Um Mundo à Parte
Emma
No m inuto em que a prom otora pega o bloco de notas, eu poderia term inar a frase por ela. Com eço a m e levantar da cadeira, m as é tarde dem ais; Jacob está fora de controle, e o j uiz, que não está usando o m artelo, bate o punho fechado na m esa.
— Excelência, podem os ter um rápido intervalo? — Oliver grita, tentando ser ouvido acim a dos guinchos agudos de Jacob.
— Nada... de cabides... de arame... nunca! — berra Jacob.
— Vam os fazer dez m inutos de intervalo — o j uiz diz, e de repente um oficial de j ustiça cam inha em direção aos j urados para conduzi-los para fora da sala e outro vem até nós para nos levar à sala de descanso sensorial. — Senhores advogados, aproxim em -se da m esa.
O oficial de j ustiça é m ais alto que Jacob e tem a form a de um sino, pesado nos quadris. Ele envolve com a m ão carnuda o braço de Jacob.
— Vam os lá, garoto — diz ele, e Jacob tenta se livrar e com eça a se debater. Ele dá um soco no oficial de j ustiça com força suficiente para fazê-lo gem er e, de repente, am olece o corpo, todos os seus oitenta e quatro quilos, e cai pesadam ente no chão.
O oficial de j ustiça se abaixa para levantá-lo, m as eu m e j ogo sobre Jacob.
— Não toque nele — digo, consciente de que os j urados estão se esforçando para ver o que acontece ali enquanto vão sendo retirados da sala, e certa de que cada um a daquelas câm eras tem as lentes focadas em m im .
Jacob está chorando em m eu om bro, fungando de leve a breves intervalos, com o se estivesse tentando recuperar o ar.
— Está tudo bem , querido — m urm uro em seu ouvido. — Você e eu vam os fazer isso j untos. — Eu o puxo até que ele com ece a se sentar, depois o envolvo com os braços, lutando para aguentar a carga de seu peso enquanto nos levantam os. O oficial de j ustiça abre o portão para nós e nos conduz pelo corredor da galeria à sala de descanso sensorial. Enquanto passam os, todo o tribunal fica em silêncio m ortal até estarm os abrigados dentro das cortinas pretas e, então, tudo que posso ouvir de fora é o som ondulante dos m urm úrios: O que foi aquilo?... Nunca vi nada parecido... O juiz não vai tolerar essas gracinhas... Um truque para ganhar simpatia, posso apostar...
Jacob se enterra sob um cobertor com pesos.
— Mãe — diz ele, debaixo do cobertor. — Ela am assou o papel.
— Eu sei.
— Eu preciso arrum ar o papel.
— O papel não é nosso. É da prom otora. Esqueça isso.
— Ela am assou o papel — Jacob repete. — Precisam os arrum á-lo.
Penso na j urada que olhou para m im com um a detestável expressão de pena no m om ento em que eu era conduzida para fora da sala. Isso é bom, Oliver diria, m as eu não sou Oliver. Nunca quis que sentissem pena de m im por ter um filho com o Jacob. Tive pena das outras m ães, que podiam ir levando a vida am ando seus filhos talvez apenas oitenta por cento do tem po, ou m enos, em vez de lhes dar cada um de seus m inutos todos os dias.
Mas eu tenho um filho que está sendo j ulgado por hom icídio. Um filho que se com portou da m esm a form a na tarde da m orte de Jess Ogilvy e poucos m inutos atrás quando viu um pedaço de papel ser am assado.
Se Jacob for um assassino, eu ainda o am arei. Mas odiarei a m ulher em que ele terá m e transform ado: aquela de quem os outros falam pelas costas, aquela de quem as pessoas sentem pena. Porque, m esm o sabendo que j am ais m e sentiria assim por um a m ãe cuj o filho tem Asperger, eu me sentiria assim por um a m ãe cuj o filho tirou a vida da filha de outra m ãe.
A voz de Jacob é com o um m artelo no fundo da m inha cabeça.
— Precisam os arrum ar isso — diz ele.
— Sim — m urm uro. — Precisam os.