Um Mundo à Parte
Theo
Eu tinha nove anos quando m inha m ãe m e fez ir a um grupo de apoio para irm ãos de autistas. Havia apenas quatro crianças ali: duas m eninas com rostos que pareciam prestes a desm oronar, que tinham um a irm ãzinha bebê que, aparentem ente, nunca parava de gritar; um m enino com um irm ão gêm eo que tinha autism o severo; e eu. Todos tivem os que ficar em círculo e dizer um a coisa de que gostávam os em nosso irm ão e um a coisa que realm ente odiávam os nele.
As m eninas foram prim eiro. Elas disseram que odiavam que a bebê as deixasse acordadas a noite inteira, m as gostavam que a prim eira palavra dela não tivesse sido mamã ou papá, m as Sissy. Depois fui eu. Disse que odiava quando Jacob pegava m inhas coisas sem pedir e com o ele não se incom odava de m e interrom per para falar algum fato sobre dinossauros que não interessava a ninguém , m as, se eu o interrom pesse, ele ficava m uito bravo e tinha um a crise. Gostava do j eito com o ele às vezes dizia coisas que eram hilárias, em bora ele não pretendesse que fossem , com o quando um m onitor no acam pam ento lhe disse que nadar ia ser sopa e ele se apavorou achando que ia ter que tom ar sopa debaixo d’água e certam ente ia se afogar. Então foi a vez do outro m enino. Mas, antes que ele pudesse falar, a porta se abriu e seu irm ão gêm eo entrou correndo e sentou em seu colo. Ele fedia, sem nenhum exagero. De repente, a m ãe deles apareceu na porta da sala.
— Desculpe — disse ela. — É que o Harry não gosta que ninguém m ais troque a fralda dele a não ser o Stephen.
Que droga ser o Stephen, pensei. Mas, em vez de ficar totalm ente envergonhado, com o eu ficaria, ou irritado, com o eu ficaria tam bém , Stephen apenas riu e abraçou o irm ão.
— Vam os lá — disse ele, segurando a m ão do irm ão gêm eo e o levando para fora da sala.
Fizem os outras atividades naquele dia com a terapeuta, m as eu não estava m e concentrando. Não conseguia tirar da cabeça a im agem de Harry, aos nove anos, usando um a fralda gigante, e Stephen lim pando a suj eira. Havia m ais um a coisa de que eu gostava em m eu irm ão autista: ele sabia usar o banheiro sozinho.
Na hora do alm oço, eu m e vi gravitando em direção a Stephen. Ele estava sentado sozinho, com endo fatias de m açã de um saco plástico.
— Oi — falei, sentando ao lado dele.
— Oi.
Abri o canudo do m eu suco e o enfiei na caixinha. Olhei pela j anela, tentando descobrir para onde ele estava olhando.
— Com o você faz aquilo? — perguntei, depois de um m om ento.
Ele não fingiu não ter entendido. Pegou um a fatia de m açã no saquinho de plástico, m astigou e engoliu.
— Podia ter sido eu — ele respondeu.
Mam a Spatakopoulous não cabe no banco das testem unhas. Ela se esprem e e se contorce até que, por fim , o j uiz pede ao oficial de j ustiça que providencie um assento m ais confortável. Se fosse eu lá em cim a, ia querer m e esconder em baixo dessa cadeira im becil de tanta vergonha, m as ela parece perfeitam ente satisfeita. Talvez ache que isso é a prova viva de com o sua com ida é boa.
— Sra. Spatakopoulous, onde a senhora trabalha? — pergunta a Bruxa Má, vulgo Helen Sharp.
— Pode m e cham ar de Mam a.
A prom otora olha para o j uiz, que dá de om bros.
— Está bem , Mam a. Onde a senhora trabalha?
— Sou dona da Pizzaria Mam a S., na Main Street, em Townsend.
— Há quanto tem po tem o restaurante?
— Vai fazer quinze anos em j unho. É a m elhor pizza de Verm ont. Passe lá e eu lhe dou um a am ostra grátis.
— É m uito generoso de sua parte... Mam a, a senhora estava trabalhando na tarde de 10 de j aneiro de 2010?
— Eu trabalho todas as tardes e noites — responde ela, com orgulho.
— A senhora conhecia Jess Ogilvy ?
— Sim , ela estava sem pre lá. Um a boa m enina, com um a cabeça boa em cim a dos om bros. Ela m e aj udou a espalhar sal na calçada um a vez depois de um a tem pestade de neve, porque não queria que eu acabasse com as m inhas costas.
— A senhora falou com ela no dia 10 de j aneiro?
— Acenei quando ela entrou, m as o m ovim ento estava um a loucura.
— Ela estava sozinha?
— Não, ela veio com o nam orado e com o garoto que ela orientava.
— A senhora vê esse garoto no tribunal hoj e?
Mam a S. j oga um beij o para o m eu irm ão.
— A senhora j á tinha visto Jacob antes de 10 de j aneiro?
— Ele veio um a ou duas vezes com a m ãe pegar um a pizza. Tem doença celíaca, com o o m eu pai, que Deus o tenha.
— A senhora falou com Jacob Hunt naquela tarde? — pergunta a prom otora.
— Sim . Quando eu levei as pizzas que eles tinham pedido, ele estava sentado sozinho à m esa.
— A senhora sabe por que Jacob Hunt estava sozinho?
— Bom , eles estavam todos brigando. O nam orado estava bravo com o Jacob, a Jess estava brava com o nam orado por estar bravo com o Jacob, e então o nam orado foi em bora. — Ela sacode a cabeça. — Aí a Jess ficou brava com o Jacob e ela foi em bora tam bém .
— A senhora ouviu por que eles estavam brigando?
— Eu tinha dezoito pedidos para viagem para atender; não estava escutando. A única coisa que ouvi foi o que a Jess disse antes de sair.
— O que foi, Mam a S.?
A m ulher aperta os lábios.
— Ela disse para ele dar um tem po.
A prom otora se senta novam ente, e então é a vez de Oliver. Eu não assisto a essas séries policiais. Na verdade, não assisto a nada, a não ser que sej a CrimeBusters, porque Jacob m onopoliza a TV. Mas estar no tribunal é m ais ou m enos com o ver um j ogo de basquete: um lado m arca, depois o outro pega a bola e m arca, e assim vai. E, com o no basquete, aposto que tudo só se resolve nos últim os cinco m inutos.
— Então, a senhora realm ente não sabe o m otivo da briga — diz Oliver.
— Não. — Ela se inclina para frente. — Oliver, você está m uito bonito com esse terno elegante.
Ele sorri, m as parece que sem m uita vontade.
— Obrigado, Mam a. Então, a senhora estava prestando atenção em seus clientes.
— Eu tenho que ganhar a vida, não é? — diz ela, e sacode a cabeça. — Acho que você está em agrecendo. É essa história de sem pre com er fora. O Constantine e eu estam os preocupados com você...
— Mam a, eu preciso term inar com isso — ele sussurra.
— Ah, está bem . — Ela vira para o j úri. — Eu não ouvi a discussão.
— A senhora estava atrás do balcão?
— Sim .
— Perto dos fornos.
— Isso.
— E havia outras pessoas trabalhando à sua volta?
— Três naquele dia.
— E havia barulho?
— O telefone, o pinball e o j ukebox, tudo ao m esm o tem po.
— Então a senhora não pode ter certeza do que irritou a Jess em prim eiro lugar?
— Não.
Oliver concorda com a cabeça.
— Quando o Jacob estava sentado sozinho, a senhora conversou com ele?
— Eu tentei. Ele não era m uito bom de conversa.
— Ele em algum m om ento a olhou nos olhos?
— Não.
— Ele fez algum a coisa am eaçadora?
Mam a S. sacode a cabeça.
— Não, ele é um bom m enino. Eu o deixei ali em paz — diz ela. — Parecia que era isso que ele queria.
Em toda m inha vida, Jacob sem pre quis ser parte do grupo. Essa é um a das razões de eu nunca ter levado am igos para casa. Minha m ãe teria insistido para incluirm os Jacob e, francam ente, isso seria quase garantia do fim da am izade para m im . (A outra razão é que eu sentia vergonha. Não queria que ninguém soubesse com o era m inha casa; não queria ter que explicar as esquisitices de Jacob, porque, em bora m inha m ãe insistisse que eram só peculiaridades dele, para o resto do m undo elas pareciam sim plesm ente ridículas.)
Mas, de vez em quando, Jacob conseguia se infiltrar em m inha vida particular, o que era ainda pior. Era o equivalente social de quando eu, um a vez, construí um a casa de cartas de baralho usando todas as cinquenta e duas cartas e Jacob achou que seria engraçado cutucá-la com seu garfo.
No ensino fundam ental, eu era um com pleto pária social por causa de Jacob, m as, quando fom os para o ensino m édio, havia pessoas de outras cidades que não sabiam sobre m eu irm ão com Asperger. Por algum m ilagre, consegui fazer am izade com dois garotos cham ados Ty ler e Wally, que m oravam em South Burlington e j ogavam Ultim ate Frisbee. Eles m e convidaram para j ogar depois da aula e, quando eu disse que tudo bem e nem precisei ligar para m inha m ãe para pedir autorização, isso só m e fez parecer m ais legal. Não expliquei que a razão de não precisar telefonar era que eu passava tanto tem po fora de casa quanto possível e m inha m ãe j á estava acostum ada a não m e ver chegar antes de escurecer e, na m etade do tem po, provavelm ente nem notava que eu não estava lá.
Esse foi, e não estou falando só por falar, o m elhor dia da m inha vida. Estávam os j ogando Frisbee no cam po de softball e algum as m eninas que tinham ficado depois da aula para o treino de hóquei vieram assistir, com suas saias curtas e o sol batendo nos cabelos. Eu pulava superalto, só para m e exibir e, quando fiquei cansado, um a das m eninas m e deixou tom ar um gole em sua garrafa de água. Pus a boca onde a dela havia estado um m inuto antes, o que era praticam ente com o beij á-la.
E então Jacob apareceu.
Não sei o que ele estava fazendo ali. Aparentem ente, tinha a ver com algum tipo de teste que era feito na m inha escola e ele estava com um a auxiliar esperando m inha m ãe vir buscá-lo. Mas, no m om ento em que ele m e viu e cham ou m eu nom e, eu soube que era o fim . Prim eiro, fingi que não ouvi, m as ele correu para dentro do cam po.
— Am igo seu, Hunt? — perguntou Ty ler, e eu só ri e j oguei superforte o Frisbee na direção dele.
Para m inha surpresa, Jacob, que não conseguia pegar nem resfriado se tentasse, segurou o Frisbee e com eçou a correr. Eu congelei, m as Ty ler saiu correndo atrás dele.
— Ei, seu retardado — ele gritou para Jacob. — Vou acabar com você!
Ele era m ais rápido que Jacob — grande surpresa — e derrubou m eu irm ão. Ty ler levantou a m ão para bater em Jacob, m as, nesse m om ento, eu j á estava nas costas dele, puxando-o para trás e colocando um a perna de cada lado do seu corpo, enquanto o Frisbee rolava na rua.
— Não encosta nele, porra! — gritei no rosto de Ty ler. — Se alguém tiver que bater no m eu irm ão, vou ser eu.
Eu o deixei no chão, tossindo, segurei a m ão de Jacob e o levei para a frente da escola, onde não podia ouvir as m eninas sussurrando sobre m im e m eu irm ão bobão, onde havia um m onte de professores reunidos para im pedir que Ty ler e Wally pulassem em cim a de m im para se vingar.
— Eu queria j ogar — disse Jacob.
— Mas eles não queriam que você j ogasse.
Ele chutou a terra do chão.
— Eu queria poder ser o irm ão m aior.
Tecnicam ente, ele era, m as não era de idade que estava falando. Ele sim plesm ente não sabia com o dizer o que estava sentindo.
— Podia com eçar não roubando o m aldito Frisbee de outra pessoa — eu disse.
E então m inha m ãe chegou e baixou o vidro do carro, com um sorriso enorm e.
— Achei que vinha pegar só o Jacob, m as vej a só! Vocês dois se encontraram .