Um Mundo à Parte
Oliver
Quando entro na cozinha da casa dos Hunt pelo segundo dia seguido, Em m a prepara algo no fogão, enquanto Jacob está sentado à m esa. Olho do rosto dele, inclinado sobre um a coleção m acabra de fotografias de cenas de crim es, para o de sua m ãe.
— Continue — Em m a diz.
— A Lei de Am ericanos com Deficiência proíbe discrim inação pelo Estado ou pelos governos locais, incluindo os tribunais — Jacob recita, em seu tom uniform e. — Para ser protegido pela Lei de Am ericanos com Deficiência, é preciso ter um a deficiência ou ter relação com alguém com deficiência. Um a pessoa com deficiência é definida com o alguém com um com prom etim ento físico ou m ental que lim ite substancialm ente um a ou m ais atividades vitais im portantes... com o com unicação... ou um a pessoa que sej a percebida pelos outros com o tendo tal com prom etim ento.
Ele vira a página; agora, as im agens são de corpos em um necrotério. Mas quem publica esse tipo de livro?
— A dra. Moon e m inha m ãe dizem que eu tenho peculiaridades, m as outras pessoas, com o m eus professores e os alunos na escola e aquele j uiz, podem pensar que eu tenho um a deficiência — Jacob acrescenta.
Eu sacudo a cabeça.
— Não estou entendendo.
— Há um a razão j urídica lógica e válida para você falar por m im — Jacob diz. — Pode usar a defesa por insanidade, se acha que vai funcionar m elhor durante o j ulgam ento. — Ele se levanta e coloca o livro sob o braço. — Mas que fique registrado que eu, pessoalm ente, defendo a ideia de que normal é apenas um aj uste da secadora de roupas.
Concordo com a cabeça, pensando naquelas palavras.
— De que film e é?
Jacob revira os olhos.
— Nem tudo é de um film e — diz ele, e sai da cozinha.
— Uau. — Cam inho em direção a Em m a. — Não sei com o você fez isso, m as obrigado.
— Não m e subestim e — responde ela e, com um a espátula, vira o peixe que está fritando na frigideira.
— Essa foi a única razão de ter m e cham ado?
— Achei que fosse o que você queria — diz Em m a.
— E era. Até sentir o cheirinho do que você está cozinhando. — Eu sorrio. — Faço um desconto de dez dólares em m eus honorários se você m e oferecer alm oço.
— Não tem um a cantina descendo as escadas do seu escritório?
— A gente enj oa de m olho de tom ate de vez em quando — digo. — Ah, vam os lá. Aposto que você ia gostar de conversar um pouco com um adulto depois desse tem po presa em casa.
Em m a olha em volta.
— Sim , m as... onde está o outro adulto?
— Sou dez anos m ais velho que o Jacob — lem bro a ela. — E então, o que vam os com er?
— Robalo com alho.
Eu m e sento em um dos banquinhos e fico observando enquanto ela leva um a panela de algo fervente até a pia e despej a o conteúdo em um a peneira. O vapor cacheia os cabelos em torno de seu rosto.
— Um dos m eus favoritos — digo. — Fico contente por você ter m e convidado.
Ela suspira.
— Tudo bem , pode ficar.
— Eu fico, m as só se você conseguir conter o entusiasm o pela m inha com panhia.
Ela sacode a cabeça.
— Então faça algum a coisa útil e arrum e a m esa.
Há um a intim idade em estar na cozinha de outra pessoa que m e faz ter saudade de casa — não de m eu apartam ento em cim a da cantina, m as de m inha casa de infância. Eu era o m ais novo de um a fam ília grande em Buffalo; às vezes ainda hoj e sinto falta do som do caos.
— Minha m ãe costum ava fazer peixe às sextas-feiras — digo, enquanto abro e fecho gavetas à procura dos talheres.
— Você é católico?
— Não... norueguês. Peixe é um afrodisíaco escandinavo.
Em m a enrubesce.
— E funcionava?
— Meus pais tiveram cinco filhos — respondo e faço um gesto na direção do robalo. — Prelim inares na m esa de j antar.
— Acho que entendo essa m etáfora — Em m a m urm ura. — A com ida feita pelo m eu ex poderia ser considerada um anticoncepcional.
— Seria m uita introm issão perguntar há quanto tem po você se separou?
— Seria — diz Em m a. — Mas a resposta curta é: desde o diagnóstico do Jacob. — Ela pega leite na geladeira e despej a em um a frigideira, depois com eça a bater com um m ixer de m ão. — Ele não participa da vida do Jacob nem do Theo, exceto pela pensão m ensal.
— Você deve ter orgulho de conseguir fazer tudo sozinha.
— É, eu tenho. E tenho um filho acusado de hom icídio. Que m ãe não se consideraria um enorm e sucesso depois disso?
Olho bem para ela.
— Acusado — repito. — Não condenado.
Por um longo m om ento, ela m antém m eu olhar, com o se tivesse m edo de acreditar que m ais alguém acredite que Jacob talvez não sej a culpado. Em seguida, com eça a preparar pratos individuais.
— Jacob, Theo! — grita, e os m eninos vêm para a cozinha.
Jacob pega seu prato e volta im ediatam ente para a sala e a televisão. Theo desce correndo as escadas, dá um a olhada para m im sentado à m esa e franze a testa.
— Não é ele quem devia estar pagando alm oço para a gente? — pergunta.
— É um prazer te ver outra vez tam bém — respondo.
Ele m e olha.
— Que sej a.
Enquanto ele volta para cim a com sua refeição, Em m a arrum a os pratos para nós dois.
— Nós geralm ente sentam os j untos no j antar — diz ela —, m as às vezes é bom cada um ficar no seu canto tam bém .
— Im agino que sej a difícil, com vocês todos em prisão dom iciliar.
— É bem triste quando o ponto alto do m eu dia é cam inhar até a calçada para pegar a correspondência na caixa de correio. — Ela se inclina e coloca um prato na m inha frente.
Há um bloco de peixe branco, purê de batatas branco de tão crem oso e um a pequena colina de arroz branco.
— Suspiros de sobrem esa? — arrisco.
— Pão de ló.
Experim ento a textura da com ida com o garfo. Ela franze a testa.
— O peixe está m al cozido?
— Não, não. Está ótim o. Eu só... hã... nunca vi ninguém com binar as cores de um a refeição antes.
— Ah, é que é 1º de fevereiro — diz ela, com o se isso explicasse tudo. — Dia 1º de cada m ês é o Dia da Com ida Branca. Faço isso há tanto tem po que esqueço que não é norm al.
Provo a batata; é algo de outro m undo.
— O que você faz no dia 31? Queim a tudo até ficar preto e torradinho?
— Não dê ideias ao Jacob — diz Em m a. — Quer leite?
Ela m e serve um copo.
— Mas não entendo. Qual é a im portância da cor da com ida para ele?
— Por que a textura do veludo o deixa em pânico? Por que ele não suporta o zum bido de um a m áquina de café expresso? Há um m ilhão de perguntas para as quais não tenho resposta — diz Em m a —, então o m ais fácil é ter j ogo de cintura e evitar que ele tenha um a crise.
— Com o ele teve no tribunal — digo. — E na prisão.
— Exatam ente. Portanto, a com ida na segunda-feira é verde, na terça é verm elha, na quarta é am arela... Acho que você j á pegou o espírito.
Penso por um m om ento.
— Não m e entenda m al, m as às vezes parece que o Jacob é m ais adulto que eu ou você e, outras vezes, ele fica totalm ente sem controle da situação.
— Esse é o Jacob. Realm ente acho que ele é m ais inteligente que qualquer pessoa que eu j á tenha conhecido, m as tam bém é m ais inflexível. E leva m uito a sério a m ínim a coisa que aconteça, porque ele é o centro de seu próprio universo.
— E do seu — com ento. — Ele é o centro do seu universo tam bém .
Ela baixa a cabeça.
— Acho que sim .
Talvez m eus pais escandinavos soubessem o que estavam fazendo, porque talvez sej a o peixe, talvez sej a o j eito dela neste m om ento — surpresa e um pouco perturbada —, m as, para m eu espanto, percebo que estou com vontade de beij á-la. Só que não posso, porque ela é m ãe do m eu cliente, e porque ela provavelm ente ia m e dar um direto no queixo.
— Im agino que você tenha um plano de ataque — diz ela.
Arregalo os olhos. Será que ela está pensando a m esm a coisa sobre m im ? Reprim o um a im agem em que m e vej o segurando-a de encontro à m esa.
— Quanto m ais rápido, m elhor — Em m a diz, e m eu coração se acelera. Ela olha sobre o om bro para a sala, onde Jacob está lentam ente enfiando arroz na boca. — Só quero que todo esse pesadelo term ine.
E, com essas palavras, ela m e j oga de volta à m inha triste e pequena realidade. Pigarreio, totalm ente profissional.
— A prova m ais prej udicial é a confissão que o Jacob fez. Precisam os tentar nos livrar disso.
— Achei que eu poderia ficar com ele na sala de interrogatório. Se eu estivesse lá, ele nunca teria ido tão longe, eu sei disso. Eles devem ter feito perguntas que ele não com preendia, ou m andado perguntas um a atrás da outra, com o um a m etralhadora.
— Tem os um a transcrição. As perguntas foram bastante diretas. Você contou ao Matson que o Jacob tinha Asperger antes de eles com eçarem a conversar?
— Sim , quando ele veio interrogar o Jacob pela prim eira vez.
— Prim eira vez?
— O detetive estava exam inando a agenda da Jess, e o horário da sessão de habilidades sociais do Jacob estava lá, então ele veio fazer algum as perguntas.
— Você estava presente para aj udar a traduzir?
— Exatam ente aqui na m esa da cozinha — diz Em m a. — O Matson agiu com o se com preendesse totalm ente as dificuldades do Jacob. Foi por isso que, quando ele m e disse para levar o Jacob à delegacia, achei que seria o m esm o tipo de interrogatório e que eu poderia participar.
— Isso é bom , na verdade — digo a ela. — Provavelm ente vam os poder pedir um a exclusão de provas.
— O que é isso?
Antes que eu possa responder, Jacob entra na cozinha com o prato vazio. Ele o coloca na pia, depois se serve de um copo de Coca-Cola.
— De acordo com a quinta em enda à Constituição dos Estados Unidos, você tem o direito de perm anecer calado, a m enos que renuncie a esse direito, e, em certas circunstâncias, se a polícia não ler para você os direitos de Miranda ou não pedir de m aneira adequada que você renuncie a eles, qualquer coisa que for dita poderá ser usada contra você. Um advogado de defesa pode solicitar um a exclusão de provas para evitar que essas provas sej am levadas ao tribunal. — Em seguida, ele retorna à sala.
— Isso está totalm ente errado — m urm uro.
— Está?
— Claro! — digo. — Por que ele pode beber Coca-Cola em um Dia de Com ida Branca?
Leva um m om ento, m as então, pela prim eira vez, ouço a m úsica da risada de Em m a Hunt.