Um Mundo à Parte
Jacob
Nunca fui um grande fã de I Love Lucy. Dito isso, toda vez que vej o o episódio em que Lucy e Ethel estão trabalhando em um a fábrica de balas e ficam atrasadas no processo de em brulhar os produtos, isso m e faz rir. O j eito com o elas enfiam doces na boca e dentro do uniform e... Bom , a gente j á sabe que vai term inar com Lucy dando seu fam oso gem ido.
Minha sensação com o detetive Matson m e fazendo essas perguntas é com o Lucy na fábrica de balas. No início, consigo acom panhar o ritm o, principalm ente depois que percebo que ele não está bravo com igo porque eu apareci na cena do crim e do hom em hipotérm ico. Mas depois com eça a ficar m ais com plicado. As perguntas se acum ulam com o os doces. Quando ainda estou tentando lidar com a pergunta anterior, a próxim a j á está vindo em m inha direção. Tudo o que quero fazer é pegar as palavras dele e enfiá-las em algum lugar onde eu não tenha m ais que ouvi-las.
O detetive Matson está parado à m inha frente assim que entra o prim eiro com ercial. É do Pedi Paws, um novo e incrível cortador de unhas de anim ais de estim ação. Isso m e faz pensar no poodle toy que vim os na cantina, e isso m e faz pensar em Jess, e isso m e faz sentir com o se houvesse um peso dentro do m eu peito.
O que ele diria se soubesse que, nesse exato m om ento, dentro do m eu bolso, está o celular cor-de-rosa de Jess?
— Só m ais algum as perguntas, Jacob — ele prom ete. — Vou m e esforçar para term inar em noventa segundos.
Ele sorri, m as não é porque está contente. Tive um professor de biologia assim um a vez. Quando corrigi alguns erros do sr. Hubbard na classe, ele sorriu com o lado esquerdo da boca. Tom ei aquilo com o um a indicação de que estava agradecido. Mas aquele m eio sorriso estranho aparentem ente significava que ele estava irritado com igo, apesar de que, se alguém sorri, supostam ente deveria querer dizer que está satisfeito. E fui m andado para a sala do diretor por m au com portam ento quando, na verdade, foi só porque as expressões no rosto das pessoas nem sem pre refletem com o elas se sentem por dentro.
Ele dá um a olhada no m eu caderno.
— O que é isso?
— Eu faço anotações sobre os episódios — explico. — Tenho m ais de cem .
— Episódios?
— Cadernos.
Ele faz um sinal de anuência com a cabeça.
— Mark estava na casa de Jess quando você chegou lá?
— Não. — Agora, o com ercial na televisão é de um a pasta para dentaduras. Secretam ente, tenho m uito m edo de perder todos os m eus dentes. Às vezes sonho que acordo e os sinto todos rolando em volta da m inha língua com o bolinhas de gude. Fecho os olhos para não ter que ver o com ercial. — Você conhece o Mark?
— Nós nos encontram os — o detetive diz. — Você e a Jess conversaram algum a vez sobre ele?
Meus olhos continuam fechados, então talvez sej a por isso que eu vej o o que vej o agora: Mark com a m ão deslizando por dentro da blusa de Jessica na cantina. Seu detestável blusão laranj a. O brinco em sua orelha esquerda. Os hem atom as que vi um a vez na lateral do corpo de Jessica quando ela esticou o braço para pegar um livro em um a prateleira alta, duas m arcas ovais arroxeadas irregulares, com o selos de qualidade em um corte de carne. Ela m e disse que tinha caído de um a escada, m as desviou os olhos ao dizer isso. E, ao contrário de m im , que desvio os olhos por um a questão de conforto, ela faz isso em m om entos de desconforto.
Vej o Mark sorrindo com apenas m etade da boca tam bém .
Agora o com ercial é de Law & Order: SVU, um vídeo prom ocional, o que significa que a próxim a im agem na tela será CrimeBusters outra vez. Pego m inha caneta e viro a página do caderno.
— A Jess e o Mark brigaram ? — o detetive pergunta outra vez.
Na TV, Rhianna está no bosque com Kurt e eles estão investigando um cachorro m orto que foi encontrado com um dedo hum ano não digerido no estôm ago.
— Jacob?
— Hasta la vista, baby — m urm uro, e decido que, sej a o que for que esse detetive diga para m im , não vou falar m ais nada até m eu program a term inar.