Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 18 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

Já enfrentei m uitas situações angustiantes em m eus vinte anos no trabalho: suicídios, crim inosos em fuga depois de um assalto à m ão arm ada, estupros nos quais as vítim as ficam traum atizadas dem ais para contar a história. Nada disso, porém , se com para a ter que trabalhar com um público com posto de crianças de sete anos de idade.

— Pode m ostrar sua arm a outra vez? — um a criança pede.

— Acho m elhor não — respondo, dando um a olhada para a professora, que j á tinha m e pedido para tirar o coldre e o revólver antes de entrar na classe para a palestra do Dia do Trabalho, o que tive que recusar porque, tecnicam ente, estou em horário de trabalho.

— Você j á atirou com ela?

Olho para o resto da classe por sobre a cabeça do m enino obcecado por m unições.

— Mais algum a pergunta?

Um a m enininha levanta a m ão. Eu a reconheço; pode ter ido a algum a das festas de aniversário de Sasha.

— Vocês sem pre pegam os bandidos? — ela pergunta.

Não há com o explicar para um a criança que a linha entre o bem e o m al não é tão nítida quanto um conto de fadas nos leva a acreditar; que um a pessoa com um pode se transform ar em um vilão, sob certas circunstâncias; que, às vezes, nós, os m atadores de dragões, fazem os coisas de que não nos orgulham os.

Eu a olho nos olhos.

— Nós tentam os — respondo.

No bolso de m inha calça, o telefone celular com eça a vibrar. Eu o abro, vej o o núm ero da delegacia e m e levanto.

— Vou ter que encerrar por aqui... Então, m ais um a vez: qual é a regra núm ero um nas cenas de crim es?

A classe m e responde em uníssono:

— Não toque em nada m olhado se não for seu!

Quando a professora pede que todos agradeçam com aplausos, eu agacho ao lado da carteira de Sasha.

— O que acha? Eu te envergonhei dem ais?

— Você foi bem — diz ela.

— Não posso ficar para alm oçar com você — desculpo-m e. — Tenho que ir para a delegacia.

— Tudo bem , papai. — Sasha dá de om bros. — Já estou acostum ada.

Que droga. O que m e m ata é decepcionar m inha filha.

Eu a beij o no alto da cabeça e a professora m e acom panha até a porta. Depois sigo direto para a delegacia e recebo um relato rápido do sargento que recebeu a queixa.

Mark Maguire, aluno de pós-graduação da UVM, está desm azeladam ente sentado na sala de espera. Usa um boné de beisebol puxado baixo sobre a testa e balança a perna para cim a e para baixo, em um m ovim ento nervoso. Eu o observo por um segundo pela j anela antes de ir encontrá-lo. — Sr. Maguire? — digo. — Sou o detetive Matson. Com o posso aj udá-lo?

Ele se levanta.

— Minha nam orada está desaparecida.

— Desaparecida — repito.

— É. Liguei para ela ontem à noite e ninguém atendeu. E, hoj e de m anhã, fui à casa dela e não a encontrei lá.

— Quando você a viu pela últim a vez?

— Terça de m anhã — responde Mark.

— Poderia ter acontecido algum a em ergência? Ou algum com prom isso que ela não lhe contou?

— Não. Ela nunca sai sem a bolsa, e a bolsa ainda está na casa... e o casaco dela tam bém . Está m uito frio lá fora. Por que ela teria saído sem o casaco? — A voz dele é tensa, preocupada.

— Vocês brigaram ?

— Ela ficou m eio brava com igo este fim de sem ana — ele adm ite. — Mas j á conversam os sobre isso. Estam os bem de novo.

Sei, penso.

— Você tentou falar com algum am igo dela?

— Ninguém a viu. Nem os am igos nem os professores. E ela não é o tipo de pessoa que m ata aulas.

Não costum am os abrir casos de pessoa desaparecida antes de se passarem trinta e seis horas, em bora essa não sej a um a regra rígida. A extensão das providências a serem tom adas é determ inada pela situação da pessoa desaparecida: em perigo, ou em nenhum perigo aparente. E, no m om ento, há algum a coisa nesse rapaz — é só um a intuição — que m e faz pensar que ele não está contando toda a história.

— Sr. Maguire — digo —, por que não saím os para dar um a volta?

 

Jess Ogilvy está se saindo m uito bem para um a aluna de pós-graduação. Mora em um bairro fino cheio de casas de tij olos à vista e BMWs.

— Há quanto tem po ela m ora aqui? — pergunto.

— Só um a sem ana. Ela está cuidando da casa de um de seus professores, que vai passar o sem estre na Itália.

Estacionam os na rua e Maguire m e conduz até a porta dos fundos, que não está trancada. Isso não é um a ocorrência incom um por aqui. Apesar de todas as m inhas advertências de que é m elhor prevenir do que rem ediar, m uitas pessoas fazem a pressuposição incorreta de que crim es não podem acontecer e não acontecem nesta cidade.

Na entrada, há um a variedade de obj etos: do casaco que deve pertencer à m oça a um a bengala e um par de botas de hom em . A cozinha está arrum ada e há um a caneca na pia com um saquinho de chá dentro.

— Eu não toquei em nada — diz Maguire. — Isso tudo estava aqui quando cheguei esta m anhã.

A correspondência está ordeiram ente em pilhada sobre a m esa. Há um a bolsa do lado, eu a abro e encontro um a carteira com duzentos e treze dólares dentro.

— Você deu falta de algum a coisa? — pergunto.

— Sim — diz Maguire. — Lá em cim a. — Ele m e leva até um quarto de hóspedes onde as gavetas de um a côm oda estão sem iabertas, com roupas saindo para fora. — Ela é m aníaca por organização — diz ele. — Nunca deixaria a cam a desarrum ada ou as roupas pelo chão desse j eito. E essa caixa com em balagem de presente... Tinha um a m ochila dentro que desapareceu. Ainda estava com a etiqueta. A tia dela lhe deu de Natal e ela odiou.

Vou até o arm ário. Dentro há vários vestidos, além de algum as cam isas m asculinas e um a calça j eans.

— Isso é m eu — Maguire diz.

— Você m ora aqui tam bém ?

— Não oficialm ente, até onde o professor sabe. Mas, sim , tenho ficado quase todas as noites. Pelo m enos até ela m e pôr para fora.

— Ela pôs você para fora?

— Eu disse, tivem os um a briga. Ela não quis falar com igo dom ingo à noite. Mas na segunda-feira a gente se acertou.

— Defina isso — digo.

— Nós fizem os sexo — Maguire responde.

— Consensual?

— Ei, cara, que tipo de pessoa você acha que eu sou? — Ele parece sinceram ente ofendido.

— E a m aquiagem dela? Os produtos de higiene?

— Está faltando a escova de dentes — Maguire diz. — Mas a m aquiagem está aqui. Olha, você não devia cham ar reforço ou algo assim ? Ou em itir um alerta de desaparecim ento?

Eu o ignoro.

— Você j á tentou entrar em contato com os pais dela? Onde eles m oram ?

— Já liguei para eles. Estão em Bennington e não tiveram notícias dela. E agora estão em pânico tam bém .

Que ótimo, penso.

— Ela j á desapareceu assim antes?

— Não sei. Estou saindo com ela faz só alguns m eses.

— Escute — digo —, se você ficar por aqui, ela provavelm ente vai ligar ou sim plesm ente voltar para casa. Está m e parecendo que ela só precisava de um tem po para esfriar a cabeça.

— Você deve estar brincando — diz Maguire. — Se ela tivesse feito isso de propósito, por que ia esquecer a carteira, m as lem brar do celular? Por que usaria um a m ochila que ela m al podia esperar para ir trocar na loj a?

— Não sei. Para despistar você, talvez?

Os olhos de Maguire faíscam e percebo o m om ento em que ele vai pular em cim a de m im . Eu o dom ino com um m ovim ento rápido e seguro seu braço nas costas.

— Cuidado — m urm uro. — Eu poderia prender você por isso.

Sinto Maguire ficar tenso.

— Minha nam orada desapareceu. Eu pago o seu salário e você não vai nem investigar?

Tecnicam ente, se Maguire é estudante, ele não paga m eu salário, m as não vou discutir esse ponto.

— Tudo bem — digo, soltando-o. — Vou dar m ais um a olhada por aí.

Entro no quarto principal, m as, claram ente, Jess Ogilvy não tem dorm ido aqui; está tudo intocado. O banheiro principal revela toalhas ligeiram ente m olhadas, m as o piso do chuveiro j á está seco. No andar inferior, não há nenhum sinal de desordem na sala de estar. Dou a volta por fora da casa e verifico a caixa de correio. Dentro dela há um bilhete, im presso por com putador, pedindo ao carteiro que guarde a correspondência até receber novo aviso.

Quem digita um bilhete para o carteiro?

Visto um par de luvas e coloco o bilhete em um saco plástico de evidências. Vou pedir que o laboratório faça um teste de ninidrina em busca de im pressões digitais.

Nesse m om ento, m eu palpite é que, se elas não forem de Jess Ogilvy, serão de Mark Maguire.