Um Mundo à Parte
Oliver
A defensoria pública de Verm ont não é cham ada de defensoria pública, m as de algo que parece ter sido tirado de um rom ance de Dickens: Repartição da Defensoria Geral. No entanto, com o em qualquer defensoria pública, os funcionários são sobrecarregados e sub-rem unerados. É por isso que, depois de instruir Em m a sobre a lição de casa dela, vou para m eu apartam ento-escritório fazer a m inha.
Thor m e recebe pulando sobre m im e m e unhando bem na virilha.
— Valeu, am igão — arquej o, afastando-o. Mas ele está com fom e, então lhe dou sobras de m acarrão m isturado com ração, enquanto procuro as inform ações de que preciso na internet e faço um telefonem a.
Em bora sej am sete horas da noite, m uito depois da hora de expediente, um a m ulher atende.
— Alô — digo. — Meu nom e é Oliver Bond. Sou um advogado novo em Townsend.
— Já estam os fechados...
— Eu sei. É que sou am igo de Janice Roth e estou tentando encontrá-la...
— Ela não trabalha m ais aqui.
Sei disso. Na verdade, tam bém sei que Janice Roth se casou recentem ente com um cara cham ado Howard Wurtz e que eles se m udaram para o Texas, onde ele tinha um a oferta de em prego na NASA. Buscas nos arquivos públicos são o m elhor am igo do advogado de defesa.
— Ah, que droga. É m esm o? Puxa, que pena. Sou am igo dela da faculdade de direito.
— Ela se casou — a m ulher inform a.
— Sim , com o Howard, certo?
— Você o conheceu?
— Não, m as sei que ela era louca por ele — digo. — Por acaso você é defensora pública tam bém ?
— Infelizm ente, sim — ela suspira. — Você está na advocacia privada? Acredite, não está perdendo nada.
— Que é isso, você vai ganhar o céu m uito antes de m im — brinco. — Olha, eu tenho um a pergunta bem rápida. Sou novato em direito penal aqui em Verm ont e ainda estou aprendendo com o as coisas funcionam .
Sou novato em direito penal, ponto. Mas não quero contar isso a ela.
— Claro. O que quer saber?
— Meu cliente é um garoto de dezoito anos, autista. Ele m eio que surtou no tribunal durante a audiência prelim inar e agora está preso até a data agendada para a audiência da perícia psicológica. Mas ele não se adapta à cadeia. Fica tentando se m achucar. Há algum a m aneira de acelerar o funcionam ento da j ustiça por aqui?
— Verm ont é absolutam ente terrível na atenção psiquiátrica aos detentos. Antes usavam o hospital estadual com o detenção provisória para exam es periciais, m as ele perdeu o financiam ento, então agora Springfield recebe a m aior parte dos casos, porque eles têm a m elhor estrutura m édica — ela explica. — Um a vez tive um cliente aguardando perícia psicológica que gostava de se lam buzar da cabeça aos pés. Ele fez isso na prim eira noite com um a barra de m eio quilo de m anteiga, e com desodorante antes de um a visita m inha.
— Um a visita com contato?
— Sim , os agentes penitenciários não se im portaram . Devem ter pensado que o pior que ele poderia fazer seria esfregar algum a coisa em m im . Enfim , com esse cliente, eu protocolei um a petição de arbitram ento de fiança — a advogada diz. — Isso leva você novam ente para diante do j uiz. Ponha o psicólogo ou o orientador psicológico dele no banco de testem unhas para corroborar sua história. Mas dispense o com parecim ento de seu cliente, para não correr o risco de ele repetir um com portam ento no tribunal que possa irritar o j uiz. Seu principal trabalho é convencer o j uiz de que ele não é um perigo se não estiver preso e, se ele com eçar a correr com o um lunático no m eio da sala, isso vai estragar o argum ento.
“Petição de arbitram ento de fiança”, anoto em um bloco na m inha frente.
— Obrigado — digo. — Você foi ótim a.
— Tudo bem . Ei, você quer o e-m ail da Janice?
— Claro — m into. Ela o lê para m im e finj o anotá-lo.
Quando desligo, vou até a geladeira e pego um a garrafa de água m ineral. Despej o m etade na vasilha de Thor e, em seguida, levanto a garrafa em um brinde.
— A Janice e Howard — exclam o.
— Sr. Bond — diz o j uiz Cuttings no dia seguinte —, não estam os aguardando a avaliação pericial nesse caso?
— Excelência — respondo —, acho que não podem os esperar.
O tribunal está vazio, exceto por Em m a, a dra. Murano e a prom otora, um a m ulher cham ada Helen Sharp que tem cabelos ruivos m uito curtos e dentes caninos pontudos que m e fazem pensar em um vam piro ou em um pit bull. O j uiz olha para ela.
— Sra. Sharp? Qual é a sua opinião?
— Não sei nada sobre esse caso, Excelência — diz ela. — Fiquei sabendo da audiência esta m anhã. O réu é acusado de assassinato, Vossa Excelência ordenou um a perícia psicológica e é posição do Estado que ele perm aneça sob custódia até lá.
— Com o devido respeito, Excelência — respondo —, acho que o tribunal deveria ouvir a m ãe e a psiquiatra do m eu cliente.
O j uiz m e faz um sinal para prosseguir e, com um gesto, cham o Em m a para vir até o banco de testem unhas. Ela tem m anchas escuras sob os olhos e suas m ãos estão trêm ulas. Eu a vej o m ovê-las do parapeito para o colo, para que o j uiz não possa vê-las.
— Por favor, diga seu nom e e endereço — peço.
— Em m a Hunt, Birdsey e Lane, 132, Townsend.
— Jacob Hunt, o réu neste caso, é seu filho?
— Sim .
— Pode nos dizer a idade dele?
Em m a pigarreia.
— Ele fez dezoito anos em dezem bro.
— Onde ele m ora?
— Com igo, em Townsend.
— Ele está na escola? — pergunto.
— Sim , ele frequenta o colégio local de Townsend; está no últim o ano.
Olho diretam ente para ela.
— Sra. Hunt, o Jacob tem algum problem a m édico que a leve a se preocupar com a segurança dele enquanto estiver na prisão?
— Sim . O Jacob foi diagnosticado com síndrom e de Asperger. É um autism o de alto nível funcional.
— Com o o Asperger afeta o com portam ento do Jacob?
Ela faz um a pausa e baixa os olhos.
— Quando ele decide fazer algum a coisa, precisa fazer im ediatam ente — Em m a diz. — Se não puder, fica m uito agitado. Quase nunca dem onstra em oções, de alegria ou tristeza, e não consegue se integrar nas conversas de m eninos da idade dele. Ele entende as palavras de form a m uito, m uito literal. Se você lhe pedir para com er com a boca fechada, por exem plo, ele diria que isso é im possível. Ele tem problem as de hipersensibilidade: luzes brilhantes, barulhos altos e toques leves podem ser suficientes para ele perder o controle. Ele não gosta de ser o centro das atenções. Precisa saber exatam ente quando algo vai acontecer e, se a rotina é quebrada, fica extrem am ente ansioso e age de um a m aneira que o faz se destacar ainda m ais: batendo as m ãos nas laterais do corpo, ou falando consigo m esm o, ou repetindo falas de film es sem parar. Quando as coisas ficam além do que pode suportar, ele procura um lugar para se esconder, com o o arm ário, ou em baixo da cam a, e para de falar.
— Muito bem — diz o j uiz Cuttings. — Então seu filho é tem peram ental, literal e quer fazer as coisas do seu próprio j eito e seguindo seus próprios horários. Isso parece m uito a descrição de um adolescente.
Em m a sacode a cabeça.
— Não estou conseguindo explicar direito. É m ais do que apenas ser literal ou querer um a rotina. Um adolescente com um decide não interagir... Para o Jacob, isso não é um a escolha.
— Que tipo de alterações a senhora notou desde a prisão de seu filho? — pergunto.
Os olhos de Em m a se enchem de lágrim as.
— Ele não é o Jacob — ela responde. — Está se m achucando de propósito. Está regredindo na fala. Com eçou a fazer m ovim entos repetitivos outra vez: bater as m ãos, subir e descer sobre os dedos dos pés, andar em círculos. Passei quinze anos tentando fazer com que o Jacob fosse parte deste m undo, em vez de deixar que ele se isolasse... e um único dia nessa cela reverteu tudo. — Ela olha para o j uiz. — Só quero que m eu filho volte, antes que sej a tarde dem ais para alcançá-lo.
— Obrigado — digo. — Sem m ais perguntas.
Helen Sharp se levanta. Ela tem pelo m enos um m etro e oitenta de altura. Eu não notei isso quando ela entrou?
— Seu filho... ele j á foi condenado à prisão antes?
— Não! — Em m a responde.
— Ele nunca foi preso antes?
— Não.
— Houve outras ocasiões em que a senhora j á presenciou algum a regressão no com portam ento de seu filho?
— Sim — Em m a diz. — Quando planos m udam de últim a hora. Ou quando ele está perturbado e não consegue verbalizar isso.
— Então não é possível que seu com portam ento atual não tenha nada a ver com a prisão e tudo a ver com sentim ento de culpa por ter com etido um crim e horrível?
O rosto de Em m a fica verm elho.
— Ele nunca faria o que a senhora o está acusando de fazer.
— Talvez, senhora, m as neste m om ento seu filho está sendo acusado de hom icídio qualificado. A senhora com preende isso, não é?
— Sim — Em m a diz, rígida.
— E seu filho está sob custódia de proteção, portanto a segurança dele não está em risco...
— Se a segurança dele não estivesse em risco, ele precisaria ter sido colocado em um a cela acolchoada? — Em m a interrom pe, e tenho vontade de correr até lá e bater m inha m ão na dela em aprovação.
— Sem m ais perguntas — a prom otora diz.
Levanto novam ente.
— A defesa cham a a dra. Moon Murano.
O nom e da psiquiatra de Jacob pode sugerir alguém que cresceu em um a colônia com unitária, m as isso foram seus pais. Ela deve ter se rebelado e entrado para os Jovens Republicanos, porque apareceu no tribunal em um tailleur poderoso, saltos altos m atadores e um coque tão preso que quase funciona com o um lifting facial. Faço as perguntas de identificação iniciais e, então, indago com o ela conhece Jacob.
— Trabalho com ele há quinze anos — ela responde. — Em associação com o diagnóstico de Asperger.
— Conte-nos um pouco sobre o Asperger — digo.
— Bem , a síndrom e foi descoberta pelo dr. Hans Asperger em 1944, m as não era conhecida no m undo de língua inglesa até o final da década de 1980 e só foi classificada com o um transtorno psiquiátrico em 1994. Tecnicam ente, é um distúrbio neurobiológico que afeta várias áreas do desenvolvim ento. Diferentem ente de outras crianças no espectro do autism o, crianças com Asperger são m uito inteligentes, verbais e buscam aceitação social... elas só não sabem com o consegui-la. Suas conversas podem ser unilaterais; podem focar em um tópico de interesse m uito estreito; podem usar linguagem repetitiva ou um a voz m onotônica. Pacientes assim não são capazes de ler pistas sociais ou linguagem corporal, então não sabem identificar os sentim entos das pessoas à sua volta. Por causa disso, alguém com Asperger é com frequência considerado esquisito ou excêntrico, o que leva ao isolam ento social.
— Doutora, há m uitas pessoas no m undo que são esquisitas ou excêntricas e não foram diagnosticadas com Asperger, certo?
— Claro.
— Então como diagnosticá-las?
— É teoria da m ente: a criança que escolhe a privacidade versus a criança que não consegue se conectar, m as quer isso desesperadam ente, e não consegue se colocar no lugar da outra para entender m elhor com o facilitar a interação. — Ela olha para o j uiz. — Asperger é um distúrbio de desenvolvim ento, m as é um problem a pouco visível. Ao contrário, por exem plo, de um a criança com deficiência m ental, um a criança com Asperger pode ter um a aparência norm al, e m esm o soar bastante norm al e parecer incrivelm ente com petente, m as terá dificuldades incapacitantes no que se refere à com unicação e à interação social.
— Doutora, com que frequência a senhora vê o Jacob? — pergunto.
— Eu o via todas as sem anas quando ele era m ais novo, m as agora nos encontram os um a vez por m ês.
— E ele está no últim o ano na escola?
— Exato.
— Então ele não tem nenhum atraso educacional devido ao Asperger?
— Não — a dra. Murano responde. — Na verdade, o QI de Jacob provavelm ente é m ais alto que o seu, sr. Bond.
— Não duvido — Helen Sharp m urm ura.
— O Jacob tem algum a adaptação especial na escola?
— Ele tem um plano de educação individualizado, ou IEP, que é um a exigência legal para crianças com necessidades especiais. A sra. Hunt e eu nos reunim os com o diretor e com os professores do Jacob quatro vezes por ano para exam inar estratégias que o aj udem a funcionar bem na escola. O que é norm al para alguns alunos de ensino m édio pode fazê-lo entrar em parafuso.
— O quê, por exem plo?
— Agitação excessiva em um a sala de aula é um a sobrecarga para o Jacob. Luzes piscando. O fato de ser tocado. De am assarem papel. Algo que sej a inesperado em term os de sensação, com o a escuridão que antecede a exibição de um vídeo ou film e, é difícil para Jacob se ele não souber com antecedência o que vai acontecer — Murano diz.
— Então as adaptações na escola têm o obj etivo de evitar que ele fique superestim ulado?
— Exatam ente.
— Com o ele está indo na escola este ano?
— Todas as notas A, e um B no prim eiro sem estre — a dra. Murano responde.
— Antes de ele ser preso — pergunto —, quando foi a últim a vez que a senhora viu o Jacob?
— Três sem anas atrás, para um a consulta de rotina.
— Com o ele estava?
— Muito, m uito bem — a psiquiatra diz. — Na verdade, com entei com a sra. Hunt que o Jacob iniciou um a conversa com igo, em vez de ter sido eu a com eçar.
— E hoj e de m anhã?
— Hoj e de m anhã, quando vi o Jacob, fiquei horrorizada. Não o via em um estado com o esse desde que ele tinha três anos. É preciso entender que isso é algo quím ico em seu cérebro, um a espécie de envenenam ento por m ercúrio, causado por vacinações...
Ah, essa não.
— ... e foram apenas o cuidadoso tratam ento bioquím ico e o com prom etim ento de Em m a Hunt com as interações sociais de seu filho que trouxeram o Jacob até o ponto em que ele estava antes da prisão. Sabem quem realmente deveria ser j ogado na cadeia? As com panhias farm acêuticas que estão ficando ricas com vacinas que desencadearam um a onda de autism o na década de 1990.
— Protesto! — exclam o.
— Sr. Bond — diz o j uiz —, o senhor não pode protestar contra sua própria testem unha.
Sorrio, m as é m ais um a careta.
— Dra. Murano, obrigado por sua opinião política, m as não acho que ela sej a necessária neste m om ento.
— Mas é. Venho observando o m esm o padrão: um a criança doce, social e interativa de repente se isola, para de ser estim ulada, não interage com as pessoas. Não sabem os o suficiente sobre o cérebro autista para com preender o que traz essas crianças de volta para nós e por que apenas algum as delas conseguem retornar. Mas sabem os que um incidente seriam ente traum ático, com o a prisão, pode levar a um a regressão perm anente.
— A senhora tem m otivo para acreditar que, se o Jacob for liberado para a custódia de sua m ãe, ele poderia ser um perigo para si m esm o ou para os outros?
— De form a algum a — a dra. Murano diz. — Ele segue as regras com precisão. Na verdade, esse é um traço do Asperger.
— Obrigado, doutora — encerro.
Helen Sharp tam borila a caneta na m esa à sua frente.
— Dra. Murano, a senhora acabou de se referir a Jacob com o um m enino, não foi?
— Sim , acho que sim .
— Bem , na verdade ele tem dezoito anos.
— Correto.
— Ele é legalm ente adulto — Helen diz. — É responsável pelas próprias ações, não é?
— Todos nós sabem os que há um abism o entre responsabilidade j urídica e capacidade em ocional.
— O Jacob tem um tutor legal? — Helen pergunta.
— Não, ele tem um a m ãe.
— A m ãe dele solicitou a tutela legal?
— Não — a dra. Murano responde.
— A senhora solicitou a tutela legal?
— O Jacob fez dezoito anos no m ês passado.
A prom otora se levanta.
— A senhora disse que é m uito im portante que o Jacob tenha um a rotina estável.
— É fundam ental — a psiquiatra responde. — Não saber o que está acontecendo com ele neste m om ento provavelm ente foi o que levou ao colapso.
— Então o Jacob precisa ser capaz de prever sua agenda, para se sentir seguro?
— Exato.
— Bem , e se eu lhe dissesse, doutora, que, na Unidade Correcional Southern State, o Jacob acordará à m esm a hora todos os dias, fará as refeições à m esm a hora todos os dias, tom ará banho à m esm a hora todos os dias, irá à biblioteca à m esm a hora todos os dias, e assim por diante? Por que isso não está perfeitam ente de acordo com aquilo a que o Jacob está acostum ado?
— Porque ele não está acostum ado com isso. É um desvio tão grande da rotina norm al, um a interrupção não planej ada tão intensa, que m e preocupo que possa tê-lo afetado de m aneira irreversível.
Helen dá um sorriso desdenhoso.
— Mas, dra. Murano, a senhora com preende que o Jacob foi acusado do assassinato de sua instrutora de habilidades sociais?
— Com preendo — diz ela — e acho m uito difícil de acreditar.
— Sabe quais são as provas contra o Jacob neste m om ento? — Helen pergunta.
— Não.
— Então está baseando sua suposição de culpa ou inocência no que conhece do Jacob, e não nas provas.
A dra. Murano ergue um a sobrancelha.
— E a senhora está baseando sua suposição nas provas, sem nunca sequer ter visto o Jacob.
Toma!, penso, sorrindo.
— Sem m ais perguntas — Helen m urm ura.
O j uiz Cuttings observa enquanto a dra. Murano deixa o banco das testem unhas.
— A acusação tem algum a testem unha?
— Excelência, gostaríam os de um adiam ento, um a vez que não houve tem po suficiente...
— Pode fazer um pedido de revisão se quiser, sra. Sharp, supondo que cheguem os até esse ponto — o j uiz diz. — Agora quero ouvir seus argum entos, doutores.
Eu m e levanto.
— Excelência, continuam os querendo a perícia psicológica, e a fiança pode ser revisada depois de estabelecida. Mas, neste m om ento, tenho um j ovem que está se deteriorando psicologicam ente a cada m inuto. Peço que Vossa Excelência defina as restrições para ele, para sua m ãe, para sua psiquiatra, até para m im . Quer que ele se apresente aqui, diante de Vossa Excelência, todos os dias? Perfeito, eu o trarei. Jacob Hunt tem o direito constitucional a um a fiança, m as tam bém tem direitos hum anos, Excelência. Se ele for m antido na prisão por m uito m ais tem po, acredito que isso vá destruí-lo. Estou pedindo, não, estou implorando que sej a arbitrada um a fiança de valor razoável e que m eu cliente sej a liberado até a audiência da perícia psicológica.
Helen olha para m im e revira os olhos.
— Excelência, Jacob Hunt foi acusado pelo hom icídio qualificado de um a j ovem que ele conhecia e de quem supostam ente gostava. Ela era professora dele, eles passavam tem po j untos, e os fatos que cercam o crim e, sem entrar em detalhes, incluem declarações incrim inadoras do réu feitas à polícia e fortes indícios forenses que o ligam à cena do crim e. Acreditam os que haj a argum entos m uito, m uito fortes para o Estado. Se o réu j á está enfrentando esse período tão m al, antes m esm o da audiência de arbitram ento de fiança, im agine quanto incentivo ele terá para fugir da j urisdição se deixá-lo sair agora, Excelência. Os pais da vítim a j á estão devastados pela perda da filha e aterrorizados pela possibilidade de que este j ovem , que j á vem exibindo com portam ento violento dentro de um a cela de prisão e que não sabe distinguir o certo do errado, possa ser libertado. Solicitam os que não sej a arbitrada fiança antes da conclusão da perícia psicológica.
O j uiz olha para Em m a na galeria.
— Sra. Hunt — ele diz —, a senhora tem m ais filhos?
— Sim , Excelência. Tenho um filho de quinze anos.
— Presum o que ele requeira atenção, além de alim entação e transporte.
— Sim .
— A senhora com preende que, se o réu for liberado sob sua custódia, terá que se responsabilizar por ele vinte e quatro horas por dia e que isso poderia afetar significativam ente sua própria liberdade de m ovim ento, bem com o suas responsabilidades com seu filho m ais novo?
— Farei o que for preciso para levar o Jacob para casa — Em m a diz.
O j uiz Cuttings tira os óculos de leitura.
— Sr. Bond, vou liberar seu cliente sob certas condições. Prim eiro, a m ãe dele terá que em penhar a casa da fam ília com o garantia da fiança. Segundo, vou exigir que o réu fique sob m onitoram ento eletrônico, que não vá à escola e perm aneça dentro de casa o tem po todo, e que sua m ãe ou outro adulto com m ais de vinte e cinco anos estej a com ele em todos os m om entos. Ele não tem perm issão para deixar o Estado. Deverá assinar um a renúncia de extradição, consultar-se com a dra. Murano e seguir todas as determ inações dela, incluindo no que se refere à m edicação. Por fim , deverá se subm eter à avaliação pericial quando ela for m arcada, e o senhor entrará em contato com a prom otoria para saber quando e onde ela vai ocorrer. A prom otoria não precisa protocolar um a petição; eu m esm o vou determ inar que este caso sej a revisto no dia em que receber a avaliação pericial.
Helen j unta suas coisas.
— Aproveite o adiam ento — ela m e diz. — Vou esm agar você com um só dedo neste caso.
— É grande, m as não é dois — m urm uro.
— O quê?
— Eu disse que isso vam os ver depois.
Ela aperta os olhos e sai da sala.
Atrás de m im , Em m a está abraçada com Moon Murano. Ela m e olha.
— Muito obrigada — diz, com a voz quebrando com o ondas sobre as sílabas.
Eu dou de om bros, com o se fizesse isso todo o tem po. Na verdade, m olhei toda a cam isa de suor.
— Às ordens — respondo.
Levo Em m a à secretaria para preencher a papelada e pegar os docum entos que Jacob precisa assinar.
— Eu encontro você no saguão — digo.
Em bora Jacob não estivesse na sala do tribunal, ele tinha que estar aqui enquanto deliberávam os sobre seu caso. E, agora, precisa assinar as condições de sua liberação e a renúncia de extradição.
Não o vi ainda. Com toda sinceridade, estou com um pouco de m edo disso. Os testem unhos de sua m ãe e de Moon Murano o apresentaram com o um vegetal.
Quando m e aproxim o da cela de detenção provisória, ele está deitado no chão, com os j oelhos dobrados de encontro ao peito. Há um curativo em sua cabeça. A pele em torno dos olhos é preta e arroxeada e os cabelos estão grudados.
Meu Deus, se ele tivesse aparecido na sala do tribunal, teria saído da prisão em dez segundos.
— Jacob — digo baixinho. — Jacob, sou eu, Oliver. Seu advogado.
Ele não se m exe. Seus olhos estão m uito abertos, m as não piscam quando chego m ais perto. Faço um sinal para o agente abrir a porta da cela e agacho ao lado dele.
— Tenho alguns papéis que você precisa assinar — digo-lhe.
Ele sussurra algum a coisa e eu m e inclino m ais.
— Um ? — repito. — Na verdade, são vários. Mas, ei, você não vai ter que voltar para a prisão, colega. Essa é um a boa notícia.
Por enquanto, pelo menos.
Jacob solta um som m uito baixo e arfado. Parece um, dois, três, cinco.
— Você está contando. Foi a nocaute? — Olho atentam ente para ele. Isso é com o brincar de m ím ica com alguém sem braços nem pernas.
— Oito — Jacob diz, alto e claro.
O que ele está querendo dizer, afinal?
— Jacob. — Minha voz é m ais firm e. — Vam os. — Estendo a m ão para ele, m as vej o todo o seu corpo ficar tenso dois centím etros antes de m eus dedos fazerem contato.
Então recuo e sento no chão a seu lado.
— Um — digo.
Seus olhos piscam um a vez.
— Dois.
Ele pisca três vezes.
É quando percebo que estam os tendo um a conversa. Apenas não estam os usando palavras.
Um , um , dois, três. Por que cinco, e não quatro?
Pego a caneta no bolso e escrevo os núm eros na m ão até enxergar o padrão. Por isso ele disse oito.
— Onze — digo, olhando para Jacob. — Dezenove.
Ele rola em m inha direção.
— Assine isto — peço — e levarei você até a sua m ãe. — Em purro os papéis e rolo a caneta para ele no chão.
A princípio, Jacob não se m exe.
E então, m uito lentam ente, com eça a reagir.