Um Mundo à Parte
Oliver
Mam a Spatakopoulous está parada à porta do m eu escritório-apartam ento com a oferta do dia.
— Sobrou um pouco de rigatoni — diz ela. — E você anda trabalhando tanto que parece cada dia m ais m agro.
Eu rio e pego o recipiente de suas m ãos. O cheiro é fantástico e Thor com eça a pular em volta de m eus calcanhares para garantir que eu não m e esqueça de dar a ele sua cota do tesouro.
— Obrigado, sra. Spatakopoulous — digo, e, quando ela vira para ir em bora, eu a cham o de volta. — Ei, que com ida a senhora conhece que é am arela? — Estava pensando no sistem a de cores que Em m a usa para alim entar Jacob. Ah, droga, eu estava pensando em Em m a, ponto-final.
— Tipo ovo m exido?
Estalo os dedos.
— Boa — digo. — Om elete com queij o suíço.
Ela franze a testa.
— Quer que eu faça um a om elete para você?
— Não, não. O rigatoni está ótim o. — Antes que eu possa explicar o resto, o telefone de m eu escritório com eça a tocar. Peço licença, corro para dentro e o atendo. — Escritório de Oliver Bond.
— Um conselho — Helen Sharp responde. — Essa frase é um pouco m ais eficiente quando você contrata alguém para dizê-la.
— Minha, hã... secretária saiu um pouquinho para ir ao banheiro.
Ela desdenha.
— Sim , e eu sou a m iss Estados Unidos.
— Parabéns — digo, com a voz gotej ando de sarcasm o. — Qual é o seu talento? Fazer m alabarism os com cabeças de advogados de defesa?
Ela m e ignora.
— Estou ligando por causa da audiência de exclusão de provas. Você intim ou Rich Matson?
— O detetive? Ora... sim . — Quem mais eu poderia ter intim ado, afinal, em um a petição para tentar desconsiderar a confissão de Jacob na delegacia?
— Você não precisa intim á-lo. Eu preciso do Matson presente e a iniciativa é m inha.
— Com o assim , a iniciativa é sua? A petição é m inha.
— Eu sei, m as esse é um daqueles casos incom uns em que, em bora a petição sej a sua, o Estado tem o ônus da prova e nós tem os que buscar todas as evidências que possam provar que a confissão é válida.
Para praticam ente qualquer outra petição, o processo é o inverso: se quiser um a decisão j udicial em m eu favor, tenho que fazer o diabo para provar por que eu m ereço isso. Com o eu ia saber a exceção à regra?
Ainda bem que Helen não está aqui na sala com igo, porque m eu rosto deve estar verm elho com o um pim então.
— Ah, não diga — respondo, fingindo indiferença. — Eu sei disso. Só queria ver se você estava ligada.
— Aproveitando que estam os ao telefone, Oliver, preciso lhe dizer que não acho que você vai poder j ogar pelos dois lados neste caso.
— Com o assim ?
— Você não pode afirm ar que seu cliente é insano e que ele não com preendia seus direitos de Miranda. Ele os recitou de cor, pelo am or de Deus.
— Onde está o conflito? — pergunto. — Quem m em oriza o Aviso de Miranda palavra por palavra? — Thor com eça a m ordiscar m eus calcanhares e eu despej o um pouco de rigatoni em seu prato de com ida. — Escute, Helen. O Jacob não aguentou três dias na cadeia. Ele certam ente não aguenta trinta e cinco anos. Vou negociar esse caso de todas as m aneiras que puder para garantir que ele não sej a preso outra vez. — Hesito um instante. — Im agino que você não consideraria a ideia de sim plesm ente deixar o Jacob m orando com a m ãe? Você sabe, colocá-lo em condicional a longo prazo?
— Ah, claro. Já ligo de volta para você com a resposta, assim que acabar m eu alm oço com o Coelhinho da Páscoa, a Fada dos Dentes e o Papai Noel — diz Helen. — Trata-se de homicídio, ou será que j á esqueceu? Você pode ter um cliente com autism o, m as eu tenho um a garota m orta, e parentes em luto, e isso passa por cim a de tudo. Talvez se possa usar o rótulo de necessidades especiais por aí para conseguir descontos em escolas ou acom odações especiais, m as isso não exclui a culpa. Te vej o no tribunal, Oliver.
Bato o telefone e baixo os olhos para Thor, que está deitado de lado em um satisfeito com a de m acarrão. Quando o telefone toca outra vez, atendo irritado.
— O que é? — pergunto. — Mais algum procedim ento j urídico que eu errei e você queria m e avisar que vai fofocar com o j uiz?
— Não — Em m a diz, hesitante. — Mas que procedim ento j urídico você errou?
— Ah, desculpe. Pensei que fosse... outra pessoa.
— Parece que sim . — Um m om ento de silêncio. — Está tudo bem com o caso do Jacob?
— Não poderia estar m elhor — digo a ela. — A acusação está até fazendo a lição de casa por m im . — Quero m udar de assunto o m ais rápido possível, então pergunto de Jacob. — Com o estão as coisas na casa dos Hunt hoj e?
— Bom , é m eio por isso que estou ligando. Será que você poderia m e fazer um favor?
Um a dezena de favores passam pela m inha m ente, a m aioria dos quais beneficiaria im ensam ente a m im e à m inha atual falta de vida am orosa.
— O que é?
— Preciso de alguém para ficar com o Jacob enquanto cuido de um a questão.
— Que questão?
— É pessoal. — Ela respira fundo. — Por favor?
Tem que haver algum vizinho ou parente m ais adequado para a tarefa do que eu. Por outro lado, talvez Em m a não tenha m ais ninguém a quem possa pedir. Pelo que vi nos últim os dias, aquela é um a fam ília m uito solitária. Ainda assim , não resisto a perguntar.
— Por que eu?
— O j uiz disse que tinha que ser alguém com m ais de vinte e cinco anos.
Eu sorrio.
— Então, de repente, eu sou velho o bastante para você?
— Quer saber? Esqueça que eu pedi.
— Estarei aí em quinze m inutos — digo.