Um Mundo à Parte
Oliver
— Esse deve ser um recorde, sr. Bond — diz arrastadam ente o j uiz Cuttings. — Conseguim os três m inutos e vinte segundos inteiros sem um a crise.
— Excelência — digo, pensando enquanto falo —, não tenho com o prever tudo que vai perturbar esse garoto. Esse é um dos m otivos para o senhor ter autorizado a presença da m ãe dele aqui. Mas, com todo respeito, não é um a questão de quantas horas o Jacob vai ocupar o tribunal. Ele tem direito ao tem po que precisar. É esse o propósito do nosso sistem a constitucional.
— Puxa, Oliver, desculpe a interrupção — diz Helen —, m as você não está esquecendo da fanfarra e da bandeira que deveria subir agora?
Eu a ignoro.
— Eu peço desculpas, Excelência. Peço desculpas por antecipação se o Jacob levar o senhor a fazer papel de idiota, ou me levar a fazer papel de idiota, ou... — dou um a olhada para Helen. — Bom , com o eu dizia, certam ente não quero que m eu cliente fique tendo ataques na frente do j úri. Isso tam bém não aj uda o m eu caso nem um pouco.
O j uiz olha sobre os óculos.
— O senhor tem dez m inutos para acalm ar seu cliente — ele adverte. — Depois vam os voltar e a prom otoria terá a oportunidade de repetir o encerram ento da apresentação.
— Mas ela não pode am assar o papel outra vez — digo.
— Parece-m e que essa sua m oção não foi aprovada — responde Helen.
— Ela está certa, sr. Bond. Se a sra. Sharp quiser am assar um carregam ento inteiro de papel e seu cliente ficar histérico todas as vezes, o prej uízo será seu.
— Não tem problem a, Excelência — diz Helen. — Não vou fazer isso de novo. De agora em diante, apenas papel dobrado. — Ela se abaixa, pega a pequena bola de papel que havia feito Jacob subir pelas paredes e a j oga no cesto de lixo ao lado da m esa da estenógrafa.
Dou um a olhada no relógio. Pelos m eus cálculos, tenho quatro m inutos e quinze segundos para fazer Jacob se sentar ao m eu lado, perfeitam ente zen, à m esa da defesa. Sigo pelo corredor com passos decididos e m e enfio entre as cortinas pretas da sala de descanso sensorial. Jacob está escondido sob um cobertor e Em m a está sentada com o corpo dobrado sobre um a alm ofada vibratória.
— O que m ais você não m e contou? — pergunto. — O que m ais o faz surtar? Clipes de papel? Quando o relógio m arca quinze para o m eio-dia? Pelo am or de Deus, Em m a, tenho apenas um j ulgam ento para convencer o j úri de que o Jacob não teve um acesso de fúria e m atou Jess Ogilvy. Com o posso fazer isso se ele não consegue ficar nem dez m inutos sem perder o controle?
Estou gritando tão alto que m esm o essas cortinas im becis provavelm ente não podem abafar m inha voz e m e pergunto se as equipes de televisão estão captando tudo com seus m icrofones.
Mas então Em m a levanta o rosto e vej o com o seus olhos estão verm elhos.
— Vou tentar m antê-lo m ais calm o.
— Ah, m erda... — digo, com toda a efervescência se dissipando em m im . — Você está chorando?
Ela sacode a cabeça.
— Não. Estou bem .
— Claro, e eu sou a Condoleezza Rice. — Ponho a m ão no bolso, tiro um guardanapo da Dunkin’ Donuts e o entrego a ela. — Você não precisa m entir para m im . Estam os do m esm o lado.
Ela desvia o rosto e assoa o nariz, depois dobra — dobra, não am assa — o guardanapo e o enfia no bolso de seu vestido am arelo.
Puxo o cobertor da cabeça de Jacob.
— Hora de ir — aviso.
Por um instante, acho que ele está vindo, m as então ele rola para longe de m im .
— Mãe — ele m urm ura. — Arrum e aquilo.
Eu m e viro para Em m a, que pigarreia.
— Ele quer que Helen Sharp desam asse o papel prim eiro — diz ela.
— Já está no cesto de lixo.
— Você prom eteu — Jacob diz para Em m a, elevando a voz.
— Meu Deus — m urm uro. — Tá bom .
Desço o corredor do tribunal e procuro o papel no cesto de lixo, aos pés da estenógrafa. Ela m e olha com o se eu tivesse ficado louco, o que não é inteiram ente im possível.
— O que está fazendo?
— Nem pergunte. — O papel está em baixo de um a em balagem de bala e de um exem plar do Boston Globe. Eu o enfio no bolso do paletó e volto para a sala de repouso sensorial, onde pego o papel e o aliso da m elhor m aneira que posso na frente de Jacob. — Isto é o m elhor que posso fazer — digo-lhe. — Então... qual é o m elhor que você pode fazer?
Jacob olha fixo para o papel.
— Você me ganhou no oi — ele responde.