Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 57 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

Com o se, depois da visita de Oliver Bond, eu ainda precisasse de m ais um lem brete de que m inha vida não é e nunca m ais será a m esm a, m inha editora telefona.

— Eu queria saber se você pode dar um a passada aqui esta tarde — diz Tany a. — Tem algo que precisam os discutir.

— Eu não posso.

— Am anhã de m anhã?

— Tany a — digo —, o Jacob está em prisão dom iciliar. Eu não tenho perm issão para sair.

— Bom , é m ais ou m enos por isso que eu quero conversar... Nós acham os que talvez sej a m elhor para todos neste m om ento se você tirasse um a licença da coluna.

— Melhor para todos? — repito. — Com o perder o em prego pode ser m elhor para m im ?

— É tem porário, Em m a. Só até que tudo isso... passe. Tenho certeza que você entende — Tany a explica. — Não podem os endossar conselhos de...

— De um a escritora cuj o filho foi acusado de hom icídio? — com pleto. — Eu escrevo anonimamente. Ninguém sabe sobre m im , m uito m enos sobre o Jacob.

— Por quanto tem po? Estam os no ram o das notícias. Alguém vai escavar essa inform ação, e então serem os nós que vam os ficar com cara de idiotas.

— Ah, m as é claro que não íam os querer que vocês ficassem com cara de idiotas — digo, soltando fum aça.

— Não estam os te cortando. O Bob concordou em m anter você com m etade do salário, m ais os benefícios, se você fizer a revisão da seção de dom ingo com o freelance.

— Essa é a parte em que eu devo cair de j oelhos em gratidão? — pergunto.

Ela fica em silêncio por um m om ento.

— Com toda sinceridade, Em m a — Tany a diz —, você é a últim a pessoa no m undo que m erece isso. Já tem sua cruz para carregar.

— O Jacob não é um a cruz para carregar. Ele é m eu filho. — Minha m ão que segura o fone está trem endo. — Revise você m esm a sua m erda de seção de dom ingo — digo e desligo o telefone.

Um gem ido baixo escapa da m inha garganta quando m e dou conta da m agnitude do que acabei de fazer. Sou um a m ãe sozinha; o dinheiro que ganho j á é pouco; não posso trabalhar fora de casa no m om ento. Com o vou viver sem um em prego? Poderia ligar para m eu antigo chefe na editora de livros didáticos e im plorar alguns trabalhos com o freelance, m as j á faz vinte anos que saí de lá. Poderia econom izar o dinheiro que tem os guardado, até acabar.

E quando será isso?

Adm ito que avaliei m al o sistem a j udiciário. Eu achava que os inocentes venciam e que os culpados recebiam o que lhes era devido. Mas vej o agora que não é tão sim ples quanto dizer que não se é culpado quando não se é culpado. Com o Oliver Bond ressaltou, o j úri precisa ser convencido. E a interação com estranhos é o ponto m ais fraco de Jacob.

Fico o tem po todo esperando acordar. Que alguém m e surpreenda com a câm era oculta e m e diga que foi tudo um a grande brincadeira: que é claro que Jacob está livre para sair, que é claro que houve um engano. Mas ninguém m e surpreende, e eu acordo a cada m anhã e nada m udou.

A pior coisa que poderia acontecer seria Jacob ir para a prisão outra vez, porque não o entendem lá. Por outro lado, se ele for hospitalizado, vai estar com m édicos. Oliver disse que Jacob seria m antido em um a unidade psiquiátrica de custódia até o j uiz ter certeza de que ele não m achucaria m ais ninguém . O que significa que teria um a chance, por m enor que fosse, de que ele saísse de lá um dia.

Subo as escadas pesadam ente, com o se m eus pés estivessem cheios de chum bo. Na porta do quarto de Jacob, paro e bato. Ele está sentado na cam a, com Flores para Algernon fechado sobre o peito.

— Term inei — diz ele.

Com o parte de nosso novo sistem a de educação dom iciliar, preciso garantir que ele acom panhe o currículo escolar, e esse rom ance era o prim eiro a ser lido para a aula de inglês.

— E?

— É idiota.

— Sem pre pensei que fosse triste.

— É idiota — Jacob reitera —, porque ele nunca deveria ter feito aquela experiência.

Eu m e sento a seu lado. Na história, Charlie Gordon, um hom em com deficiência m ental, passa por um procedim ento cirúrgico que triplica seu QI, m as a experiência acaba dando errado e o deixa com inteligência subnorm al outra vez.

— Por que não? Ele quis ver o que estava perdendo.

— Mas, se ele nunca tivesse tentado esse procedim ento, nunca saberia que estava perdendo algo.

Quando Jacob diz coisas com o essa, verdades tão cruas que a m aioria de nós não adm ite nem em silêncio, quanto m ais em voz alta, ele parece m ais lúcido que qualquer pessoa que eu conheço. Não acredito que m eu filho sej a insano. E tam bém não acredito que seu Asperger sej a um a deficiência. Se Jacob não tivesse Asperger, ele não seria o m enino que eu am o tão intensam ente: o que assiste a Casablanca com igo e sabe de cor todos os diálogos de Bogart; o que se lem bra da lista do superm ercado de cabeça quando eu, por distração, a esqueço no balcão da cozinha; o que nunca m e ignora se eu lhe peço para pegar m inha carteira na bolsa ou correr até lá em cim a e trazer um pacote de papel para a im pressora. Será que eu preferiria ter um filho que não tivesse que lutar tanto, que pudesse seguir seu cam inho no m undo enfrentando m enos resistência? Não, porque esse filho não teria sido Jacob. As crises podem ser o que fica m ais m arcado em m inha m ente quando penso nele, m as os m om entos interm ediários são os que eu não perderia por nada neste m undo.

Ainda assim , sei por que Charlie Gordon fez a experiência. E sei por que estou prestes a ter um a conversa com Jacob que faz m eu coração parecer ter se consum ido em cinzas. É porque, sem pre que possível, os hum anos erram para o lado da esperança.

— Quero conversar com você sobre o que o Oliver disse — com eço.

Jacob se senta m ais ereto.

— Eu não sou louco. Não vou deixar que ele diga isso de m im .

— Só m e escute...

— Não é a verdade — Jacob diz. — E devem os sem pre dizer a verdade. Regras da casa.

— Você está certo. Mas, às vezes, é perm itido contar um a m entirinha pequena, se ela puder nos levar à verdade no longo prazo.

Ele pisca.

— Dizer que eu sou louco não é um a m entirinha pequena.

Olho para ele.

— Eu sei que você não m atou a Jess. Acredito em você. Mas precisam os conseguir que doze estranhos em um j úri acreditem tam bém . Com o você vai fazer isso?

— Vou lhes dizer a verdade.

— Muito bem . Então vam os fingir que estam os no tribunal e diga a verdade para m im .

Seu olhar passa rápido pelo m eu rosto e, em seguida, se fixa na j anela.

— A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta.

— É exatam ente isso que quero dizer. Você não pode usar citações de film e em um tribunal para dizer o que aconteceu... Mas pode usar um advogado. — Eu o seguro pelos braços. — Quero que você m e prom eta que vai deixar o Oliver dizer o que for preciso para você ganhar este caso.

Ele abaixa o queixo.

— Um martíni, por favor — m urm ura. — Batido, não mexido.

— Vou tom ar isso com o um sim — digo.