Um Mundo à Parte
Oliver
— Jacob — digo, assim que o vej o na m anhã seguinte —, precisam os conversar.
Acom panho o passo dele enquanto atravessam os o estacionam ento, deixando um a distância razoável entre nós e sua fam ília para garantir a privacidade.
— Sabia que não há um term o exato para um hom em vadio? — Jacob com enta. — Bom , tem gigolô, m as isso sugere dinheiro...
— Está bem , escute — suspiro. — Sinto m uito por você ter nos surpreendido. Mas não vou pedir desculpas por gostar dela.
— Eu poderia dem itir você — Jacob diz.
— Poderia tentar. Mas isso agora cabe ao j uiz, j á que estam os no m eio do j ulgam ento.
— E se ele descobrisse sobre a sua conduta inadequada com os clientes?
— Ela não é m inha cliente — digo. — Você é m eu cliente. E, se quer saber, m eus sentim entos por sua m ãe só aum entam m inha determ inação de ganhar esse caso.
Ele hesita.
— Não vou m ais falar com você — Jacob m urm ura e acelera o passo até subir quase correndo os degraus na frente do tribunal.
Ava Newcom b, a psiquiatra forense contratada pela defesa, é a peça-chave do m eu caso. Se ela não conseguir fazer o j úri com preender que alguns dos traços associados ao Asperger poderiam ter levado Jacob a m atar Jess Ogilvy sem realm ente entender por que aquilo era errado, Jacob será condenado.
— Dra. Newcom b, qual é a definição legal de insanidade?
Ela é alta, elegante e profissional. O tipo perfeito. Até aqui, penso, tudo bem.
— A insanidade se configura se, no m om ento em que um ato foi com etido, o réu não era capaz de distinguir entre certo e errado, em razão de um a deficiência ou de um a doença m ental séria.
— Pode nos dar um exem plo de deficiência ou doença m ental que se qualifique?
— Algo que sugira um afastam ento psicótico da realidade, com o a esquizofrenia — responde ela.
— Esse é o único tipo de deficiência m ental que constitui insanidade legal?
— Não.
— A síndrom e de Asperger faz alguém ter afastam entos psicóticos da realidade?
— Não, m as há outros sintom as do Asperger que poderiam im pedir alguém de distinguir o certo do errado em um determ inado m om ento.
— Por exem plo?
— A intensa fixação em um assunto dem onstrada por alguém com Asperger pode ser avassaladora e obsessiva, a ponto de interferir em seu funcionam ento em atividades cotidianas ou m esm o transpor os lim ites da lei. Um a vez tive um paciente tão focado em cavalos que era constantem ente preso por invadir um estábulo local. O interesse atual de Jacob é por análise forense e investigação de cenas de crim e. Isso ficou evidente em m inha entrevista com ele, bem com o em sua obsessão pela série de TV CrimeBusters e pelos diários que ele escrevia com o enredo de cada episódio.
— Com o um a fixação desse tipo poderia contribuir para algum a das provas apresentadas aqui neste tribunal? — pergunto.
— Ouvim os aqui que Jacob estava sem pre aparecendo em cenas de crim es, graças a seu rádio scanner policial — diz a psiquiatra. — E a m orte de Jess Ogilvy foi parte de um a elaborada cena de crim e. As provas foram arrum adas para dar um a prim eira im pressão de sequestro, depois revelaram a vítim a. É possível que a oportunidade de criar um a cena de crim e, em vez de apenas observar cenas fictícias, tenha levado Jacob a agir de um a m aneira que foi contra as regras, as leis e a m oralidade. No m om ento, ele talvez estivesse pensando apenas no fato de estar criando um a cena de crim e real que seria solucionada por policiais reais. Dessa m aneira, um a fixação em análise forense associada ao Asperger teria levado Jacob à crença ilusória de que, naquele m om ento, a m orte de Jess era um a parte necessária de seu estudo de ciência forense. Por m ais assustador que isso pareça para nós, a vítim a se torna um dano secundário durante a busca de um obj etivo m aior.
— Mas o Jacob não sabia que assassinato é ilegal?
— Sem dúvida. Ele é o garoto-m odelo para seguir regras, para ver as coisas com o certas ou erradas, sem circunstâncias atenuantes. No entanto, as ações de Jacob não teriam sido voluntárias nesse m om ento. Ele não tinha entendim ento da natureza e da consequência de suas ações e não poderia ter parado se quisesse.
Franzo um pouco a testa.
— Mas tam bém ouvim os aqui que Jess Ogilvy e Jacob eram extrem am ente ligados. Isso não o teria afetado?
— Na verdade, essa é m ais um a razão pela qual podem os concluir que o Asperger desem penhou um papel no que aconteceu com Jess. Pessoas com Asperger têm um a teoria da m ente m uito prej udicada. Elas não conseguem se colocar na posição de outra pessoa e im aginar o que essa outra pessoa pode estar pensando ou sentindo. Para um leigo, isso é falta de em patia. Então, por exem plo, se Jess estivesse chorando, Jacob não tentaria confortá-la. Ele até poderia saber que um a pessoa com lágrim as nos olhos geralm ente está triste, m as esse seria um j ulgam ento cognitivo, não em ocional. Para alguém com Asperger, essa falta de em patia é um déficit neurobiológico e afeta o com portam ento. No caso de Jacob, teria reduzido sua capacidade de perceber o im pacto de suas próprias ações sobre Jess.
— Ainda assim , doutora — digo, fazendo papel de advogado do diabo —, há um a grande diferença entre não em prestar um lenço quando ela está chorando e m atá-la para poder usá-la com o peça na m ontagem de um a cena de crim e.
— Claro que há. — A psiquiatra se vira para o j úri. — E esta provavelm ente é a parte m ais difícil para um leigo entender. Estam os sem pre procurando um m otivo em um crim e horroroso com o este. Refleti sobre isso em m inhas conversas com Jacob e com a dra. Murano e acho que a resposta está na briga que Jess e Jacob tiveram no dom ingo antes da m orte dela. O cartão de visitas do Asperger é interação social prej udicada. Isso significa que alguém com Asperger tem um entendim ento m uito ingênuo e lim itado dos relacionam entos, o que poderia levá-lo a buscar contato de m aneira inadequada. Isso leva à decepção, e m esm o à raiva, se um relacionam ento não funcionar da m aneira com o ele previu. — Ela olha para Jacob. — Eu não sei o que foi dito entre Jacob e Jess na tarde da m orte dela, m as acredito que Jacob tinha um interesse am oroso por sua orientadora. Ironicam ente, seu rígido senso de certo e errado, que supostam ente impediria um com portam ento crim inoso, pode ter tido, na verdade, o efeito contrário aqui. Se Jess tiver rej eitado os avanços de Jacob, ele talvez tenha sentido que ela fez algo errado para ele, que ele era a vítim a.
— E aí? — pergunto.
— Ele se descontrolou. Atacou sem se dar conta de que estava reagindo fisicam ente no m om ento em que o fez.
— Sem m ais perguntas — digo e m e sento. Olho para Jacob, que está m e encarando furiosam ente. Em m a tem os olhos fixos à sua frente. Parece determ inada a não reconhecer m inha existência hoj e.
Helen Sharp se levanta.
— Muitas crianças foram diagnosticadas com síndrom e de Asperger. Então a senhora está nos dizendo que o m undo está cheio de bom bas-relógio? Que a qualquer m om ento, se olharm os para um desses garotos do j eito errado, ele pode vir atrás de nós com um a faca?
— Não, na verdade é o oposto. Pessoas com Asperger não são propensas à violência. Com o não têm um a teoria da m ente ativa, elas não se sentem m otivadas a m agoar alguém ; na verdade, nem pensam nos sentim entos da outra pessoa. Se alguém com Asperger se torna violento, é durante algum a busca focada de um interesse especial, durante um estado de pânico ou durante um m om ento de com pleta ignorância quanto à interação social apropriada.
— Não é verdade, doutora, que a m aioria dos réus que alegam insanidade o faz em virtude de um afastam ento psicótico da realidade?
— Sim .
— Mas o Asperger não é um transtorno psicótico, é? — pergunta Helen.
— Não. Ele se encaixaria m ais na linha dos transtornos de personalidade, caracterizados por distorções perceptivas e interpessoais.
— Em term os j urídicos, a ausência de episódios psicóticos não sugere que o indivíduo é pessoalm ente, e crim inalm ente, responsável por suas ações?
A psiquiatra se agita na cadeira.
— Sim , m as pode haver um espaço para o Asperger. Não podem os provar cientificam ente que alguém com Asperger tem um a experiência da realidade subj etiva m uito diferente de alguém que não tem Asperger, no entanto a sensibilidade extrem a à luz, a sons, sabores, toques e texturas indica que esse é o caso. Se isso pudesse ser m edido, haveria fortes paralelos entre Asperger e psicose.
Sinto um golpe forte em m inha lateral quando Jacob m e dá um a cotovelada e m e passa um pedaço de papel em branco.
— Se isso fosse verdade — diz Helen —, não sugeriria que alguém com Asperger encontra m uita dificuldade para ter consciência da realidade e de seu lugar nela?
— Exatam ente. E é essa a razão pela qual o Asperger pode m uito bem contribuir para insanidade legal, sra. Sharp.
— Mas a senhora não disse tam bém que a fixação de Jacob por ciência forense o levou a usar a m orte de Jess Ogilvy para criar sua própria cena do crim e?
— Sim .
— E essa prem editação e cálculo não sugerem que ele sabia m uito bem o que estava fazendo no m om ento?
A dra. Newcom b ergue os om bros.
— É um a teoria — diz ela.
— A senhora m encionou tam bém a falta de em patia. — Helen se aproxim a do banco das testem unhas. — Disse que é um a das características da síndrom e de Asperger?
— Correto.
— A senhora consideraria que isso é um a m edida em ocional ou cognitiva?
— Em ocional.
— Falta de em patia é parte do teste de insanidade legal, doutora?
— Não.
— Não é verdade que o que determ ina a insanidade legal é se o réu podia distinguir entre certo e errado no m om ento em que o ato foi com etido?
— Sim .
— Essa é um a m edida em ocional ou cognitiva?
— Cognitiva.
— Então falta de em patia significa sim plesm ente que alguém é frio, insensível, desprovido de rem orso — diz Helen. — Mas não significa necessariam ente que ele não tem consciência da natureza e da consequência de suas ações.
— As duas coisas frequentem ente andam j untas — diz a dra. Newcom b.
— É m esm o? — pergunta Helen. — Um pistoleiro da m áfia não tem em patia quando elim ina suas vítim as, m as isso não faz dele um a pessoa legalm ente insana, apenas psicopata.
Jacob m e cutuca outra vez, m as j á estou m e levantando.
— Protesto — digo. — Há algum a pergunta em butida sob a grandiloquência da sra. Sharp?
— Se m e perm ite — a dra. Newcom b diz, dirigindo-se ao j uiz para pedir sua autorização. — A sra. Sharp parece estar fazendo todo o possível para traçar um paralelo entre alguém com Asperger e um psicopata. Mas pessoas com Asperger não procuram dem onstrar um charm e superficial, com o os psicopatas fazem , nem tentam m anipular os outros. Sinceram ente, elas não têm habilidades interpessoais suficientes para fazer isso direito, o que geralm ente faz delas presas para psicopatas, não predadores.
— No entanto — ressalva Helen —, Jacob tem um histórico de agressão, não tem ?
— Não que eu saiba.
— Ele teve ou não um a discussão com Jess dois dias antes da m orte dela, que alguns funcionários da cantina da Mam a escutaram ?
— Sim , m as não foi um a agressão física...
— Certo, e quanto ao fato de ele ter levado advertência no ano passado por tentar estrangular um a colega de classe?
Um a chuva de bilhetes em branco aterrissa à m inha frente e, novam ente, eu os ponho de lado.
— Espere aí — digo a Jacob por entre os dentes, e faço um sinal ao j uiz. — Protesto.
— Vou reform ular. A senhora sabia que o Jacob ficou de castigo por agredir fisicam ente um a m enina da classe dele?
— Sim , eu m e lem bro de a dra. Murano ter m encionado esse caso. Parece que o gatilho foi o m esm o: um a relação interpessoal que não correspondeu às intenções de Jacob. Ele se sentiu hum ilhado e...
— Se descontrolou — a prom otora interrom pe. — Certo?
— Certo.
— E foi essa a razão de Jess Ogilvy ter sido m orta.
— Na m inha opinião, sim .
— Diga-m e o seguinte, doutora — continua Helen. — O Jacob ainda estava fora de controle enquanto colocava a coleção de CDs em ordem alfabética na casa dela, depois de sua m orte?
— Sim .
— E quando arrastou o corpo de Jess por trezentos m etros até um a galeria pluvial atrás da casa?
— Sim .
— Ele tam bém estava fora de controle quando a colocou sentada e a cobriu cuidadosam ente com sua colcha e arrum ou as m ãos dela sobre o colo?
A dra. Newcom b m ove ligeiram ente o queixo.
— E ainda estava fora de controle dias depois, quando voltou para visitar o corpo de Jess e telefonou para a em ergência para que a polícia a encontrasse?
— Bem — disse a psiquiatra, em voz baixa —, creio que sim .
— Então m e diga, doutora — conclui Helen Sharp. — Quando acabou essa falta de controle de Jacob?