Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 53 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

— Quer fazer as honras? — Basil m e pergunta.

Estam os am ontoados no banheiro de Jessica Ogilvy : eu e os dois investigadores que estiveram procurando provas pela casa inteira. Marcy vedou as j anelas com papel preto e está pronta com sua câm era. Basil preparou o Lum inol para borrifar na banheira, no chão, nas paredes. Apago a luz, e m ergulham os em escuridão.

Basil borrifa a solução e, de repente, o banheiro se ilum ina com o um a árvore de Natal, com o reboco entre os azulej os refulgindo em um brilhante azul fluorescente.

— Isso aí — Marcy m urm ura. — Adoro quando estam os certos.

O Lum inol brilha quando encontra o catalisador correto: nesse caso, o ferro da hem oglobina. Jacob Hunt pode ter sido esperto o bastante para lim par a suj eira que havia deixado depois de m atar Jess Ogilvy, m as ainda havia vestígios de sangue que poderiam ser m uito im portantes para convencer um j úri de sua culpa.

— Bom trabalho — digo, enquanto Marcy tira um a fotografia atrás da outra. Pressupondo que o sangue corresponda ao da vítim a, essa peça m ais recente do quebra-cabeça m e aj uda a reconstruir o crim e. — Jacob Hunt vem para sua aula com a vítim a — reflito, pensando em voz alta. — Eles discutem , talvez derrubando a estante de CDs, a correspondência e alguns bancos, e ele a encurrala... bem aqui, ao que parece. Bate nela e acaba acertando um soco que a m ata. — Quando o Lum inol perde o brilho, acendo novam ente a luz. — Ele lim pa o banheiro, depois lim pa a vítim a, a veste e a arrasta até a galeria pluvial.

Olho para o chão. Com a luz acesa, não se pode ver o produto quím ico nem sangue nenhum .

— Mas o Jacob é fanático por investigações crim inais — digo.

Basil sorri.

— Li um artigo na Esquire dizendo que as m ulheres nos acham m ais sensuais do que os bom beiros...

— Nem todas as m ulheres — Marcy ressalva.

— E então — continuo, ignorando-os —, ele volta para a cena do crim e e decide encobrir as pistas. A questão é que ele é inteligente... e resolve apontar para Mark Maguire. Aí ele pensa consigo m esm o: Se Mark tivesse feito isso, como ele tentaria encobrir? Fazendo parecer um sequestro. Então ele calça as botas de Mark Maguire e pisa do lado de fora da casa, depois corta a tela das j anelas. Arrum a os CDs, as cartas e os bancos caídos. Mas ele tam bém sabe que o Mark seria esperto o bastante para querer confundir um pouco os investigadores, então digita o bilhete para o carteiro e leva consigo um a m ochila cheia de roupas da vítim a, para fazer parecer que a Jess foi em bora por vontade própria.

— Já m e perdi nessa história — Marcy diz.

— Jacob Hunt m ontou a cena do crim e para parecer que havia sido com etido por outra pessoa, a qual, por sua vez, tam bém m ontaria um a cena para ocultar seu envolvim ento. É um a sacada brilhante — suspiro.

— E o que você acha que foi? — Basil pergunta. — Briga de am antes?

Sacudo a cabeça.

— Não sei. — Ainda.

Marcy dá de om bros.

— É um a pena que os crim inosos nunca estej am a fim de falar.

— O bom é que as vítim as falam — digo.

 

Way ne Nussbaum está com os braços enterrados até os cotovelos na cavidade torácica de um hom em m orto de Swanton quando visto um a m áscara e sapatos descartáveis e entro na sala.

— Não posso m ais ficar esperando — digo, depois de ter passado quarenta e cinco m inutos plantado na sala de Way ne.

— Nem ele — Way ne responde, e reparo nas m arcas de costura em volta do pescoço do hom em . — Não dava para eu prever que um assassinato-suicídio ia alterar m inha agenda. — Ele levanta um órgão verm elho brilhante nas m ãos e seus olhos dançam . — Sej a com preensivo, detetive. Estou com o coração na m ão.

Não dou nenhum sorriso.

— Esse é o tipo de coisa que vocês aprendem na escola de palhaços?

— É. Vem logo depois de Lançam ento de Tortas 1. — Ele vira para sua assistente, um a j ovem que o auxilia durante as autópsias. Seu nom e é Lila e ela um a vez tentou dar em cim a de m im convidando-m e para um a rave em South Burlington. Em vez de m e agradar, isso só fez com que eu m e sentisse m uito velho. — Lila — ele diz —, volto em dez m inutos.

Ele tira as luvas, o avental e os sapatos assim que saím os da atm osfera esterilizada e cam inha pelo corredor ao m eu lado em direção à sua sala, onde rem exe entre as pastas sobre a m esa até que eu vej a um a com o nom e de Jess Ogilvy na aba.

— Não sei o que m ais posso lhe dizer que m eu laudo j á não tenha deixado bem claro — Way ne diz, sentando-se. — A causa da m orte foi um hem atom a subdural, devido a um a fratura basilar do crânio. Ele bateu com tanta força que fez o crânio dela entrar no cérebro, e isso a m atou.

Disso eu j á sabia. Mas não foi realm ente por isso que Jess Ogilvy m orreu. Foi porque ela disse algum a coisa a Jacob Hunt que o descontrolou. Ou talvez tenha se recusado a dizer algo a ele — com o Eu sinto o mesmo por você.

Seria bastante sim ples supor que um garoto que se apaixonou por sua orientadora, e foi rej eitado por ela, poderia descontar sua raiva na m oça.

Way ne vai passando os olhos pelo laudo.

— As lacerações nas costas, m arcas de ter sido arrastada, foram feitas depois da m orte. Eu diria que ocorreram quando o corpo foi m ovido. Mas havia hem atom as anteriores à m orte. Os faciais, claro. E alguns nos braços e no pescoço.

— E sêm en?

Way ne sacode a cabeça.

— Niente.

— Ele pode ter usado cam isinha?

— Altam ente im provável — o legista diz. — Não havia nenhum pelo pubiano e nenhum outro indício com patível com estupro.

— Mas a roupa de baixo dela estava ao contrário.

— Sim , m as isso só prova que o crim inoso nunca com prou lingerie. Não que ele é um estuprador.

— Esses hem atom as... Você pode dizer quanto tem po eles tinham ?

— Com um a precisão de um dia, m ais ou m enos — Way ne responde. — Não há um a técnica totalm ente confiável para determ inar a idade de um a contusão além da cor e de m étodos im uno-histoquím icos. O fato é que as pessoas cicatrizam em velocidades diferentes, então, em bora eu possa olhar para duas contusões e dizer que um a ocorreu um a sem ana antes da outra, não tenho com o olhar para duas contusões e afirm ar que um a ocorreu às nove horas da m anhã e a outra ao m eio-dia.

— Então é possível que as m arcas de sufocam ento em volta do pescoço e as m arcas de dedos nos braços tenham acontecido m inutos antes de ela m orrer?

— Ou horas — diz Way ne, j ogando a pasta sobre um a pilha na lateral da m esa. — Ele pode tê-la am eaçado e, depois, voltado para agredi-la até a m orte.

— Ou podem ter sido duas pessoas diferentes em dois m om entos diferentes. — Meu olhar encontra o dele.

— Então Jessica Ogilvy teve realm ente um péssim o dia — o legista diz. — Suponho que você poderia denunciar o nam orado por agressão. Mas parece um a com plicação desnecessária, se o autor do crim e j á confessou ter m ovido o corpo.

— É, eu sei. — Eu só não entendia por que aquilo m e incom odava tanto. — Posso lhe perguntar um a coisa?

— Claro.

— Por que você deixou de ser palhaço?

— Não era m ais divertido. Crianças gritando na m inha cara, vom itando o bolo de aniversário no m eu colo... — Way ne dá de om bros. — Meus clientes aqui são m uito m ais previsíveis.

— Im agino.

O legista m e exam ina por um longo m om ento.

— Sabe qual foi o caso m ais difícil que j á tive? Um acidente de carro. Mulher sai com sua van para a rua e seu bebê cai da cadeirinha, sofre lesões sérias na coluna e m orre. Trouxeram o assento inteiro do carro para o necrotério. Tive que pôr aquele bebê m orto de volta no assento, m ostrar com o a m ãe não o havia afivelado do m odo correto e que tinha sido por isso que o bebê tinha caído. — Way ne se levanta. — Às vezes é preciso ficar lem brando a si m esm o que estam os nisso pela vítim a.

Concordo com a cabeça. E m e pergunto por que a palavra m e faz pensar não em Jess Ogilvy, m as em Jacob Hunt.

 

O m enino que atende a porta na casa dos Hunt não é nada parecido com o irm ão, m as, no m om ento em que lhe m ostro m eu distintivo, a cor som e de seu rosto.

— Sou o detetive Matson — digo. — Sua m ãe está em casa?

— Eu... hã... eu invoco a quinta em enda — o garoto responde.

— Que ótim o — digo a ele. — Mas essa não foi um a pergunta particularm ente invasiva.

— Quem é? — escuto, e então Em m a Hunt aparece em m inha linha de visão. No m inuto em que m e reconhece, seus olhos se apertam . — Veio ver se estou cum prindo as ordens? Pois bem , estou aqui com os m eninos, com o o j uiz m andou. Feche a porta, Theo. E você — ela acrescenta — pode falar com o nosso advogado.

Consigo enfiar o pé na fresta da porta pouco antes que ele a feche.

— Tenho um m andado de busca. — Mostro o papel que m e dá autorização para revistar o quarto de Jacob e levar o que puder constituir um a prova.

Ela pega o papel da m inha m ão, dá um a olhada nele e deixa a porta abrir outra vez. Sem dizer nada, vira as costas para m im . Eu a sigo para dentro da casa, parando quando ela pega o telefone na cozinha e liga para seu advogado com cara de bebê.

— Sim , ele está aqui agora — diz, fechando a m ão em concha em volta do bocal do telefone. — E m e deu o papel.

Em m a desliga um m om ento depois.

— Parece que não tenho escolha.

— Eu poderia ter lhe dito isso — respondo com um tom alegre, m as ela se vira e sobe as escadas.

Fico alguns passos atrás até que ela abre um a porta.

— Jacob? Querido?

Espero no corredor e a deixo falar baixinho com o filho. Ouço palavras com o obrigatório e legal, e então ela reaparece com Jacob a seu lado.

Aquilo m e pega de surpresa. O rosto todo do garoto está preto e arroxeado; há um curativo que desaparece sob a linha dos cabelos.

— Jacob — digo. — Com o vai?

— Com o você acha que ele vai? — Em m a responde com rispidez.

Fiquei sabendo por Helen Sharp que Jacob tinha sido liberado para a custódia de sua m ãe enquanto aguardava a perícia. Ela disse que, aparentem ente, Jacob não tinha se dado bem com a cadeia. Nós dois rim os com isso. Quem se dá bem com a cadeia?

Meu trabalho com o detetive é andar nos bastidores e descobrir quais são as cordas que estão controlando as m arionetes. Às vezes, isso significa coletar provas, ou obter m andados de prisão, ou conseguir inform ações de apoio, ou fazer interrogatórios. Mas geralm ente tam bém significa que perco o que está acontecendo no palco. Foi um a coisa prender Jacob e enviá-lo para sua audiência prelim inar, e é outra coisa bem diversa ver esse garoto novam ente na m inha frente nessa condição.

Ele não parece o rapaz que interroguei um a sem ana atrás. Não é surpresa que sua m ãe queira a m inha cabeça.

Em m a segura a m ão de Jacob para conduzi-lo pelo corredor, m as som os todos parados pelo som fraco e agudo da voz dele.

— Espere — Jacob sussurra.

Em m a se vira e seu rosto se ilum ina.

— Jacob? Você disse algum a coisa?

Tenho a sensação de que, se ele vem dizendo algum a coisa, não deve ser m uito. Ele faz um gesto afirm ativo com a cabeça, sua boca trabalhando por um m om ento antes que outra sílaba se form e.

— Eu quero...

— O que você quer, m eu bem ? Eu pego para você.

— Quero ver.

Em m a olha para m im , com as sobrancelhas levantadas em um a interrogação.

— Não dá — digo sim plesm ente. — Ele pode ficar na casa, m as não pode ficar perto do quarto.

— Posso falar com você um m om ento? — ela pergunta com voz calm a, e entra no quarto de Jacob, deixando-o no corredor. — Você tem algum a ideia do inferno que é ver seu filho se tornar com pletam ente alheio ao m undo?

— Não, m as...

— Pois esta é a segunda vez para m im . Não consegui nem tirá-lo da cam a — ela diz. — E, se bem m e lem bro, a últim a coisa que você m e disse foi que eu devia confiar em você. Eu confiei, e você m e apunhalou pelas costas e prendeu m eu filho, depois de eu o ter oferecido em um a bandej a de prata. Até onde sei, m eu filho não estaria se equilibrando por um fio se não fosse por sua causa. Então, se ficar olhando enquanto você enche suas m alditas caixas com as coisas dele é o que o traz de volta ao m undo dos vivos, espero que, por m era questão de decência, você sim plesm ente o deixe entrar.

Quando ela term ina, seus olhos estão brilhando, e suas faces, coradas. Abro a boca, pronto para falar sobre busca, apreensão e Suprem a Corte, m as m udo de ideia.

— Jacob? — Olho pela porta para o corredor. — Entre.

Ele se senta na cam a e Em m a fica apoiada no batente da porta com os braços cruzados.

— Eu, hã, só vou dar um a olhada — digo.

Jacob Hunt é um total m aníaco por organização. Um fim de sem ana com Sasha e passo a vida inteira encontrando pequeninas m eias enfiadas no sofá ou pisando em cereal m atinal na cozinha ou descobrindo livros espalhados pelo chão da sala. Mas algo m e diz que isso não acontece com Jacob. Sua cam a está arrum ada com precisão m ilitar. Seu arm ário é tão organizado que parece ter saído de um a propaganda. Eu o encaixaria em um caso sério de TOC, exceto pelo fato de haver exceções à regra: seu caderno de m atem ática, que está aberto, é um desastre: folhas soltas enfiadas no m eio de qualquer j eito, papéis caindo, um a ortografia tão confusa que parece arte m oderna. O m esm o acontece com um quadro de avisos em um a parede, repleto de papéis, figuras e fotografias, todos por cim a uns dos outros. Pratos e canecas suj os ocupam sua escrivaninha.

Bem na frente dela, há um a m esa pequena com um aquário virado ao contrário, que foi adaptado com o um a câm ara de vaporização. Jacob vê que eu a estou observando.

— De onde você pega digitais? — pergunto.

— Não responda, Jacob — Em m a intervém .

— Escovas de dentes — ele responde. — Canecas. Um a vez consegui obter um a im pressão parcial em um envelope de papel pardo com pó m agnético.

Sua m ãe e eu o olham os com ar surpreso: Em m a porque ele provavelm ente falou m ais nesse segundo que nos últim os três dias; e eu porque há investigadores que nem sequer conhecem essa técnica para obter im pressões digitais em um a superfície porosa.

Pego a lata de lixo atrás da escrivaninha e com eço a exam iná-la. Há vários rascunhos de um trabalho de inglês. Um a em balagem de chiclete. O extraordinário no conteúdo não é o que as coisas são, m as como elas estão: em vez de estar tudo m isturado ou am assado, cada pedaço de lixo foi dobrado perfeitam ente em oito. Até o pequeno papel de chiclete. O lixo está em pilhado, com o roupa para lavar.

O prim eiro item que pego é o rádio scanner de polícia de Jacob. Agora sei com o ele conseguiu chegar à cena do crim e daquele hom em hipotérm ico. A m ão de Jacob com eça a bater um pouco m ais forte.

— Isso... é m eu.

Em m a põe a m ão em seu om bro.

— Lem bra do que eu disse?

Recolho rapidam ente os itens que estão na câm ara de vaporização: um a caneca, um espelho, o próprio aquário. Olho debaixo da cam a de Jacob, m as há apenas um par de chinelos e duas caixas plásticas: um a cheia de edições anteriores do Journal of Forensic Sciences, a outra cheia de Legos. De sua estante, pego a série com pleta de DVDs de CrimeBusters, e então vej o os cadernos. Ele m e contou que tem m ais de cem e não estava m entindo. Pego o prim eiro deles.

— Você não pode pegar isso — Jacob grita.

— Sinto m uito, Jacob. — “Episódio 74”, leio. “Testem unha silenciosa, 4/12/08. Dois adolescentes fazendo farra com um carro atropelam um hom em surdo, que depois se descobre que j á estava m orto.”

A isso se segue um a lista de provas. “Solucionado”, diz, “0:36.”

Em m a inclinou a cabeça para bem perto de Jacob agora. Ela está m urm urando, m as não consigo ouvir as palavras. Dando as costas para eles, vou virando as páginas. Alguns são episódios repetidos; Jacob parece ter escrito sobre cada um deles quando era exibido, m esm o que j á tivesse visto o program a antes. Alguns traziam a observação de que Jacob não havia conseguido solucionar o crim e antes dos detetives da TV.

Há raptos. Facadas. Assassinatos em cultos rituais. Um episódio cham a m inha atenção: “Joffrey calça as botas do nam orado dela e deixa im pressões no barro atrás da casa para confundir os investigadores”.

Enfiada entre as páginas há um a ficha cor-de-rosa e, ao passar os olhos por ela, percebo que é um a nota que Jacob escreveu para si m esm o:

“Estou m uito infeliz. Não aguento m ais.

As pessoas que deveriam se im portar não se im portam .

Alim ento m inhas esperanças e todos acabam m e decepcionando. Finalm ente sei o que está errado com igo: todos vocês. Todos vocês que acham que eu sou apenas um garoto autista, então quem se im porta? Pois eu odeio vocês. Odeio todos vocês. Odeio o j eito com o eu choro à noite por causa de vocês. Mas vocês são só pessoas. SÓ PESSOAS.

Então por que fazem com que eu m e sinta tão pequeno?”

 

Será que isso foi escrito um a sem ana atrás, um m ês, um ano? Teria sido em reação a bully ing na escola? À crítica de um professor? A algo que Jess Ogilvy disse?

Quem sabe aponte para o m otivo. Fecho depressa o caderno e o j ogo dentro da caixa. Não se pode m ais ver aquela ficha, m as sei que ela está ali, e m e parece íntim a dem ais, sincera dem ais para ser considerada sim plesm ente um a prova. De repente, sou inundado pela im agem de Jacob Hunt encolhido em seu quarto depois de um dia inteiro tentando sem sucesso se integrar com as centenas de alunos de sua escola. Quem , entre todos nós, j á não se sentiu m arginalizado em algum m om ento? Quem não se sentiu deslocado?

Quem não tentou... e fracassou?

Eu fui o garoto gordo, o que sem pre tinha que ficar no gol nas aulas de futebol na educação física e fazia o papel de pedra nas peças teatrais da escola. Fui cham ado de Bolachinha, Gordola, Menino Terrem oto e outros tantos. Na oitava série, depois da cerim ônia de form atura, um m enino veio até m im . Nunca soube que seu nome de verdade era Rich, ele disse.

Quando m eu pai foi dem itido e tivem os que nos m udar para Verm ont por causa de seu novo em prego, passei o verão m e reinventando. Com ecei a correr, quinhentos m etros no prim eiro dia, depois um quilôm etro, e aum entando gradualm ente. Só com ia coisas verdes. Fazia quinhentos abdom inais todas as m anhãs antes m esm o de escovar os dentes. Ao chegar à nova escola, eu era um m enino totalm ente diferente e nunca m ais olhei para trás.

Jacob Hunt não pode se exercitar para ganhar um a nova personalidade. Não pode se m udar para outra escola e com eçar de novo. Sem pre será o garoto com Asperger.

A m enos que, em vez disso, se transform e no garoto que m atou Jess Ogilvy.

— Term inei por aqui — digo, em pilhando as caixas. — Só preciso que você assine o recibo pelos obj etos para depois poder pegá-los de volta.

— E quando vai ser isso?

— Quando o prom otor de j ustiça tiver term inado. — Viro para m e despedir de Jacob, m as ele está com os olhos fixos no lugar vazio onde antes ficava sua câm ara de vaporização.

Em m a m e acom panha até o andar de baixo.

— Está perdendo seu tem po — diz ela. — Meu filho não é um assassino.

Passo a ela o recibo pelos obj etos, em silêncio.

— Se eu fosse os pais da Jess, ia querer saber que a polícia está se esforçando para tentar encontrar a pessoa que m atou m inha filha, em vez de basear todo o seu caso na ideia ridícula de que um garoto autista sem nenhum antecedente crim inal, um garoto que adorava a Jess, a m atou. — Ela assina o recibo e, em seguida, abre a porta da frente. — Está pelo m enos ouvindo? — ela pergunta, levantando a voz. — Você pegou a pessoa errada.

Houve ocasiões, em bora m uito raras, em que desej ei que fosse assim . Quando algem ei um a esposa vítim a de m aus-tratos que foi atrás do m arido com um a faca, por exem plo. Ou quando prendi um rapaz que havia invadido um superm ercado para roubar um a lata de leite para seu bebê porque não tinha dinheiro para com prá-la. Mas, com o nesses casos, não posso contradizer as provas que tenho na m inha frente. Posso m e sentir m al por alguém que com eteu um crim e, m as isso não significa que a pessoa não o tenha com etido.

Pego as caixas e, no últim o m om ento, viro novam ente.

— Sinto m uito — digo. — Se é que adianta dizer... sinto realm ente.

Ela m e fuzila com o olhar.

— Você sente muito? Pelo quê, exatam ente? Por m entir para m im ? Por m entir para o Jacob? Por j ogá-lo na cadeia sem pensar por um instante em suas necessidades especiais?

— Tecnicam ente, foi o j uiz que...

— Com o ousa? — Em m a grita. — Com o ousa vir aqui com o se estivesse do nosso lado e depois nos dar as costas e fazer isso com m eu filho?

— Não é um a questão de lados — grito de volta. — O fato é que um a m enina m orreu sozinha e assustada e foi encontrada um a sem ana depois totalm ente congelada. Eu tenho um a m enina tam bém . E se tivesse sido ela? — Meu rosto está afogueado. Estou a centím etros de Em m a. — Não fiz isso com o seu filho — digo m ais suavem ente. — Fiz isso pela minha filha.

A últim a coisa que vej o é Em m a Hunt boquiaberta. Ela não diz nada enquanto aj eito as caixas m ais firm em ente nos braços e cam inho até o carro, m as o fato é que nunca são as diferenças entre as pessoas que nos surpreendem . São as coisas que, contra todas as expectativas, tem os em com um .