Um Mundo à Parte
Theo
Meu aniversário de dezesseis anos é hoj e, m as não estou esperando m uita coisa. Ainda estam os aguardando, seis dias depois, que os j urados cheguem a um veredicto. Na verdade, acho que m inha m ãe nem vai lem brar, e é por isso que m e espanto a ponto de ficar sem fala quando ela grita “Café da m anhã!”, e eu desço com o cabelo ainda m olhado do chuveiro e encontro um bolo de chocolate com um a vela.
Sim , é Quinta-Feira Marrom e o bolo com certeza é sem glúten, m as não dá para querer tudo.
— Feliz aniversário, Theo — diz m inha m ãe, e puxa o coro da m úsica. Meu pai, m eu irm ão e Oliver acom panham . Tenho um sorriso largo e gordo no rosto. Até onde sei, m eu pai nunca esteve em um a de m inhas festas de aniversário, a m enos que eu conte o m inuto em que nasci no hospital, e isso não foi exatam ente um a festa, im agino.
Valeu a pena?, um a vozinha dentro de m im se espirala com o a fum aça da vela. Valeu a pena tudo isso para ter uma família como as que você costumava espionar?
Minha m ãe põe o braço sobre os m eus om bros.
— Faça um desej o, Theo — diz ela.
Um ano atrás, isso é exatam ente o que eu teria desej ado. O que de fato desej ei, com ou sem bolo. Mas há algo em sua voz, com o um a corda de aço, que sugere que há um a resposta certa aqui, o desej o de um único coração coletivo para todos nós.
Que, por acaso, está nas m ãos de doze j urados.
Fecho os olhos e sopro a vela, e todos batem palm as. Minha m ãe com eça a cortar fatias do bolo e m e dá a prim eira.
— Obrigado — digo.
— Espero que goste — m inha m ãe responde. — E espero que goste disso tam bém .
Ela m e entrega um envelope. Dentro, há um bilhete escrito à m ão.
“Sua dívida está paga.”
Penso na m inha viagem louca até a Califórnia para encontrar m eu pai, em quanto aquelas passagens custaram , e por um segundo não sei o que dizer.
— Mas — ela continua —, se fizer isso outra vez, eu te m ato.
Eu rio, e ela m e abraça por trás e beij a m inha cabeça.
— Ei, tem m ais. — Meu pai m e dá um envelope, que contém um cartão cafona escrito “Para o m eu filho” e quarenta dólares. — Pode com eçar a econom izar para um roteador m ais rápido — ele diz.
— Que m áxim o!
Então Oliver m e entrega um pacote em brulhado em folhas de papel-toalha.
— Era isso ou um a caixa de pizza — ele explica.
Eu sacudo.
— É um calzone?
— Me dê um pouco de crédito — diz Oliver.
Rasgo o papel e encontro o Manual de Motorista de Verm ont.
— Depois que o j ulgam ento term inar, achei que você e eu podíam os m arcar um horário no departam ento de trânsito para tirar a carteira de m otorista.
Tenho que olhar para a m esa, porque, se não fizer isso, todos vão perceber que estou a ponto de chorar. Lem bro de com o, quando eu era pequeno, m inha m ãe lia para nós aqueles ridículos contos de fadas em que sapos se transform avam em príncipes e m ocinhas acordavam de um com a com um sim ples beij o. Nunca m e liguei em toda essa bobagem . Mas quem sabe? Talvez eu estivesse errado. Talvez a vida de um a pessoa possa m esm o m udar em um instante.
— Espere — diz Jacob. Até agora, ele só esteve observando, com o rosto cortado por um sorriso, o que é um progresso. Em todas as m inhas festas de aniversário, a regra im plícita era que Jacob tinha que m e aj udar a soprar as velinhas. Era m ais fácil com partilhar m eu m om ento do que vê-lo arruinar a festa com um surto. — Tam bém tenho um presente para você, Theo.
Acho que nunca, em todos os anos desde que estou vivo, Jacob m e deu um presente. Aliás, acho que ele nunca deu nenhum presente para ninguém, a não ser que se conte o perfum e que eu com prei na farm ácia no Natal e dei para m inha m ãe, depois de escrever o m eu nom e e o de Jacob no pacote. Dar presentes não entra no radar do m eu irm ão.
— O que será? — Oliver m urm ura, enquanto Jacob sobe correndo as escadas.
— Eu não sei — m inha m ãe responde.
Um m inuto depois, Jacob está de volta. Tem nas m ãos um pato de pelúcia com que costum ava dorm ir quando era pequeno.
— Abra — ele diz, estendendo-o para m im .
Eu o pego e o viro nas m ãos. Não há em balagem , nada para ser aberto.
— Hã... — digo, rindo um pouco. — Com o?
Jacob vira o pato de cabeça para baixo e puxa um fio solto. A costura se desfaz um pouco e parte do enchim ento cai. Enfio o dedo no buraco e sinto algo liso e duro.
— É aí que foi parar m eu pote de cozinha? — diz m inha m ãe, quando eu o puxo para fora da cavidade peitoral do pato.
Dentro, há algo que não consigo identificar direito. Abro a tam pa e m e vej o olhando para um iPod Nano cor-de-rosa. Eu o pego um pouco hesitante, sabendo m esm o antes de virá-lo que o nom e de Jess Ogilvy está gravado no m etal na parte de trás.
— Onde você arrum ou isso? — m inha m ãe sussurra, de algum lugar do outro lado do vácuo em que caí.
— Você queria isso, não queria? — diz Jacob, ainda entusiasm ado. — Deixou cair quando saía da casa dela naquele dia.
Mal posso m over os lábios.
— Do que você está falando?
— Eu j á lhe disse, eu sei que você esteve lá. Vi a m arca da sola do seu tênis, o m esm o que usei aqui para m ontar a m inha cena do crim e. E eu sabia que você andava pegando coisas de outras casas...
— O quê?! — m inha m ãe exclam a.
— Vi o j ogo de videogam e no seu quarto. — Jacob sorri para m im . — Na casa da Jess, eu lim pei tudo para você, para ninguém saber o que você fez. E funcionou, Theo. Ninguém nunca descobriu que você m atou a Jess.
Minha m ãe engasga.
— O que está acontecendo aqui? — pergunta Oliver.
— Eu não m atei a Jess! — exclam o. — Eu nem sabia que ela m orava lá. Não achei que tivesse alguém em casa. Eu ia só dar um a olhada, talvez pegar um ou dois CDs, m as então ouvi água correndo no andar de cim a e fui espiar. Ela estava nua. Estava nua e m e viu. Fiquei apavorado, e ela saiu do chuveiro e escorregou. Ela bateu o rosto na pia e foi então que eu saí correndo. Tive m edo que ela m e pegasse. — Não consigo respirar, e tenho certeza de que m eu coração se dissolveu com o barro dentro do peito. — Ela estava viva no banheiro quando eu saí. E então, de repente, o j ornal na televisão diz que ela m orreu e que o corpo dela foi encontrado do lado de fora. Eu sabia que quem tinha tirado ela de lá não tinha sido eu... tinha sido algum a outra pessoa, provavelm ente o assassino. Achei que talvez ela tivesse contado ao Jacob sobre m im , quando ele chegou para a aula. E que eles tivessem brigado por causa disso. E que o Jacob... Eu não sei. Eu não sei o que pensei.
— Você não m atou a Jess — m inha m ãe diz.
Sacudo a cabeça, atordoado.
Minha m ãe olha para Jacob.
— E você não m atou a Jess.
— Só m ovi o corpo dela. — Ele revira os olhos. — Venho dizendo isso para vocês o tem po todo.
— Jacob — pergunta Oliver —, a Jess estava viva quando você chegou à casa dela?
— Não! Mas eu vi que o Theo tinha estado lá, então fiz o que era certo.
— Por que você não cham ou sua m ãe, ou um a am bulância? — m eu pai pergunta. — Por que m ontar um a cena de crim e para encobrir o Theo?
Jacob olha direto para m im . E isso dói, realm ente dói.
— Regras da casa — ele diz sim plesm ente. — Cuide do seu irm ão; ele é o único que você tem .
— Você precisa fazer algum a coisa — m inha m ãe diz para Oliver. — São fatos novos. O Theo pode depor...
— Ele pode ficar envolvido ou ser acusado de ocultar inform ações...
— Você precisa fazer algum a coisa — m inha m ãe repete.
Oliver j á está pegando o casaco.
— Vam os — diz ele.
Jacob e eu som os os últim os a sair da cozinha. O bolo ainda está sobre a m esa, com m eus outros presentes. Já é com o um a peça de m useu, intocado. Ninguém adivinharia que, cinco m inutos atrás, estávam os com em orando.
— Jacob? — digo, e m eu irm ão se vira. — Não sei o que dizer.
Ele dá um tapinha no m eu om bro, m eio desaj eitado.
— Não se preocupe — responde. — Isso acontece com igo o tem po todo.