Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 12 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

Estas são todas as razões para eu odiar Mark, o nam orado de Jess, desde setem bro:

 

1. Ele a faz chorar às vezes.

2. Um a vez eu vi hem atom as nela e acho que foi ele quem fez. 3. Ele sem pre usa um enorm e m oletom laranj a do Bengals. 4. Ele m e cham a de Chefe, m esm o eu j á tendo explicado m il vezes que m eu nom e é Jacob.

5. Ele acha que sou retardado, em bora o diagnóstico de retardo m ental sej a reservado para pessoas com um a pontuação abaixo de setenta em um teste de QI e a m inha pontuação sej a cento e sessenta e dois. Na m inha opinião, o fato de Mark não conhecer esse critério de diagnóstico sugere que ele estej a m uito m ais perto que eu do retardo m ental. 6. No m ês passado, vi Mark na farm ácia com outros caras e Jess não estava j unto. Eu disse “oi”, m as ele fingiu que não m e conhecia. Quando contei a Jess e ela o confrontou, ele negou. O que significa que ele é hipócrita e m entiroso.

 

Eu não esperava que ele fosse estar na aula de hoj e e, por essa razão, com eço a m e sentir nervoso na hora, em bora a presença de Jess geralm ente m e acalm e. A m elhor m aneira de descrever isso é com o de repente você se ver no m eio de um a enchente. Você pode ter noção de que vai acontecer um a catástrofe; pode sentir até o m ais ínfim o sinal de um idade no rosto. Mas, quando vê aquela m uralha de água vindo velozm ente em sua direção, você sabe que é incapaz de se m over um centím etro.

— Jacob! — Jess m e cham a assim que entro, m as vej o Mark do outro lado da sala sentado em um banco e, na m esm a hora, j á m al posso escutar a voz dela.

— O que ele está fazendo aqui?

— Você sabe que ele é m eu nam orado, Jacob. E ele quis vir hoj e. Para aj udar.

Certo. E eu quero ser arrastado e esquartej ado, só por diversão.

Jess passa o braço dela pelo m eu. Dem orei um tem po para m e acostum ar com isso, e com o perfum e que ela usa, que não é m uito forte, m as, para m im , cheirava com o um a overdose de flores.

— Vai dar tudo certo — diz ela. — Além disso, com binam os que íam os treinar ser sociáveis com pessoas que não conhecem os, certo?

— Eu conheço o Mark — respondo. — E não gosto dele.

— Mas eu gosto. E faz parte da sociabilidade ser educado com pessoas de quem não gostam os.

— Isso é idiotice. O m undo é enorm e. Por que não se levantar e ir em bora?

— Porque isso não é educado — Jess explica.

— Eu acho que não é educado grudar um sorriso na cara e fingir que a gente gosta de conversar com alguém quando preferiria, na verdade, estar enfiando lascas de bam bu em baixo das unhas.

Jess ri.

— Jacob, um dia, quando acordarm os no m undo dos supersinceros, você pode ser meu instrutor.

Um hom em vem descendo pela escada que dá na entrada da cantina. Ele traz um cachorro pela coleira, um poodle toy. Eu m e ponho em seu cam inho e com eço a agradar o cachorro.

— Thor! Desce! — ele diz, m as o cachorro não dá atenção.

— Sabia que os poodles não são franceses? Na verdade, o nom e poodle vem da palavra alem ã Pudel, que é um a redução de Pudelhund, ou cachorro chafurdador. A raça era um cachorro de água.

— Não sabia — diz o hom em .

Eu sei porque, antes de estudar ciência forense, estudei cães.

— Um poodle foi o vencedor de um a exposição em Westm inster em 2002 — acrescento.

— Certo. Bom , este poodle vai fazer um a poça aqui m esm o se eu não o levar para fora logo — diz o hom em , forçando a passagem por m im .

— Jacob — diz Jess —, a gente não aborda alguém desse j eito e com eça a despej ar fatos.

— Ele se interessa por poodles! Ele tem um !

— Sim , m as você poderia ter com eçado dizendo: “Que belo cachorrinho”.

Fiz um som de desdém .

— Isso não é inform ativo.

— Não, m as é educado...

No início, quando Jess e eu com eçam os a trabalhar j untos, eu costum ava ligar para ela uns dias antes de nossa aula só para ter certeza de que continuava confirm ada: que ela não estava doente ou esperando ter algum a em ergência. Ligava sem pre que essa ideia ficava m e obcecando e, às vezes, isso acontecia às três da m anhã. Se ela não atendesse o celular, eu entrava em pânico. Um a vez, telefonei para a polícia para dar parte de seu desaparecim ento e depois soube que ela estava em um a festa. Por fim , concordam os que eu ligaria para ela às dez da noite nas quintas-feiras. Com o a encontro nos dom ingos e terças, isso faz com que eu não tenha que passar quatro dias sem contato e m e preocupando.

Esta sem ana, ela se m udou do aloj am ento universitário para a casa de um professor. Foi contratada para tom ar conta da casa, o que m e parece um a im ensa perda de tem po, porque a casa não vai pôr a m ão no forno quando estiver quente, ou com er algum a coisa venenosa, ou cair de suas próprias escadas. Ela vai passar o sem estre ali. Portanto, na próxim a sem ana, será lá nosso encontro para a aula. Tenho o endereço em m inha carteira, além do núm ero de telefone e um m apa especial que ela desenhou, m as estou um pouco nervoso com isso. Provavelm ente o lugar vai ter cheiro de outra pessoa, e não de Jess e de flores. Além do m ais, não tenho a m enor ideia de com o é lá e detesto surpresas.

Jess é bonita, em bora diga que nem sem pre foi assim . Ela perdeu m uito peso dois anos atrás, depois de fazer um a operação. Vi fotos dela antes, quando era obesa. Ela diz que é por isso que quer trabalhar com pessoas que se tornam alvo de outras por causa de suas dificuldades, porque se lem bra de ter sido assim com ela tam bém . Nas fotos, ela parece Jess, m as escondida dentro de alguém m aior e m ais inchado. Agora, ela é curvilínea, m as só nos lugares certos. Tem cabelos loiros que estão sem pre lisos, ainda que ela tenha que se esforçar bastante para isso. Eu a vi usar aquele aparelho cham ado chapinha, que parece um a prensa de sanduíche, m as, na verdade, frita seus cabelos encaracolados m olhados e os deixa lisos e brilhantes. Quando ela entra em algum lugar, as pessoas sem pre olham , e eu gosto disso, porque significa que não estão olhando para m im .

Nos últim os tem pos, venho pensando que ela talvez pudesse ser m inha nam orada.

Isso faz sentido:

 

1. Ela j á m e viu usar a m esm a cam isa duas vezes seguidas e não se incom oda.

2. Ela está fazendo m estrado em pedagogia e escrevendo um trabalho enorm e sobre síndrom e de Asperger, então eu sou um m aterial de pesquisa pronto para ela.

3. Ela é a única m ulher, exceto m inha m ãe, que pode pôr a m ão em m eu braço para obter m inha atenção sem m e dar a sensação de um choque. 4. Ela prende o cabelo em um rabo de cavalo sem eu nem ter que pedir. 5. Ela é alérgica a m anga e eu não gosto dessa fruta. 6. Eu poderia ligar para ela quando quisesse, não só nas quintas-feiras. 7. Eu a trataria m uito m elhor do que Mark.

 

E, claro, a razão m ais im portante de todas:

 

8. Se eu tivesse um a nam orada, pareceria m ais norm al.

 

— Vam os lá — Jess diz, dando um tapinha no m eu om bro. — Tem os trabalho a fazer. Sua m ãe disse que aqui serve pizza sem glúten. Eles fazem com um tipo especial de m assa.

Eu sei o que é o am or. Quando você encontra a pessoa que deverá am ar, sinos tocam e fogos de artifício estouram em sua cabeça e você não consegue achar as palavras e pensa na pessoa o tem po todo. Quando você encontrar a pessoa que deverá am ar, saberá disso quando a olhar profundam ente nos olhos.

E com isso term ina a conversa para m im .

É difícil explicar por que é tão difícil olhar nos olhos das pessoas. Im agine com o seria se alguém abrisse seu peito com um bisturi e rem exesse dentro de você, apertando seu coração, pulm ões e rins. Esse nível de invasão com pleta é a sensação que eu tenho quando faço contato visual. A razão que eu escolho para não olhar para as pessoas é que não acho educado m e introm eter nos pensam entos dos outros, e os olhos poderiam m uito bem ser j anelas de vidro, de tão transparentes que são.

Eu sei o que é o am or, m as apenas teoricam ente. Não o sinto da m aneira com o as outras pessoas sentem . Em vez disso, eu o disseco: Ah, minha mãe está me abraçando e dizendo como tem orgulho de mim. Ela está me oferecendo sua última batata frita, embora eu saiba que ela quer comer. Se p, então q. Se ela age dessa maneira, então ela deve me amar.

Jess passa um tem po com igo que ela poderia, se não fosse isso, passar com Mark. Ela não fica brava com igo, exceto na vez em que tirei todas as roupas do guarda-roupa dela no aloj am ento e tentei organizá-las com o as m inhas. Ela assiste a CrimeBusters quando estam os j untos, em bora fique com tontura quando vê sangue.

Se p, então q.

Talvez eu conte m inha ideia para Jess hoj e. E ela dirá sim para ser m inha nam orada e nunca m ais terem os que ver Mark.

 

Em teoria psicanalítica, há um fenôm eno cham ado transferência. O terapeuta se torna um a tela em branco em que o paciente proj eta algum incidente ou sentim ento que com eçou na infância. Por exem plo, no caso de um paciente que passa sessões em silêncio, o terapeuta pode perguntar se há um a razão para ele não se sentir à vontade ao fazer associações livres. É porque tem m edo que o terapeuta ache seus com entários idiotas? E, então, eis que o paciente desm orona. Era disso que meu pai me chamava. Idiota. De repente, com a represa rom pida, o paciente com eça a lem brar todo tipo de m em ória de infância reprim ida.

Minha m ãe nunca m e cham ou de idiota; no entanto, não seria m uito difícil alguém olhar para m eus sentim entos por Jess e considerar que, no contexto de nosso relacionam ento de instrutora e aluno, eu não estou apaixonado.

É só um processo de transferência.

 

— Um a pizza m édia sem glúten — digo para a m ulher grande com o um a m ontanha na caixa registradora, que é grega. Se ela é grega, por que tem um restaurante italiano?

Jess m e cutuca.

— Por favor — acrescento.

— Contato visual — Jess m urm ura.

Eu m e forço a olhar para a m ulher. Ela tem pelos sobre o lábio superior.

— Por favor — repito, e lhe entrego o dinheiro.

Ela m e dá o troco.

— Eu levo quando estiver pronta — a m ulher diz, virando-se para a bocarra do forno, enfiando um a enorm e pá lá dentro, com o um a língua, e tirando um calzone.

— Com o vai a escola? — Jess pergunta.

— Tudo bem .

— Você fez sua lição de casa?

Ela não está falando da m inha lição escolar, que eu sempre faço. Está se referindo à m inha lição de casa de habilidades sociais. Faço um a careta, pensando em nossa aula anterior.

— Não m uito.

— Jacob, você prom eteu.

— Eu não prom eti. Eu disse que ia tentar com eçar um a conversa com alguém da m inha idade e fiz isso.

— Que ótim o! — exclam a Jess. — E o que aconteceu?

Eu tinha ido ao laboratório de inform ática e havia um garoto sentado ao m eu lado. Owen está em m inha classe de física avançada, que é um a preparação para o exam e cham ado AP, ou Advanced Placem ent. Ele é superquieto e m uito inteligente e, se quer saber, acho que tem um pouco de Asperger. É com o o radar dos gay s; eu olho e sei.

Só por diversão, eu estava em um a ferram enta de busca pesquisando sobre a interpretação de padrões de fraturas de crânio e com o se pode diferenciar entre traum a por força contundente e traum a por arm a de fogo usando fraturas concêntricas, e essa inform ação aleatória pareceu ser o pretexto perfeito para iniciar um a conversa. Mas lem brei de Jess dizendo que nem todos se im pressionam com alguém que é o equivalente hum ano a um banco de dados de curiosidades. Então, em vez disso, eu disse o seguinte:

 

Eu: Você vai fazer o teste de AP em maio?

Owen: Não sei. Acho que sim.

Eu (rindo baixinho): Espero que eles não encontrem sêmen! Owen: Hã?

Eu: O teste de AP, ou teste de fosfatase ácida, é usado com uma fonte de luz forense para pesquisar a presença de sêmen. Não é tão conclusivo quanto o teste de DNA, mas, se acontecer de o estuprador ter feito vasectomia, não vai ter nenhum espermatozoide, e, se um teste de AP e uma fonte de luz de quinhentos e trinta nanômetros forem tudo o que estiver disponível...

Owen: Cai fora, maluco de merda.

 

Jess está verm elha.

— O bom disso — diz ela, sem alterar o tom de voz — é que você tentou iniciar um a conversa. É um grande passo. O fato de você ter escolhido discutir sêm en não foi m uito feliz, m as valeu m esm o assim .

Nesse m om ento, chegam os à m esa nos fundos em que Mark nos espera. Ele está m ascando chiclete com a boca m uito aberta e usando aquele ridículo blusão laranj a.

— E aí, Chefe — ele diz.

Sacudo a cabeça e dou um passo para trás. Aquele blusão, ele não o estava usando na hora em que o avistei. Aposto que o vestiu de propósito porque sabe que eu não gosto.

— Mark — diz Jess, depois de dar um a olhadinha para m im —, o blusão. Tire.

Ele sorri para ela.

— É m ais divertido quando você faz isso, gata — ele responde e segura Jess, puxando-a praticam ente para o seu colo no banco.

Quero esclarecer que não entendo essa coisa de sexo. Não com preendo com o alguém com o Mark, que parece com pletam ente obcecado por trocar fluidos corporais com Jess, não fica igualm ente entusiasm ado para falar sobre o fato de que m uco nasal, alvej ante e raiz-forte podem dar falso positivo em testes presuntivos para detecção de sangue. E não entendo por que caras neurotípicos são doidos por seios fem ininos. Acho que seria um enorm e incôm odo ter aquilo se proj etando na sua frente o tem po todo.

Felizm ente, Mark tira o blusão laranj a e Jess o dobra e o coloca no banco em um lugar onde eu não posso enxergá-lo. Já é ruim o bastante só saber que ele está ali, sinceram ente.

— Você pediu de cogum elo para m im ? — Mark pergunta.

— Você sabe que o Jacob não gosta de cogum elo...

Há m uita coisa que eu faria por Jess, m as não com er cogum elos. Mesm o que eles estej am tocando a m assa no lado oposto da pizza, posso ter que vom itar.

Ela tira o celular da bolsa e o coloca sobre a m esa. Ele é cor-de-rosa e tem m eu nom e e núm ero registrados na m em ória. Talvez sej a o único celular que tem o m eu nom e nele. Mesm o na agenda de m inha m ãe, nosso núm ero está registrado com o CASA.

Olho fixo para a m esa, ainda pensando no blusão de Mark.

— Mark — m urm ura Jess, puxando a m ão dele que estava em suas costas, por dentro da blusa. — Pare com isso. Estam os em público. — Então ela se vira para m im . — Jacob, enquanto esperam os a com ida, vam os treinar.

Treinar para esperar? Não preciso. Sou bem especialista nisso.

— Quando acontece um a parada na conversa, você pode lançar um assunto que faça as pessoas falarem de novo.

— É — diz Mark. — Por exem plo: pé de m oleque não é pé nem é m oleque. Discutam .

— Você não está aj udando — Jess sussurra. — Está planej ando algo para a escola esta sem ana, Jacob?

Claro. Rej eição desenfreada e hum ilhação abj eta. Em outras palavras, o de sem pre.

— Em física, tenho que explicar gravidade para o resto da classe — digo. — A nota vai ser m etade pelo conteúdo e m etade pela criatividade, e acho que encontrei a solução perfeita.

Dem orei algum tem po para pensar nisso, m as, quando a ideia veio, fiquei surpreso por não ter m e ocorrido antes.

— Vou deixar m inha calça cair — conto para ela.

Mark cai na gargalhada e, por um segundo, penso que talvez eu tenha feito j uízo errado dele.

— Jacob — diz Jess —, você não vai deixar sua calça cair.

— Isso explica com pletam ente a lei de Newton e...

— Não im porta se isso explica o sentido da vida! Pense em com o seria inadequado. Você deixaria seu professor não só constrangido com o bravo, além de ter que ouvir as gozações de todos os outros alunos.

— Não sei, Jess... Você sabe o que dizem de caras com um a educação especial grande... — observa Mark.

— Mas você não tem educação especial — Jess responde, sorrindo. — Então lá se vai sua teoria.

— Você deve saber, gata.

Não tenho a m enor ideia do que eles estão falando.

Quando Jess for m inha nam orada, vam os com er pizza sem cogum elos todos os dom ingos. Vou m ostrar a ela com o m elhorar o contraste de im pressões digitais em fita adesiva grossa e vou deixar que ela leia m eus diários do CrimeBusters. Ela vai confessar que tem algum as esquisitices tam bém , com o o fato de ter um a cauda escondida dentro do j eans.

Não, talvez não um a cauda. Ninguém quer um a nam orada com um a cauda.

— Tenho um a coisa para falar — digo. Meu coração com eça a bater m ais depressa e m inhas m ãos ficam suadas. Analiso isso do m odo com o o dr. Henry Lee analisaria qualquer outra pista forense e a guardaria para uso futuro: Convidar garotas para sair pode causar alterações no sistema cardiovascular. — Eu queria saber, Jess, se você quer ir com igo ao cinem a na próxim a sexta-feira.

— Jacob, m uito bem ! Já faz um m ês que não treinam os isso!

— Na quinta-feira vou procurar saber os film es que estão em cartaz. Posso olhar na internet. — Dobro m eu guardanapo em oito. — Eu posso sair no sábado em vez de sexta, se for m elhor para você.

Vai ter m aratona de CrimeBusters, m as estou disposto a fazer esse sacrifício. Com certeza isso vai m ostrar a ela com o estou levando a sério esse relacionam ento.

— Caraca! — Mark diz, sorrindo. Posso sentir seus olhos sobre m im . (Isso é m ais um a coisa sobre olhos; eles podem ser quentes com o lasers, e com o saber se estão prestes a ser ligados com força total? É m elhor não arriscar e evitar contato visual.) — Ele não está dem onstrando um a habilidade de com unicação, Jess. O retardado está convidando você para sair.

— Mark! Por favor, não o cham e de...

— Não sou retardado — interrom po.

— Você está enganado. O Jacob sabe que som os apenas am igos — diz ela.

Mark faz um som de desdém .

— Você é paga para ser am iga dele!

Eu m e levanto abruptam ente.

— Isso é verdade?

Acho que nunca tinha pensado a respeito. Minha m ãe arrum ou para eu m e encontrar com Jess. Pressupus que Jess quisesse fazer isso porque (a) está escrevendo aquele trabalho e (b) gosta da m inha com panhia. Mas agora posso ver m inha m ãe destacando m ais um a folha de cheque do talão e reclam ando, com o sem pre, que não tem os o bastante para cobrir nossas despesas. Posso ver Jess abrindo o envelope em seu aloj am ento e colocando o cheque no bolso de trás do j eans.

Posso im aginá-la convidando Mark para com er um a pizza e usando o dinheiro que veio da conta da m inha m ãe.

Pizza de cogum elos rica em glúten.

— Isso não é verdade — diz Jess. — Eu sou sua am iga, Jacob...

— Mas não estaria saindo com o Forrest Gum p se não recebesse aquele lindo cheque todos os m eses — interrom pe Mark.

Jess vira para ele.

— Mark, vá em bora.

— Você disse m esm o o que eu estou achando que ouvi? Está ficando do lado dele?

Com eço a balançar para frente e para trás.

— Ninguém deixa Baby de lado — cito baixinho.

— Isso não tem nada a ver com lados — diz Jess.

— Certo — Mark retruca. — Tem a ver com prioridades. Eu quero te levar para esquiar à tarde e você m e dispensa...

— Eu não te dispensei. Convidei você para vir j unto a um com prom isso que j á estava m arcado e que eu não podia m udar de últim a hora. Já te expliquei com o planos são im portantes para alguém com Asperger.

Jess segura o braço de Mark, m as ele se solta.

— Isso é um m onte de m erda. É com o se eu estivesse com endo a m adre Teresa.

Ele sai furioso da pizzaria. Não entendo o que Jess gosta nele. Ele faz pós-graduação em adm inistração e j oga hóquei. Mas, toda vez que está j unto, a conversa sem pre tem que ser sobre ele, e eu não sei por que isso não é problem a quando é Mark que fala, m as é errado quando sou eu.

Jess apoia a cabeça nos braços cruzados. O cabelo dela está todo espalhado pelos om bros, com o se fosse um a capa. Pelo j eito que seus om bros se m ovem , ela deve estar chorando.

— Annie Sullivan — digo.

— O quê? — Jess levanta a cabeça. Seus olhos estão verm elhos.

— Madre Teresa salvava os pobres e os doentes, e eu não sou pobre nem doente. Annie Sullivan teria sido um exem plo m elhor para usar, porque ela é um a professora fam osa.

— Ah, m eu Deus. — Jess esconde o rosto nas m ãos. — Não consigo lidar com isso agora.

Há um a parada na conversa, então eu a preencho.

— Agora você vai estar livre na sexta-feira?

— Você não pode estar falando sério.

Eu reflito sobre isso. Na verdade, falo sério o tem po todo. Geralm ente m e acusam de não ter senso de hum or, em bora eu tam bém sej a capaz disso.

— Não im porta para você que o Mark foi o prim eiro cara que disse que eu sou bonita? Ou que eu realm ente o amo? — A voz dela está subindo, cada palavra num tom m ais alto que o anterior. — Você pelo m enos se im porta se eu estou feliz?

— Não... não... e sim . — Estou ficando nervoso. Por que ela está m e perguntando tudo isso? Mark j á foi em bora e podem os voltar ao que estávam os fazendo. — Então, eu fiz um a lista das coisas que as pessoas às vezes dizem que, na verdade, significam que elas estão cansadas de ouvir a gente falar, m as não sei se está certo. Você pode conferir?

— Pelo am or de Deus, Jacob! — Jess grita. — Dá um tem po!

As palavras dela são enorm es e preenchem toda a cantina. Todos estão olhando.

— Preciso ir falar com ele. — Ela se levanta.

— Mas e a m inha aula?

— Por que você não pensa no que aprendeu e depois m e conta?

Então ela sai do restaurante e m e deixa sozinho à m esa.

A m oça da pizza traz a com ida, que só eu vou com er agora.

— Espero que estej a com fom e — ela diz.

Não estou, m as pego um a fatia assim m esm o, dou um a m ordida e engulo. Tem gosto de papelão.

Algo cor-de-rosa pisca para m im do outro lado do porta-guardanapos. Jess esqueceu o celular. Eu ligaria para avisar que estou com ele, m as, obviam ente, isso não vai adiantar.

Eu o guardo no bolso e faço um a nota m ental. Vou devolver a ela quando nos encontrarm os na terça-feira, quando eu tiver descoberto o que é que eu deveria ter aprendido.

 

Já faz m ais de dez anos que sem pre recebem os um cartão de Natal de um a fam ília que não conhecem os. Eles o endereçam para os Jenning, que m oravam na casa antes de nós. Geralm ente há um a cena de neve na capa e, dentro, um texto im presso em letras douradas: “BOAS FESTAS. COM CARINHO, FAMÍLIA STEINBERG”.

Os Steinberg tam bém incluem um texto fotocopiado que traz um relato de tudo o que eles vêm fazendo ao longo dos anos. Li sobre a filha deles, Sarah, desde as aulas de ginástica até depois, quando ingressou no Colégio Vassar, e depois, quando entrou para um a firm a de consultoria, e depois, quando se m udou para um ashram na Índia e adotou um bebê. Soube dos grandes períodos de licença de Marty Steinberg na Lehm an Brothers e de seu choque ao ficar desem pregado em 2008, quando a em presa faliu; e com o ele foi dar aulas de negócios em um a faculdade com unitária no norte do estado de Nova York. Vi Vicky, sua esposa, passar de m ãe e dona de casa a em presária que vende cookies com desenhos de cachorros de raça. (Houve um ano em que eles m andaram am ostras!) Este ano, Marty pediu um a licença no trabalho, e ele e Vicky saíram em um cruzeiro para a Antártida, aparentem ente um sonho de toda a vida que agora se tornou possível porque a Eukanuba com prou a em presa de Vicky. Sarah e sua com panheira, Inez, se casaram na Califórnia, e vi um a fotografia de Raita, hoj e com três anos, com o dam a de honra.

Todo ano, na época do Natal, eu tento pegar a carta dos Steinberg antes de m inha m ãe. Ela a j oga no lixo, dizendo coisas com o: Essas pessoas não desconfiam quando os Jenning nunca mandam um cartão de volta? Eu pesco a carta no lixo e a coloco em um a caixa de sapatos que reservei especialm ente para os Steinberg em m eu guarda-roupa.

Não sei por que m e sinto bem quando leio esses cartões de Natal, do m esm o j eito que m e sinto quando m e deito em baixo de um a pilha quente de roupas lavadas ou quando pego o dicionário de sinônim os e leio todas as palavras de um a das letras em um a única sentada. Mas, hoj e, depois que chego em casa de m eu encontro com Jess, enfrento a conversa obrigatória com m inha m ãe (Mãe: Como foi? Eu: Bem) e, então, subo direto para o m eu quarto. Com o um viciado que precisa de um a dose, pego as cartas dos Steinberg e as releio, da m ais antiga até a m ais recente.

Fica um pouco m ais fácil respirar outra vez e, quando fecho os olhos, não vej o o rosto de Jess no fundo de m inhas pálpebras, granuloso com o um desenho em um a lousa m ágica. É com o um tipo de criptogram a em que um A na verdade significa um Q, e um Z na verdade significa um S, e assim por diante, portanto o m ovim ento da boca de Jess e o tom estranho que surgiu em sua voz são o que ela de fato queria dizer, em vez das palavras que usou.

Eu m e deito e im agino aparecer na porta de Sarah e Inez.

Que bom vê-las, eu diria. Vocês são exatamente como eu imaginei.

Finj o que Vicky e Marty estão sentados no convés do navio. Marty está bebendo um m artíni enquanto Vicky escreve num cartão-postal que tem um a foto de Valletta, em Malta.

Ela escreve: Queria que você estivesse aqui. E, dessa vez, ela o endereça diretam ente para m im .