Um Mundo à Parte
Jacob
Ela disse para eles.
Minha m ãe disse a verdade para eles.
Olho para os j urados, para o rosto em expectativa de cada um deles, porque agora eles devem saber que eu não sou o m onstro que todas as outras testem unhas pintaram . Oliver interrom peu m inha m ãe antes que ela pudesse dizer o resto, m as com certeza eles entenderam .
— Antes de com eçarm os a inquirição da prom otoria, senhores advogados — diz o j uiz —, eu gostaria de com pensar um pouco o tem po que perdem os ontem com o encerram ento prem aturo da sessão. Têm algum a obj eção a concluirm os o depoim ento desta testem unha antes de suspenderm os a sessão por hoj e?
É quando olho para o relógio e vej o que são quatro horas.
Tem os que sair agora para eu poder estar em casa a tem po de ver CrimeBusters, às quatro e m eia.
— Oliver — sussurro —, não concorde.
— Não podem os deixar essas últim as palavras da sua m ãe na cabeça dos j urados durante todo o fim de sem ana — Oliver m e responde. — Não sei com o você vai lidar com isso, Jacob, m as vai ter que dar um j eito.
— Sr. Bond — diz o j uiz —, poderia nos deixar a par de sua conversa?
— Meu cliente só estava m e inform ando que não tem obj eção ao prolongam ento da sessão.
— Fico sem fala de tanta em oção — diz o j uiz Cuttings, em bora ele continue falando. — Sra. Sharp, pode com eçar.
A prom otora se levanta.
— Sra. Hunt, onde estava seu filho na tarde de 12 de j aneiro?
— Ele foi à casa da Jess para sua sessão.
— Com o ele estava quando voltou para casa?
Ela hesita.
— Agitado.
— Com o a senhora soube disso?
— Ele correu para o quarto dele e se escondeu no arm ário.
— Ele apresentou algum com portam ento autodestrutivo?
— Sim — diz Em m a. — Ele batia a cabeça contra a parede repetidam ente.
(É interessante para m im ouvir isso. Quando tenho um a crise, não m e lem bro m uito bem do que acontece.)
— Mas a senhora conseguiu acalm á-lo, não foi?
— Depois de algum tem po.
— Que técnicas a senhora usou? — pergunta a prom otora.
— Apaguei as luzes e pus para tocar um a m úsica de que ele gosta.
— Foi “I Shot the Sheriff”, de Bob Marley ?
— Sim .
(São 16h07 e estou suando. Muito.)
— Ele usa um a m úsica cham ada “I Shot the Sheriff” com o técnica para se acalm ar? — indaga Helen Sharp.
— Não tem nada a ver com a m úsica em si. É um a m elodia de que ele gostava e que o acalm ava quando era pequeno e estava tendo um acesso. Por isso se m anteve.
— Certam ente com bina com a obsessão dele por crim es violentos, não é?
(Eu não sou obcecado por crim es violentos. Sou obcecado por solucioná-los.)
— O Jacob não é violento — m inha m ãe diz.
— Não? Ele está sendo j ulgado por hom icídio — Helen Sharp revida. — E no ano passado ele agrediu um a m enina, não foi?
— Ele foi provocado.
— Sra. Hunt, tenho aqui o relatório do agente policial escolar que foi cham ado depois desse incidente. — Ela leva o docum ento para ser carim bado com o prova (agora são 16h09) e depois o entrega à m inha m ãe. — A senhora poderia ler o trecho m arcado?
Minha m ãe ergue o papel.
— Uma jovem de dezessete anos afirmou que Jacob Hunt se aproximou dela, a empurrou contra os armários e a segurou pelo pescoço até que fosse arrancado à força por um professor.
— Está querendo m e dizer que isso não é um com portam ento violento? — pergunta Helen Sharp.
Mesm o que a gente saia agora, chegarem os onze m inutos atrasados para CrimeBusters.
— O Jacob se sentiu acuado — m inha m ãe diz.
— Não estou lhe perguntando com o o Jacob se sentiu. A única pessoa que sabe com o o Jacob se sentiu é ele m esm o. O que estou lhe perguntando é se a senhora categorizaria em purrar um a j ovem contra um arm ário e segurá-la pelo pescoço com o um com portam ento violento.
— Essa vítima — m inha m ãe responde, com a voz irritada — é a m esm a sim pática garota que prom eteu que seria am iga do Jacob se ele fosse dizer ao professor de m atem ática para se foder.
Um a das senhoras do j úri sacode a cabeça. Não sei se é pelo que Mim i fez ou porque m inha m ãe disse foder.
Um a vez, durante um episódio para m edição de audiência de CrimeBusters que foi transm itido ao vivo, com o um show da Broadway, um figurante derrubou um m artelo no pé e disse um palavrão. Com o resultado, a rede de televisão foi m ultada. O pessoal da censura cortou o som da palavra, m as, durante algum tem po, ela ficou circulando pelo YouTube em toda a sua glória.
CrimeBusters com eça em treze m inutos.
Oliver cutuca m eu om bro.
— Qual é o seu problem a? Pare com isso. Você parece um louco.
Olho para baixo. Estou batendo a m ão com força contra a lateral da m inha perna, e nem tinha percebido que estava fazendo isso. Mas agora estou ainda m ais confuso; achei que eu deveria parecer louco.
— Essa garota foi m á com o Jacob. Acho que nós duas concordam os com isso, certo?
— Sim .
— Mas isso não nega o fato de que ele foi violento com ela.
— O que ele fez foi j usto — m inha m ãe responde.
— Então, sra. Hunt, está dizendo que, se um a j ovem disser algo ao Jacob que não sej a m uito gentil ou que o m agoe, ele está j ustificado se agir com violência contra ela?
Os olhos da m inha m ãe faíscam , com o sem pre acontece antes de ela ficar m uito, m uito brava.
— Não ponha palavras na m inha boca. Estou dizendo que m eu filho é gentil e sensível e que não m achucaria de propósito nem um a m osca.
— A senhora ouviu as provas deste caso. Está ciente de que Jacob discutiu com Jess dois dias antes de ela ter sido vista viva pela últim a vez?
— Isso é diferente...
— A senhora estava lá, sra. Hunt?
— Não.
Agora está passando o últim o intervalo com ercial de Law & Order: SVU, que é a série que passa antes de CrimeBusters. Vão vir quatro com erciais de trinta segundos e, então, os prim eiros acordes da m úsica de abertura. Fecho os olhos e com eço a fazer um zum bido com a boca.
— A senhora disse que um dos com portam entos que indicam o Asperger de Jacob é que ele fica pouco à vontade com pessoas ou em circunstâncias que não conhece, correto?
— Sim .
— E que ele às vezes se fecha e não se com unica com ninguém ?
— Sim — m inha m ãe responde.
— Que ele tem dificuldade para expressar seus sentim entos em palavras?
— Sim .
Hoj e é o episódio em que um a criança cai em um poço e, quando Rhianna é baixada para salvar o m enininho, ela ilum ina o poço com sua lanterna e há um esqueleto hum ano com pleto ali há pérolas há diam antes m as os ossos pertencem a um hom em foi um a herdeira que desapareceu na década de 1960 e no fim ficam os sabendo que ela era na verdade ele...
— A senhora concordaria, sra. Hunt, que seu outro filho, Theo, apresenta esses m esm os com portam entos de vez em quando? Na verdade, que todos os adolescentes do planeta os apresentam ?
— Eu não diria exatam ente...
— Isso torna o Theo insano tam bém ?
São 16h32 são 16h32 são 16h32.
— Podem os ir em bora agora, por favor? — digo, m as as palavras são pastosas com o m el e não soam direito; e todos estão se m ovendo lentam ente e tam bém falando arrastado quando m e levanto para conseguir atenção.
— Sr. Bond, controle seu cliente — ouço, e Oliver segura m eu braço e m e puxa para baixo.
Os lábios da prom otora se afastam dos dentes com o em um sorriso, m as não é um sorriso.
— Sra. Hunt, foi a senhora que contatou a polícia quando viu a colcha de Jacob no noticiário da televisão, não é verdade?
— Sim — m inha m ãe sussurra.
— E fez isso porque acreditava que seu filho tinha m atado Jess Ogilvy, não foi?
Ela sacode a cabeça (16h34) e não responde.
— Sra. Hunt, a senhora achou que seu próprio filho tinha com etido um assassinato, não é verdade? — a prom otora diz, com um a voz que é um m artelo.
Sra. Hunt
(16h35)
Responda a
(não)
pergunta.
De repente, a sala fica im óvel, com o o ar entre as batidas das asas de um a ave, e posso ouvir tudo rebobinando em m inha cabeça.
Controle seu cliente.
Você parece um louco.
A coisa mais difícil de ouvir é a verdade.
Olho para m inha m ãe, bem no fundo de seus olhos, e sinto as unhas raspando na lousa do m eu cérebro e da m inha barriga. Vej o as câm aras de seu coração, e as células verm elhas de seu sangue, e os ventos revoltos de seus pensam entos.
Ah, Jacob, ouço, num replay instantâneo. O que você fez?
Sei o que ela vai dizer um m inuto antes de ela dizer e não posso deixar que faça isso.
Então m e lem bro das palavras da prom otora: A única pessoa que sabe como o Jacob se sentiu é ele mesmo.
— Pare! — grito o m ais alto que posso.
— Excelência — Oliver diz —, acho que vam os ter que suspender a sessão por hoj e...
Eu m e levanto outra vez.
— Pare!
Minha m ãe sai do banco das testem unhas.
— Jacob, está tudo bem ...
— Excelência, a testem unha não respondeu à pergunta...
Cubro os ouvidos com as m ãos porque todos estão falando tão alto e as palavras ricocheteiam nas paredes e no chão e eu estou de pé na cadeira e então na m esa e finalm ente pulo bem na frente do j uiz, onde m inha m ãe j á está vindo em m inha direção.
Mas, antes que eu possa tocá-la, estou no chão e o oficial de j ustiça está com o j oelho nas m inhas costas e o j uiz e os j urados estão saindo depressa e de repente há silêncio e calm a e não m ais peso e um a voz que eu conheço.
— Está tudo bem , colega — diz o detetive Matson. Ele estende a m ão e m e aj uda a levantar.
Um a vez, em um parque, o Theo e eu entram os na casa dos espelhos. A gente se separou, ou talvez o Theo sim plesm ente tenha m e deixado para trás, m as eu m e vi andando de encontro a paredes e olhando em torno de quinas que não existiam e, por fim , sentei no chão e fechei os olhos. Isso é o que quero fazer agora, com todos olhando para m im . Com o naquele dia, não há nenhum a saída que eu possa enxergar.
— Está tudo bem — o detetive Matson repete e m e leva em bora.