História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 8 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 7

 

Chegaram a Amalfi à noite. Nenhum dos dois jamais estivera em um hotel, e se comportaram de modo muito desajeitado. Especialmente Stefano se viu intimidado pelo tom vagamente irônico do funcionário da recepção, assumindo sem querer atitudes de subordinado. Quando se deu conta disso, disfarçou o embaraço com maneiras bruscas, as orelhas ardendo ao simples pedido de mostrar os documentos. Enquanto isso apareceu o carregador de malas, um homem de seus cinquenta anos e bigodinhos finos, mas ele o rechaçou como se fosse um ladrão, depois voltou atrás e, com desprezo, lhe deu uma farta gorjeta, mesmo não usufruindo do serviço. Lila o acompanhou carregado de malas pelas escadas e — me contou —, a cada degrau, teve pela primeira vez a impressão de ter perdido no caminho o rapaz com quem se casara de manhã, de estar sendo acompanhada por um desconhecido. Stefano era mesmo assim tão largo, as pernas curtas e gordas, os braços compridos, as juntas brancas? A quem ela se ligara para sempre? A raiva que a tomara durante a viagem cedeu espaço à ansiedade.

Uma vez no quarto, ele tentou ser afetuoso de novo, mas estava cansado e ainda nervoso pela bofetada que fora forçado a dar. Assumiu um tom artificial. Elogiou o quarto muito espaçoso, abriu a janela, foi à varanda, lhe disse vem, olha que ar perfumado, veja o mar como está brilhando. Mas ela buscava uma maneira de fugir daquela armadilha e fez um sinal distraído de não, estava com frio. Stefano fechou imediatamente a janela, falou que se quisessem passear um pouco e jantar fora seria melhor vestir algo mais quente e disse: para mim, basta você me passar um colete, como se vivessem juntos há muitos anos e ela soubesse mexer com competência nas malas e achar um colete para ele exatamente como encontraria um agasalho para si. Lila pareceu aquiescer, mas de fato não abriu as malas nem pegou agasalhos ou coletes. Foi logo saindo para o corredor, não queria ficar naquele quarto nem um minuto a mais. Ele a seguiu resmungando: posso até sair vestido assim, mas me preocupo por você, vai pegar um resfriado.

Perambularam por Amalfi, foram até a catedral subindo pela escadaria, depois até o chafariz. Agora Stefano se esforçava para diverti-la, mas ser divertido nunca foi seu forte, saía-se melhor nos tons patéticos, ou em frases sentenciosas de homem feito que sabe o que quer. Lila quase não respondeu e por fim o marido se limitou a apontar isso e aquilo, exclamando: olha só. Mas ela, que antigamente teria dado peso a cada pedra, agora não se interessava nem pela beleza das vielas, nem pelos perfumes dos jardins, nem pela arte e a história de Amalfi; mas sobretudo não se interessava pela voz dele, que falava sem parar, irritantemente: lindo, não é?

Não demorou muito, Lila começou a tremer, mas não porque fizesse particularmente frio, era nervoso. Ele percebeu e lhe propôs voltar ao hotel, arriscando até uma frase do tipo: assim nos abraçamos e ficamos aquecidos. Mas ela ainda quis passear, passear até que, vencida pelo cansaço, mesmo sem ter um pingo de fome, entrou sem consultá-lo em um restaurante. Stefano a acompanhou com paciência.

Pediram de tudo, não comeram quase nada, beberam muito vinho. A certa altura ele não conseguiu mais se conter e lhe perguntou se ainda estava chateada. Lila fez sinal que não, e era verdade. Ao ouvir aquela pergunta, ela mesma se espantara de não sentir dentro de si nenhum rancor em relação aos Solara, a seu pai e seu irmão, a Stefano. Tudo mudara rapidamente em sua cabeça. De repente, já não dava a mínima para a história dos sapatos, aliás, não conseguia sequer entender por que se incomodara tanto ao vê-los nos pés de Marcello. Agora, ao contrário, o que a aterrorizava e causava sofrimento era a grossa aliança que brilhava em seu anular. Repassou incrédula as cenas do dia: a igreja, a cerimônia religiosa, a festa. O que é que eu fiz, pensou aturdida pelo vinho, e o que é esse círculo de ouro, esse zero reluzente em que pus meu dedo. Stefano também tinha um, que brilhava entre os pelos pretíssimos, dedos velosos, como se dizia nos livros. Lembrou-se dele em calção de banho, como o tinha visto na praia. Tórax largo, patelas grossas que nem tigelas emborcadas. Não havia sequer um mínimo detalhe dele que, uma vez evocado, lhe revelasse algum encanto. Agora era um ser com quem se sentia incapaz de compartilhar o que quer que fosse, mas que no entanto estava ali, de paletó e gravata, movendo os lábios túrgidos e coçando um lóbulo da orelha carnuda, enquanto às vezes estendia o garfo para provar do prato dela. Não tinha nada ou muito pouco do vendedor de embutidos que a atraíra, do jovem ambicioso e muito seguro de si, de boas maneiras, do noivo daquela manhã na igreja. Exibia mandíbulas muito brancas, uma língua bem vermelha no oco escuro da boca, algo nele e em torno dele se rompera. Naquela mesa, no vaivém dos garçons, tudo o que a tinha levado até ali, a Amalfi, lhe pareceu esvaziado de qualquer coerência lógica e mesmo assim era insuportavelmente real. Por isso, enquanto naquele ser irreconhecível o olhar se acendia à ideia de que a tempestade passara, de que ela entendera suas razões, de que as aceitara, de que podia finalmente expor seus grandes projetos, ela teve o lampejo de surrupiar da mesa uma faca para enfiá-la em sua garganta quando, no quarto, ele tentasse tocá-la.

Por fim não o fez. Já que naquele restaurante, àquela mesa, tonta pelo vinho, todo o casamento, do vestido de noiva à aliança, lhe pareceu algo sem nenhum sentido, teve a impressão de que qualquer avanço sexual por parte de Stefano pareceria insensato sobretudo a ele. Por isso, em um primeiro momento, estudou o modo de furtar a faca (cobriu-a com o guardanapo que tirara dos joelhos, apoiou ambos no colo, preparou-se para pegar a bolsa e deixá-la cair ali dentro, devolvendo o guardanapo à mesa), mas depois desistiu. Os laços que mantinham firmes sua nova condição de esposa, o restaurante, Amalfi lhe pareceram tão afrouxados que, ao final do jantar, a voz de Stefano já nem lhe chegava mais, em seus ouvidos havia apenas um clamor de coisas, seres vivos e pensamentos, sem nenhuma definição.

No caminho, ele voltou a falar do lado bom dos Solara. Eles conheciam, ele disse, gente importante na cidade, estavam associados aos monarquistas do Estrela e Coroa, à gente do Movimento Social Italiano. Ele gostava de falar como se de fato entendesse alguma coisa das manobras dos Solara, adotou o tom de um homem esperto, sublinhou: a política é feia, mas é importante para fazer dinheiro. Lila se recordou das discussões que tivera com Pasquale tempos atrás, e também das conversas que tivera com ele durante o noivado, o projeto de distanciar-se completamente dos pais, dos abusos, hipocrisias e crueldades do passado. Dizia que sim, pensou, dizia que estava de acordo, mas na verdade nem me ouvia. Com quem eu falava? Não conheço essa pessoa, não sei quem é.

Entretanto, quando ele pegou sua mão e lhe disse no ouvido que a amava, não se retraiu. Talvez tenha planejado fazê-lo acreditar que estava tudo em ordem, que os dois eram recém-casados em viagem de núpcias, para feri-lo mais profundamente quando lhe dissesse todo o asco que sentia no estômago: entrar numa cama com o carregador do hotel ou com você — ambos com os dedos amarelos de cigarro — é para mim a mesma coisa repugnante. Ou quem sabe — e esta, a meu ver, é a hipótese mais provável — ela estivesse perturbada demais, e agora tendesse a adiar qualquer reação.

Assim que chegaram ao quarto, ele tentou beijá-la, ela se esquivou. Séria, abriu as malas, tirou de lá a camisola e estendeu o pijama ao marido, que lhe deu um sorriso contente por aquela atenção e tentou mais uma vez abraçá-la. Mas ela se trancou no banheiro.

Uma vez sozinha, enxaguou o rosto demoradamente para lavar a tontura do vinho, a impressão de um mundo sem contornos. Não conseguiu. Ao contrário, cresceu-lhe a sensação de que seus próprios sentimentos eram descoordenados. O que vou fazer?, pensou. Ficar trancada aqui a noite toda. Mas e depois?

Arrependeu-se de não ter pegado a faca; aliás, por um instante achou que a tivesse trazido na bolsa, mas depois se convenceu de que não o fizera. Sentou na borda da banheira, comparou-a admirada com a da casa nova, concluiu que a sua era mais bonita. Até suas toalhas eram de qualidade superior. Sua, suas? A quem pertenciam de fato as toalhas, a banheira, tudo? Irritou-se ao pensar que a propriedade das coisas belas e novas fosse garantida pelo sobrenome daquele indivíduo específico que a esperava do lado de fora. Coisa dos Carracci, até ela era coisa dos Carracci. Stefano bateu à porta.

“Oi, está se sentindo bem?”

Não respondeu.

O marido aguardou mais um pouco e bateu outra vez. Como nada aconteceu, girou a maçaneta com nervosismo, dizendo em falso tom brincalhão:

“Será que devo arrombar a porta?”

Lila não duvidou de que ele fosse capaz disso, o estranho que a esperava lá fora era capaz de tudo. Eu também, pensou, sou capaz de tudo. Despiu-se, lavou-se, vestiu a camisola desprezando-se pelo cuidado com que a escolhera meses antes. Stefano — um puro nome que já não coincidia com os hábitos e os afetos de poucas horas atrás — estava sentado na beira da cama, de pijama, e deu um pulo assim que ela apareceu.

“Você demorou um bocado.”

“O tempo necessário.”

“Como você está linda.”

“Estou exausta, quero dormir.”

“Vamos dormir depois.”

“Agora. Você do seu lado, eu do meu.”

“Tudo bem, venha cá.”

“Estou falando sério.”

“Eu também.”

Stefano deu um risinho, tentou segurá-la pela mão. Ela se esquivou, ele se aborreceu.“O que é que há?”

Lila hesitou. Procurou a expressão mais adequada, disse devagar.

“Não te amo.”

Stefano balançou a cabeça, indeciso, como se as três palavras estivessem numa língua estrangeira. Murmurou que esperava por aquele instante há muito tempo, noite e dia. Por favor, lhe disse persuasivo, e fez um gesto quase de desconforto, apontou o calção bordô do pijama, murmurou com um sorriso oblíquo: veja só como eu fico só de olhar para você. Ela olhou sem querer e fez um gesto de desgosto, desviando imediatamente a vista.

Àquela altura Stefano entendeu que ela estava a ponto de trancar-se de novo no banheiro e, com um salto de fera, agarrou-a pela cintura, levantou-a no ar e jogou-a na cama. O que estava acontecendo? Era evidente que ele não queria compreender. Achava que tivessem feito as pazes no restaurante e agora se perguntava: por que Lina está agindo assim, é novinha demais. E se pôs por cima dela, rindo e tentando acalmá-la.

“É uma coisa boa”, disse, “não precisa ter medo. Eu te amo mais que a minha mãe e minha irmã.”Mas nada, ela já saía de baixo para escapar. Como é difícil acompanhar essa menina: ora diz sim, e é não; ora diz não, e é sim. Stefano murmurou: agora chega de caprichos, e a imobilizou de novo, montando sobre ela e segurando seus pulsos contra a colcha da cama.

“Você disse que tínhamos de esperar, e nós esperamos”, disse, “mesmo tendo sido terrível e doloroso estar a seu lado sem poder tocá-la. Mas agora estamos casados, fique tranquila, não se preocupe.”

Inclinou-se para beijar-lhe a boca, mas ela o evitou virando a cabeça para a direita e a esquerda, com força, se desvencilhando, se retorcendo e repetindo:

“Me deixe em paz, eu não te amo, não te amo, não te amo”.

Naquele ponto, quase contra sua vontade, a voz de Stefano subiu de tom:

“Mas você está enchendo o saco, Lina.”

Repetiu a frase umas duas ou três vezes, cada vez mais alto, como para assimilar uma ordem que lhe chegava de muito, muito longe, talvez até de antes de ter nascido. A ordem era: você é homem, Sté; ou você dobra essa fêmea agora, ou não dobra nunca mais; é preciso que sua esposa aprenda logo que ela é a mulher e você o homem, e que por isso lhe deve obediência. E ao ouvi-lo — você está enchendo o saco, você está enchendo o saco, você está enchendo o saco —, ao vê-lo, largo, pesado sobre seus frágeis quadris, o sexo rijo esticando o tecido do pijama como o suporte de uma barraca, lembrou-se de quando anos antes ele quis puxar sua língua com os dedos e espetá-la com uma agulha porque ela se permitira humilhar Alfonso numa disputa de escola. Nunca foi Stefano, teve a repentina sensação de descobrir, sempre foi o filho mais velho de dom Achille. E aquele pensamento, como uma golfada, trouxe imediatamente para o rosto do jovem marido traços que até então se mantiveram ocultos no sangue por prudência, mas que estavam ali desde sempre, à espera de seu momento. Oh, sim, para agradar ao bairro, para agradar a ela, Stefano se esforçara para ser um outro: suas feições se atenuaram com a cortesia, o olhar se adaptara à brandura, a voz se modelara em tons de mediação, os dedos, as mãos, todo o corpo tinha aprendido a conter a força. Mas agora as linhas de contorno que por muito tempo ele a si mesmo impusera estavam prestes a ceder, e Lila foi tomada de um terror infantil, maior do que quando tínhamos descido ao subsolo para recuperar nossas bonecas. Dom Achille estava ressurgindo da lama do bairro e se nutrindo da matéria viva de seu filho. O pai estava rachando sua pele, modificando seu olhar, explodindo de dentro do corpo. E de fato lá estava ele, rasgando sua camisola na altura do peito, desnudando o seio, apertando-o com fúria e se inclinado para morder-lhe o mamilo. E quando ela, como se acostumara a fazer desde sempre, reprimiu o horror e tentou tirá-lo de cima, puxando seus cabelos e torcendo a boca para mordê-lo até sair sangue, ele a bloqueou sob as grossas pernas dobradas e lhe disse, com desprezo: o que é, fique quieta, você é menos que nada, se eu quiser te arrebentar te arrebento. Mas Lila não sossegou, tornou a morder o ar, arqueou-se para furtar-se ao peso dele. Inútil. Agora ele estava com as mãos livres e, debruçado sobre ela, lhe dava pequenos tapas com a ponta dos dedos e lhe dizia repetidamente, provocando-a: quer ver como é grande, né, diz que sim, diz que sim, diz que sim, até que sacou do pijama o pau grosso que, avançando sobre ela, pareceu-lhe um boneco sem braços e sem pernas, congestionado por vagidos mudos, ansioso por arrancar-se daquele outro boneco maior, que dizia rouco: agora você vai ver, Lina, olha como é lindo, um desses ninguém tem. E, como ela continuava se agitando, esbofeteou-a duas vezes, primeiro com a palma da mão, depois com o dorso, e a força era tanta que ela compreendeu que caso insistisse em resistir ele certamente a mataria — ou pelo menos dom Achille o faria, e ele metia medo em todo o bairro justamente porque sabiam que com sua força era capaz de abater uma parede ou uma árvore —, então desistiu de qualquer resistência e se abandonou a um terror sem som, enquanto ele recuava, tirava sua camisola e lhe murmurava no ouvido: você não se dá conta de quanto eu te amo, mas vai perceber, e já amanhã você mesma vai pedir por meu amor como agora, e mais ainda, vai implorar de joelhos, e eu vou lhe dizer tudo bem, mas só se você for obediente, e você vai ser obediente.

Quando, depois de algumas tentativas desajeitadas, ele rasgou sua carne com uma brutalidade exultante, Lila estava ausente. A noite, o quarto, a cama, os beijos dele, as mãos sobre seu corpo e toda sensibilidade tinham sido absorvidos por um único sentimento: odiava Stefano Carracci, odiava sua força, odiava seu peso sobre ela, odiava seu nome e sobrenome.

 

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