Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 59 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Quando eu era pequeno, convenci m eu irm ão de que eu tinha superpoderes. Por que outro m otivo eu seria capaz de ouvir o que nossa m ãe estava fazendo lá em cim a quando estávam os no andar de baixo? Por que não dizer que a razão de as lâm padas fluorescentes m e deixarem tonto era m inha hipersensibilidade à luz? Quando eu perdia algum a pergunta que Theo m e fazia, dizia a ele que era porque eu podia ouvir tantas conversas e sons de fundo ao m esm o tem po que, às vezes, era difícil focar em apenas um som por vez.

Por um tem po, isso funcionou. Depois m eu irm ão descobriu que eu não era dotado de percepção extrassensorial. Eu era apenas estranho.

Ter Asperger é com o ter o volum e da vida no m áxim o o tem po todo. É com o um a ressaca perm anente (em bora eu adm ita que só fiquei bêbado um a vez, quando experim entei vodca pura para ver o efeito que teria em m im e descobri com grande decepção que, em vez de ficar com vontade de rir, com o todo m undo na televisão que bebe dem ais, só m e senti m ais deslocado e desorientado, e o m undo só ficou m ais confuso e indefinido). Sabe todas essas crianças autistas que você vê batendo a cabeça na parede? Elas não fazem isso porque são loucas. Fazem isso porque o resto do m undo é tão barulhento que chega a doer, e elas estão tentando se livrar dessa sensação.

E não são só a visão e o som que parecem am pliados. Minha pele é tão sensível que identifico se a cam isa é de algodão ou de poliéster só pela sua tem peratura em m inhas costas. Tenho que cortar todas as etiquetas das roupas para que não fiquem roçando m inha pele, porque elas parecem ásperas com o lixa. Se alguém m e toca quando não estou esperando, eu grito. Não é de m edo, m as porque às vezes parece que m inhas term inações nervosas estão do lado de fora do corpo, e não dentro.

E não é só m eu corpo que é hipersensível: m inha m ente está quase sem pre em ritm o acelerado. Sem pre achei estranho quando alguém m e descreve com o robótico ou inexpressivo, porque, na verdade, estou sem pre em pânico com algum a coisa. Não gosto de interagir com as pessoas se não puder prever com o elas vão responder. Nunca im agino com o eu pareço pelo ponto de vista de outra pessoa e j am ais teria sequer pensado em considerar isso se m inha m ãe não tivesse m e alertado a respeito.

Se eu faço um elogio, não é porque essa é a coisa certa a dizer, m as porque é verdade. Mesm o a linguagem rotineira não vem com facilidade para m im . Se você disser obrigado, tenho que rem exer no banco de dados de m eu cérebro para encontrar de nada. Não consigo conversar sobre o tem po só para preencher o silêncio. Fico continuam ente pensando: Isso é tão falso. Se você estiver errado em algo, eu o corrij o; não porque quero fazê-lo se sentir m al (na verdade, nem sequer estou pensando em você), m as porque fatos são m uito im portantes para m im , m ais im portantes que pessoas.

Ninguém j am ais pergunta ao Super-Hom em se a visão de raio X é um saco; se ele enj oa de olhar para prédios de tij olos e ver hom ens batendo nas esposas, ou m ulheres solitárias se consum indo, ou fracassados surfando por sites de pornografia. Ninguém j am ais pergunta ao Hom em Aranha se ele tem vertigem . Se seus superpoderes forem um pouco com o os m eus, não é de espantar que eles estej am sem pre se pondo em perigo. Provavelm ente contam com a esperança de um a m orte rápida.