Um Mundo à Parte
Oliver
Estes são os dois lados da situação: Jacob se fez parecer m ais insano do que eu j am ais teria conseguido com o depoim ento de um a testem unha. Só que tam bém se fez parecer um assassino frio.
Ele está novam ente sentado à m esa da defesa, segurando a m ão de sua m ãe. Em m a está branca com o um fantasm a, e não posso culpá-la. Depois de ouvir o depoim ento de Jacob — um a descrição detalhada em suas próprias palavras de com o lim par a bagunça que ele próprio produziu —, eu m e encontro na m esm a posição.
— Senhoras e senhores — com eço —, houve m uitas provas trazidas aqui sobre a form a com o Jess Ogilvy m orreu. Não estam os discutindo essas provas. Mas, se estiverem prestando atenção neste j ulgam ento, tam bém saberão que não se pode j ulgar este livro pela capa. Jacob é um j ovem com síndrom e de Asperger, um transtorno neurológico que o im pede de ter em patia pelos outros da m esm a m aneira que nós teríam os. Quando fala sobre o que fez com o corpo de Jess, e na residência de Jess, ele não vê seu envolvim ento em um terrível assassinato. Em vez disso, com o ouviram , ele se orgulha de ter m ontado um a cena de crim e com pleta, um a cena de crim e digna de ser incluída em seu diário, com o um episódio de CrimeBusters. Não vou lhes pedir que o perdoem pela m orte de Jess Ogilvy. Nós lam entam os com seus pais essa perda e não querem os de form a algum a reduzir a tragédia. No entanto, vou lhes pedir que reflitam sobre as inform ações que receberam sobre Jacob e seu transtorno, para que, quando se perguntarem se ele era crim inalm ente responsável no m om ento da m orte de Jess, se ele com preendia o que era certo e o que era errado naquele m om ento da m esm a form a com o os senhores o fazem , não tenham outra escolha senão responder que não.
Cam inho em direção aos j urados.
— O Asperger não é nada fácil. Os senhores ouviram m uito a esse respeito nos últim os dias... e aposto que pensaram : E daí? Não se sentir à vontade em situações novas, querer fazer tudo do m esm o j eito todos os dias, ter dificuldade para fazer novos am igos... esses são desafios que todos nós j á enfrentam os em um m om ento ou em outro. No entanto, nenhum desses traços prej udica nossa capacidade de fazer j ulgam entos e nenhum de nós está sendo j ulgado por hom icídio. Talvez estej am pensando que Jacob não se encaixa em sua im pressão de um a pessoa com transtorno neurológico diagnosticável. Ele é inteligente, não parece louco no sentido coloquial da palavra. Então com o podem ter certeza de que a síndrom e de Asperger é um transtorno neurológico válido e não apenas o m ais recente rótulo da m oda para um garoto com problem as? Com o podem ter certeza de que o Asperger oferece um a explicação para o com portam ento do réu no m om ento em que um crim e foi com etido em vez de ser apenas um a elaborada desculpa legal?
Eu sorrio.
— Bem , vou oferecer um exem plo do j uiz da Suprem a Corte Potter Stewart. Nas décadas de 1950 e 1960, a corte esteve envolvida na decisão de um a série de casos de obscenidade. Com o a obscenidade não é protegida pela prim eira em enda, os j uízes tiveram de determ inar se um a série de film es pornográficos se encaixava na definição legal de obscenidade e, para tanto, foi preciso proj etá-los. Todas as sem anas, no que ficou conhecido com o Terça-Feira da Obscenidade, os j uízes assistiam a esses film es e tom avam decisões. Foi em Jacobellis versus Ohio que o j uiz Stewart se tornou lendário no cam po j urídico ao dizer que a pornografia explícita era difícil de definir, m as que, e aqui eu o cito, “eu conheço quando vej o”.
Eu m e viro para Jacob.
— Eu conheço quando vej o — repito. — Os senhores acabaram de ouvir especialistas e de ver laudos m édicos e provas forenses. Tam bém observaram e ouviram Jacob. E, com base apenas nisso, deve estar claro para os senhores que ele não é som ente um garoto com alguns traços de personalidade esquisitos. Ele é um garoto que não se com unica particularm ente bem e cuj os pensam entos são, com frequência, confusos. Ele fala em um tom m onocórdico e não dem onstra m uita em oção, m esm o quando pareceria j ustificado. No entanto, ele teve coragem bastante para se postar à frente dos senhores e tentar se defender contra um a das acusações m ais sérias que um j ovem com o ele poderia enfrentar. O que ele disse, e o m odo com o disse, talvez lhes tenha sido perturbador. Chocante, até. Mas isso porque um a pessoa com Asperger, um a pessoa com o Jacob, não é um a testem unha típica. Eu não queria que m eu cliente depusesse. Vou ser honesto com os senhores. Eu não achava que ele conseguiria fazer isso. Quando se é testem unha em um j ulgam ento, é preciso treinar para dizer as coisas de um a m aneira que aj ude a dem onstrar seu argum ento. É preciso se apresentar de um a m aneira que sej a sim pática ao j úri. E eu sabia que Jacob não ia poder, e nem querer, fazer isso. Meu Deus, j á foi um a luta fazê-lo usar gravata aqui... Eu certam ente não poderia fazê-lo expressar rem orso, ou m esm o tristeza. Não poderia orientá-lo sobre o que deveria ou não dizer na frente dos senhores. Para Jacob, isso teria sido m entir. E, para Jacob, dizer a verdade é um a regra que precisa ser seguida.
Olho para os j urados.
— O que os senhores têm aqui é um garoto que não age de acordo com o sistem a, porque ele é fisicam ente e psicologicam ente incapaz de agir de acordo com o sistem a. Ele não sabe com o atuar para ganhar a sim patia dos senhores. Ele não sabe o que vai aj udar ou prej udicar suas chances de absolvição. Ele sim plesm ente queria contar o seu lado da história, e foi o que ele fez. Essa é a prova que os senhores têm de que Jacob não é um crim inoso que quer dar um j eito de escapar. Essa é a prova que têm de que o Asperger de Jacob pode perturbar o j ulgam ento dele em determ inados m om entos, com o ele dem onstrou e continua dem onstrando. Porque qualquer outro réu, qualquer réu comum, não teria vindo voluntariam ente lhes contar o que Jacob contou. Senhoras e senhores, nós sabem os que o sistem a j urídico norte-am ericano funciona m uito bem quando nos com unicam os de determ inada m aneira, um a m aneira segundo a qual Jacob não pode se com unicar. No entanto, todos neste país têm o direito a um j ulgam ento j usto, m esm o pessoas que se com unicam diferentem ente do m odo que funciona m elhor no tribunal. — Respiro fundo. — Talvez, para que a j ustiça sej a feita no caso de Jacob, sim plesm ente precisem os de pessoas que estej am dispostas a ouvir com um pouco m ais de atenção.
Volto para o m eu assento, e Helen se levanta.
— Quando eu era pequena, lem bro que m inha m ãe com entava que não entendia por que antigam ente a em balagem de papel higiênico trazia o escrito papel medicinal. Sabem o que ela dizia? Cham em do que quiser, m as todas as palavras do m undo não podem disfarçar o que ele é. Este não é o caso de um j ovem que tem dificuldades para m anter um a conversa, ou para fazer am igos, ou para com er algo que não sej a gelatina azul às quartas-feiras...
Sextas-feiras, corrij o m entalm ente. Jacob pega o lápis e com eça a escrever um bilhete, m as, antes que ele possa fazê-lo, tiro o lápis de sua m ão e o enfio no bolso.
— É o caso de um j ovem que com eteu um assassinato a sangue frio e depois, usando sua inteligência e seu fascínio por cenas de crim es, tentou encobrir as pistas. Não contesto que Jacob tenha síndrom e de Asperger. Tam bém não espero que os senhores contestem . Mas isso não o absolve da responsabilidade por seu crim e brutal e cruel. Os senhores ouviram os investigadores que foram à casa e encontraram traços do sangue de Jess por todo o chão do banheiro. Ouviram o próprio Jacob dizer que lavou o sangue com água sanitária e depois deu descarga no papel higiênico que usou para lim par. Por quê? Não porque exista um a regra sobre para onde deve ir o papel higiênico depois de usado... m as porque ele não queria que ninguém soubesse que havia lim pado aquela suj eira. Ele lhes contou, senhoras e senhores, com o m ontou toda a cena do crim e e com o planej ou cada detalhe. Ele tentou deliberadam ente levar a polícia a seguir a trilha errada, fazendo-a pensar que Jess tinha sido sequestrada. Cortou a tela e usou as botas de Mark Maguire para deixar pegadas, a fim de sugerir propositalm ente que outra pessoa era responsável pelo crim e. Arrastou o corpo de Jess pela distância de três cam pos de futebol e o deixou do lado de fora, para que fosse m ais difícil encontrá-lo. E, quando se cansou de j ogar seu próprio j ogo de CrimeBusters, pegou o celular de Jess e discou para a em ergência. Por quê? Não porque fosse m ais fácil para ele interagir com um corpo m orto do que com um vivo, m as porque tudo isso era parte do plano perverso de Jacob Hunt de descartar egoisticam ente a vida de Jess Ogilvy para que pudesse brincar de detetive forense.
Ela encara os j urados.
— O sr. Bond pode cham ar do que quiser, m as isso não m uda a realidade: um j ovem que com eteu um assassinato brutal e o encobriu ativam ente, durante dias, tom ando o cuidado de deixar pistas para confundir a polícia. Isso, senhoras e senhores, é o modus operandi de um assassino calculista, não de um garoto com síndrom e de Asperger.