Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 101 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Emma

 

Por apenas um m om ento, tenho a certeza de estar tendo um a alucinação. Meu ex-m arido não está na m inha cozinha, se aproxim ando para m e dar um beij o desaj eitado no rosto.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto.

Ele olha para Jacob, que despej a leite de soj a achocolatado em um copo.

— Pelo m enos um a vez na vida, eu quis fazer a coisa certa — Henry responde.

Cruzo os braços.

— Não se vanglorie, Henry. Isso tem m enos a ver com o Jacob do que com seu próprio sentim ento de culpa.

— É, algum as coisas nunca m udam — ele diz.

— O que você quer dizer com isso?

— Ninguém pode ser m elhor do que você na criação de filhos. Você tem que ser a m elhor e, se não for, dá um j eito de dim inuir os outros para garantir sua posição.

— Isso é m uito engraçado, vindo de um hom em que não vê o filho há anos.

— Três anos, seis m eses e quatro dias — diz Jacob. Eu tinha esquecido que ele ainda estava ali. — Saím os para j antar em Boston porque você estava lá a trabalho. Você pediu filé e m andou de volta porque veio m uito m alpassado na prim eira vez.

Henry e eu nos entreolham os.

— Jacob — digo —, por que você não sobe e vai tom ar seu banho antes dos outros?

— E o café da m anhã?

— Você com e quando descer de novo.

Jacob vai para cim a, deixando-m e sozinha com Henry.

— Você só pode estar brincando — digo, furiosa. — Acha que pode sim plesm ente aparecer aqui com o um cavaleiro m edieval para salvar o dia?

— Considerando que sou eu que preencho o cheque para o advogado — argum enta Henry —, acho que tenho o direito de conferir se ele está fazendo o trabalho direito.

Isso, claro, m e faz pensar em Oliver. E nas coisas que fizem os e que não estavam relacionadas ao trabalho.

— Escute — diz Henry, com a irritação indo em bora com o a neve caindo de um galho de árvore. — Não vim aqui dificultar ainda m ais a situação para você, Em m a. Vim para aj udar.

— Você não pode com eçar a ser pai deles agora só porque sua consciência resolveu acordar. Ou se é pai vinte e quatro horas por dia, sete dias por sem ana, ou não se é nada.

— Por que não perguntam os aos m eninos se eles querem que eu fique aqui ou vá em bora?

— Ah, claro. Isso é com o sacudir um j ogo de videogam e novo na frente deles. Você é um a novidade, Henry.

Ele sorri um pouco.

— Não m e lem bro da últim a vez em que fui acusado disso.

Há um a agitação quando Theo desce correndo as escadas.

— Uau, você está mesmo aqui — ele diz. — Que estranho.

— É por sua causa — responde Henry. — Depois que você teve o trabalho de ir até lá m e ver, percebi que não poderia ficar sentado em casa e fingir que não estava acontecendo nada.

Theo dá um a risadinha.

— Por que não? Eu faço isso o tem po todo.

— Vou fazer de conta que eu não ouvi isso — digo, indo para a cozinha. — Tem os que estar no tribunal às nove e m eia.

— Eu tam bém vou — avisa Henry. — Para dar apoio m oral.

— Ah, muito obrigada — digo secam ente. — Não sei com o enfrentaria este dia se você não estivesse aqui. Ei, espere, eu enfrentei cinco m il dias sem você aqui.

Theo passa entre nós e abre a geladeira. Ele pega um a caixa de suco de laranj a e bebe no gargalo.

— Puxa, som os realm ente um a fam ília feliz. — Ele dá um a olhada para cim a quando o barulho de água corrente no banheiro para. — Sou o próxim o no chuveiro — diz e volta a subir as escadas.

Eu m e sento em um a cadeira.

— Então, com o isso vai funcionar? Você vai se sentar no tribunal e fazer cara de preocupado enquanto sua fam ília de verdade espera do lado de fora da saída de em ergência?

— Isso não é j usto, Em m a.

— Nada é j usto.

— Vou ficar aqui pelo tem po que for necessário. A Meg com preende que tenho um a responsabilidade com o Jacob.

— Certo. Um a responsabilidade. Mas, por algum m otivo, ela esqueceu de convidá-lo para ir à ensolarada Califórnia conhecer suas m eias-irm ãs...

— O Jacob não entraria em um avião e você sabe disso.

— Então seu plano é sim plesm ente entrar na vida dele e sair de novo após o j ulgam ento?

— Eu não tenho um plano...

— E depois?

— Foi por isso que eu vim . — Ele se aproxim a de m im . — Se... se o pior acontecer e o Jacob não voltar para casa... Bom , eu sei que você vai estar aqui para dar apoio a ele — diz Henry. — Mas achei que você poderia precisar de alguém em quem se apoiar tam bém .

Um a centena de respostas ríspidas passam pela m inha cabeça, a m aioria perguntando por que eu confiaria nele agora depois de seu histórico de m e abandonar. Mas, em vez disso, só sacudo a cabeça.

— O Jacob vai voltar para casa — digo.

— Em m a, você precisa...

Levanto a m ão estendida para interrom per suas palavras.

— Tom e seu café da m anhã. Eu preciso m e vestir.

Eu o deixo sentado na cozinha e subo para o m eu quarto. Através da parede, ouço Theo cantando no chuveiro. Sento na cam a e aperto as m ãos entre os j oelhos.

Quando os m eninos eram pequenos, tínham os regras da casa. Eu as escrevia no espelho do banheiro enquanto eles estavam tom ando banho, assim , na próxim a vez em que o aposento ficasse cheio de vapor, as palavras apareceriam com o m ágica: m andam entos para um quase bebê e seu irm ão autista terrivelm ente literal, leis que não podiam ser desobedecidas.

 

1. Lim par a própria bagunça.

2. Falar a verdade.

3. Escovar os dentes duas vezes por dia.

4. Não se atrasar para a escola.

5. Cuidar do seu irm ão; ele é o único que você tem .

 

Um a noite, Jacob m e perguntou se eu tam bém tinha que seguir as regras, e eu disse que sim .

— Mas — ele com entou — você não tem irm ão.

— Então eu vou cuidar de vocês — respondi.

Mas não fiz isso.

Oliver vai trabalhar no tribunal hoj e, e talvez no próxim o dia, e no próxim o, tentando conseguir o que eu tentei sem sucesso durante dezoito anos: fazer com que estranhos com preendam com o é ser m eu filho. Fazê-los sentir com paixão por um garoto que não consegue senti-la ele próprio.

Quando Theo term ina o banho, eu entro. O ar ainda está espesso de calor e vapor, o espelho está em baçado. Não posso ver as lágrim as em m eu rosto, m as é m elhor assim . Porque eu posso conhecer m eu filho, posso acreditar profundam ente que ele não é um assassino. Mas as probabilidades de que os j urados vej am isso tão claram ente quanto eu são m ínim as. Porque, não im porta o que eu diga a Henry — ou a m im m esm a, na verdade —, sei que Jacob não vai voltar para casa.