda em geladeiras velhas.

Dessa vez, quando eu fui para onde fui, pensei que tinha ido longe dem ais. Não havia m ais dor e nada im portava, é verdade. Mas ninguém ia m e encontrar e iam acabar desistindo de procurar.

Agora, porém , m inha cabeça está com eçando a doer outra vez e m eus om bros tam bém doem . Posso sentir o cheiro de m inha m ãe: baunilha e frésia e o xam pu que ela usa que vem em um frasco verde. Sinto seu calor, com o asfalto no verão, no m inuto em que os braços dela m e envolvem .

— Jacob — ela diz.

Meu nom e sobe na m ontanha-russa de um soluço. Meus j oelhos cedem de alívio com o conhecim ento de que eu não desapareci, afinal.