Um Mundo à Parte
Jacob
Eu não teria achado isso possível, m as Rich Matson não é um total e com pleto im becil.
Por exem plo, ele m e contou que é possível saber o sexo de um a pessoa exam inando o crânio, porque o crânio m asculino tem o queixo quadrado e o queixo fem inino é redondo. Contou que esteve na Body Farm , em Knoxville, no Tennessee, onde há m eio hectare de terra coberto de corpos apodrecendo em diferentes estágios, para que antropólogos forenses possam m edir os efeitos do clim a e dos insetos sobre a decom posição hum ana. Ele tem fotos e prom eteu m e enviar algum as.
Isso ainda não com pensa o dr. Henry Lee, m as é um prêm io de consolação decente.
Soube que ele tem um a filha que, com o Jess, desm aia quando vê sangue. Quando lhe digo que Jess tam bém era assim , o rosto dele se contorce, com o se tivesse sentido um cheiro horrível.
Depois de algum tem po, prom eto a ele que não vou m ais cham ar a polícia por causa da m inha m ãe, a m enos que ela estej a m e causando algum dano físico terrível. E ele m e convence de que um pedido de desculpas para ela poderia ser m uito bom agora.
Quando o acom panho para o andar de baixo, m inha m ãe está andando de um lado para o outro na cozinha.
— O Jacob tem algo para lhe dizer — ele anuncia.
— O detetive Matson vai m e m andar fotografias de corpos em decom posição — digo.
— Não isso. A outra coisa.
Proj eto os lábios para fora e os puxo para dentro outra vez. Faço isso duas vezes, com o se estivesse derretendo as palavras na boca.
— Eu não devia ter cham ado a polícia. Im pulsividade de Asperger.
O rosto de m inha m ãe congela, e o do detetive tam bém . Só depois de ter falado eu m e dou conta de que eles provavelm ente estão im aginando que a m orte de Jess foi im pulsividade de Asperger tam bém .
Ou, em outras palavras, falar sobre m inha im pulsividade de Asperger foi um pouco im pulsivo dem ais.
— Acho que acabam os por aqui — o detetive diz. — Tenham um a boa noite.
Minha m ãe toca a m anga dele.
— Obrigada.
Ele a olha com o se estivesse prestes a falar algo im portante, m as diz apenas:
— Você não tem nada para m e agradecer.
Quando ele sai, um a lufada de ar frio envolve m eus calcanhares.
— Quer que eu prepare algum a coisa para você com er? — m inha m ãe pergunta. — Você não alm oçou.
— Não, obrigado. Vou deitar — anuncio, em bora só queira ficar sozinho. Aprendi que, quando alguém o convida para fazer algo que você realm ente não quer, é m ais recom endável não falar a verdade.
Ela exam ina o m eu rosto.
— Está doente?
— Estou bem — digo. — Mesm o.
Posso sentir que ela m e observa enquanto subo as escadas.
Não pretendo deitar, m as acabo deitando. E acho que adorm eço, porque de repente o dr. Henry Lee está ali. Estam os agachados um de cada lado do corpo de Jess. Ele exam ina o dente no bolso dela, os arranhões que ela tem nas costas. Olha as cavidades das narinas.
— Ah, sim — diz ele, com perfeita clareza. — Eu entendo. Com preendo por que você teve que fazer o que fez.