Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 112 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Ela disse para eles.

Minha m ãe disse a verdade para eles.

Olho para os j urados, para o rosto em expectativa de cada um deles, porque agora eles devem saber que eu não sou o m onstro que todas as outras testem unhas pintaram . Oliver interrom peu m inha m ãe antes que ela pudesse dizer o resto, m as com certeza eles entenderam .

— Antes de com eçarm os a inquirição da prom otoria, senhores advogados — diz o j uiz —, eu gostaria de com pensar um pouco o tem po que perdem os ontem com o encerram ento prem aturo da sessão. Têm algum a obj eção a concluirm os o depoim ento desta testem unha antes de suspenderm os a sessão por hoj e?

É quando olho para o relógio e vej o que são quatro horas.

Tem os que sair agora para eu poder estar em casa a tem po de ver CrimeBusters, às quatro e m eia.

— Oliver — sussurro —, não concorde.

— Não podem os deixar essas últim as palavras da sua m ãe na cabeça dos j urados durante todo o fim de sem ana — Oliver m e responde. — Não sei com o você vai lidar com isso, Jacob, m as vai ter que dar um j eito.

— Sr. Bond — diz o j uiz —, poderia nos deixar a par de sua conversa?

— Meu cliente só estava m e inform ando que não tem obj eção ao prolongam ento da sessão.

— Fico sem fala de tanta em oção — diz o j uiz Cuttings, em bora ele continue falando. — Sra. Sharp, pode com eçar.

A prom otora se levanta.

— Sra. Hunt, onde estava seu filho na tarde de 12 de j aneiro?

— Ele foi à casa da Jess para sua sessão.

— Com o ele estava quando voltou para casa?

Ela hesita.

— Agitado.

— Com o a senhora soube disso?

— Ele correu para o quarto dele e se escondeu no arm ário.

— Ele apresentou algum com portam ento autodestrutivo?

— Sim — diz Em m a. — Ele batia a cabeça contra a parede repetidam ente.

(É interessante para m im ouvir isso. Quando tenho um a crise, não m e lem bro m uito bem do que acontece.)

— Mas a senhora conseguiu acalm á-lo, não foi?

— Depois de algum tem po.

— Que técnicas a senhora usou? — pergunta a prom otora.

— Apaguei as luzes e pus para tocar um a m úsica de que ele gosta.

— Foi “I Shot the Sheriff”, de Bob Marley ?

— Sim .

(São 16h07 e estou suando. Muito.)

— Ele usa um a m úsica cham ada “I Shot the Sheriff” com o técnica para se acalm ar? — indaga Helen Sharp.

— Não tem nada a ver com a m úsica em si. É um a m elodia de que ele gostava e que o acalm ava quando era pequeno e estava tendo um acesso. Por isso se m anteve.

— Certam ente com bina com a obsessão dele por crim es violentos, não é?

(Eu não sou obcecado por crim es violentos. Sou obcecado por solucioná-los.)

— O Jacob não é violento — m inha m ãe diz.

— Não? Ele está sendo j ulgado por hom icídio — Helen Sharp revida. — E no ano passado ele agrediu um a m enina, não foi?

— Ele foi provocado.

— Sra. Hunt, tenho aqui o relatório do agente policial escolar que foi cham ado depois desse incidente. — Ela leva o docum ento para ser carim bado com o prova (agora são 16h09) e depois o entrega à m inha m ãe. — A senhora poderia ler o trecho m arcado?

Minha m ãe ergue o papel.

— Uma jovem de dezessete anos afirmou que Jacob Hunt se aproximou dela, a empurrou contra os armários e a segurou pelo pescoço até que fosse arrancado à força por um professor.

— Está querendo m e dizer que isso não é um com portam ento violento? — pergunta Helen Sharp.

Mesm o que a gente saia agora, chegarem os onze m inutos atrasados para CrimeBusters.

— O Jacob se sentiu acuado — m inha m ãe diz.

— Não estou lhe perguntando com o o Jacob se sentiu. A única pessoa que sabe com o o Jacob se sentiu é ele m esm o. O que estou lhe perguntando é se a senhora categorizaria em purrar um a j ovem contra um arm ário e segurá-la pelo pescoço com o um com portam ento violento.

— Essa vítima — m inha m ãe responde, com a voz irritada — é a m esm a sim pática garota que prom eteu que seria am iga do Jacob se ele fosse dizer ao professor de m atem ática para se foder.

Um a das senhoras do j úri sacode a cabeça. Não sei se é pelo que Mim i fez ou porque m inha m ãe disse foder.

Um a vez, durante um episódio para m edição de audiência de CrimeBusters que foi transm itido ao vivo, com o um show da Broadway, um figurante derrubou um m artelo no pé e disse um palavrão. Com o resultado, a rede de televisão foi m ultada. O pessoal da censura cortou o som da palavra, m as, durante algum tem po, ela ficou circulando pelo YouTube em toda a sua glória.

CrimeBusters com eça em treze m inutos.

Oliver cutuca m eu om bro.

— Qual é o seu problem a? Pare com isso. Você parece um louco.

Olho para baixo. Estou batendo a m ão com força contra a lateral da m inha perna, e nem tinha percebido que estava fazendo isso. Mas agora estou ainda m ais confuso; achei que eu deveria parecer louco.

— Essa garota foi m á com o Jacob. Acho que nós duas concordam os com isso, certo?

— Sim .

— Mas isso não nega o fato de que ele foi violento com ela.

— O que ele fez foi j usto — m inha m ãe responde.

— Então, sra. Hunt, está dizendo que, se um a j ovem disser algo ao Jacob que não sej a m uito gentil ou que o m agoe, ele está j ustificado se agir com violência contra ela?

Os olhos da m inha m ãe faíscam , com o sem pre acontece antes de ela ficar m uito, m uito brava.

— Não ponha palavras na m inha boca. Estou dizendo que m eu filho é gentil e sensível e que não m achucaria de propósito nem um a m osca.

— A senhora ouviu as provas deste caso. Está ciente de que Jacob discutiu com Jess dois dias antes de ela ter sido vista viva pela últim a vez?

— Isso é diferente...

— A senhora estava lá, sra. Hunt?

— Não.

Agora está passando o últim o intervalo com ercial de Law & Order: SVU, que é a série que passa antes de CrimeBusters. Vão vir quatro com erciais de trinta segundos e, então, os prim eiros acordes da m úsica de abertura. Fecho os olhos e com eço a fazer um zum bido com a boca.

— A senhora disse que um dos com portam entos que indicam o Asperger de Jacob é que ele fica pouco à vontade com pessoas ou em circunstâncias que não conhece, correto?

— Sim .

— E que ele às vezes se fecha e não se com unica com ninguém ?

— Sim — m inha m ãe responde.

— Que ele tem dificuldade para expressar seus sentim entos em palavras?

— Sim .

Hoj e é o episódio em que um a criança cai em um poço e, quando Rhianna é baixada para salvar o m enininho, ela ilum ina o poço com sua lanterna e há um esqueleto hum ano com pleto ali há pérolas há diam antes m as os ossos pertencem a um hom em foi um a herdeira que desapareceu na década de 1960 e no fim ficam os sabendo que ela era na verdade ele...

— A senhora concordaria, sra. Hunt, que seu outro filho, Theo, apresenta esses m esm os com portam entos de vez em quando? Na verdade, que todos os adolescentes do planeta os apresentam ?

— Eu não diria exatam ente...

— Isso torna o Theo insano tam bém ?

São 16h32 são 16h32 são 16h32.

— Podem os ir em bora agora, por favor? — digo, m as as palavras são pastosas com o m el e não soam direito; e todos estão se m ovendo lentam ente e tam bém falando arrastado quando m e levanto para conseguir atenção.

— Sr. Bond, controle seu cliente — ouço, e Oliver segura m eu braço e m e puxa para baixo.

Os lábios da prom otora se afastam dos dentes com o em um sorriso, m as não é um sorriso.

— Sra. Hunt, foi a senhora que contatou a polícia quando viu a colcha de Jacob no noticiário da televisão, não é verdade?

— Sim — m inha m ãe sussurra.

— E fez isso porque acreditava que seu filho tinha m atado Jess Ogilvy, não foi?

Ela sacode a cabeça (16h34) e não responde.

— Sra. Hunt, a senhora achou que seu próprio filho tinha com etido um assassinato, não é verdade? — a prom otora diz, com um a voz que é um m artelo.

Sra. Hunt

(16h35)

Responda a

(não)

pergunta.

De repente, a sala fica im óvel, com o o ar entre as batidas das asas de um a ave, e posso ouvir tudo rebobinando em m inha cabeça.

Controle seu cliente.

Você parece um louco.

A coisa mais difícil de ouvir é a verdade.

Olho para m inha m ãe, bem no fundo de seus olhos, e sinto as unhas raspando na lousa do m eu cérebro e da m inha barriga. Vej o as câm aras de seu coração, e as células verm elhas de seu sangue, e os ventos revoltos de seus pensam entos.

Ah, Jacob, ouço, num replay instantâneo. O que você fez?

Sei o que ela vai dizer um m inuto antes de ela dizer e não posso deixar que faça isso.

Então m e lem bro das palavras da prom otora: A única pessoa que sabe como o Jacob se sentiu é ele mesmo.

— Pare! — grito o m ais alto que posso.

— Excelência — Oliver diz —, acho que vam os ter que suspender a sessão por hoj e...

Eu m e levanto outra vez.

— Pare!

Minha m ãe sai do banco das testem unhas.

— Jacob, está tudo bem ...

— Excelência, a testem unha não respondeu à pergunta...

Cubro os ouvidos com as m ãos porque todos estão falando tão alto e as palavras ricocheteiam nas paredes e no chão e eu estou de pé na cadeira e então na m esa e finalm ente pulo bem na frente do j uiz, onde m inha m ãe j á está vindo em m inha direção.

Mas, antes que eu possa tocá-la, estou no chão e o oficial de j ustiça está com o j oelho nas m inhas costas e o j uiz e os j urados estão saindo depressa e de repente há silêncio e calm a e não m ais peso e um a voz que eu conheço.

— Está tudo bem , colega — diz o detetive Matson. Ele estende a m ão e m e aj uda a levantar.

Um a vez, em um parque, o Theo e eu entram os na casa dos espelhos. A gente se separou, ou talvez o Theo sim plesm ente tenha m e deixado para trás, m as eu m e vi andando de encontro a paredes e olhando em torno de quinas que não existiam e, por fim , sentei no chão e fechei os olhos. Isso é o que quero fazer agora, com todos olhando para m im . Com o naquele dia, não há nenhum a saída que eu possa enxergar.

— Está tudo bem — o detetive Matson repete e m e leva em bora.