Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 80 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

Dos arquivos da coluna da Tia Em:

 

Cara Tia Em,

Venho sonhando recentemente com meu ex. Devo considerar isso um sinal de um poder superior e ligar para ele para dizer “oi”? Insone em Strafford

 

Cara Insone,

Sim, mas eu não diria a ele que você telefonou porque ele vem protagonizando seus sonhos. A menos que, por acaso, ele fale: “Puxa, que estranho você ter ligado hoje, porque sonhei com você na noite passada”. Tia Em

 

Fui eu que convidei Henry para sair em nosso prim eiro encontro, porque ele não parecia estar captando as dicas de que eu estava interessada. Assistim os ao film e Ghost e fom os j antar depois. Foi então que Henry m e explicou que, cientificam ente, fantasm as não poderiam existir.

— É física e m atem ática básicas — disse ele. — Patrick Sway ze não poderia atravessar paredes e andar atrás da Dem i Moore. Se fantasm as podem seguir alguém , isso significa que seus pés aplicam força contra o chão. Mas, se eles podem atravessar paredes, isso quer dizer que não têm nenhum a substância. Eles poderiam ser m ateriais ou im ateriais, m as não as duas coisas ao m esm o tem po. Isso viola a lei de Newton.

Ele estava usando um a cam iseta que dizia ORGULHO NERD, e seu cabelo claro e sedoso ficava caindo nos olhos.

— Mas você não gostaria que pudesse ser verdade? — perguntei a ele. — Não gostaria que o am or fosse tão forte que pudesse voltar para assom brá-lo?

Contei a ele a história de m inha m ãe, que, um a noite, acordou às 3h14 com a boca cheia de pétalas de violeta e um cheiro de rosas tão forte no ar que ela m al podia respirar. Um a hora m ais tarde, foi despertada por um telefonem a: sua m ãe, que era florista, tinha m orrido de ataque cardíaco às 3h14.

— A ciência não tem todas as respostas — eu disse a Henry. — Ela não explica o am or.

— Na verdade, explica — ele respondeu. — Já foram feitos estudos de todo tipo. As pessoas se sentem m ais atraídas por quem tenha traços sim étricos, por exem plo. E hom ens sim étricos têm um cheiro m elhor para as m ulheres. Além disso, pessoas com traços genéticos sim ilares se sentem atraídas entre si. Isso provavelm ente tem algo a ver com evolução.

Com ecei a rir.

— Isso é horrível — disse. — É a coisa m enos rom ântica que j á escutei.

— Eu não acho...

— Ah, por favor. Diga algo que possa m e levar às nuvens — pedi.

Henry m e olhou por um longo m om ento, até eu com eçar a sentir m inha cabeça m ais leve e um pouco tonta.

— Acho que talvez você sej a perfeitam ente sim étrica — disse ele.

 

Em nosso segundo encontro, Henry m e levou para Boston. Jantam os no Hotel Parker House, depois alugam os um a charrete para passear pelo parque. Era fim de novem bro e a geada se aglutinava nos galhos nus das árvores; quando nos acom odam os dentro da charrete, o condutor nos deu um pesado cobertor de lã para pôr sobre o colo. O cavalo era fogoso, batia os pés e bufava.

Henry estava brincando de adivinhações.

— O que é pior que ser atingido por um raio?

— Desisto.

— Ser atingido por um diâm etro — disse ele. — Por que o livro de m atem ática com eteu suicídio?

— Não sei...

— Porque tinha m uitos problem as.

— Essa piada não é m uito científica — eu disse.

— Sou polivalente — Henry riu. — O que é um terapeuta?

Sacudi a cabeça.

— Mil e vinte e quatro gigapeutas.

Os trocadilhos não eram de fato engraçados. Mas, nos lábios de Henry, eles eram . Lábios que se curvavam nas extrem idades e que sem pre pareciam um pouco envergonhados ao sorrir, lábios que haviam m e dado um beij o de boa noite em nosso prim eiro encontro com surpreendente força e intensidade.

Eu estava olhando para os lábios dele quando o cavalo caiu m orto.

Tecnicam ente, ele não estava m orto. Havia escorregado no gelo e as pernas da frente cederam . Ouvi um estalo.

Rolam os em câm era lenta para fora da charrete. Henry virou o corpo para am ortecer m inha queda.

— Você está bem ? — perguntou ele, aj udando-m e a levantar. Depois m e enrolou no cobertor enquanto chegava a polícia e, em seguida, o controle de zoonoses.

— Não olhe — Henry sussurrou, e desviou m eu rosto quando o funcionário responsável em punhou um a arm a.

Tentei m e concentrar nas palavras na cam iseta de Henry, visíveis pela abertura de seu casaco: ESTE PRÓTON FAZ MINHA MASSA PARECER MAIOR? Mas o som foi com o o m undo rachando ao m eio, e a últim a coisa de que m e lem bro foi pensar quem usaria um a cam iseta no inverno, e se isso significava que a pele dele era sem pre m orna, e se eu um dia iria senti-la em m eu corpo.

 

Acordei em um a cam a desconhecida. As paredes eram cor de crem e e havia um a côm oda de m adeira escura com um a televisão em cim a. Era tudo m uito claro e... em presarial. Você desmaiou, eu disse a m im m esm a.

— O cavalo — falei em voz alta.

— Hum m ... — um a voz disse baixinho. — Deve estar naquele grande carrossel no paraíso.

Rolei na cam a e vi Henry esprem ido contra a parede do lado oposto do quarto, ainda vestido com seu casaco.

— Você não acredita em paraíso — m urm urei.

— Não, m as im aginei que você acreditasse. Está se sentindo bem ?

Concordei com a cabeça, um pouco hesitante.

— O que foi? Você não vê m ulheres desm aiando à sua volta o tem po todo?

Ele sorriu.

— Isso foi um pouco vitoriano de sua parte.

— Onde estam os?

— Em um quarto do Parker House. Achei que você precisava ficar um pouco deitada. — O rosto dele enrubesceu fortem ente. — Mas eu, hã... não quero que você m e interprete m al.

Então m e levantei sobre um cotovelo.

— Não quer?

— Bem ... n-não, a m enos que você queira — ele gaguej ou.

— E isso é um pouco gótico — eu disse. — Henry, posso lhe fazer um a pergunta?

— Claro.

— O que está fazendo aí tão longe?

Estendi a m ão e senti o colchão ceder sob seu peso quando Henry subiu nele. Senti sua boca descer sobre a m inha e percebi que esse relacionam ento não seria com o eu havia im aginado: eu bancando a professora do j ovem tím ido aficionado por com putadores. Já deveria ter desconfiado ao observar Henry trabalhando no escritório: program adores agiam devagar e decididam ente, depois esperavam para ver a reação. E, se não tinham sucesso na prim eira vez, tentavam de novo e de novo, até conseguir penetrar naquela quinta dim ensão e obter o efeito desej ado.

Mais tarde, com a cam iseta de Henry vestida em m im e os braços dele m e envolvendo, a televisão ligada sem som em um program a sobre prim atas no Congo e ele m e alim entando com nuggets de frango do m enu infantil do serviço de quarto, pensei em com o havia sido esperta em ver além do que as outras pessoas viam em Henry. As cam isetas com escritos bobos, a garrafinha de Guerra nas estrelas em que ele trazia seu café, a dificuldade que ele tinha para olhar um a m ulher nos olhos... Por baixo daquela aparência, havia um hom em que m e tocava com o se eu fosse feita de vidro, que focava em m im com tanta intensidade que às vezes eu precisava lem brá-lo de respirar quando estávam os fazendo am or. Nunca im aginei na época que Henry não seria capaz de am ar nada m ais além de m im ... nem m esm o um bebê que ele havia feito. Nunca im aginei que toda aquela paixão entre nós iria se represar sob as fitas entrelaçadas do código genético de Jacob, apenas esperando a tem pestade perfeita para firm ar suas raízes, rebentar e florescer em autism o.

 

Henry está esperando por m im quando desço do avião. Cam inho em sua direção e paro a um constrangido passo de distância. Eu m e inclino para abraçá-lo bem no m om ento em que ele se vira para o m onitor que registra as chegadas, o que significa que fecho m eus braços no ar.

— Ele deve pousar em vinte m inutos — diz Henry.

— Bom — respondo. — Que bom . — Olho para ele. — Sinto m uito por isso.

Henry olha fixam ente para o corredor vazio além da barreira de segurança.

— Você vai m e contar o que está acontecendo, Em m a?

Por cinco m inutos, eu lhe conto sobre Jess Ogilvy, sobre a acusação de hom icídio. Conto-lhe que tenho certeza de que a fuga de Theo teve algo a ver com toda essa situação. Quando term ino, escuto a voz no alto-falante cham ar um passageiro que está prestes a perder o voo e, então, reúno coragem para olhar Henry nos olhos.

— O Jacob vai ser j ulgado por homicídio? — ele diz, com a voz trêm ula. — E você não m e disse nada?

— O que você teria feito? — questiono. — Teria voado até Verm ont para ser nosso protetor? Duvido, Henry.

— E quando isso chegar aos j ornais daqui? Com o vou explicar para m inhas filhas de sete e quatro anos que o m eio-irm ão delas é um assassino?

Eu recuo com o se ele tivesse m e dado um tapa.

— Vou fingir que você não disse isso — m urm uro. — E, se você conhecesse um pouco seu filho, se tivesse de fato passado algum tem po com o Jacob em vez de apenas enviar um cheque todos os m eses para aliviar sua consciência, saberia que ele é inocente.

Um m úsculo trem e no queixo de Henry.

— Lem bra o que aconteceu no nosso quinto aniversário de casam ento?

Essa época de m inha vida, quando estávam os tentando todas as intervenções e terapias possíveis para fazer Jacob se conectar com o m undo outra vez, é um borrão escuro.

— Estávam os no cinem a, a prim eira vez que ficávam os sozinhos em m eses. E de repente aquele hom em estranho vem pelo corredor, agacha e com eça a falar com você e, um m inuto depois, você sai com ele. Eu fiquei ali pensando: Quem será esse sujeito e para onde minha esposa está indo com ele? E segui você até o saguão. Descobri que era o pai da nossa babá, e param édico. A Livvie o havia cham ado em pânico porque o Theo estava sangrando loucam ente. Ele foi até a nossa casa, fez um curativo no Theo e veio nos cham ar.

Olho fixo para Henry.

— Não lem bro de nada disso.

— O Theo acabou levando dez pontos no supercílio — diz Henry. — Porque o Jacob tinha ficado bravo e derrubado o cadeirão dele quando a Livvie estava de costas.

Agora tudo com eça a voltar em m inha lem brança. O pânico ao entrarm os em casa, com Jacob em m odo crise total e Theo chorando histericam ente com um calom bo do tam anho de seu pequenino pulso erguendo-se sobre o olho esquerdo. Henry correndo para o hospital enquanto eu ficava para acalm ar Jacob. Eu m e pergunto com o é possível apagar algo tão intensam ente de nossa lem brança e reescrever a história.

— Não acredito que esqueci disso — digo baixinho.

Henry desvia o olhar.

— Você sem pre foi boa em ver só o que queria ver — ele responde.

E então, de repente, nós dois notam os nosso filho.

— Que m erda é essa? — Theo diz.

Eu cruzo os braços.

— É exatam ente o que eu quero saber — respondo.

 

É estranho estar em um aeroporto e não estar celebrando um reencontro ou um a despedida. E m ais estranho ainda é estar sentada no banco traseiro do carro de Henry ouvindo-o conversar inform alm ente com Theo, com o se Theo não fosse esperto o bastante para saber que, em algum m om ento, um a bom ba colossal vai explodir.

Quando Theo foi ao banheiro no aeroporto, Henry veio com um plano.

— Me deixe falar com ele.

— Ele não vai te ouvir — eu disse.

— Bom , foi de você que ele fugiu — Henry lem brou.

As estradas aqui são claras e lim pas. Não há rachaduras causadas pelo congelam ento, com o em Verm ont. Reluzentes, felizes e novas. Não m e surpreendo por Henry gostar daqui.

— Theo — digo —, o que passou pela sua cabeça?

Ele se agita no banco.

— Eu queria falar com m eu pai.

Pelo espelho retrovisor, Henry olha para m im . Eu não disse?

— Nunca ouviu falar de telefone?

Mas, antes que ele possa responder, Henry vira em um a entrada residencial. A casa é coberta de telhas coloniais e tem um castelo de princesa de plástico no gram ado da frente. Isso faz m eu peito ficar apertado.

Meg, a nova esposa de Henry, vem correndo da porta.

— Ah, graças a Deus — diz ela, apertando as m ãos um a na outra quando vê Theo no banco da frente. É um a loira m iúda com dentes extrabrancos e um rabo de cavalo reluzente. Henry se aproxim a dela, deixando que eu arraste m inha própria bagagem para fora do porta-m alas. Parados um ao lado do outro, com os olhos azuis e os cabelos dourados, eles parecem um pôster da fam ília ariana exem plar.

— Theo — diz Henry, todo paternal, um pouco tarde dem ais —, vam os até a biblioteca conversar.

Quero odiar Meg, m as não consigo. Ela m e surpreende de im ediato quando m e dá o braço e m e leva para dentro.

— Você deve ter ficado doente de preocupação — diz ela. — Eu sei que ficaria.

Então m e oferece café e um a fatia de bolo de lim ão, enquanto Theo e Henry desaparecem na casa. Im agino se o bolo sim plesm ente estava por ali, se ela é o tipo de m ãe que se assegura de sem pre ter um doce pronto no balcão da cozinha, ou se o enfiou no forno depois de Henry ter lhe dito que eu estava vindo. Não sei qual im agem m e incom oda m ais.

Suas filhas (bem , filhas de Henry tam bém ) passam correndo pela entrada da sala para dar um a espiada em m im . São pequenas fadinhas loiras. Um a está com um tutu de bailarina enfeitado de lantej oulas cor-de-rosa.

— Meninas — diz Meg —, venham conhecer a sra. Hunt.

— Em m a — digo autom aticam ente. Fico m e perguntando o que essas garotinhas im aginam de um a estranha que tem o m esm o sobrenom e delas e se Henry algum a vez j á lhes explicou.

— Esta é Isabella — Meg apresenta, tocando levem ente o alto da cabeça da m enina m ais velha. — E esta é Grace.

— Oi — elas entoam j untas, e Grace enfia o polegar na boca.

— Oi — respondo, e não sei m ais o que dizer.

Será que Henry sente que há algum equilíbrio nessa sua segunda vida, com duas m eninas em vez de dois m eninos? Grace puxa a saia da m ãe e sussurra em seu ouvido.

— Ela quer m ostrar a você o que faz no balé — diz Meg, m eio se desculpando.

— Ah, eu adoro balé — digo.

Grace levanta os braços e une as pontas dos dedos. Então com eça a virar em um círculo, desequilibrando-se um pouquinho. Bato palm as para ela.

Jacob costum ava girar assim . Era um de seus m ovim entos repetitivos quando pequeno. Ele ia m ais rápido e m ais rápido, até bater em algum a coisa, geralm ente um vaso ou qualquer outro obj eto quebrável.

Já sei que isso não é verdade só de olhar para ela, m as, se a pequena Grace se revelasse autista, será que Henry ia fugir outra vez?

Com o se eu o tivesse conj urado, Henry aparece na sala.

— Você estava certa — diz para m im . — Ele não quer falar sem que você estej a lá.

Qualquer pequena satisfação que isso possa ter m e dado desaparece quando Grace vê o pai. Ela para de girar e se lança sobre ele com a força de um a tem pestade tropical. Ele a levanta nos braços e, em seguida, afaga os cabelos de Isabella. Há um a tranquilidade em Henry que eu nunca tinha visto nele antes, um a segurança silenciosa de que este é o lugar a que ele pertence. Posso ver isso m arcado em seu rosto, nas pequenas linhas que agora se ram ificam das laterais de seus olhos, linhas que não estavam ali quando eu o am ei.

Meg pega Grace no colo e segura a m ão de Isabella.

— Vam os dar um a chance para o papai conversar com seus am igos — diz ela.

Am igos. Eu o am ei, eu gerei filhos com ele, e é a isso que fom os reduzidos.

Sigo Henry por um corredor até a sala onde Theo está esperando.

— Sua fam ília... — digo — Elas são perfeitas. — Mas o que estou realm ente dizendo é: Por que eu não mereci isso com você?