Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 82 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

 

Acordo espirrando.

Quando abro os olhos, estou em um quarto cor-de-rosa e há penas fazendo cócegas em m eu nariz. Sento de um pulo na cam inha estreita e lem bro onde estou: no quarto de um a das m eninas. Há m óbiles com estrelas brilhantes, e pilhas de anim ais de pelúcia, e um tapete estam pado em tons de rosa.

Espirro outra vez e é quando percebo que estou usando um cachecol de penas cor-de-rosa.

— Que m erda é essa? — digo, desenrolando-o do pescoço. Então ouço um risinho. Eu m e inclino na lateral da cam a e encontro a filha m ais nova do m eu pai, que acho que se cham a Grace, escondida em baixo.

— Você falou um a palavra feia — ela m e diz.

— O que você está fazendo aqui?

— O que você está fazendo aqui? — pergunta ela. — Este é o meu quarto.

Desabo de novo no colchão. Desde a hora em que m eu voo chegou e da Conversa Séria, acho que não tive m ais que quatro horas de sono. Não é surpresa que estej a m e sentindo um lixo.

Ela sai de debaixo da cam a e senta ao m eu lado. É bem pequena, m as eu não sou bom com idades de crianças. Tem as unhas dos pés pintadas de roxo e está usando um a tiara de plástico.

— Por que você não está na escola? — pergunto.

— Porque é sexta-feira, seu bobo — Grace diz, em bora isso não faça nenhum sentido para m im . — Seus pés são grandes! São m aiores que o Leon.

Estou m e perguntando quem seria Leon quando ela pega um porco de pelúcia e o coloca de encontro à sola do m eu pé.

Meu relógio está na m esinha de cabeceira, ao lado de um livro sobre um a rata tão tím ida que não fala seu nom e para ninguém . Eu o li na noite passada antes de dorm ir. São só 6h42, m as vam os sair cedo. Tem os um avião para pegar.

— Você é m eu irm ão? — Grace pergunta.

Olho para ela. Tento de verdade, m as não consigo ver um único traço em com um . E isso é bem estranho, porque m inha m ãe sem pre m e disse que eu lem brava m eu pai. (A propósito, agora que eu vi por m im m esm o, isso não é verdade. Só sou loiro, só isso, e todas as outras pessoas na m inha casa têm cabelo escuro.)

— Acho que podem os dizer que sim — respondo.

— Então por que você não m ora aqui?

Olho em volta para o quadro de princesa na parede, o conj unto de chá de porcelana em um a m esa no canto.

— Não sei — digo, quando a resposta de verdade é: Porque você tem outro irmão também.

 

Isto é o que aconteceu ontem à noite:

Saí do avião e dei de cara com m eus pais — os dois — m e esperando na sala de desem barque.

— Que m erda é essa? — exclam ei, surpreso.

— É exatam ente o que eu quero saber, Theo — respondeu m inha m ãe, curta e grossa.

E então, antes que ela pudesse m e alvej ar com m ais algum com entário, m eu pai disse que íam os para a casa dele discutir isso.

Ele foi conversando bobagens durante os vinte m inutos no carro, enquanto eu sentia os olhos de m inha m ãe atrás de m im , perfurando m eu crânio. Quando chegam os à casa dele, vi de relance um a m ulher bem bonita m esm o que devia ser sua esposa, antes de ele m e levar para a biblioteca.

Era tudo m uito m oderno e totalm ente diferente da nossa casa. Havia j anelas ocupando a parede inteira e o sofá era de couro preto cheio de ângulos retos. Parecia o tipo de sala que a gente vê nas revistas em consultórios m édicos, e não um lugar onde se quer viver. O nosso sofá em casa era de um tecido verm elho à prova de m anchas, m as, m esm o assim , havia um a m ancha no braço onde eu derrubei suco de uva um a vez. Os zíperes de duas alm ofadas estavam quebrados. Mas, quando a gente queria se esparram ar para ver TV, ele era perfeito.

— Então — m eu pai com eçou, fazendo um sinal para que eu m e sentasse —, isso é um pouco constrangedor.

— É.

— A questão é que, na verdade, eu não tenho m uito direito de lhe dizer que é ridículo fugir de casa. E que você m atou sua m ãe de susto. E nem preciso lhe dizer que ela está furiosa...

— É, não precisa m e dizer isso.

Ele aperta as m ãos entre os j oelhos.

— Enfim , estive pensando e não vou lhe dizer nada dessas coisas. — Ele olha para m im . — Im agino que você veio até aqui para que eu ouvisse.

Eu hesito. Há algo nele tão fam iliar para m im , o que é m uito louco, porque só falo com ele duas vezes por ano, no Natal e no m eu aniversário. Vai ver que é isso que o parentesco faz. Talvez perm ita que a gente recom ece de onde parou, m esm o que tenha sido quinze anos atrás.

Quero lhe dizer por que estou aqui — a história da prisão de Jacob, a verdade sobre eu ter invadido casas, o telefonem a do banco para m inha m ãe com o recado que nunca dei a ela sobre a recusa de seu segundo em préstim o de hipoteca —, m as todas as palavras ficam presas na m inha garganta. As frases m e sufocam até eu não poder m ais respirar, até lágrim as virem aos m eus olhos, e o que sai, por fim , não é nada disso.

— Por que eu não im portava? — digo.

Não era isso que eu queria. Queria que ele m e visse com o o j ovem responsável que eu m e tornei, tentando salvar m inha fam ília, e queria que ele sacudisse a cabeça e pensasse: Eu fiz merda mesmo. Devia ter ficado com ele, conhecê-lo melhor. Olha que menino incrível ele virou. Em vez disso, estou aqui gaguej ando, com o nariz escorrendo e o cabelo caindo nos olhos, e m e sentindo tão cansado; de repente, estou terrivelm ente cansado.

Quando se espera algum a coisa, é certo se decepcionar. Aprendi isso m uito tem po atrás. Mas, se fosse m inha m ãe sentada ao m eu lado, seus braços j á estariam em volta de m im . Ela teria m assageado m inhas costas e dito para eu m e acalm ar, e eu teria m e abandonado de encontro a ela até m e sentir m elhor.

Meu pai pigarreou e nem fez m enção de m e tocar.

— Eu, hã... não sou m uito bom nesse tipo de coisa. — Ele se m exeu e eu enxuguei os olhos, im aginando que estivesse tentando se aproxim ar de m im , m as, em vez disso, ele tirou a carteira do bolso de trás. — Tom e — diz ele, m e estendendo algum as notas de vinte dólares. — Fique com isto.

Eu olho para ele e, antes de m e dar conta, um a risada sai com força da m inha garganta. Meu irm ão está prestes a ser j ulgado por hom icídio, m inha m ãe quer m inha cabeça em um a bandej a de prata, m eu futuro é tão obscuro quanto se eu estivesse enterrado em um a m ina de carvão, e m eu pai não pode nem m e dar um tapinha nas costas e dizer que tudo vai ficar bem . Em vez disso, ele acha que sessenta dólares vão fazer tudo parecer m elhor.

— Sinto m uito — digo, rindo de verdade agora. — Muito m esm o.

Percebo que não sou eu quem deveria estar dizendo isso.

Não sei o que m e passou pela cabeça de vir aqui. Não há soluções m ágicas na vida, há apenas a longa e difícil escalada para fora do poço onde a gente se enfiou.

— Acho que é m elhor você cham ar m inha m ãe — digo.

Tenho certeza de que m eu pai acha que eu sou louco, rindo desse j eito quando, um m inuto antes, estava soluçando. E, quando ele se levanta, sem a m enor dúvida aliviado por poder sair de perto de m im , percebo por que m eu pai m e parece fam iliar. Não é porque tem os algo em com um , m uito m enos porque com partilham os um código genético. É porque, com seu óbvio desconforto, o j eito com o ele não olha para m im agora e o fato de não querer contato físico, ele m e lem bra m uito o m eu irm ão.

 

Não falo com m inha m ãe durante todo o tem po em que m eu pai está nos levando ao aeroporto. Não digo um a palavra quando m eu pai lhe dá um cheque e ela vê o núm ero escrito e fica sem fala.

— Pegue — diz ele. — Eu gostaria... gostaria de poder estar lá ao lado dele.

Isso não é verdade. O que ele realm ente gostaria é de ser capaz de estar lá ao lado de Jacob, m as m inha m ãe parece com preender isso e, sej a com o for, qualquer dinheiro que ele tenha lhe dado é um a aj uda. Ela lhe dá um abraço rápido de despedida. Eu estendo a m ão. Não com eto o m esm o erro duas vezes.

Não conversam os na sala de em barque, ou enquanto em barcam os, ou durante a decolagem . É só quando a voz do com andante surge no alto-falante para avisar sobre nossa velocidade de cruzeiro que eu viro para m inha m ãe e peço desculpas.

Ela está folheando um a revista de bordo.

— Eu sei — diz ela.

— Sinto m uito m esm o.

— Tenho certeza disso.

— Por roubar o núm ero do seu cartão de crédito. E todo o resto.

— E é por isso que você vai pagar essas passagens, inclusive as m inhas, m esm o que dem ore até ter cinquenta e seis anos — diz ela.

A com issária de bordo passa perguntando se alguém quer com prar um a bebida. Minha m ãe levanta a m ão.

— O que você quer? — ela m e pergunta, e eu digo suco de tom ate. — E eu vou querer um gim tônica — ela pede à com issária.

— Sério? — Estou im pressionado. Não sabia que m inha m ãe bebia gim .

Ela suspira.

— Mom entos desesperados pedem soluções desesperadas, Theo. — Então ela olha para m im com a testa franzida, pensativa. — Quando foi a últim a vez que você e eu estivem os assim sozinhos?

— Hum m ... — respondo. — Nunca?

— É... — m inha m ãe diz, refletindo.

A com issária de bordo volta com nossas bebidas.

— Aqui estão. Vão descer em Los Angeles ou continuar até o Havaí?

— Quem m e dera — diz m inha m ãe, e, quando vira a tam pa da garrafinha de gim , o som parece de um suspiro.

— Quem dera a todos nós — a com issária de bordo ri, antes de continuar pelo corredor.

A página em que m inha m ãe parou em sua revista é m esm o um a propaganda turística de duas páginas do Havaí, ou pelo m enos de algum lugar igualm ente tropical.

— A gente podia ficar no avião e ir até lá — digo.

Ela ri.

— Usucapião. Desculpe, senhor, m as não vam os desocupar os assentos 15A e 15B.

— No fim da tarde, podem os estar sentados em um a praia.

— Tom ando sol — m inha m ãe continua.

— Bebendo piña colada — sugiro.

Minha m ãe levanta um a sobrancelha.

— Sem álcool para você.

Há um a pausa, enquanto nós dois im aginam os um a vida que nunca será nossa.

— Talvez — digo, depois de um m om ento — a gente pudesse trazer o Jacob. Ele adora coco.

Isso nunca vai acontecer. Meu irm ão não vai entrar em um avião; ele teria a Crise das Crises antes que isso acontecesse. E não dá para ir até o Havaí rem ando. Sem m encionar o fato de que estam os decididam ente falidos. Ainda assim ...

Minha m ãe apoia a cabeça em m eu om bro. É estranho, com o se eu fosse quem está cuidando dela, e não o contrário. A verdade é que j á sou m ais alto que ela, e ainda não parei de crescer.

— Vam os fazer isso — m inha m ãe concorda, com o se tivéssem os algum a esperança.